Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2012

Lucas

Entrei no comboio. O lugar que encontrei para me sentar era ao lado de uma senhora que lia um livrinho pequenino, dos de bolso, a menos de um palmo do nariz.
Sentei-me. Tirei o meu livro do saco e imitei-a, mas com o livro um pouco mais longe dos olhos.
Nos phones, ouvia Manu Chao. No livro, as crónicas de António Lobo Antunes.
Pelo canto do olho, vejo os lábios da senhora a moverem-se. Se tirasse os phones talvez a conseguisse ouvir.
Não tirei, mas espiei a margem superior do seu livrinho pequenino, de bolso.

"Lucas", li.

Voltei ao meu livro. Devorei a crónica "Jaime" com um sorriso nos lábios e uma lágrima indecisa no olho. Podia aquele Jaime ser o meu avô? Podia, mas não era, era outro, que emocionou tanto o autor, quanto o meu avô me emocionou a mim.

Não consigo ler Lobo Antunes noutro sítio, senão no comboio. As palavras dele têm que ter sempre como pano de fundo uma paisagem fugidia e o trepidar do comboio a embalar-me. Doutra maneira, não consigo.

A senhora…

Quando as Cabeças de Uns são os Degraus de Outros

O humilhador compulsivo é, na sua grande maioria, profundamente frustrado e também já foi, talvez em tempos, muito humilhado. Mas este facto não lhe dá legitimidade, nem desculpa, para utilizar as fraquezas dos outros como fonte de alimentação da sua fraca auto-estima.
O humilhador compulsivo aproveita o mínimo deslize, daquele que julga ser melhor do que ele, para se engrandecer e para se ver subir na escala por ele próprio delineada. No fundo, ele detesta-se, sente-se medíocre e a única forma que encontra para combater o ódio que nutre por si próprio, é rebaixando os outros, é denegrindo a imagem dos outros.  Geralmente, ataca quem julga mais susceptível, apesar de melhor no seu entender, susceptível, para que a sua relativa e suposta grandeza seja observada por quem deseja impressionar e, por si próprio. Ridiculariza, despreza e corrói os sonhos e aspirações de alguns para se sentir poderoso e tirar do chão o seu amor-próprio quase inexistente.
Às vezes, escolhe crianças como víti…

Amor-Perfeito

Se antes de ser mãe sonhei em vir a ser uma súper mãe ou situar-me o mais próximo possível da perfeição. Actualmente, tenho vindo a  mudar a minha visão relativamente ao perfeccionismo neste papel.
Hoje, acho importante sermos imperfeitas. Mostrar as nossas fragilidades, erros e autenticidade é essencial nas mães (e nos pais).  Não me custa admitir que errei, nem dizer que não sei, afinal não sou nenhuma Deusa, sou humana, e penso que é crucial o meu filho ver-me como tal. Sei que ele me toma como barómetro da gravidade das situações. Sei que ele vê em mim se tem ou não que se preocupar com determinados acontecimentos e, por isso, pode tornar-se necessário ocultar-lhe algumas emoções menos positivas que sinta, mas apenas para o proteger de preocupações desajustadas à sua idade. Por vezes, consigo fazer este exercício... Outras vezes, ele decifra na minha expressão facial tudo o que me vai na alma. 
Num dia destes, disse-me: - Mãe, porque estás com essa cara? - Só tenho esta! - Não, t…

Agamémnon - Vim do Supermercado e Dei Porrada ao Meu Filho

Mais uma vez, fui ao teatro e trouxe de lá uma história para pensar. Não só sobre o conteúdo em si, pois o assunto que aborda já anteriormente preenchia as minhas dúvidas, exaltações, indignações, mas sobre a forma como parte do público encara o teatro.
A peça é pesada, mexe connosco, utiliza elementos tabu como crianças, comida, livros, palavrões. Elementos estes que não nos deixam indiferentes e fazem-nos pensar, fazem-nos remexer nas nossas vidas , interrogarmo-nos sobre o que andamos aqui a fazer e sobre o significado de um mundo industrializado demais, capitalista demais, onde apenas consumimos e não criamos nada, porque já está tudo criado, pronto a digerir o mais rapidamente possível e antes que arrefeça, pois mal arrefeça passa a ser inconsumível.
No final da peça, tivemos a oportunidade de ter uma conversa com o actor (Gonçalo Waddington), o encenador (John Romão) e a assistente de encenação (Solange Freitas). Fizeram-se perguntas, cujas respostas foram extremamente esclarec…

Chuva

Sou mulher do Verão. Gosto do calor, de o sentir entrar-me pelos ossos adentro, de andar o mais despida possível, leve e com os músculos distendidos. Detesto o frio. Fico encarquilhada, contraída, com demasiada roupa.
Mas a chuva seduz-me... Adoro andar à chuva, senti-la lavar-me a roupa, o corpo e a alma.  Quando era pequena, perdia um guarda-chuva quase todas as semanas de Inverno e voltava para casa à chuva. Ficava encharcada, mas feliz. A sensação da roupa colada ao corpo, fazia sentir-me bem.
Tenho saudades de me molhar sem nem dó nem piedade, de enfrentar o caminho regada pelas lágrimas do céu, de pôr a língua de fora e bebê-las como se só elas pudessem matar-me a sede. Tenho saudades de ter cabelo a pingar e de sujar a roupa na relva molhada, de me rebolar no chão, sem que alguém me olhe de esguelha ou me chame de louca. Tenho saudades dos pequenos prazeres que encostamos a um canto da nossa vida, porque crescemos e porque a idade adulta nos diz "já não tens idade para is…

