domingo, 28 de maio de 2017

A paragem

Em pé, agarrada à pega do tecto, vou passando o olhar por quem habita o metropolitano. Por escassos minutos aquela é a nossa casa. Somos perfeitos desconhecidos que se encontram por momentos. Muitos de nós nunca mais nos iremos voltar a ver. São minutos preciosos em que pousamos os olhos uns nos outros e conhecemos estranhos, sem nunca os conhecermos realmente.

Há quem não tire os olhos do telemóvel; quem não tire os olhos das paragens que vão passando do outro lado da janela; quem olhe o tecto ou o infinito. Eu olho-os a todos, tento ler-lhes nas expressões o que lhes vai na alma. Quero saber em quem pensam, como lhes correu o dia, de onde vêm e para onde vão. Tento adivinhar-lhes as paragens de destino pela forma de vestir, pelo comportamento, pela inquietação.

Conto os dos telemóveis e são a maioria. Conto os das malas e há muitos. O aeroporto será o destino dos das malas certamente... Para onde irão viajar? Tento agora adivinhar-lhes a nacionalidade. Preciso de uma palavra para confirmar a minha hipótese. Apuro o ouvido mas não os oiço, porque viajam em silêncio.

O silêncio irrita-me e passo a contar os que viajam de óculos escuros na cara. São três. Por que estarão de óculos escuros se viajamos por debaixo da terra e não há sol que lhes fira os olhos?
Talvez esteja na moda, talvez queiram olhar sem que se perceba para onde, talvez se tenham esquecido de os tirar da cara ou tenham preguiça de o fazer só pelos breves instantes da viagem...

Chega a minha paragem e tenho que os abandonar. Saio e perco-os de vista para sempre, como se tivesse fugido de casa e deixado tudo para trás. Largo as histórias que imaginei e embarco numa nova viagem. Sigo para outras vidas que me aparecerão pelo caminho, para outras histórias que inventarei, para outra gente que nunca mais voltarei a encontrar. Sigo confiante de que um dia os terei a todos guardados em folhas papel.
Um dia serão todos meus, desenhados pelas minhas palavras, com os sonhos, os desejos e as angústias que implantarei nas suas vidas.

Um dia serão todos meus, só meus, e não haverá paragem que mos tire.

domingo, 21 de maio de 2017

Alien

Quando o teu filho de treze anos acaba a noite de aniversário todo contente porque foi ver um concerto de jazz e recebeu uma t-shirt e um Cd autografado pela banda que viu actuar, pensas que, em vez de uma criança comum, deste à luz um alien.
Ao mesmo tempo, quase num sentimento contraditório, suspiras e pensas: "Ainda bem! Meu rico alien!".

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Parece...

DAQUI

Parece que uma coisa que se diz jornal publicou um vídeo de uma alegada violação...
Parece que as redes sociais se indignaram em peso e apresentaram queixa à ERC...
Parece que a ERC irá investigar o caso do suposto jornal...
Parece que a coisa é dos supostos jornais que vendem mais em Portugal...
Parece que há um povo supostamente letrado que o lê...

Auto-estima lusitana

Este fim-de-semana, Portugal esteve lá em cima. Desde o santo Papa que por aqui poisou, passando por uma euforia em tons de vermelho, culminou na Salvação da nação.
Somos um povo bipolar. Ora estamos nos píncaros, ora nos enterramos na areia. Tocamos a esquizofrenia, sem, porém, a habitarmos por completo. Rodamos sobre nós próprios na incerteza de um lugar para permanecer.

O Papa curou-nos dos pecados, o Benfica passou de clube a futebol português, o Salvador, bem, o Salvador continuou a ser o Salvador, porque salvou toda uma nação das miseráveis qualificações nos miseráveis festivais da Eurovisão.

A euforia instalou-se num país que é de um fado fatídico, a cair para o depressivo. E, no entanto, este fim-de-semana, por obra e graça do espírito santo, alevantou-se. Ergueu-se das amarguras e elevou-se aos céus, com uma ajudinha de um afável Francisco, claro!

Há bestas e bestiais. Ah, mas nós, lusitanos, somos os dois!
Hoje, somos os "máiores". Amanhã... logo se vê.

sábado, 13 de maio de 2017

Desalinho

Salvador Sobral, Papa, Benfica, militar da GNR resumem uma semana, cujo apogeu se dá entre hoje e amanhã, repleta de fanatismo.

Desde que as redes sociais substituíram as tertúlias no sofá da sala, na esquina da rua, à janela, ou na mesa de café, que os ânimos se exaltam não em cenas de pancadaria, que a virtualidade não permite, mas em cenas de fanatismo empírico desenhado em comentários desalinhados.
Dizem-se as maiores barbaridades em acto reflexo. Despreza-se o poder do cérebro no processamento da informação. Reage-se. Abandona-se a empatia, a brandura, a clarividência. Há um misto de escuridão e ignorância instituídas.
Será que a pressa e a reacção mataram a dúvida, a reflexão e o conhecimento que só o tempo permite?
Será que nos anos que se seguirão o ser-humano vai perder a capacidade que o distingue de outros seres? Será que vai ser mais um guiado pelo instinto?

