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"As Manequins Não Passam de Cabides!"

Esta frase foi dita por um conceituado designer, cá da praça, numa aula do meu curso de manequim.
(Não vou dizer o nome dele, porque, como é famoso, podia gerar polémicas desnecessárias e a minha intenção não é essa.)

Esta frase provocou a indignação, se não o choque, de muitas das minhas colegas de curso. Como podem imaginar, a maior parte delas eram teenagers à procura de realizar o sonho de ser manequim que idealizavam um mar de rosas, colorido e deslumbrante.

Eu, um pouco menos teenager, porque mais velhita (tinha quase o dobro da idade da maioria delas) e porque menos crente nos encantos da profissão, concordei com ele. 
Se nos debruçarmos sobre o assunto, chegamos à conclusão que ele tinha razão. Talvez a maneira como o disse não tenha sido a mais correcta. Foi um pouco abrupto, atirou por terra os sonhos daquelas meninas que, ainda por cima, tiveram uma trabalheira enorme a convencer os pais a pagarem uma pipa de massa por aquele curso, fazendo-os acreditar que se tornariam na próxima Marisa Cruz. 

Mas ele estava coberto de razão! As manequins não passam de cabides e as manequins querem-se cabides! O desejo de qualquer designer é ter manequins que vistam as suas criações sem as ofuscarem. Quanto mais assexuadas, magras (para que a roupa que vestem, vistam também os manequins de montra), com boa pele (para ser facilmente trabalhada pelos maquilhadores) e bom cabelo (que aguente as tintas e os secadores dos cabeleireiros), melhor.
O principal interesse da moda é vender roupa, não é vender meninas! Por isso é a roupa que tem que brilhar, não são as meninas. 
E explicar isto a raparigas que fazem 3 horas de ginásio por dia, que comem uma maçã durante todo o dia e que vivem empoleiradas nuns saltos de meio metro, sem as magoar ou ofender? Difícil, não?

Sei que devem estar a pensar porque raio de carga de água, fui eu tirar um curso de manequim, se acho que não passam de cabides... Porque estes cabides ganham bastante bem! 
Eu também corria (quase) todos os dias, almoçava uma sopa e um café, jantava pouco mais e a única coisa doce que comia eram bolachas de aveia de tempos a tempos.
Com isto, consegui enfiar-me em roupa de tamanho 36 e nada mais. 
Se valeu a pena o esforço?
Não!
Engravidei antes da passagem de modelos de final de curso e nunca cheguei a ser manequim, nem a recuperar o meu rico dinheirinho.
Mas nem tudo foram espinhos e aprendi algumas coisas interessantes que hoje ainda me dão bastante jeito.

Se as minhas colegas me impressionavam, as meninas/mulheres que não têm no horizonte ser manequins, e que vivem amarradas a um estereótipo de beleza, que de beleza nada tem, ainda me impressionam mais... 
O culto do corpo esquelético e sem formas, que exige uma vida anoréctica, a privação constante de pequenos prazeres e litradas de suor despendidas sem paixão, para o manter, aflige-me, e muito!

Será que não percebem que, tal como um monte de banha, um monte de ossos não é bonito?

Atenção, não tenho nada contra quem é magra ou gorda por natureza, ou contra quem engorda ou emagrece por culpa de um sistema nervoso alterado, mas condicionar-se uma vida para se atingir um nível de beleza, que nem sequer é bonito... Sofrer-se a rodos em prol de algo tão ilusório, e palerma, como igualar-se a um esqueleto andante, definitivamente, ultrapassa-me!

Imagem retirada da Internet

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