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Não Gosto Especialmente de Crianças

É verdade, não gosto especialmente de crianças, mas sinto que há uma estranha afinidade que nos liga. Não sou daquelas pessoas que mal vê um bebé, corre logo para o pegar ao colo, que faz "gu-gu, dá-dá" a qualquer um, ou que faz caretas e brincadeiras no primeiro encontro.

Sim, sou das difíceis (pelo menos com as crianças)!

Se algum pai babado me diz:
-Não quer pegar nele ao colo?
Eu respondo logo:
-Não, não, deixe estar, obrigada!

Geralmente, não me meto com os filhos dos outros, apenas lhes sorrio timidamente. São as crianças que se metem comigo ou então ficam a olhar-me fixamente, que até me deixam envergonhada ...
Por vezes, quando estou num qualquer sítio público, olho em volta e tenho umas tantas criancinhas a olhar para mim. Acreditem, é deveras intimidador!

Sinto, que eu e as crianças estamos sintonizados no mesmo posto, enquanto o resto dos adultos estão num outro qualquer ... Quase comunicamos telepaticamente... Sem pronunciarmos uma única palavra temos longas conversas ... Somos cúmplices num silêncio, que diz mais do que muitas palavras de adultos ...

A comunicação com as crianças (tal como com os animais) alicia-me muito mais do que com os adultos, porque é mais básica ... Não há falsidades ... Ou se gosta ou não se gosta, ou é ou não é... O que se diz (e diz-se muito pouco) é verdade, não é para agradar, nem porque é politicamente correcto ... Há verdade no olhar, nas acções, nas palavras ...

O J. hoje disse-me "Tens tantas rugas!", em vez de "Devias ter mais cuidado com a pele!". O que ele me disse veio fundo do seu coração, não artificialmente processado para me agradar ou para não me chocar ... Foi verdadeiro... E é verdade, eu tenho tantas rugas! E, depois, qual é o problema???


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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

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"Bom dia e as melhoras!"

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