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Quando as Cabeças de Uns são os Degraus de Outros

O humilhador compulsivo é, na sua grande maioria, profundamente frustrado e também já foi, talvez em tempos, muito humilhado. Mas este facto não lhe dá legitimidade, nem desculpa, para utilizar as fraquezas dos outros como fonte de alimentação da sua fraca auto-estima.

O humilhador compulsivo aproveita o mínimo deslize, daquele que julga ser melhor do que ele, para se engrandecer e para se ver subir na escala por ele próprio delineada. No fundo, ele detesta-se, sente-se medíocre e a única forma que encontra para combater o ódio que nutre por si próprio, é rebaixando os outros, é denegrindo a imagem dos outros. 
Geralmente, ataca quem julga mais susceptível, apesar de melhor no seu entender, susceptível, para que a sua relativa e suposta grandeza seja observada por quem deseja impressionar e, por si próprio. Ridiculariza, despreza e corrói os sonhos e aspirações de alguns para se sentir poderoso e tirar do chão o seu amor-próprio quase inexistente.

Às vezes, escolhe crianças como vítimas da sua cruel humilhação, e escolhe-as porque são susceptíveis. E, sem sequer se aperceber, diminui-se, reduz-se a qualquer coisa ainda mais baixa do que aquilo que sente. No uso de uma autoridade exagerada e ridícula, vê a sua ascensão suprema, que na realidade não passa de um amontoado de complexos de inferioridade que ganham corpo e voz de gente.

Se, pelo contrário, tentasse aproveitar as qualidades que tem (porque os humilhadores compulsivos também têm qualidades, só não estão é conscientes delas) para se afirmar e para se aceitar, acabaria por se sentir melhor e escusaria de maltratar os outros injusta e impunemente.

Ele crê que só olhando os outros de cima, pondo-os para baixo, pode atingir um nível superior, o que não é de todo verdade, pois ele pode olhar os outros de frente se tiver consideração e se gostar do "eu" que tanto o revolta.

No entanto, e apesar da carapaça de ferro que ostenta, ele é extremamente frágil e, ao mínimo abanão, parte-se com facilidade.
Quando as cabeças dos outros, que ele pensa serem degraus, se viram, deparam-se com mil cacos para apanhar, que apanham, num derradeiro gesto de altruísmo e piedade. E o ser humilhador, que não mais precisa senão de colo e valorização, fica tal e qual um menino implorando por um pouco de amor...

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