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Crianças esterilizadas e estilizadas

Em tempos, quando ainda era muito verde nesta coisa de ser mãe, cometi alguns exageros. Tinha demasiado cuidado com a chucha que caía ao chão, com a esterilização dos biberões, com as mãos lavadas para mexer no bebé, enfim, com essas coisas de galináceas que algumas de nós adoptamos.
Confesso que não era muito ponderada e que levava a higiene muito a sério no que dizia respeito ao meu filho bebé.

Ele cresceu um bocadinho e eu fui-me apercebendo que não o podia enfiar dentro de uma redoma de vidro. 
Quando ele fez mais ou menos um ano de idade, comecei a libertar-me e a libertá-lo. Lentamente, fui percebendo que as crianças só conseguem produzir imunidades se tiverem algum contacto com bactérias e com toda essa bicharada microscópica.
Nunca cheguei ao ponto de o desinfectar, mas sei que há quem esteja muito perto disso.

Hoje, que estou num processo de amadurecimento da minha faceta maternal, posso dizer que a minha visão relativamente a este assunto está muito longe do que era inicialmente. 
Hoje, sou uma acérrima defensora da existência de alguma porcaria na vida das crianças.

Não gosto de ver crianças esterilizadas. Não gosto de ver pais que impedem os filhos de rebolar na terra, na relva ou que lhes ralham cada vez que fazem uma nódoa na roupinha de ir a casamentos com que os vestem.
Acho que as crianças precisam de ter liberdade de movimentos, de sujar a roupa e as mãos, de mexer nos bichos e de uma quantidade razoável de vitamina M (de mer**), como a minha avó lhe chama.
Fazem-me impressão as crianças vestidas de adultos e com comportamentos de adultos, cheias de cuidados infundados com a roupa e com a aparência. Fazem-me impressão os adultos que exigem que as crianças digam "com licença" quando ainda não sabem sequer pronunciar bem as palavras.

Atenção, que também não sou a favor da má-educação, antes pelo contrário, mas acho que as regras de etiqueta que contemplam os "obrigados",  os "se faz favor" ou os famosos "com licença" têm que ser introduzidas progressivamente e têm que vir essencialmente através de valores muito mais altos do que estas simples palavras, como, por exemplo, através da consciência do que é o respeito pelo próximo. 
Se uma criança souber respeitar os outros desde tenra idade, todas essas palavras bonitas vêm naturalmente e por sua auto-recriação, sem que ninguém tenha que lhas impingir, bastando apenas dar-lhes o exemplo fazendo-as ouvi-las com regularidade.

O excesso de preocupação dos pais pela boa educação dos filhos, muitas vezes, fica limitado à utilização destas normas sociais e acaba por menosprezar outros princípios que, na minha opinião, são muito mais importantes para o seu crescimento saudável e para a relação com o mundo que os rodeia.

Ver crianças que ignoram totalmente o que os adultos lhes dizem, que a qualquer chamada de atenção, respondem mal ou reagem com agressividade e prepotência, preocupa-me mais do que ver crianças com a roupa suja que depois de nos darem um encontrão, que não foi precedido de um "com licença", ficam genuinamente preocupadas se ficámos magoados.

Mas isto sou eu que, como já devem ter reparado, sou meia estranha!

Imagem retirada da Internet



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