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Carta Para Ti Que Me Aturas Há Tantos Anos

Escrevo-te esta carta porque:
Faz hoje cinco anos que fomos ao Registo Civil assinar um papel (que já nem se assinava), onde confirmámos legalmente que iríamos continuar a ser um para o outro o que tínhamos sido até aí, onde respondemos que não tínhamos alianças quando nos disseram que as podíamos trocar e onde não nos beijámos no final, porque o preferimos fazer, sozinhos, numa noite de núpcias que foi igual a tantas outras em que consumámos este amor que nos une.

Nesse dia, eu estava doente, feia, o pouco cabelo que tinha estava horrível, inchada dos corticóides, frágil e com poucas perspectivas futuras e, apesar de tudo, tu não me abandonaste, não deixaste de me amar e foste a principal razão, juntamente com o J., para que eu lutasse e não desistisse de gostar da vida.

Nunca deixaste de me olhar como se eu estivesse linda (apesar de todos sabermos que eu não estava), nunca duvidaste em ficar ao lado de uma pessoa que podia não ter muito tempo, nunca vacilaste, nunca desististe...

E, também, porque nos momentos mais difíceis da minha vida estiveste sempre lá, com a tua calma e paciência:
Na "sala de chuto" do IPO, a dizer parvoíces que nos faziam rir às gargalhadas parecendo dois tontinhos no meio de uma sala que cheira a morte e a doença. Só tu, com o teu humor contagiante, conseguias distrair-me do sofrimento que era passar por aquela sala...

Em casa, depois de um dia de trabalho, quando eu não podia com uma gata pelo rabo, tu tratavas de mim e do J., sem cara feia, sem desanimares e com a força que só um Homem com H grande pode ter.

À noite, quando o desespero tomava conta de mim e eu chorava com medo de perder esta vida, aqui, contigo e com o J., tinhas sempre aquele abraço e as palavras certas para um consolo quente que me davam o sossego necessário para adormecer com a esperança de que ainda ia ver o dia seguinte.

Quando existiu a hipótese de perder a minha mãe, tu deste-me esse ombro que eu enchi de lágrimas...

Quando o J. esteve em perigo de vida, tu vieste do outro lado da Europa, trazendo contigo o sorriso que ele tinha perdido.

E, sobretudo, escrevo esta carta porque te amo mais do que nunca e não quero deixar de te dizer

Obrigada


(Prometo que amanhã já não há lamechices!)

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