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Miragem


Não sei se vocês, tal como eu, pertencem àquela categoria de pais que crê piamente que os filhos, à medida que crescem, vão sendo mais fáceis de cuidar ... 

Quem crê nesta teoria que se desiluda, pois não passa de uma perfeita miragem.

Constato este facto diariamente, mas teimo em acreditar que "quando ele for mais velhinho vai ser mais fácil". 

Mentira! Estou, continuamente, a tentar enganar-me ... 

Quando ele for mais velhinho vai ser mais difícil do que agora, muito mais e cada vez mais ...

Quando os nossos filhos são pequeninos queixamo-nos, porque temos que lhes fazer tudo - dar de comer, banho, mudar a fralda, vestir. É cansativo, extenuante, ficamos sem tempo para nada e agarramo-nos à convicção, que com o passar dos anos, vai melhorar. Não vai! 

Quando eles crescem, passam a conseguir ir fazendo estas coisas sozinhos - comer, lavar os dentes, limpar o rabo, tomar banho. E nós pensamos: Que bom, já vou começar a ter mais tempo para fazer as minhas coisas!

Esta é uma das maiores fraudes à Humanidade! Não se enganem, porque para eles fazerem qualquer uma destas singelas tarefas, temos que lhes dizer para a fazerem centenas de vezes. Não estou a brincar, cada tarefa realizada significa repetirmos a mesma frase numa média de 350 vezes ... 

Aqui em casa, temos um problema genético acrescido - a distracção!

Já aconteceu mais de uma vez, após ter dito a mesma frase vezes sem fim, tal e qual um relógio de repetição e ter, finalmente, conseguido que o J. se dirigisse à casa de banho para ir lavar os dentes, ele chegar a meio do corredor (que não tem mais de 5 metros) e perguntar-me:
- Era para fazer o quê?

Hoje, ele conseguiu superar-se ... 

Estávamos os dois na casa de banho (o que dificultava a hipótese dele se esquecer, pois não tinha que percorrer a imensidão do corredor até chegar ao local desejado) e eu tinha-lhe já dito para lavar os dentes aquelas vezes todas da praxe, ele olha para mim com aquela expressão de quem acabou de acordar de um sonho e pergunta:

-Onde é que estão os meus dentes?

Eu olho para ele, incrédula e na indecisão se digo alguma coisa ou se começo a dar marradas na parede até a partir (a parede, claro!). Ele apressa-se a dizer:

-Ah, na boca!


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