A Língua e a Gente

Hoje, quando fui buscar o J. à escola, "apanhei" os meninos do pré-escolar a saírem e a serem entregues aos pais por uma senhora que penso que seja a auxiliar da educadora de infância (não sei qual é nome técnico). A dita senhora pegava nos miúdos, um a um, e entregava-os aos respectivos pais. Até aí, tudo bem!
Chega a vez de um certo menino e ela, quando o entrega à mãe, diz a título de recado: -Hoje devias de levar que portastestes mal! Aquilo caiu-me tão mal! Além de estar, literalmente, a assassinar a nossa querida língua que não tem culpa nenhuma que o miúdo se tenha portado mal, estava a incentivar a mãe a bater-lhe e a ameaçá-lo indirectamente. Mas a senhora não se ficou por aqui... Continuou a atirar em todas as direcções: - Oh Nãoseiquantos, larga a árvore! Olha, que eu vou dizer à Iana que a estragastes! Mais uma ameaça e, desta vez, acompanhada de chantagem! E a língua, coitada, já jazia inerte no chão e implorava para não a maltratarem mais.
E claro, eu fiquei a pensar (…

Esta Coisa Que É Ser Mãe

O meu filhote está a crescer a uma velocidade inacreditável! Ele cresce tão rápido que eu já não o consigo acompanhar!
Isto de se ser mãe tem muito que se lhe diga e, quando somos mães de um só filho, parece-me que ainda é mais complicado. Cada etapa é uma incógnita, uma descoberta, não temos tempo para prever ou para nos preparamos para o que vem a seguir.
As mães (e pais) de mais do que um filho vão acumulando experiências que lhes vão dando algum know-how para os filhos seguintes, além de terem preocupações a dobrar, triplicar ou xxxar das que nós, mães de um único filho, temos. Elas (a partir do segundo filho) têm um conhecimento de causa, que nós nunca teremos. E, como a maior parte delas tem o segundo quando o primeiro ainda é pequeno, não passam por estas crises, porque o stress de ter mais do que uma criança para criar não as deixa.
Eu, que não programei o nascimento do meu filho e que o contacto que tinha com outras crianças não estava nada desperto para as suas característi…

A Incoerência que as Relações Reflectem

Talvez por ser do signo de caranguejo, talvez por ser uma romântica inveterada, talvez apenas por dar muita importância às relações e ao amor, presto especial atenção às relações alheias.
Ultimamente, tenho reparado que a grande maioria das pessoas mantém relações demasiado convencionais. Pessoas com ideias vanguardistas, que são, na sua generalidade, cultas, informadas e que lutam por ideais como a igualdade, a fraternidade e a não discriminação sexual, racial ou social, na intimidade são tão convencionais como quaisquer outras, cujos ideais sejam exactamente os opostos. Tenho reparado que essas pessoas (que eu admiro pelas mais variadas razões) alimentam, e vivem, relações marcadamente sexistas, onde a mulher trata e controla tudo o que tem a ver com a casa e os filhos, e o homem fica encarregue da manutenção do carro e da bricolage. Estes casais, nas festas ou jantares, separam-se e, as mulheres juntam-se a um canto (normalmente na cozinha) a discutir receitas e marcas de roupa e …

"As Manequins Não Passam de Cabides!"

Esta frase foi dita por um conceituado designer, cá da praça, numa aula do meu curso de manequim. (Não vou dizer o nome dele, porque, como é famoso, podia gerar polémicas desnecessárias e a minha intenção não é essa.)
Esta frase provocou a indignação, se não o choque, de muitas das minhas colegas de curso. Como podem imaginar, a maior parte delas eram teenagers à procura de realizar o sonho de ser manequim que idealizavam um mar de rosas, colorido e deslumbrante.

Eu, um pouco menos teenager, porque mais velhita (tinha quase o dobro da idade da maioria delas) e porque menos crente nos encantos da profissão, concordei com ele.  Se nos debruçarmos sobre o assunto, chegamos à conclusão que ele tinha razão. Talvez a maneira como o disse não tenha sido a mais correcta. Foi um pouco abrupto, atirou por terra os sonhos daquelas meninas que, ainda por cima, tiveram uma trabalheira enorme a convencer os pais a pagarem uma pipa de massa por aquele curso, fazendo-os acreditar que se tornariam na…

De Volta à Minha Velhota

Este fim-de-semana, fomos visitá-la.
A minha velhota, em tempos foi uma égua cheia de energia, que trotava quase em passage quando estava excitada e galopava de cauda levantada fazendo jus a algum do sangue árabe que lhe circula nas veias.

