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Mensagens

Primavera

Cheira a Primavera. Estranho ser o mesmo cheiro da quinta, aquele que sinto aqui da minha janela em plena cidade. Cheira a flores e a terra. A gatos, a vento e a inocência. À inocência que me recorda os meus saltinhos e subidas às árvores de pequena. Quando inspiro é como se a infância me entrasse narinas adentro; é como se a quinta ainda existisse; como se tu e o avozinho ainda por aqui andassem. As andorinhas já rondam a sua casa de férias na minha janela. Ainda não entraram, mas rondam-na. Como no dia em que nos deixaste que se puseram em fila pousadas no meu parapeito. Nunca mais fizeram isso. Só ali pousaram quando nos deixaste. E hoje, esvoaçam por aqui e tu já não estás. Foste-te me cinzas e as andorinhas continuam a existir. E Primavera voltou sem a tua permissão. Que ousadia. Como pode ela voltar assim quando já não estás? Tenho saudades tuas como tenho da minha infância. Levaste-a contigo, sabes? Os ensinamentos que me deste ficaram desenraizados com a tua partida. Perderam a
Mensagens recentes

Preto e Branco

Poderia ver o mundo a preto e branco. Poderia olhar para a sociedade e ver a cor da pele, dos olhos ou do cabelo. Poderia apenas ver o bem e o mal; o certo e o errado...  Seria mais fácil do que ver todas as cores das quais o mundo se pinta. Seria mais fácil do que ver as milhares de flutuações que separam o certo do errado. Às vezes, num exercício inglório, tento ver só a preto e o branco. Por não ser capaz, olho a sociedade e os seres humanos como seres únicos e diferenciados. Não consigo olhar para um grupo e vê-lo homogéneo, porque ele nunca é homogéneo, mesmo que queiramos enfiar todos os elementos num mesmo saco. Os pretos, os brancos, os ciganos, os índios, os asiáticos e os amarelos às bolinhas azuis não se resumem à cor, à raça; ou a lá o que nos faz termos aparências tão diferentes.  Tal como os grupos profissionais. Os policias, os juízes, os advogados, os médicos ou os professores não são apenas as profissões que ministram. São seres com "bagagens" distintas, pers

Já lá vão 16 anos

O meu miúdo fez 16 anos. Ainda estou pasmada. Já se passaram umas semanas do aniversário dele e eu ainda não digeri o facto de ser mãe há já 16 anos. Sou mãe de um homem e ainda me sinto uma menina. Quando irei finalmente crescer ao ponto de não me fazer confusão ser mãe de uma pessoa de 1,87 m com pelos nas pernas e barba a despontar? Talvez nunca. Cada ano, cada dia que passa talvez vá ser sempre um novo espanto...

Grito

Há meses que não escrevo uma palavra. Quase como se estivesse de abstinência ou a fazer uma cura de desintoxicação. Às vezes tenho ressacas. Dói-me o corpo e os dedos, sinto a cabeça cheia de palavras e frases, numa urgência de saírem por mim afora. O peito aperta-se-me e sinto-me prestes a explodir. Mas, depois, nada. Segue-se um vazio imenso, como se estivesse prestes a gritar: enchesse o peito de ar, abrisse a boca e dela apenas saísse silêncio. Um grito mudo. Um grito que nunca chega a sê-lo. E como que para me inebriar, afundo-me nos livros dos outros, nas palavras dos outros. À espera de ali encontrar as minhas. As minhas palavras que sucumbem ao vazio, que se calam. Tenho saciado a fome de palavras, devorando livros, uns atrás dos outros. Como o alcoólico que bebe água a fingir que é vinho ou o fumador que masca pastilhas para distrair o desejo do cigarro, eu alimento-me de livros, enganando a vontade de escrever. Caminho para a recuperação devagarinho. Este texto pode ser

#metoo ou eu também já vi muita coisa

Já fui bastante assediada, especialmente até aos trinta, trinta e poucos. Acho que, por isso, fui desenvolvendo uma capacidade que me permite notar situações de assédio, ou de simples interesse sexual, à distância. Não só quando sou eu a visada, mas também quando são outras pessoas. Normalmente, reparo no(a) assediador(a) e no(a) assediado(a). Vou contar-vos uma história que aconteceu comigo quando eu tinha uns quinze ou dezasseis anos. Nessa altura eu frequentava amiúde as matinés de uma discoteca aqui da terra. Era miúda e era assim que passávamos as tardes chatas de domingo. Um dia estava com uma amiga à porta da dita discoteca e houve um puto, mais ou menos da minha idade, que me fez uma proposta: pagava-me uma bebida lá dentro se eu curtisse com ele naquela tarde. Eu, que durante a adolescência tinha fama de antipática e petulante (creio que esta última característica se devia essencialmente à minha altura e timidez que, juntas, me faziam parecer uma pessoa petulante), mandei-

O barulho das fraldas

O meu filho já me passou em altura. Pouso a cabeça no seu ombro sem a baixar. Olho-o nos olhos de frente, como a um adulto. As longas pernas, agora com pêlos a tornarem-se escuros, são as mesmas que, em tempos, ainda não andavam e se mexiam em simultâneo com os braços, enquanto lhe mudava a fralda. É um homem aquele bebé que viveu em mim oito meses e pouco e que deu um grito quando me saiu das entranhas. Um homem que enche a cama e a quem vou, à noite, tapar os pés que teimam em sair debaixo dos lençóis. É um homem o bebé que, nas manhãs de fins-de-semana, se vem deitar ao meu lado; a quem tento envolver todo num abraço gigante; a quem beijo a testa e cheiro o cabelo; e a quem dou palmadinhas no rabo, pensando que ali ainda vou encontrar o barulho das fraldas.

Vida eterna

Passou algum tempo desde a última vez que por aqui escrevi, mas não morri. Continuo viva. Andei meio moribunda por uns tempos. Hoje estou melhor, sem estar completamente curada. Uma depressão entrou-me cérebro adentro, matou-me os sonhos e adormeceu-me a vontade de viver. Desejei enfiar-me no escuro dos lençóis para a eternidade, quis morrer muitas vezes, pensei em formas de terminar com tudo. Fui ao médico, aos médicos. Comecei a tomar medicação e voltei a sonhar à custa dos comprimidos para dormir. Agora já não tomo esses, estou apenas com os que me ajudam a levantar da cama, a encarar o dia e a minimizar os problemas. Deixei de tremer e de suar de nervos, a ansiedade foi-se dissipando e só volta de vez em quando. E voltei a sonhar sem comprimidos. Ontem sonhei com o meu avô. Às vezes, ele vem visitar-me nos sonhos como que para me matar as saudades. Chega devagarinho e toma conta da história. Faz com que eu queira estar apenas na sua companhia como se, no sonho, eu saiba que