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Peninha

Quando estive doente, poucas pessoas o souberam, por opção minha e por não ter paciência para ter toda a gente a fazer inúmeras perguntas às quais eu teria que responder sempre a mesma coisa. Gosto que se preocupem comigo, mas apenas quem me é mais chegado e quem se preocupa verdadeiramente. Quanto às outras pessoas dispenso a preocupação fictícia ou a conversa de circunstância. Não acho que a doença seja um assunto leviano e por esse motivo não deve ser usado, nem explorado para exprimir um sentimento que eu considero odioso, a "peninha".

Para mim, a "peninha" não passa de uma tentativa, da parte dos que a exibem, de se sentirem superiores aos que, por um qualquer motivo, sofrem. Por isso, é odiosa. Não serve para nada, a não ser para acariciar o ego de quem não está a sofrer. Geralmente, os portadores deste sentimento gostam de ir exibi-lo para os hospitais, sentindo-se umas Madres Teresas de Calcutá a praticar o bem e, mal saem do hospital, vão telefonar a toda a gente a contar o estado deplorável em que o doente visitado se encontrava e em como foram generosos ao irem visitá-lo e dar-lhe o seu "sincero" apoio moral.
Quando inebriados na sua bondade, contam todas as desgraças que lhes aconteceram (com a intenção de formarem um elo de ligação com o doente e, essencialmente, de provocarem nele um sentimento de admiração pelas pessoas maravilhosas e cheias de força que são) e esquecem-se (ou não) que estão a cansá-lo e a fazê-lo sentir-se ainda pior. Gostam particularmente de levar testemunhas da sua bondade, mesmo que estas sejam desconhecidas do doente que visitam, pois assim têm quem corrobore todas as suas afirmações quando relatam aos amigos o estado do enfermo. Com isto, violam a privacidade do doente, mas isso não lhes interessa, o importante é a sua imagem de beneficente vingar!
Esquecem-se que estão a utilizar a dor do outro para se enaltecerem, que em vez de ajudarem estão a piorar a situação de quem já está a passar por sofrimento que lhe baste, ou então, nos casos mais agudos de "peninha", não se esquecem, fazem-no propositadamente...

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

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