Avançar para o conteúdo principal

As Aparências Iludem...

Como já devem ter reparado, não sou grande apreciadora de roupa, acessórios, produtos de maquilhagem e afins. 
No entanto, tirei um curso de manequim há uns anitos, por isso sei o que está correcto usar-se nas mais variadas situações, aprendi a andar de saltos altos como se estivesse numa passerelle (apesar de não apreciar acrescentar centímetros aos meus 1,80, nem dar muito nas vistas), tenho uma das mães mais arranjadas cá da praça, que é uma fervorosa apreciadora de uma aparência cuidada, conheço as regras de etiqueta, que me foram impingidas, pela minha avó, desde tenra idade, mas gosto mesmo é de me sentir o mais confortável possível. Deste modo, não invisto em roupas caras ou chiques, nem em tratamentos de beleza. Sinto-me melhor se não tiver os pés doridos, se tiver a cara lavada, se não tiver frio ou calor...

Porém, sei arranjar-me quando é preciso e, ultimamente tenho tido necessidade disso por estar em formação numa determinada área profissional. 
Neste últimos 15 dias, tenho-me vestido como "uma senhora" e tenho notado uma grande diferença na maneira como as pessoas lidam comigo. 

É incrível o poder da aparência nas relações interpessoais!

Eu sou precisamente a mesma pessoa, nem mais nem menos simpática, nem mais nem menos educada, nem mais nem menos bonita (ou feia, como quiserem). Sou eu, igualzinha ao que sempre fui, apenas com mais uns centímetros, um risco nos olhos, rímel e um fatinho politicamente correcto. As pessoas, que nunca me falavam na rua, apesar de me conhecerem há 500 anos, passaram a cumprimentar-me com uma espécie de vénia; os homens foram, de repente, atacados por uma onda de cavalheirismo e abrem-me as portas, dão-me passagem e pagam-me cafés; as mulheres falam-me com um excesso de boa educação e uma quase subserviência ridícula...
E eu, que detesto cavalheirismo por achar que se queremos igualdade temos mesmo é que ser iguais e não exigirmos patacoadas machistas como as que as boas maneiras impõem, que detesto relações fictícias e uma boa educação apenas baseada em estatutos sociais, ando-me a rir com esta parvoeira toda!
Mas rio-me sob uma tristeza imensa ao constatar que este pessoal só vê pacotes, cujo conteúdo não lhes interessa nada, e que ver para além do que lhes é introduzido olhos adentro não é definitivamente um dos seus objectivos. Ficam-se simplesmente à entrada da porta, deslumbrados com uma mansão que é, na realidade, uma casinha modesta ou vêem uma casinha modesta quando estão perante uma mansão! Têm opinião sobre tudo, e mais alguma coisa, como se tivessem entrado e vasculhado cada cantinho da casa e, cá de fora da porta, vão mandando bitates em tom de perito... E mandar bitates chega-lhes. Sentem-se importantes conhecedores de um redondo nada, não vêem nada nem querem ver, querem ser deslumbrados por qualquer coisa, nem que essa coisa não passe de uma miragem!

E uma profunda descrença invade-me... Descrença nas pessoas, descrença no mundo, descrença na verdade de cada um de nós e na verdade de todos nós juntos, descrença na Humanidade...

Mais uma vez, fico afligida com a superficialidade das pessoas e, mais uma vez, penso "menina, é este o mundo em que vives. É bem melhor que comeces a aceitá-lo, ou não passarás de uma infeliz sempre revoltada!".

