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Pastores

Imagem retirada da Internet

A questão da popularidade tem-me intrigado o bastante para dedicar algum do meu tempo precioso a reflectir sobre as suas causas e consequências. Juntado a isto, o facto de estar desempregada e, por isso, ler muitas notícias e muitas cretinices, por exemplo no Facebook, fico meio alienada e dá-me para pôr o cérebro a funcionar, que, no final, resulta em "maravilhosas" dissertações como a que se segue:


A popularidade das figuras públicas, das figuras que, à força, pretendem ser públicas (como os meninos dos reality shows) e a popularidade dos ilustres anónimos que fazem carneiros, ups, desculpem, amigos, com muita facilidade, desconcertam-me. 

O facto de serem populares, a algumas pessoas (normalmente as que negam gostar de serem populares, por falsa modéstia) atribui-lhes um estatuto de credibilidade e excelência excessivo e podem dizer a maior das patacoadas que todos os seus tristes fãs dizem ámen e fazem-lhes vénias ou, então, como acontece no caso dos concorrentes da Casa dos Segredos, quando fazem qualquer coisa normalíssima, são imediatamente crucificados e expostos ao ridículo.
Qual é o problema de os meninos coçarem o rabo, tirarem macacos do nariz ou dizerem parvoíces? Toda a gente já coçou o rabo, tirou macacos do nariz e disse parvoíces. Ou não?
Pronto, têm razão, eles dizem parvoíces demais! É verdade! Mas não é necessário crucificarem-nos... Ou é? São parvos, ok, o que temos a fazer, se nos incomodam, é não ver a TVI quando eles estão por lá... Pois é, agora já não estão, mas estão nas capas de todas as revistas de fofoquices até esgotarem a bela imagem que lhes criaram, até já ninguém conseguir olhar para as suas fronhas catitas ou até a maledicência a seu respeito estar completamente esgotada! Não comprem as revistas, se não os querem ver. Mas a verdade é que as pessoas gostam de os ver, gostam de ter alguém com quem gozar, gostam de intrigas e tricas maléficas, gostam de alimentar polémicas e mostrarem que "não é nada comigo, não é nada comigo. Eu estou muito acima de tudo isto!".
Tretas!

Será que o público, tanto de uma das categorias de pessoas como da outra, não consegue encontrar o meio-termo entre a besta e o bestial? Será impreterivelmente necessário colocarem-nas num pedestal ou classificarem-nas abaixo de lixo?
Não consigo compreender a necessidade de se amar ou de se odiar tanto os ídolos... Não é possível atribuírem-lhes um estatuto mais humano, com defeitos e qualidades, com handicaps e dons?

E com isto, estou a voltar à história dos Carneiros, que tanto me afligem, mas hoje quero mesmo é focar-me nos pastores que, na realidade, não me afligem muito menos...

Neste país, basta dizer-se uma coisinha de jeito, que seja aprovada por alguém de renome, para o pessoal ficar todo: "Ahhhh!!!! Que inteligência suprema! Tchhhhh!!! Que maravilha!"
Depois, podem dizer-se todas as barbaridades, e mais algumas, que se continua a ser alguém "muito inteligente".
Ou então, diz-se uma parvoíce qualquer e passa-se a ser o estúpido para o resto da vida e, tudo o que se diz de seguida, já não é ouvido ou é adoravelmente gozado.
E depois, há quem saiba, tão bem, jogar com tudo isto a seu favor: A maravilhosa e profissionalíssima comunicação social, os esplendorosos governantes, o comentador televisivo de alto gabarito, o escritor reputado, a miúda/o mais gira da turma e tantos outros ilustres...

Para além de manipularem a opinião pública, acham-se os maiores, acreditam piamente que são os maiores e beijam-se e abraçam-se num deleite egocêntrico depressivo... E ai de quem lhes diz que estão errados, ai de quem lhes aponta uma gaffe, ai de quem os confronta com uma opinião contrária, ai do pessoalzinho que se atreve a olhá-los nos olhos por mais de dois segundos...
Este pessoalzinho é inevitavelmente e prontamente tramado! Caem-lhes em cima os pastores e os carneiros, que lhes fazem um moche magistral para depois se juntarem numa orgia intelectual repugnante!

Aos pastores e aos carneiros só lhes tenho mesmo a dizer:
Vão-se mas é catar (e pastar), seus idiotas!

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