O desalinho é geral. Ele paira por aí, no ar que se respira.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Sexta à noite

DAQUI

De andar direito, até um pouco emproado, segue meio gingão pela rua fora. Hoje, que até está frio, as mangas da camisa têm de estar arregaçadas. É sexta à noite. E todas as sextas à noite merecem o esmero na indumentária, combinado com o perfume Yves Saint Laurent que a mãe lhe ofereceu no Natal. Está jeitoso e tão cheiroso que se sente ao longe.

Cruza-se com a vizinha do quinto esquerdo que vai entrar no prédio e cumprimenta-a com uma vénia. É gira. E quando elas são giras não se podem desperdiçar. Sacam-se as mordomias e os cavalheirismos da cartola e elas derretem-se que nem manteiga ao sol, ou gelado, sabe lá. Nestes momentos só sabe o que faria com um avião daqueles. Mas hoje não. Hoje é sexta à noite e às sextas à noite não é por ali que quer andar, por isso não se pode perder no caminho.

Saca as chaves do Audi azul descapotável da algibeira - não da cartola que na cartola só guarda aquelas elegâncias que impressionam as garinas - e dirige-se para o veículo enquanto vai rodando a argola do porta-chaves no dedo e cofiando a mosca que traz por debaixo lábio inferior.

Aquela mosca é sempre aparada com delicadeza. Demora quase uma hora a desenhá-la na perfeição. Não pode haver pêlo nem a mais nem a menos. Têm que ser na quantidade certa ou a noite de sexta correrá mal e ele voltará sozinho para casa.

Ainda se lembra de quando a fez pela primeira vez. A mãe, intrigada, perguntou "o que é isso que trazes aí? Esqueceste-te de fazer esse bocadinho de barba?". Ofendido, respondeu-lhe quase em murmúrio "não vês que é uma mosca?". E ela riu, riu tanto que só lhe apeteceu atirar-lhe com a caneca do café à cabeça. Não atirou e saiu deixando-a a rir sozinha.

Entra no Audi azul descapotável e verifica se está tudo conforme.
Só ali entra às sextas, já que durante a semana usa o Opel Corsa cinzento para ir para o trabalho. É mais barato e mais fácil de arrumar. Além de que não gostaria de ser visto a entrar no Audi azul descapotável com o fato-macaco da oficina vestido. Pareceria mal e sujaria os estofos de cabedal. Podiam pensar que andava a passear-se nos carros dos clientes e a isso não se poderia arriscar. É que um gajo tem que manter a reputação e não pode arruinar o trabalho de uma vida só porque quer andar de Audi azul descapotável todos os dias. Mas hoje é sexta à noite e tudo lhe é permitido, por isso, vai de Audi azul descapotável que foi para isso que juntou dinheiro durante tantos anos.

Conduz o carrão com jeitos de garanhão. Até rima com a tensão com que irá acabar aquela sexta. Será tensão ou deverá tirar-lhe o éne? Que se lixe! São lá horas de andar a pensar como se escreve em português! Ele, que até nem tem veia de escritor, quer lá saber de éne a mais ou éne a menos. Se ainda fossem os pêlos da mosca...

Arranca na auto-estrada a cento e vinte; pisa no acelerador, cento e trinta; a esta hora ainda não há bófia, cento e cinquenta e o azul do Audi começa a ficar tremido; vá, cento sessenta e ficamos por aqui ou já ninguém consegue ler o autocolante nas traseiras do carro que avisa para terem cuidado com o solteirão que vai a bordo.

Depois de estacionar o carrão - do garanhão que virá a ter qualquer coisa acabada em "ão" no final da noite - no lugar do costume, entra no pub e estaciona o seu lindo corpinho, que poderá ser corpão, na zona do bar das outras sextas. O lugar está desocupado à sua espera, o barman sabe que virá e guarda-lhe aquele cantinho com vista privilegiada.

Pede o gin. Detesta gin, mas como é a bebida da moda lá terá que emborcar aquela merda. A sorte é que a cara de enjoado que faz ao bebê-lo agrada a algumas garinas. E a noite poderá ficar mais colorida e acabar em arco-íris no motel do costume. Vale o esforço do gin. E das mangas arregaçadas em pleno Inverno, e do perfume de marca charmosa e cheiro estranho, e do andar gingão, e do Audi azul descapotável, e da mosca.

É que é sexta à noite, porra!

domingo, 7 de maio de 2017

Leio-te Mal?

Leio-te um olhar infeliz apesar do sorriso que trazes nos lábios.
Como é penoso fingirmos a nós mesmos que nos basta o que não basta.
O brilho que se esfumou do teu olhar para onde foi? Procuro-o no teu rosto sem o encontrar.
Leio-te só apesar da gente que te rodeia.
Leio-te longe de ti. Dos teus. Desterrada das tuas raízes, tentando enraizares-te aonde não pertences.

