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Chuva

Sou mulher do Verão. Gosto do calor, de o sentir entrar-me pelos ossos adentro, de andar o mais despida possível, leve e com os músculos distendidos.
Detesto o frio. Fico encarquilhada, contraída, com demasiada roupa.

Mas a chuva seduz-me... Adoro andar à chuva, senti-la lavar-me a roupa, o corpo e a alma. 
Quando era pequena, perdia um guarda-chuva quase todas as semanas de Inverno e voltava para casa à chuva. Ficava encharcada, mas feliz. A sensação da roupa colada ao corpo, fazia sentir-me bem.

Tenho saudades de me molhar sem nem dó nem piedade, de enfrentar o caminho regada pelas lágrimas do céu, de pôr a língua de fora e bebê-las como se só elas pudessem matar-me a sede.
Tenho saudades de ter cabelo a pingar e de sujar a roupa na relva molhada, de me rebolar no chão, sem que alguém me olhe de esguelha ou me chame de louca. Tenho saudades dos pequenos prazeres que encostamos a um canto da nossa vida, porque crescemos e porque a idade adulta nos diz "já não tens idade para isso!".

Como eu gostava de tomar banho no mar em dias de chuva, sentir a água por todos os lados do meu corpo despido e mergulhar... Podia mergulhar no céu que se unia ao mar e no mar que me levava, a cada onda. Sentia-me limpa por dentro, como se a água entrasse no meu ser e o lavasse.

Tenho saudades da inocência e da ingenuidade de criança, tenho saudades da Vida verdadeira...

...e da Verdade da Vida.

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