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Das Alturas

Como já disse aqui, eu meço 1,80 cm, mas ainda não disse que o pai do meu filho mede 1,75 cm, ou seja, eu sou mais alta do que ele 5 cm. Não é muito, mas é o bastante para se notar à distância!

E perguntam-me vocês porque estarei eu a falar destas coisas de alturas...
E eu respondo-vos, porque, durante muito tempo, tive complexos de ser tão alta!

Em pequena, nunca fui pequena e pode-vos parecer estranho, mas isto mexe com a auto-estima de uma pessoa, quanto mais com a de uma criança... 
Sempre fui a mais alta em todo o lado e por isso, as pessoas só me viam em profissões como jogadora de basquetebol (para o qual nunca tive jeitinho nenhum, apesar de gostar muito deste desporto) ou modelo (a qual ainda tentei, sem grande êxito, pois não faz muito o meu estilo andar a disputar as atenções dos outros com ninguém, nem gosto de passar fome e eu teria que passar MUITA fome para ficar com o aspecto escanzelado pretendido, porque a minha constituição óssea é larga)... 

Por estas razões e outras tantas, vivi uma grande parte da minha vida encolhida para parecer mais pequena...

E eis que chega a adolescência, a fase de todos os complexos, a que eu aderi em pleno! Continuei encolhida, porque a "mulher portuguesa quer-se pequenina e magrinha como a sardinha" e quanto ao pequenina, a única coisa que eu podia fazer era encolher-me e... encolhi-me...
Algumas pessoas diziam-me: 
-Eu queria ser tão alta como tu!
Não, não queriam... Estavam redondamente enganadas, porque ser grande num país de pequeninos é tão mau como ser pequenino num país de grandes! 
As mulheres vêem-nos como "cavalonas" ou invejam-nos porque os seus homens olham para nós (tal como toda a gente olha, porque damos nas vistas por causa de termos uma altura pouco comum) e os homens sentem-se intimidados, porque uma mulher grande é olhada por supostos rivais e porque, como qualquer macho latino que se preze a afirmar a posse sobre a sua fêmea, é muito mais difícil, senão impossível, por o braço por cima de uma mulher mais alta do que eles, do que pô-lo cima de uma mais baixa. 

Então, o que nos resta, a nós mulheres grandes, fazer?
Estarmo-nos a lixar para a maneira como nos olham e seguirmos em frente!
Quanto a arranjar par, podemos procurar homens maiores do que nós (o que é bastante difícil neste Portugal dos Pequenitos) ou procuramos umas "aves raras" que gostem de mulheres que nunca mais acabam...
Eu consegui arranjar o segundo tipo de homem (depois de muita procura, é certo!) e dou-me por muito satisfeita, até porque ele tem força suficiente para me pegar ao colo (coisa que aprecio bastante), apesar de ficar de rastos nas horas que se seguem...

E os complexos?
Esses foram-se... Porque a adolescência já vai longe, porque as mulheres não se medem aos palmos e porque é sempre melhor cultivarmos um bom conteúdo, do que ficarmos preocupados com a embalagem...

Hoje, já não me encolho e até acho piada ao casal assimétrico e invulgar que formamos...

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