terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A miúda

Um dia conheci uma miúda no IPO (na verdade, nunca a conheci pessoalmente, mas de vista). Tínhamos a mesma médica e encontrámo-nos algumas vezes na "sala de chuto" do hospital. Devia ter uns dezasseis ou dezassete anos e tinha a vivacidade própria dessa idade.

Num dia em que tínhamos quimioterapia à mesma hora, ela chegou atrasada. Vinha com uns três ou quatro amigos da mesma idade e queimada do sol.
Era Verão, um daqueles dias abrasadores de Verão, e a miúda tinha ido à praia antes de ir para ali. Tudo normal se ela não estivesse em tratamentos de quimioterapia, já que as pessoas nesta situação não devem apanhar muito sol, porque ficam sujeitas a queimaduras mais facilmente. Mas a miúda, na frescura dos seus dezasseis ou dezassete anos, não quis saber e foi para a praia com os amigos.
Claro que a nossa médica se zangou e ralhou com ela, o que não quebrou aquela alegria de viver, nem a galhofa com os amigos.
Invejei essa alegria várias vezes... O alheamento à gravidade da situação, a inocência, a inconsciência... Até nos momentos mais dolorosos, em que vomitava durante a quimio, aquela miúda mantinha a leveza que só a pouca idade permitia...

Lembro-me dela muitas vezes. Hoje, terá quase trinta anos, uns vinte e sete ou vinte e oito anos... Lembro-a como se lembram os companheiros de cancro, em que a pergunta que primeiro nos vem à cabeça é "Será que ainda está viva?".

Gostava tanto que sim...

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