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A Incoerência que as Relações Reflectem

Talvez por ser do signo de caranguejo, talvez por ser uma romântica inveterada, talvez apenas por dar muita importância às relações e ao amor, presto especial atenção às relações alheias.

Ultimamente, tenho reparado que a grande maioria das pessoas mantém relações demasiado convencionais. Pessoas com ideias vanguardistas, que são, na sua generalidade, cultas, informadas e que lutam por ideais como a igualdade, a fraternidade e a não discriminação sexual, racial ou social, na intimidade são tão convencionais como quaisquer outras, cujos ideais sejam exactamente os opostos.
Tenho reparado que essas pessoas (que eu admiro pelas mais variadas razões) alimentam, e vivem, relações marcadamente sexistas, onde a mulher trata e controla tudo o que tem a ver com a casa e os filhos, e o homem fica encarregue da manutenção do carro e da bricolage. Estes casais, nas festas ou jantares, separam-se e, as mulheres juntam-se a um canto (normalmente na cozinha) a discutir receitas e marcas de roupa e cosmética, enquanto os homens se unem para falarem de jogos de futebol e política.
Faz-me um bocado impressão que pessoas tão avançadas no seu tempo em determinadas áreas da vida, sejam tão aborrecidas, convencionais e conservadoras noutras.
Parece-me incoerente o facto de não levarem o seu progressismo para a intimidade do lar, provoca em mim uma descrença na sua verdadeira essência e na originalidade e franqueza das suas ideias. Soam-me artificiais e plásticas quando lutam tão veemente pela igualdade entre homens e mulheres e depois, dizem cheias de orgulho, que são elas que escolhem a roupa que os maridos vestem, todos os dias, ou eles se vangloriam de não saberem fritar um ovo.
Se aceito, sem sequer esboçar um guinchinho para criticar, estas atitudes em pessoas da idade dos meus avós, em pessoas cujos ideais são marcados pela defesa da desigualdade entre pares ou de ideias fundamentalistas, estas mesmas atitudes em pessoas que, como eu, não suportam qualquer tipo de discriminação, parecem-me demasiado ilógicas.

Além de toda a incoerência latente destas relações, relativamente ao que as pessoas acreditam e defendem socialmente, pergunto-me o que será o amor para quem as mantém...

Para mim, o amor tem que ter obrigatoriamente partilha, e essa partilha estende-se às tarefas domésticas (tanto partilho com o meu parceiro o tratamento da roupa, como a lavagem do carro; tanto pinto eu a parede do quarto, como faz ele o jantar) e aos convívios entre amigos (tanto estamos os dois na cozinha a falar com as mulheres, como estamos os dois, na sala, a falar com os homens; tanto tem ele um bate-boca com a anfitriã, como tenho eu uma discussãozinha privada com o anfitrião). E não é por isso que nos fartamos um do outro, ou que deixamos de ter a nossa individualidade; e não é por isso que não cuidamos um do outro, ou nos amamos menos do que as outras pessoas.
Usamos em casa, aquilo que defendemos fora dela, sentimo-nos bem connosco próprios e um com o outro e, não quero dizer com isto, que sejamos melhores do que as outras pessoas (não somos!) ou que a nossa relação seja perfeita (não é!), mas pelo menos tentamos, a todo o custo, mantermo-nos coerentes com aquilo em que acreditamos.

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