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Mau Comportamento

Imagem retirada da Internet
Hoje em dia, fala-se muito do comportamento das crianças. Ouve-se dizer por aí, que os miúdos portam-se muito mal, que nunca estão quietos, que não conseguem estar sentados, que falam pelos cotovelos, que respondem mal aos professores, etc., etc....

Concordo com tudo isso, mas não posso deixar de me interrogar se eles se portarão pior do que os miúdos de há alguns anos atrás, ou se nós é que já não somos tão tolerantes, ou se não estaremos apenas mais atentos do que estavam os nossos pais e avós.
As crianças continuam a ser crianças, mas será que nós permitimos que elas sejam realmente crianças? Quantas crianças têm, actualmente, tempo para brincarem livremente? Quando digo livremente, quero dizer sem actividades orientadas e/ou programadas. Uma em cada cinco, uma em cada dez? Não faço ideia dos números, mas parece-me que não serão muitas. Não estaremos a exigir demais das nossas crianças? Não quereremos nós que elas adquiram uma quantidade enorme de competências para as quais elas ainda não estão preparadas? Não quereremos nós que elas saibam, inglês, música, ginástica, informática e que se portem bem em todas essas actividades, enquanto o que precisam realmente é de brincar?
O "nós" a que me refiro, somos os "nós" pais, os "nós" professores, os "nós" sociedade...

Para olharmos para os maus comportamentos das crianças de hoje, com olhos de ver, não nos podemos esquecer que, há alguns anos atrás, as crianças eram muito mais reprimidas pela presença dos adultos do que são as de agora. Talvez por isso os enfrentassem menos... Ter-lhes-iam mais respeito ou seria o medo que as impediria de os enfrentar?
As crianças de antigamente faziam menos asneiras, do que as de hoje ou tinham mais tempo e espaço para as fazerem sem ninguém saber?

Atenção, não quero, com isto, defender os maus comportamentos nem das crianças de agora, nem das de antigamente, não estou contra nem a favor de nenhuma das duas, só quero tentar entender se o mau comportamento aumentou realmente e, se aumentou, o que é que o motiva.

Penso haver alguns factores, que provocam os maus comportamentos, que são flagrantes e os quais enuncio:
-A falta de educação
-A falta de tempo para brincarem livremente
-A falta de actividades ou brincadeiras que lhes permitam gastar energias
-Os problemas psicológicos 
-Os problemas familiares

Começando pela falta de educação que, para mim, é o mais preocupante, não o vejo como um problema das crianças, vejo-o sim como um problema da sociedade. Como poderá uma criança ser educada, se os seus pais não sabem o que isso é?
Muitas pessoas não tiveram educação, como poderão elas transmiti-la aos filhos? Nesta nossa sociedade, a falta de respeito pelo outro impera, e se a educação não é mais do que o respeito pelo outro e o respeito não existe na sociedade como podemos querer que as crianças o tenham enraizado?

O segundo factor é incontornável. A falta de tempo para brincarem livremente obriga as crianças a acumularem energias que terão que libertar, mais cedo ou mais tarde, e enche-as de pequeninas frustrações e contenções, que todas juntas, são um peso enorme nas suas vidas, provocando reacções bruscas a estímulos aparentemente insignificantes e, consequentemente, provocando os tão odiados maus comportamentos.
Se não brincam livremente como podem elas ter capacidade de concentração no que quer que seja?

A falta de actividades ou brincadeiras que lhes permitam gastar energias está ligada ao segundo factor, mas por si só, também condiciona o comportamento das crianças. Estas, muito mais do que os adultos, precisam gastar energias e, actividades de sala de aula, em que estão sentadinhas o tempo todo, ou de tempos livres em que jogam Playstation ou vêem televisão, e em que apenas precisam de mexer os dedos, em nada contribuem para esse gasto de energia. Como no caso do segundo factor, essas energias terão que ser libertadas e, por vezes, são-no nas ocasiões menos próprias e através de "explosões" comportamentais.

Os problemas psicológicos podem ser dos mais variados e, quando não são entendidos como tais, podem ser confundidos com a falta de educação. Muitas vezes, estes são os mais difíceis de resolver e os que provocam mais maus comportamentos. Alguns psicólogos catalogam-nos de hiperactividade e receitam medicamentos às crianças. Serão, todos eles, verdadeiros casos de hiperactividade?

Por último, os problemas familiares, que podem gerar problemas psicológicos, ou reflectirem, apenas, os exemplos que as crianças têm em casa. Por exemplo, pais agressivos têm filhos agressivos com maior facilidade do que pais mais calmos, porque os filhos tendem a seguir os exemplos dos pais. Poderão as crianças ter a perspicácia necessária para analisarem os exemplos dos pais e perceberem se os devem ou não seguir?

E agora só mais uma perguntinha: 
Poderemos exigir, às crianças, que se comportem bem sem identificarmos e resolvermos, primeiro, os problemas que causam os maus comportamentos?
Eu acho que não e, por isso, os pais que dizem à boca cheia "ai do meu filho que se porte mal, se o fizer vou pô-lo de castigo" ou "não se podem admitir maus comportamentos, eles têm que saber comportar-se nas aulas, eles têm que aprender a estarem sossegados e a respeitarem as regras" sem antes sequer tentarem descobrir as causas desses maus comportamentos, assustam-me.

É óbvio que não se podem admitir maus comportamentos, mas nunca os mudaremos se não formos ao cerne da questão, se não resolvermos os problemas pela raiz.
Com soluções rápidas e aparentemente eficazes, como as dos castigos e ralhetes, só vamos conseguir uma falsa eliminação dos maus comportamentos, pois se a causa não for banida o problema continua lá e continua lá a crescer. Os maus comportamentos não existem só porque sim, existem porque algo se passa com a criança que pode, ou não, ter origem nela própria, mas tem obrigatoriamente que ser identificado e resolvido, caso contrário um dia, olharemos para os nossos filhos e veremos neles pessoas frustradas, revoltadas e, pior que tudo isso, infelizes.


Ah, não me esqueci dos maus comportamentos próprios das várias fases de um crescimento saudável, mas esses são de outro tipo, não deste.

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