domingo, 21 de maio de 2017

Alien

Quando o teu filho de treze anos acaba a noite de aniversário todo contente porque foi ver um concerto de jazz e recebeu uma t-shirt e um Cd autografado pela banda que viu actuar, pensas que, em vez de uma criança comum, deste à luz um alien.
Ao mesmo tempo, quase num sentimento contraditório, suspiras e pensas: "Ainda bem! Meu rico alien!".

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Parece...

DAQUI

Parece que uma coisa que se diz jornal publicou um vídeo de uma alegada violação...
Parece que as redes sociais se indignaram em peso e apresentaram queixa à ERC...
Parece que a ERC irá investigar o caso do suposto jornal...
Parece que a coisa é dos supostos jornais que vendem mais em Portugal...
Parece que há um povo supostamente letrado que o lê...

Auto-estima lusitana

Este fim-de-semana, Portugal esteve lá em cima. Desde o santo Papa que por aqui poisou, passando por uma euforia em tons de vermelho, culminou na Salvação da nação.
Somos um povo bipolar. Ora estamos nos píncaros, ora nos enterramos na areia. Tocamos a esquizofrenia, sem, porém, a habitarmos por completo. Rodamos sobre nós próprios na incerteza de um lugar para permanecer.

O Papa curou-nos dos pecados, o Benfica passou de clube a futebol português, o Salvador, bem, o Salvador continuou a ser o Salvador, porque salvou toda uma nação das miseráveis qualificações nos miseráveis festivais da Eurovisão.

A euforia instalou-se num país que é de um fado fatídico, a cair para o depressivo. E, no entanto, este fim-de-semana, por obra e graça do espírito santo, alevantou-se. Ergueu-se das amarguras e elevou-se aos céus, com uma ajudinha de um afável Francisco, claro!

Há bestas e bestiais. Ah, mas nós, lusitanos, somos os dois!
Hoje, somos os "máiores". Amanhã... logo se vê.

sábado, 13 de maio de 2017

Desalinho

Salvador Sobral, Papa, Benfica, militar da GNR resumem uma semana, cujo apogeu se dá entre hoje e amanhã, repleta de fanatismo.

Desde que as redes sociais substituíram as tertúlias no sofá da sala, na esquina da rua, à janela, ou na mesa de café, que os ânimos se exaltam não em cenas de pancadaria, que a virtualidade não permite, mas em cenas de fanatismo empírico desenhado em comentários desalinhados.
Dizem-se as maiores barbaridades em acto reflexo. Despreza-se o poder do cérebro no processamento da informação. Reage-se. Abandona-se a empatia, a brandura, a clarividência. Há um misto de escuridão e ignorância instituídas.
Será que a pressa e a reacção mataram a dúvida, a reflexão e o conhecimento que só o tempo permite?
Será que nos anos que se seguirão o ser-humano vai perder a capacidade que o distingue de outros seres? Será que vai ser mais um guiado pelo instinto?

O desalinho é geral. Ele paira por aí, no ar que se respira.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Sexta à noite

DAQUI

De andar direito, até um pouco emproado, segue meio gingão pela rua fora. Hoje, que até está frio, as mangas da camisa têm de estar arregaçadas. É sexta à noite. E todas as sextas à noite merecem o esmero na indumentária, combinado com o perfume Yves Saint Laurent que a mãe lhe ofereceu no Natal. Está jeitoso e tão cheiroso que se sente ao longe.

Cruza-se com a vizinha do quinto esquerdo que vai entrar no prédio e cumprimenta-a com uma vénia. É gira. E quando elas são giras não se podem desperdiçar. Sacam-se as mordomias e os cavalheirismos da cartola e elas derretem-se que nem manteiga ao sol, ou gelado, sabe lá. Nestes momentos só sabe o que faria com um avião daqueles. Mas hoje não. Hoje é sexta à noite e às sextas à noite não é por ali que quer andar, por isso não se pode perder no caminho.

Saca as chaves do Audi azul descapotável da algibeira - não da cartola que na cartola só guarda aquelas elegâncias que impressionam as garinas - e dirige-se para o veículo enquanto vai rodando a argola do porta-chaves no dedo e cofiando a mosca que traz por debaixo lábio inferior.

Aquela mosca é sempre aparada com delicadeza. Demora quase uma hora a desenhá-la na perfeição. Não pode haver pêlo nem a mais nem a menos. Têm que ser na quantidade certa ou a noite de sexta correrá mal e ele voltará sozinho para casa.

Ainda se lembra de quando a fez pela primeira vez. A mãe, intrigada, perguntou "o que é isso que trazes aí? Esqueceste-te de fazer esse bocadinho de barba?". Ofendido, respondeu-lhe quase em murmúrio "não vês que é uma mosca?". E ela riu, riu tanto que só lhe apeteceu atirar-lhe com a caneca do café à cabeça. Não atirou e saiu deixando-a a rir sozinha.

Entra no Audi azul descapotável e verifica se está tudo conforme.
Só ali entra às sextas, já que durante a semana usa o Opel Corsa cinzento para ir para o trabalho. É mais barato e mais fácil de arrumar. Além de que não gostaria de ser visto a entrar no Audi azul descapotável com o fato-macaco da oficina vestido. Pareceria mal e sujaria os estofos de cabedal. Podiam pensar que andava a passear-se nos carros dos clientes e a isso não se poderia arriscar. É que um gajo tem que manter a reputação e não pode arruinar o trabalho de uma vida só porque quer andar de Audi azul descapotável todos os dias. Mas hoje é sexta à noite e tudo lhe é permitido, por isso, vai de Audi azul descapotável que foi para isso que juntou dinheiro durante tantos anos.

