Avançar para o conteúdo principal

A Malinha

Imagem retirada da Internet 

Ao contrário do mais comum dos mortais, o meu filho não precisa de ar para respirar, em vez de ar, ele respira basquetebol por todos os poros.

Ele sabe os nomes das estrelas da NBA antigas e actuais, os nomes dos clubes, o ano em que o Michael Jordan deixou de jogar, encesta com uma bola imaginária a cada cinco minutos, saltita entre o cesto e a bola minúscula que tem no quarto, o jogo da NBA da Playstation e os jogos de basquetebol que dão na televisão e no tempo livre que lhe resta, tem treinos, jogos e pede-nos para irmos com ele a um cesto que há na rua, aqui perto de casa.
Tirem-lhe o basquete e ele fica em hiperventilação.

Tem o seu futuro meticulosamente programado. Vai jogar na NBA quando tiver exactamente 21 anos. Para isso, vai primeiro estudar para a universidade de Alabama nos EUA, a fim de ser seleccionado como jogador dos Miami Heat na NBA.
Tudo muito bem pensado e fácil, fácil de se realizar...

Expôs-nos este seu projecto de vida com a simplicidade com que só uma criança de 7 anos pode ver a vida.
Começámos a fazer-lhe perguntas para vermos até onde ia a sua determinação...
-Como vais falar com os teus colegas de equipa nos EUA? Não sabes falar inglês...
-Mas estou a aprender. Já posso falar com eles sobre o tempo. It's sunny! Vês?
-E quando nos vens visitar? Vais ficar lá muito tempo...
-Eu venho cá em Outubro, na altura do Halloween, para não estar lá a ver aquela gente toda mascarada de monstros.
-Só nos vamos ver uma vez por ano?
-Sim, porque depois eu vou ter jogos e não posso vir cá.
-E como vais estudar para os EUA? Não temos dinheiro para isso...
-Levo a malinha!
-Qual malinha?
-Aquela malinha das notas!
Comecei a fazer uma busca mental de todas as malinhas dele, sem descobrir nenhuma que tivesse notas...
-Qual malinha das notas?
-Aquela das boas notas! Vou estudar muito para ter uma malinha cheia de boas notas!
-Ah! Estás a falar de uma bolsa de estudo?
-Sim! É isso!
-Para teres uma bolsa de estudo, vais ter que trabalhar muito...
-Eu sei e vou trabalhar... Até podia tirar cá um curso antes, de jornalista, por exemplo. Quanto tempo demora esse curso?
-Três ou quatro anos.
-Então não dá! Eu vou para a NBA aos 21 e antes tenho que estudar lá na universidade. Olha, não tiro o curso para ser jornalista.

Ficámos sem argumentos...

Mensagens populares deste blogue

O Espelho

Em pequena fui protectora das minorias, dos mal-tratados e dos ofendidos. Costumava juntar-me à mais gorda ou mais feia da turma, aquela menina com quem toda a gente gozava e com quem ninguém gostava de ser visto. Tratava melhor os que eram desprezados e tinha uma atenção especial para com quem levava mais reguadas. Ainda sou um bocado assim, porém não tanto, porque as pessoas  que eu considerava minorias me foram mostrando tantos lados das suas personalidades que deixei de as ver apenas como mal-tratadas, ofendidas e carentes de protecção. Percebi, ao longo dos anos, que somos muito mais do que aquilo que aparentamos. E ainda bem, digo-o hoje.
Olhando para trás, penso que talvez o fizesse por pena de as pessoas não terem as mesmas atenções que os outros, ditos populares, e como que para compensar os males que lhes faziam. 
Olhando depois para dentro de mim, penso que também agia daquela forma para desviar os olhares das minhas próprias fragilidades. Se eu protegesse outros, sentir-me…

Afectos e machismo

Temos um PR adorado pelos seus abraços e beijinhos;Temos um acórdão do Tribunal da Relação do Porto que cita a Bíblia para desculpar a violência doméstica exercida sobre uma mulher adúltera.

Proponho o seguinte exercício: - Imaginar que o PR era uma mulher que investia em abraços e beijinhos aos populares; - Imaginar que o acórdão desculpava a violência doméstica exercida sobre um homem adúltero.
Que resultado obteríamos deste exercício? Calculo que surgiria a teoria de que a PR seria uma promíscua, carente de afectos, ou que se estaria a "atirar" a todo homem que lhe aparecesse à frente...Calculo que o homem agredido seria achincalhado por permitir sofrer violência doméstica por parte de uma mulher e que, em simultâneo, seria perdoado do adultério, tanto por ter uma mulher violenta, quanto por ter "carne fraca"... Enquanto condicionarmos a nossa avaliação das situações pelos géneros dos intervenientes, estaremos sempre em desigualdade. Enquanto não conseguirmos separar c…