Avançar para o conteúdo principal

O Carrinho De Bebé E A Chucha Com Uma Criança No Meio

Entre uma quantidade enorme de outras coisas, há uma que me faz mesmo muita impressão ...  

Ver crianças com mais de três anos em carrinhos de bebé com uma chucha na boca, põe os meus (dois) neurónios numa luta desenfreada, à procura de uma explicação que seja suficientemente válida para valer tamanha atrocidade. 

Podem dizer-me que "as crianças cansam-se muito, estão sempre a pedir colo e assim vão ali descansadinhas, enquanto nós não precisamos de parar para atender às birras do "não quero andar mais"". Podem até tentar convencer-me que assim "vão mais calmas e entretidas" ... Em relação à chucha a frase que mais oiço é "não conseguimos tirar-lha, já tentámos de tudo"...

Desculpem-me, mas não me convencem que acreditem realmente que estas são umas boas justificações ou que não conseguem fazer melhor do que isso ...

Quando alguém me "atira" com histórias destas, só me apetece dizer: 
-Essa conversa cheira-me, unicamente, a comodismo "puro e duro"!

Ninguém disse que era fácil educar os filhos, nem que bastava dizermos para eles fazerem uma coisa, que eles iam logo a correr fazê-la ... Ninguém disse que nós (pais) sabemos sempre como convencê-los, nem que éramos perfeitos e donos da razão em todas as situações ...

Ser pai/mãe é uma tarefa árdua! É preciso tentar, tentar e tentar ... E se não chegar, tentar outra vez  e com todos os meios ao nosso alcance ...

Claro que é muito mais fácil deixá-lo andar de chucha até o dentista dizer que se não lha tiramos a criança vai ficar com os dentes todos tortos. Claro que é muito mais fácil ter os nossos filhos "arrumados" num carrinho de bebé enquanto fazemos compras, do que pegá-lo ao colo de 10 em 10 minutos ou ter que ralhar com ele, em público, quando faz uma birra.

Quem disse que na educação das crianças, o fácil é o melhor caminho?

Devem estar a pensar quem sou eu para ter a mania que percebo muito de educação ...

É verdade não sou ninguém especial, nem percebo assim tanto de educação, mas sou uma mãe que já passou, pelo menos, pelas birras na rua e pelo cansaço de um filho que "neste momento não dá jeito nenhum, porque tenho imenso que fazer!"

E ainda vos digo mais: quando estava grávida do J., desejava tudo menos ter um filho que se atirasse para o chão em plena via pública. E sabem o que aconteceu? O J., com cerca de dois anos, fazia birras, de eu o ter que trazer arrastado por um braço, aos gritos, nada menos do que dia sim, dia sim ...

Eu não sabia lidar com este tipo de teimosia (só com aquele em que dizemos "ok, tens razão" e depois damos meia volta e deixamos a pessoa a falar sozinha) e fui aprendendo.

Se aprendi logo? Se foi fácil? Se errei?
Não, não e sim, muito. Mas nunca optei pela via, aparentemente, mais fácil - enfiá-lo num carrinho de bebé com uma chucha na boca!

As crianças precisam de fazer birras para afirmarem a sua personalidade e nós precisamos aprender a lidar com elas, impondo limites para que elas saibam até onde podem ir.
É uma questão de quase sobrevivência para as crianças, elas precisam perceber que se não param antes do precipício, acabam por cair!
Evitar as birras não ensina nada a ninguém, antes pelo contrário, adia um problema que, mais tarde, será muito mais difícil de resolver, acreditem!

Mensagens populares deste blogue

Por entre livros e árvores

Estou sentada no sofá do supermercado junto aos livros.

Incrivelmente este supermercado tem um sofá para quem vê livros. Confesso que sou uma parasita das livrarias, daquelas que lêem muitos pedaços de literatura e raramente compram alguma coisa. Namoro livros durante meses, às vezes anos e só os compro quando já se criou uma certa intimidade entre mim e eles, ou entre mim e os seus autores.
Também compro por impulso, mas é mais raro agora que tenho menos dinheiro para consumismos.

