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Aquele Homem Grande

Aquele homem grande nasceu numa ilha. Viveu os primeiros anos da sua vida rodeado por mar, pelo mesmo mar que hoje lhe devolve a tranquilidade quando larga o computador da sua informática e se agarra à cana de pesca para pescar peixes e sonhos... Sonhos da criança que ainda vive nele, sonhos da criança que nunca o largou...
Aquele homem grande, um dia, também já foi pequenino e brincou como todos os meninos pequeninos. Correu campos sem fim, saltou, jogou à beira-mar, nadou no mar frio e rebolou na areia como qualquer menino pequenino.
Aquele homem grande, filho de um veterinário e de uma funcionária administrativa, viu o pai sair de casa para tratar dos animais do campo e a mãe a dar-lhe chineladas quando se portava mal. Porque aquele homem grande, um dia, também fez asneiras de criança e também esfolou os joelhos...
Aquele homem grande perdeu o pai cedo, cedo demais... E cresceu, cresceu apoiado no amor da mãe, que à custa de tentar ser mãe e pai, o amou a dobrar...
Aquele homem grande tornou-se num adolescente rebelde da Era da rebeldia, das conquistas, das lutas pelos direitos que hoje são adquiridos... que foram adquiridos por homens grandes como ele.
Aquele homem grande tinha cabelo comprido e montava numa mota que acelerava até ultrapassar o vento, até chegar perto do horizonte, do seu horizonte... dos seus sonhos...
Aquele homem grande foi pai cedo, cedo demais... Com apenas 21 anos, viu sair uma filha, da mulher que amava, num parto do mais natural que a inconsciência juvenil poderia permitir...
Aquele homem grande conseguiu ser um pai com a maturidade que a idade ainda não lhe disponibilizara, mas que a responsabilidade lhe impusera.
Aquele homem grande estava avançado na sua Era e tratou da filha como a maior parte dos pais ainda não conseguia tratar dos filhos. E era ali, onde a ternura e o carinho imensos, que ele transbordava, se reflectiam... Ali, no olhar de uma criança feliz, no olhar de uma criança que se sentia amada... 

Aquele homem grande, cujo coração ocupa todo o espaço do seu corpo grande, é meu pai.

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença o…

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


O Desprezo É A Melhor Arma

Não sou pessoa de dar desprezo a ninguém. Gosto de discutir, trocar ideias e pontos de vista e, por fim, de chegar a um consenso. Resolver a questão, arrumá-la ou atirá-la para trás das costas, porque a conversa nos iluminou os pensamentos difusos. Mas há pessoas, com as quais isso não é possível. Facto este, que me chateia particularmente... Gostava de conseguir esclarecer assuntos que acabam por ficar no ar e que geram mal-entendidos. Mas nem sempre consigo. Muitas vezes, não consigo. Ou porque a outra parte não está para aí virada, ou, pura e simplesmente, porque a única coisa que está disposta a ouvir é a sua própria voz. Tenho que admitir que, nestes casos, a melhor arma é o desprezo. Se o principal objectivo do nosso interlocutor é magoar-nos, enxovalhar-nos ou obrigar-nos a admitir que a razão nunca o abandona, não há matéria para discussão, nem vontade... Resta, apenas, o desperdício do nosso latim, atirado, com força, contra uma parede maciça, que acaba por o fazer evaporar …