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Avôzinho


O meu avô:
É culpado de muitas coisas... É culpado de ter sido um pai ausente, é culpado de ter sido um negociante inveterado, é culpado de ter sido um patrão sem escrúpulos, mas, para mim, a sua maior culpa foi ter-se ido embora e ter deixado o mundo mais pobre.
De tantas culpas, as que ficaram na memória da maioria de nós, foi a de pai ausente para os filhos e a de avô magnífico para os netos que tiveram a oportunidade de privar com ele.

O meu avô ensinou-me:
A chamar "bicho, bicho, bicho" aos gatos para que viessem comer;
A encher os pneus da bicicleta;
Que as plantas precisavam de carinho para crescerem mais fortes;
Que todas as ferramentas tinham um nome;
Que os gatinhos recém-nascidos, rejeitados pelas mães, tinham que ser aquecidos artificialmente para não morrerem.

O meu avô:
Comia sopas de leite com Ovomaltine ao pequeno-almoço;
Conduzia como ninguém;
Fazia uma ginástica matinal que não era mais do que um espreguiçar energético, em tronco nu, na varanda;
Tocava viola para exercitar os dedos que se negavam a responder aos estímulos da sua mente;
Contava o dinheiro que fazia nas vendas numa espécie de ritual que eu adorava: endireitava os cantos das notas, virava todas para o mesmo lado, dava umas cuspidelas nas pontas dos dedos e dedilhava-as meticulosamente numa contagem quase religiosa.
A mão peluda do meu avô, a cheirar a sabonete e com o anel de pedra preta junto à aliança agarrou-me muitas vezes o braço... Numa delas, salvou-me a vida, ao evitar que eu caísse de costas de um muro com aproximadamente 8 metros.

O meu avô:
Fazia barulho a comer a sopa;
Não dispensava um copo de vinho tinto à refeição;
Era guloso;
Dormia a sesta todos os dias, estivesse onde estivesse, dormia até em pé, nas bichas das Finanças.

O meu avô:
Foi uma das pessoas mais importantes na minha infância;
Partiu sem que eu me conseguisse despedir, talvez por negação da hipótese da sua partida;
Teve uma morte lenta e o silêncio que se impôs nunca permitiu que se queixasse;
Sofreu por todas as culpas que lhe atribuem;
Faz parte de mim e vive dentro do meu coração...

Por vezes, chamo-o nos sonhos:
-Avôzinho, diz-me tu, úh úh, úh úh!!!!


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Anita no Facebook

O Facebook anda a fazer-me mal. O chato é que preciso daquilo como ferramenta de trabalho e acaba por ser difícil desligar de vez ou até fazer um intervalinho com fins terapêuticos.
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Tarde de sábado:  Anita vai a uma exposição qualquer interessantíssima ou Anita sai à rua e vê as pessoas a passar
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