Hoje, levo comigo para o sofá o Lobo Antunes e o Rodrigo Guedes de Carvalho. Vou lendo pedaços de um e de outro. Salto capítulos, reviro os livros e escolho páginas aleatórias na tentativa de entrar nas histórias e nas palavras. Mergulho em parágrafos que me marcam, afundo-me em frases que me fazem eco. Volto à superfície.

Por momentos, desvio o olhar dos livros para perceber o que se passa à minha volta. Entram e saem pessoas do supermercado. Há um homem que passa de guarda-chuva em punho como se fosse uma…

Marcadores: Capítulo 4

Levantou a cabeça. Olhou-me como se fosse pela primeira vez. Senti os olhos a percorrerem-me o rosto. Contornou-me os olhos, a boca, o nariz e parou o olhar para além de mim. É estranha a sensação de nos desenharem com os olhos, vermos-nos estampados na mente dos outros, recortados, colados e redesenhados. Deixamos de ser nós para passarmos a ser uma ideia de nós. Ana desenhou-me, mas abandonou a obra a meio para se colocar a uma distância de segurança. Foi para além de mim e por lá ficou.  - Desculpe tê-lo incomodado. Não devia ter vindo contagiá-lo com a minha tristeza. Estava aqui sossegado a beber a sua cerveja, melhor do que uísque, e vim trazer-lhe tristezas. A minha vida não tem estado fácil… Desculpe-me. É melhor ir-me embora. - Não, deixe-se estar. Estou a gostar de estar consigo. Além disso, não está em condições de ir sozinha para casa. Pelo menos, por agora. – disse-lhe, enquanto observava os dedos que tentavam desfolhar o marcador em forma de flor mais ou menos a meio do li…

Marcadores: Capítulo 1

Sentei-me na mesma mesa do canto. Pedi uma cerveja, acendi um cigarro e fiquei a olhar o mar. A esplanada estava quase vazia. Às três da tarde é normal não haver muita gente por aqui. Está muito calor. É a hora de que mais gosto, porque o vazio do espaço e a paisagem cheia ajudam-me a rascunhar palavras no meu caderninho. Escrevo frases soltas, sem grande nexo, que depois uso nos meus livros. O mar, lá em baixo, no fim da falésia a bater nas rochas e a brisa ligeira, cá em cima, a refrescar-me a mente, libertam as palavras que tenho presas em mim. Preciso de as soltar para voltar ao ténue equilíbrio que me mantém vivo. Trouxeram-me amendoins salgados. Sabem que são os meus aperitivos preferidos para acompanhar a cerveja. Bebo-a com mais gosto e com mais sede. Bebo golos pequenos, o gás faz-me arrotar se a tentar beber de um trago. Por isso, depenico a cerveja, e os amendoins, da mesma forma que sempre depeniquei a vida. Ela surgiu no cimo das escadas que nos leva até à esplanada. Sent…

Marcadores: Capítulo 3

O sol baixou para mais perto da linha do horizonte, ficando a um palmo do mar. Tinha-se passado tempo que não senti. Chet Baker tocava, agora, trompete só para nós. “I talk to the trees” pairava pela esplanada em busca do melhor lugar para se aninhar. Aninhou-se ali, entre mim e aquela mulher-menina. Não havia mais ninguém na esplanada, o casal da única mesa ocupada além das nossas tinha desaparecido, por isso o empregado aumentou o som. Faziam-no sempre que não havia gente que se pudesse queixar do barulho. Nunca me queixei. Antes pelo contrário, era essa a razão que me levava a percorrer quilómetros até ali: o jazz, por vezes alto, quanto mais alto melhor, e o sol a pôr-se no horizonte, quanto mais baixo melhor. - É a primeira vez que aqui venho – interrompeu-me, Ana, os pensamentos como se os lesse e precisasse de lhes responder – Costuma cá vir? - Sempre. Quase todos os dias no verão. - Porque não gosta de Direito? – saltava de tema em tema como se todos estivessem interligados. - Não…