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Mensagens

Afectos e machismo

Temos um PR adorado pelos seus abraços e beijinhos;Temos um acórdão do Tribunal da Relação do Porto que cita a Bíblia para desculpar a violência doméstica exercida sobre uma mulher adúltera.

Proponho o seguinte exercício: - Imaginar que o PR era uma mulher que investia em abraços e beijinhos aos populares; - Imaginar que o acórdão desculpava a violência doméstica exercida sobre um homem adúltero.
Que resultado obteríamos deste exercício? Calculo que surgiria a teoria de que a PR seria uma promíscua, carente de afectos, ou que se estaria a "atirar" a todo homem que lhe aparecesse à frente...Calculo que o homem agredido seria achincalhado por permitir sofrer violência doméstica por parte de uma mulher e que, em simultâneo, seria perdoado do adultério, tanto por ter uma mulher violenta, quanto por ter "carne fraca"... Enquanto condicionarmos a nossa avaliação das situações pelos géneros dos intervenientes, estaremos sempre em desigualdade. Enquanto não conseguirmos sep…
Mensagens recentes

O Pintas

Estudei Gestão Equina numa terra no centro de Portugal.
A escola dividia-se entre uma antiga escola, no centro da aldeia, convertida em internato masculino e salas de aulas e uma herdade a uns setecentos ou oitocentos metros já quase fora da localidade.
Os alunos tinham aulas ora na escola, ora na herdade e seguiam geralmente a pé de um lado para o outro.
Um dia, o Pintas apareceu por lá (já não me lembro bem onde o encontrámos pela primeira vez), um cão talvez arraçado de dálmata, pois era branco com pintas negras.
Deram-lhe o nome de "Pintas", mas havia quem o chamasse de "Beethoven". Na verdade, podiam chamá-lo como quisessem que o cão reconhecia quando a conversa era com ele.
O Pintas fazia o caminho herdade/escola e escola/herdade vezes sem conta. Penso que a intenção era acompanhar os seus amigos preferidos no caminho que separava as duas instalações escolares... Seguia a nosso lado como se fosse mais um aluno. Deixava-nos na herdade e seguia de novo para a …

Ensinar é estimular a curiosidade

Estamos a matar a infância das nossas crianças!

Se há cerca de vinte, trinta anos, não se sabia tanto quanto se sabe hoje sobre pedagogia, psicologia ou educação, actualmente este conhecimento é muito mais vasto. Tão vasto que tendemos a instrumentalizar a forma como educamos as nossas crianças.

Olhamos para os nosso filhos e vemo-los como projectos pessoais. Queremos que sejam os melhores e sempre melhores que eles próprios, que estejam sempre a evoluir para que sejam bem sucedidos na vida. É normal, porque independentemente das nossas crenças, queremos o melhor para eles, porque os amamos. Mas esta forma de amar e de os tentar conduzir para o sucesso está a matar-lhes a infância. 
Não são poucas as vezes que ouvimos coisas do género:  "Quero que o Rui seja um óptimo engenheiro";  "Estou a fazer tudo para que a Ana seja a melhor professora que já leccionou";  "O que mais quero é que o André vença no mundo do trabalho como o melhor designer gráfico".
Também dizemos que A ou B tem que frequentar determi…

O bailado

Faltava cerca de meia hora para o sol se pôr sobre as águas do Atlântico.
Na esplanada da praia, conversavam, um em frente ao outro. Ela, de top branco semi-decotado e casaquinho leve e escuro aberto, a cair-lhe dos ombros, parecia não sentir o frio que o vento trazia. Ele, de camisa aos quadrados e barba da moda como a de quem não segue modas, mantinha os pés descalços, um na areia e outro sobre o banco corrido, enquanto enrolava cigarros e a ouvia.

No meio da conversa, ela deitava-lhe olhares profundos e deleitados ao mesmo tempo que afastava o cabelo para trás dos ombros ou passava a mão pelo pescoço nu. O nervosismo que tentava segurar entre o esforço por dar uso às mãos, ao olhar, ou às palavras, era visível da mesa em que eu me sentara.  Os copos à sua frente já se encontravam vazios há algum tempo. Não havia a possibilidade de bebericarem de vez em quando. Talvez até já se tivessem esquecido desse pormenor que os poderia ajudar a filtrar a tensão do momento e torná-la menos inc…

Bichinhos-de-conta e joaninhas

Passo por aí e arrepio-me.  O matagal, onde outrora foi o teu jardim cheio de rosas e laranjas e limões, e o anúncio da Remax a dizer que te vendem a casa...
Volto aos dias em que andava por aí a enrolar bichinhos-de-conta. Perseguia-os com os dedos até que se enrolassem e ficava à espera que se voltassem a desenrolar para lhes poder tocar de novo. Às vezes, pegava em vários ao mesmo tempo e escondia-os na palma da mão. Largava-os no chão e observava como reagiam todos juntos. Tentava adivinhar-lhes o lugar da cabeça. Passava horas entretida com os bichinhos e a viajar dentro de mim. 
Depois partia para as formigas ou para as joaninhas... E tu dizias-me: "Joaninha voa voa que o teu pai foi a Lisboa". E a minha cabeça voava para Lisboa à procura do meu pai que sabia noutro lado. Imaginava-o em Lisboa só para te fazer a vontade. 
Tentava pegar nas joaninhas e fazê-las abrir as asas para que voassem a caminho da tua Lisboa. Ou para outro lado qualquer. Achava-as feias de asas a…