Mensagens populares deste blogue

Marcadores: Capítulo 5

Ana entrou no quarto, sentou-se na beira da cama, acariciou o rosto da mãe e perguntou: - Como te sentes hoje? - Mais ou menos. Agora, não tenho dores. - Ao menos isso... Queres que te traga alguma coisa? - Não, obrigada. Fica só aqui comigo a conversar. - Fico pois! – disse enquanto massajava a mão da mãe para a aquecer. Ana visitava Cármen diariamente. Aparecia geralmente ao fim do dia, porque trabalhava até tarde. Detestava só sair do trabalho depois do sol-posto, especialmente agora que a mãe precisava tanto dela. - Dormiste bem? – perguntou sem lhe lagar a mão gelada. - Sim, tenho a sensação – parou para respirar - que consegui dormir algumas horas seguidas – continuou a custo. Acariciou a mão da filha como se ainda fosse uma mão pequenina que poderia guardar dentro da sua. Observou-lhe o rosto com ternura e articulou as palavras devagarinho: - Filha, nunca mais me falaste do teu trabalho. Como está a correr? Ana resumiu as últimas semanas de trabalho. Falou dos colegas, que ainda não es…

Por entre livros e árvores

Estou sentada no sofá do supermercado junto aos livros.

Incrivelmente este supermercado tem um sofá para quem vê livros. Confesso que sou uma parasita das livrarias, daquelas que lêem muitos pedaços de literatura e raramente compram alguma coisa. Namoro livros durante meses, às vezes anos e só os compro quando já se criou uma certa intimidade entre mim e eles, ou entre mim e os seus autores.
Também compro por impulso, mas é mais raro agora que tenho menos dinheiro para consumismos.

Hoje, levo comigo para o sofá o Lobo Antunes e o Rodrigo Guedes de Carvalho. Vou lendo pedaços de um e de outro. Salto capítulos, reviro os livros e escolho páginas aleatórias na tentativa de entrar nas histórias e nas palavras. Mergulho em parágrafos que me marcam, afundo-me em frases que me fazem eco. Volto à superfície.

Por momentos, desvio o olhar dos livros para perceber o que se passa à minha volta. Entram e saem pessoas do supermercado. Há um homem que passa de guarda-chuva em punho como se fosse uma…

Marcadores: Capítulo 4

Levantou a cabeça. Olhou-me como se fosse pela primeira vez. Senti os olhos a percorrerem-me o rosto. Contornou-me os olhos, a boca, o nariz e parou o olhar para além de mim. É estranha a sensação de nos desenharem com os olhos, vermos-nos estampados na mente dos outros, recortados, colados e redesenhados. Deixamos de ser nós para passarmos a ser uma ideia de nós. Ana desenhou-me, mas abandonou a obra a meio para se colocar a uma distância de segurança. Foi para além de mim e por lá ficou.  - Desculpe tê-lo incomodado. Não devia ter vindo contagiá-lo com a minha tristeza. Estava aqui sossegado a beber a sua cerveja, melhor do que uísque, e vim trazer-lhe tristezas. A minha vida não tem estado fácil… Desculpe-me. É melhor ir-me embora. - Não, deixe-se estar. Estou a gostar de estar consigo. Além disso, não está em condições de ir sozinha para casa. Pelo menos, por agora. – disse-lhe, enquanto observava os dedos que tentavam desfolhar o marcador em forma de flor mais ou menos a meio do li…

Marcadores: Capítulo 1

Sentei-me na mesma mesa do canto. Pedi uma cerveja, acendi um cigarro e fiquei a olhar o mar. A esplanada estava quase vazia. Às três da tarde é normal não haver muita gente por aqui. Está muito calor. É a hora de que mais gosto, porque o vazio do espaço e a paisagem cheia ajudam-me a rascunhar palavras no meu caderninho. Escrevo frases soltas, sem grande nexo, que depois uso nos meus livros. O mar, lá em baixo, no fim da falésia a bater nas rochas e a brisa ligeira, cá em cima, a refrescar-me a mente, libertam as palavras que tenho presas em mim. Preciso de as soltar para voltar ao ténue equilíbrio que me mantém vivo. Trouxeram-me amendoins salgados. Sabem que são os meus aperitivos preferidos para acompanhar a cerveja. Bebo-a com mais gosto e com mais sede. Bebo golos pequenos, o gás faz-me arrotar se a tentar beber de um trago. Por isso, depenico a cerveja, e os amendoins, da mesma forma que sempre depeniquei a vida. Ela surgiu no cimo das escadas que nos leva até à esplanada. Sent…