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Mais Um Grande Pingo da Minha Doce Ilusão Se Desvanece

José Saramago, no seu Ensaio sobre a Cegueira, foi um autentico visionário. Ele viu o que aconteceria se um Pingo Doce da vida real fizesse uma promoção diabólica no 1º de Maio, onde todos os compradores, de quantias superiores a 100€, teriam 50% de desconto.
Na história dele (do Saramago) as pessoas tinham cegado. Na nossa história, as pessoas não são cegas, mas aspiram por ser em troca de 50% de desconto.
Os valores, os princípios e, tudo o resto a que chamam conversa fiada, são deitados pelo cano abaixo, se puderem lucrar (ou poupar, como preferirem) 50% do capital investido.
Se preciso for, matam, esfolam, roubam produtos dos carrinhos de supermercado dos outros ou vendem os seus carrinhos vazios depois de já terem a sua cota parte da promoção assegurada.
A empresa Pingo Doce conseguiu, com este gesto de bondade extrema, atirar por terra qualquer esperança, que ainda me restava, neste país e nesta gente.

Ao ver as reportagens na televisão sobre o que passou ontem, imaginei-nos a todos dentro de um Titanic conduzido por loucos gananciosos, de onde se vê ao fundo o icebergue, mas ainda se tem hipótese de girar o leme para nos desviarmos dele. 
Os homens do leme não o querem girar, pois possuem um helicóptero à espera que o barco se aproxime do alvo para os vir salvar. Alguns passageiros esgatanham-se para chegarem primeiro aos botes de salvação, outros atiram-se à água num acto de desespero, mas ninguém toma a iniciativa de unir todas as pessoas com o objectivo de destronar os homens do leme e desviar o Titanic do icebergue.
É do senso comum a existência do icebergue, e o possível, não certo, mas possível, choque com ele, mas empenhar-se para o evitar... Ninguém!

As greves que Federação Portuguesa dos Sindicatos do Comércio e Serviços convocou para o Dia do Trabalhador foram por água abaixo, o direito que estes trabalhadores deveriam ter ao feriado de ontem, foi junto. Porque, dizem os grandes defensores do capitalismo, "os trabalhadores do Pingo Doce receberam este dia de trabalho a triplicar, tiveram direito a um dia de férias extra e acesso a esta mesma promoção noutro dia à sua escolha!". 
Bravo! Óptimo! Mas perderam o direito ao feriado do Dia do Trabalhador! E de direito em direito se vão perdendo batalhas, anteriormente ganhas. E de direito em direito se vai perdendo mais um pouco da democracia almejada. E de direito em direito se vão perdendo anos de vida...

"Que se lixe! Nós temos é que trabalhar para ajudar o país a sair da crise!", dirão alguns. "Nós temos é que fazer de tudo para levarmos mais uns eurozitos para casa!", dirão outros. "Nós temos é que aproveitar estas promoções, porque a vida está cara, porque a austeridade está a acabar com a nossa qualidade de vida!" dirão outros, ou os mesmos, ou todos...

Não amigos! Vocês estão é a ajudar os homens do leme a pagarem o helicóptero que os irá salvar, quando este barco for ao fundo e, vocês, amigos (nós, amigos) vão estar dentro do barco, não do helicóptero! E os eurozitos, que amealharam à custa da venda dos vossos (nossos) princípios, valores e conversa fiada, não vão dar para comprar nem um botezinho insuflável!

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Incrivelmente este supermercado tem um sofá para quem vê livros. Confesso que sou uma parasita das livrarias, daquelas que lêem muitos pedaços de literatura e raramente compram alguma coisa. Namoro livros durante meses, às vezes anos e só os compro quando já se criou uma certa intimidade entre mim e eles, ou entre mim e os seus autores.
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