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Idade dos Porquês

Imagem retirada DAQUI
O J. está sempre a fazer perguntas e estamos a pensar seriamente em oferecer-lhe uma enciclopédia, pois já não temos capacidade para responder a tantas perguntas.

Sempre pensei que "a idade dos porquês" era por volta dos 3/4 anos, mas a dele tem-se prolongado e com 7 anos, continua a querer saber tudo e mais alguma coisa.

Sim, eu tenho alguma "culpa no cartório", pois habituei-o a perguntar e sempre tentei satisfazer as suas dúvidas. Neste momento, começa a tornar-se bem difícil responder a perguntas tão complexas como as que ele nos faz.
O cérebro dele trabalha a uma velocidade alucinante e a cada frase nossa, segue-se uma quantidade de porquês, aos quais nem nós sabemos responder. (Talvez tenhamos mesmo que recorrer a uma enciclopédia...)

Penso que esta capacidade de se interrogar será uma qualidade, mas não sei se o mundo estará preparado para isso, pois quem pergunta é entendido como quem não sabe e quem não sabe é mal visto.
Eu explico o quero dizer com isto:
Cada vez mais, se exige um conhecimento sólido sobre os mais variados assuntos e as pessoas tendem a inventar quando não sabem, porque admitir o desconhecimento é tão mal interpretado como admitir um erro. Sob o meu ponto de vista, é positivo admitir tanto o que não se sabe, quanto o erro, mas a sociedade de um modo geral, não concorda comigo e eu própria já fui mal interpretada por isso e sei que ele também será.
As pessoas têm medo de perguntar e têm medo de quem pergunta, porque sentem-se testadas e postas em causa.

Porque haverá tanta dificuldade em dar a conhecer aos outros o nosso desconhecimento? E porque haverá tanta dificuldade em aceitar o desconhecimento dos outros?
Ninguém sabe tudo, mas ter a honestidade de o demonstrar e a capacidade de aceitar isso nos outros, parece um calvário para a maioria das pessoas. E tal como o J. , volto a perguntar "porquê?".
Só a capacidade de nos interrogarmos, nos pode fazer evoluir... A Humanidade evoluiu assim, colocando questões e tentando encontrar-lhes respostas. Porque não podemos fazer o mesmo connosco, individualmente ou colectivamente? O que temos a perder? A admiração dos outros? De que serve admirarem-nos por algo que não nos pertence ou por algo que é falso?
Perguntar não é socialmente bem aceite, no entanto é através desta acção que conseguimos saber mais. Será que, realmente, queremos saber mais, quando nos abstemos de perguntar?

A mim, parece-me que não, parece-me que preferimos fingir que sabemos a saber verdadeiramente... Preferimos que os outros pensem que somos um poço de cultura e de conhecimento, a lutarmos para nos superarmos, para nos enriquecermos intelectualmente. E se não lutamos por nós, ficamos mais pobres, pobres de espírito, que é muito pior do que não ter dinheiro...

Eu vou tentar responder sempre ao J. e vou continuar a incentivá-lo a perguntar sobre tudo o que ele quiser, perpetuando, assim, a "idade dos porquês" até que seja ele a abandoná-la por sua própria iniciativa (ou não!), porque a maior pobreza que uma pessoa pode viver é a de não querer evoluir, é deixar-se estagnar a pensar que se chegou à meta do seu ser. E vou incentivá-lo, sabendo que ele vai sofrer, mas acreditando que este é um sofrimento que vale a pena!

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