Quando os meus pais ma compraram, com seis anos, por 400 contos (sim, ainda eram contos e já lá vão 17 anos), ela tinha acabado de chegar à idade adulta e, como jovem que era, assustava-se com tudo o que mexia. Ora era uma folhinha que abanava com o vento, ora era uma poça de água que reflectia o sol, ora era qualquer coisinha que só ela via, mas que devia ser deveras intimidadora...
A relação dela com as poças de água era tortuosa, pois fazia uma ginástica incrível só para não molhar o pezinho e eu, lá em cima, via-me grega para a conseguir levar a direito em dias de chuva.

Esta velhota ensinou-me a montar. Suportou a minha mão que se agarrava à boca dela, através das rédeas, numa procura incessante por equilíbrio, aguentou as minhas quedas, esper…

Rogério

Rogério era um rapaz com trinta e poucos anos, cheio de vida, sonhos, esperanças e anos pela frente. Rogério não me era intimo, mas unia-nos a cruz da doença oncológica.  Fui encontrá-lo no hospital, no mesmo hospital onde a minha mãe estava internada por doença oncológica.  Rogério tinha um linfoma, mas ao contrário do meu, o dele era não-Hodgkin, pior do que o Hodgkin e no pulmão. Quando visitava a minha mãe, visitava-o a ele também. Tentei fazê-lo crer que se podia curar. Tentei que acreditasse que não estava condenado e acho que ele acreditou, pois nunca o vi desanimado, mas sempre a olhar em frente com esperança, projectos e vida. Rogério morreu com trinta e poucos anos, apesar dos muitos mais que tinha pela frente. Rogério não se curou e o cancro acabou por levar mais um de nós.
E eu apercebi-me que, na realidade, o tinha enganado...

... 3 ... 2 ... 1

Estou furiosa! O mais furiosa que possam imaginar!
Não sou partidária, apesar de simpatizar mais com alguns partidos políticos do que com outros, mas estou completamente e assumidamente contra as políticas do Ministério da Saúde português. O pior que este governo podia ter feito, e fez, foi pôr um gestor à frente do Ministério da Saúde a dar cabo do SNS. Este senhor quer matar-nos, sim matar-nos! Não sei se não seria mais honesto da parte dele, arranjar umas câmaras de gás e atirar todos os doentes lá para dentro, do que andar a tirar direitos e apoios a quem deles necessita e que, ainda por cima, é ou está doente.
É desumano e vergonhoso!

O SNS não é uma instituição com fins lucrativos. Não se pode querer obter lucros com a saúde, a saúde é um direito da população! Fabricarem-se regras e normas para que as pessoas não possam usufruir do seu direito à saúde, é homicídio, ou melhor, genocídio!

Os médicos de família deixaram de ver exames ou de passar credenciais fora das consultas e, s…

Arte

Num destes fins-de-semana, fomos ao Museu Berardo tirar a barriga de misérias culturais. Queríamos ver a exposição do BES Photo.
Gostamos de fotografia, por isso, tudo o que são exposições da dita cuja, lá estamos nós, mas o J. anda a perder a paciência para tanta fotografia. Então, quando o informámos que íamos ver mais uma, disse: -Não!!!! Não quero ir, já estou farto de ver fotografias! Ao que nós respondemos: -Mas nós não e como não podes ficar em casa sozinho, vens connosco!

E lá fomos nós, com ele todo chateado... Quando chegámos, ficou mais animadito. Apesar de estar farto de fotografias, diverte-se sempre que vamos ao Museu Berardo.
Vimos a exposição de fotografia num instante, eu e ele, porque o pai demora mais um bocadinho, devido a ser o apreciador-mor da coisa.
De seguida, fomos ver a exposição permanente. Mal entrámos, o J. diz: -Isto sim, já gosto de ver. Eu gosto é de arte!
Ainda tentei explicar-lhe que a fotografia também é uma forma de arte, mas não adiantou grande c…

Singularidades de uma Esquisitinha ou Esquisitices de uma Singularzinha

Já disse aqui que não gosto de abraços ou que me dêem cotoveladinhas enquanto falam comigo, mas o que eu ainda não disse, é que também detesto que se encostem a mim nas bichas do supermercado.  Assim, vou dizer agora:
DETESTO QUE SE ENCOSTEM A MIM NAS BICHAS DO SUPERMERCADO!
Geralmente, quem se encosta a mim são aquelas senhoras que estão "cheias de pressa" para irem fazer o almoço ou o jantar, ou qualquer coisa tão importante quanto isso, e que acham que colando-se a mim vão chegar mais rápido a casa.

Pois não vão!

Desenganem-se senhoras, porque o melhor que vos posso oferecer ao colarem-se-me é, no dia em que a minha paciência pedir a demissão, levarem um olhinho negro para mostrarem ao marido quando chegarem a casa e, com isso, conseguirem um mês repleto de lamentações e histórias gratuitas para contarem às vossas amiguinhas igualmente autocolantes!
Se eu fosse um rapaz jeitoso, um trintão charmoso ou alguém cheio de dinheiro nos bolsos ainda compreendia os vossos avanço…