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Do Desporto

Lembro-me que, na minha infância, os clubes e as associações desportivas incentivavam as crianças a praticarem desporto. Publicitavam a sua prática motivando as crianças, mostrando-lhes o prazer que poderiam ter com o exercício físico. 

Hoje, já não vejo isso, vejo clubes a espalharem panfletos dirigidos aos pais, não aos filhos, aliciando-os a inscreverem os pequenos em actividades que proporcionarão aos pais, não aos filhos, terem sucesso no desporto, através de uma pretensa carreira brilhante dos seus rebentos e da presença em eventos desportivos repletos de "estrelas-maravilha" do meio.

Hoje, há clubes que seleccionam as crianças logo à partida, que não lhes dão a possibilidade de experimentarem uma actividade se não tiverem os requisitos mínimos por eles estabelecidos, que lhes cortam as pernas e os excluem baseados em critérios tão ridículos como as características físicas de cada um. 
Não poderá uma criança gorda tornar-se num óptimo jogador de futebol, ou um miúdo baixo num esplêndido jogador de basquetebol? Não poderá o gordo emagrecer e o baixo crescer? São crianças e o seu estado é transitório, poderão manter ou não estas características depois de crescerem. Conheço pessoas que foram gordas, toda a sua infância e que, em adultos, têm corpos atléticos, conheço outras que foram sempre baixinhas até aos 12/13 anos e que, na adolescência, deram um pulo e tornaram-se altíssimas. Haverá o direito de os excluir por características que podem ser apenas transitórias? 

Não poderá o miúdo gordo, apesar da gordura, ser bom no futebol, se se conseguir mexer bem e souber marcar uns bons golos? Não poderá o baixo, apesar de pequeno, ser óptimo no basquetebol se conseguir levar a bola de um campo ao outro por entre os adversários mais altos? 
Faço estas perguntas com toda a ignorância desportiva que me acompanha, mas esta selecção excessiva assusta-me. Assusta-me roubarem-se sonhos e privarem-se as crianças de actividades que lhes dão prazer, assusta-me que as ponham a fazer desportos para único benefício e prazer dos clubes e dos pais, assusta-me a exclusão prematura por critérios pouco credíveis, assusta-me o desporto deixar de ser encarado desportivamente e passar a ser uma obrigação com um percurso tão rígido quanto o académico, assusta-me que se impeçam as crianças de serem crianças, assusta-me que neste mundo, no qual o meu filho está crescer, ainda exista uma Humanidade que não é realmente Humana...
Assusta-me!

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
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