Avançar para o conteúdo principal

Peninha

Quando estive doente, poucas pessoas o souberam, por opção minha e por não ter paciência para ter toda a gente a fazer inúmeras perguntas às quais eu teria que responder sempre a mesma coisa. Gosto que se preocupem comigo, mas apenas quem me é mais chegado e quem se preocupa verdadeiramente. Quanto às outras pessoas dispenso a preocupação fictícia ou a conversa de circunstância. Não acho que a doença seja um assunto leviano e por esse motivo não deve ser usado, nem explorado para exprimir um sentimento que eu considero odioso, a "peninha".

Para mim, a "peninha" não passa de uma tentativa, da parte dos que a exibem, de se sentirem superiores aos que, por um qualquer motivo, sofrem. Por isso, é odiosa. Não serve para nada, a não ser para acariciar o ego de quem não está a sofrer. Geralmente, os portadores deste sentimento gostam de ir exibi-lo para os hospitais, sentindo-se umas Madres Teresas de Calcutá a praticar o bem e, mal saem do hospital, vão telefonar a toda a gente a contar o estado deplorável em que o doente visitado se encontrava e em como foram generosos ao irem visitá-lo e dar-lhe o seu "sincero" apoio moral.
Quando inebriados na sua bondade, contam todas as desgraças que lhes aconteceram (com a intenção de formarem um elo de ligação com o doente e, essencialmente, de provocarem nele um sentimento de admiração pelas pessoas maravilhosas e cheias de força que são) e esquecem-se (ou não) que estão a cansá-lo e a fazê-lo sentir-se ainda pior. Gostam particularmente de levar testemunhas da sua bondade, mesmo que estas sejam desconhecidas do doente que visitam, pois assim têm quem corrobore todas as suas afirmações quando relatam aos amigos o estado do enfermo. Com isto, violam a privacidade do doente, mas isso não lhes interessa, o importante é a sua imagem de beneficente vingar!
Esquecem-se que estão a utilizar a dor do outro para se enaltecerem, que em vez de ajudarem estão a piorar a situação de quem já está a passar por sofrimento que lhe baste, ou então, nos casos mais agudos de "peninha", não se esquecem, fazem-no propositadamente...

Comentários

  1. É mesmo verdade...As pessoas são horríveis,algumas ficam mesmo desiludidas quando o/a doente regista melhoras!Tristeza!!!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Vá lá, digam qualquer coisinha...
...por mais tramada que seja...

Mensagens populares deste blogue

Anita no Facebook

O Facebook anda a fazer-me mal. O chato é que preciso daquilo como ferramenta de trabalho e acaba por ser difícil desligar de vez ou até fazer um intervalinho com fins terapêuticos.
Ultimamente, ando tão farta de por ali andar que já tudo me parece os livros da Anita.
Antes do Verão: Anita corre quilómetros para caber no biquíni
Em férias:  Anita mete o pezinho na areia e o nariz no mar
Em dias de sol: Anita vai à esplanada com as amigas e diverte-se a potes
No fim das férias:  Anita volta para o trabalho chateadíssima, mas, pronto, a vida é assim e tem que trabalhar
À hora das refeições:  Anita cozinha um delicioso jantar cheio de super-alimentos e de baixas calorias ou  Anita vai almoçar a um sítio todo fashion, come imenso marisco e bebe sangria de champagne
Tarde de sábado:  Anita vai a uma exposição qualquer interessantíssima ou Anita sai à rua e vê as pessoas a passar
Sábado à noite:  Anita dança e bebe gin 
Tarde de domingo:  Anita vê um filme com a família ou Anita tem umas flores lindas…

Ler e escrever

Há uma candura e uma vontade de regressar à infância de quem lê e escreve. Ler, e escrever, vai para lá do que é o real. Leva-nos para um mundo imaginário, conduzido por quem escreve, mas só nosso, tão pessoal. Talvez por isso, ler e escrever sejam estreitos encontros com a solidão...

Quando se lê um livro, mergulha-se numa dimensão à parte. Trilha-se um caminho de ficção e trilha-se outro que só existe no nosso interior. Percorrem-se as dúvidas e as certezas, os sonhos e a realidade, como se fossem sempre tão próximos. Parte-se da fantasia para a existência, sem nunca se sair completamente de dentro de nós.
Ler, e escrever, é uma viagem ao tempo em que a imaginação nos comandava as emoções. É explorar o quarto escuro que nos apavorava ou os jardins que nos deslumbravam. É ir, e não voltar, aos lugares onde nos sentíamos sós e incompletos, mas ao mesmo tempo cheios de desconhecimento, inocência e ilusão.
Ler, e escrever, é um exercício egoísta, em que não cabe lá mais ninguém para além d…