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Aquele Homem Grande

Aquele homem grande nasceu numa ilha. Viveu os primeiros anos da sua vida rodeado por mar, pelo mesmo mar que hoje lhe devolve a tranquilidade quando larga o computador da sua informática e se agarra à cana de pesca para pescar peixes e sonhos... Sonhos da criança que ainda vive nele, sonhos da criança que nunca o largou...
Aquele homem grande, um dia, também já foi pequenino e brincou como todos os meninos pequeninos. Correu campos sem fim, saltou, jogou à beira-mar, nadou no mar frio e rebolou na areia como qualquer menino pequenino.
Aquele homem grande, filho de um veterinário e de uma funcionária administrativa, viu o pai sair de casa para tratar dos animais do campo e a mãe a dar-lhe chineladas quando se portava mal. Porque aquele homem grande, um dia, também fez asneiras de criança e também esfolou os joelhos...
Aquele homem grande perdeu o pai cedo, cedo demais... E cresceu, cresceu apoiado no amor da mãe, que à custa de tentar ser mãe e pai, o amou a dobrar...
Aquele homem grande tornou-se num adolescente rebelde da Era da rebeldia, das conquistas, das lutas pelos direitos que hoje são adquiridos... que foram adquiridos por homens grandes como ele.
Aquele homem grande tinha cabelo comprido e montava numa mota que acelerava até ultrapassar o vento, até chegar perto do horizonte, do seu horizonte... dos seus sonhos...
Aquele homem grande foi pai cedo, cedo demais... Com apenas 21 anos, viu sair uma filha, da mulher que amava, num parto do mais natural que a inconsciência juvenil poderia permitir...
Aquele homem grande conseguiu ser um pai com a maturidade que a idade ainda não lhe disponibilizara, mas que a responsabilidade lhe impusera.
Aquele homem grande estava avançado na sua Era e tratou da filha como a maior parte dos pais ainda não conseguia tratar dos filhos. E era ali, onde a ternura e o carinho imensos, que ele transbordava, se reflectiam... Ali, no olhar de uma criança feliz, no olhar de uma criança que se sentia amada... 

Aquele homem grande, cujo coração ocupa todo o espaço do seu corpo grande, é meu pai.

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Anita no Facebook

O Facebook anda a fazer-me mal. O chato é que preciso daquilo como ferramenta de trabalho e acaba por ser difícil desligar de vez ou até fazer um intervalinho com fins terapêuticos.
Ultimamente, ando tão farta de por ali andar que já tudo me parece os livros da Anita.
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No fim das férias:  Anita volta para o trabalho chateadíssima, mas, pronto, a vida é assim e tem que trabalhar
À hora das refeições:  Anita cozinha um delicioso jantar cheio de super-alimentos e de baixas calorias ou  Anita vai almoçar a um sítio todo fashion, come imenso marisco e bebe sangria de champagne
Tarde de sábado:  Anita vai a uma exposição qualquer interessantíssima ou Anita sai à rua e vê as pessoas a passar
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