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A Ida

Sei que vou ser a primeira a partir, não estou preocupada, porque sei que eles se vão aguentar bem sem mim e porque prefiro ser eu a ir do que eles. Sem falsas modéstias ou falso altruísmo, prefiro ser eu a ir primeiro, sou a mais velha e a que já estou preparada. Já fiz o meu estágio com a morte, já a vi de perto... 
Sei que vão sentir falta, que vão sofrer, mas sei que vão acabar por conseguirem ser felizes. Eles têm uma grande capacidade para serem felizes... os meus amores...

A doença foi-se por uns tempos, mas vai voltar, volta sempre. Já voltou para tanta gente, porque não irá voltar para mim? Talvez não apareça no mesmo sítio, talvez apanhe os médicos desprevenidos, mas a mim não me apanha desprevenida, porque sei que ela vai voltar...
Já levou tanta gente, esta maldita doença... Gente jovem e aparentemente saudável, gente de valor, gente grande de alma e coração. Porque me deixaria a mim aqui?
Tenho medo, claro que tenho medo, tenho medo de não ver o meu filho adolescente, de não o ver adulto, de não conhecer os meus netos... Mas não estou desprevenida, apenas finjo que não estou atenta, apenas finjo que não sei que ela anda por aí a espreitar-me. Por eles, por mim, pelos objectivos que tenho que arranjar para continuar a viver feliz.
Sim, sou feliz, apesar da espada que balança sobre a minha cabeça, sou feliz. 
Bem feito para ela que não me consegue fazer infeliz, que não consegue que eu deixe de gostar de viver e me entregue a uma qualquer depressão. 
Vivo e continuarei a viver cada dia com a mesma intensidade, mesmo no dia em que ela voltar e me levar partes do corpo ou me tirar todos os cabelos e me queimar os órgãos.

Podes tirar-me a saúde... Mas nunca... estás a ouvir, sua filha da mãe? Nunca me vais tirar a felicidade de viver! Só mesmo quando me conseguires matar... 
Até lá, vais ter que levar com a minha felicidade, sua parvalhona!

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Anita no Facebook

O Facebook anda a fazer-me mal. O chato é que preciso daquilo como ferramenta de trabalho e acaba por ser difícil desligar de vez ou até fazer um intervalinho com fins terapêuticos.
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Tarde de sábado:  Anita vai a uma exposição qualquer interessantíssima ou Anita sai à rua e vê as pessoas a passar
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Ler, e escrever, é um exercício egoísta, em que não cabe lá mais ninguém para além d…