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Chuva

Sou mulher do Verão. Gosto do calor, de o sentir entrar-me pelos ossos adentro, de andar o mais despida possível, leve e com os músculos distendidos.
Detesto o frio. Fico encarquilhada, contraída, com demasiada roupa.

Mas a chuva seduz-me... Adoro andar à chuva, senti-la lavar-me a roupa, o corpo e a alma. 
Quando era pequena, perdia um guarda-chuva quase todas as semanas de Inverno e voltava para casa à chuva. Ficava encharcada, mas feliz. A sensação da roupa colada ao corpo, fazia sentir-me bem.

Tenho saudades de me molhar sem nem dó nem piedade, de enfrentar o caminho regada pelas lágrimas do céu, de pôr a língua de fora e bebê-las como se só elas pudessem matar-me a sede.
Tenho saudades de ter cabelo a pingar e de sujar a roupa na relva molhada, de me rebolar no chão, sem que alguém me olhe de esguelha ou me chame de louca. Tenho saudades dos pequenos prazeres que encostamos a um canto da nossa vida, porque crescemos e porque a idade adulta nos diz "já não tens idade para isso!".

Como eu gostava de tomar banho no mar em dias de chuva, sentir a água por todos os lados do meu corpo despido e mergulhar... Podia mergulhar no céu que se unia ao mar e no mar que me levava, a cada onda. Sentia-me limpa por dentro, como se a água entrasse no meu ser e o lavasse.

Tenho saudades da inocência e da ingenuidade de criança, tenho saudades da Vida verdadeira...

...e da Verdade da Vida.

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
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O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

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Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…