Leio-te mal?

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Às vezes, a vida...

Às vezes, a vida entra-me nariz adentro: no cheiro das flores, do feno, do mar, do sabonete que lavava a cara da minha bisavó.
Às vezes, a vida roça-me a pele: no pêlo dos bichos por entre os dedos, na barba mal feita do meu homem que me arranha a cara, nos cabelos do meu filho junto ao queixo. 
Às vezes, a vida mora-me nos sentidos e aloja-se no sentido da própria vida.

terça-feira, 2 de maio de 2017

"Era uma vez uma baleia azul..." - por uma ovelha negra

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Parece que o jogo "Baleia Azul" tem assustado muita gente. Sim, de facto, pode ser muito assustador, mas não está sozinho naquilo que nos deve assustar.
Tenho a sensação que andamos um bocado anestesiados e que só nos assustamos com notícias alarmistas, sem, porém, tomarmos consciência daquilo que nos está tornar cada vez menos pessoas.
As novas tecnologias são ferramentas de grande valor, no entanto são também a causa de mudanças drásticas na sociedade.
As relações pessoais, tanto entre adultos, quanto entre jovens, têm sofrido imenso com a dependência das tecnologias de que todos acabamos por sofrer um pouco. As relações com os outros e connosco próprios. Somos menos sociáveis, pensando que somos mais.
Penso que é na adolescência que se nota mais os efeitos nefastos desta dependência. A partir dos dez anos é comum e aceitável pela maior parte dos pais terem os filhos constantemente agarrados aos telemóveis. E aqui o que me assusta mais é tomar-se por normalidade aquilo que não é de todo normal. Ouvem-se pais dizerem "ah, hoje o meu filho ficou três minutos sem telemóvel, nem parece dele" como se fosse completamente normal os filhos estarem constantemente de telemóvel na mão. A aceitação pacífica da dependência é imensamente perigosa e parece que é pouca gente que se preocupa com isso.
Vêem-se miúdos que não trocam uma palavra quando estão juntos, estando cada um fixado no seu telemóvel. Vêem-se miúdos que até já só namoram por mensagem, que já nem se telefonam, mas, em vez disso, falam por chat. E depois há quem conte isto entre gargalhadas, como se tivesse imensa piada.

No outro dia, numa reunião de pais sobre a avaliação do segundo período da turma do meu filho, a directora de turma informou que os alunos iriam ser proibidos de ter os telemóveis junto deles nos momentos de avaliação, ou seja nos testes. Eu, que sou a ovelha negra das reuniões de pais, ousei perguntar porque iria ser só nos testes, já que a avaliação supostamente é continua e as aulas também são períodos de avaliação. Claro, que a maior parte dos pais, senão todos, me olhou de viés e que a professora se desculpou com a questão da responsabilidade sobre os telemóveis que serão colocados dentro de uma caixa longe dos alunos durante os testes, mas que não poderão ser postos nessas mesmas caixas durante as aulas, porque quem se responsabilizaria por eles. Houve até uma mãe que me disse qualquer coisa como um "por favor!", com ar indignado.
Ora se os telemóveis têm sido motivo de distracção por parte dos alunos durante as aulas, porque não os podem deixar nas caixinhas também nas aulas? "Por favor", dirá aquela mãe indignada e pensarão todos os outros pais.

O que acho piada nisto tudo, mas que não tem piada nenhuma, é que se estes mesmos pais soubessem que os filhos andavam a fumar ganzas na escola todos os dias, ficariam altamente preocupados, arranjariam maneira de culpar a escola e fariam alarido, mas como os filhos só andam de olhos postos nos ecrãs dos telemóveis durante dezoito horas por dia e também dentro das aulas, já não se ralam. Talvez lhes saísse, no máximo, um "oh, que chatice!" e virariam a cara para o lado com um "puf!".

A verdade é que como este fenómeno é relativamente recente e ainda não há estudos suficientes que digam que a dependência dos ecrãs faz mal às criancinhas, ninguém se rala muito, porque eles enquanto estão dentro dos telemóveis não chateiam e, pronto, é muito útil poder telefonar-lhes sempre que nos dá na gana, mesmo quando estejam dentro das salas de aulas.

O pior é que apareceu por aí uma tal de baleia azul e agora está toda a gente concentrada na baleia e a espreitar para os telemóveis dos filhos a ver se a vê por lá.

Pois... Talvez a dita cuja não apareça assim em tantos telemóveis, mas se calhar era de valor não se abandonar tanto os filhos e deixá-los tanto tempo entregues aos devaneios da Internet e dos telefones...

Talvez as experiências reais, aquelas que metem gente de carne e osso e que treinam a socialização real dos adolescentes, ensinando-os a lidar com os outros; em que eles aprendem a identificar os seus próprios limites de uma forma mais saudável, fossem ainda de algum valor para o crescimento deles...
Não sei, digo eu que sou só uma ovelha negra e ainda não cresci o suficiente para me tornar uma baleia azul.