Conduz o carrão com jeitos de garanhão. Até rima com a tensão com que irá acabar aquela sexta. Será tensão ou deverá tirar-lhe o éne? Que se lixe! São lá horas de andar a pensar como se escreve em português! Ele, que até nem tem veia de escritor, quer lá saber de éne a mais ou éne a menos. Se ainda fossem os pêlos da mosca...

Arranca na auto-estrada a cento e vinte; pisa no acelerador, cento e trinta; a esta hora ainda não há bófia, cento e cinquenta e o azul do Audi começa a ficar tremido; vá, cento sessenta e ficamos por aqui ou já ninguém consegue ler o autocolante nas traseiras do carro que avisa para terem cuidado com o solteirão que vai a bordo.

Depois de estacionar o carrão - do garanhão que virá a ter qualquer coisa acabada em "ão" no final da noite - no lugar do costume, entra no pub e estaciona o seu lindo corpinho, que poderá ser corpão, na zona do bar das outras sextas. O lugar está desocupado à sua espera, o barman sabe que virá e guarda-lhe aquele cantinho com vista privilegiada.

Pede o gin. Detesta gin, mas como é a bebida da moda lá terá que emborcar aquela merda. A sorte é que a cara de enjoado que faz ao bebê-lo agrada a algumas garinas. E a noite poderá ficar mais colorida e acabar em arco-íris no motel do costume. Vale o esforço do gin. E das mangas arregaçadas em pleno Inverno, e do perfume de marca charmosa e cheiro estranho, e do andar gingão, e do Audi azul descapotável, e da mosca.

É que é sexta à noite, porra!

domingo, 7 de maio de 2017

Leio-te Mal?

Leio-te um olhar infeliz apesar do sorriso que trazes nos lábios.
Como é penoso fingirmos a nós mesmos que nos basta o que não basta.
O brilho que se esfumou do teu olhar para onde foi? Procuro-o no teu rosto sem o encontrar.
Leio-te só apesar da gente que te rodeia.
Leio-te longe de ti. Dos teus. Desterrada das tuas raízes, tentando enraizares-te aonde não pertences.

Leio-te mal?

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Às vezes, a vida...

Às vezes, a vida entra-me nariz adentro: no cheiro das flores, do feno, do mar, do sabonete que lavava a cara da minha bisavó.
Às vezes, a vida roça-me a pele: no pêlo dos bichos por entre os dedos, na barba mal feita do meu homem que me arranha a cara, nos cabelos do meu filho junto ao queixo. 
Às vezes, a vida mora-me nos sentidos e aloja-se no sentido da própria vida.

terça-feira, 2 de maio de 2017

"Era uma vez uma baleia azul..." - por uma ovelha negra

DAQUI

Parece que o jogo "Baleia Azul" tem assustado muita gente. Sim, de facto, pode ser muito assustador, mas não está sozinho naquilo que nos deve assustar.
Tenho a sensação que andamos um bocado anestesiados e que só nos assustamos com notícias alarmistas, sem, porém, tomarmos consciência daquilo que nos está tornar cada vez menos pessoas.
As novas tecnologias são ferramentas de grande valor, no entanto são também a causa de mudanças drásticas na sociedade.
As relações pessoais, tanto entre adultos, quanto entre jovens, têm sofrido imenso com a dependência das tecnologias de que todos acabamos por sofrer um pouco. As relações com os outros e connosco próprios. Somos menos sociáveis, pensando que somos mais.
Penso que é na adolescência que se nota mais os efeitos nefastos desta dependência. A partir dos dez anos é comum e aceitável pela maior parte dos pais terem os filhos constantemente agarrados aos telemóveis. E aqui o que me assusta mais é tomar-se por normalidade aquilo que não é de todo normal. Ouvem-se pais dizerem "ah, hoje o meu filho ficou três minutos sem telemóvel, nem parece dele" como se fosse completamente normal os filhos estarem constantemente de telemóvel na mão. A aceitação pacífica da dependência é imensamente perigosa e parece que é pouca gente que se preocupa com isso.
Vêem-se miúdos que não trocam uma palavra quando estão juntos, estando cada um fixado no seu telemóvel. Vêem-se miúdos que até já só namoram por mensagem, que já nem se telefonam, mas, em vez disso, falam por chat. E depois há quem conte isto entre gargalhadas, como se tivesse imensa piada.

No outro dia, numa reunião de pais sobre a avaliação do segundo período da turma do meu filho, a directora de turma informou que os alunos iriam ser proibidos de ter os telemóveis junto deles nos momentos de avaliação, ou seja nos testes. Eu, que sou a ovelha negra das reuniões de pais, ousei perguntar porque iria ser só nos testes, já que a avaliação supostamente é continua e as aulas também são períodos de avaliação. Claro, que a maior parte dos pais, senão todos, me olhou de viés e que a professora se desculpou com a questão da responsabilidade sobre os telemóveis que serão colocados dentro de uma caixa longe dos alunos durante os testes, mas que não poderão ser postos nessas mesmas caixas durante as aulas, porque quem se responsabilizaria por eles. Houve até uma mãe que me disse qualquer coisa como um "por favor!", com ar indignado.
Ora se os telemóveis têm sido motivo de distracção por parte dos alunos durante as aulas, porque não os podem deixar nas caixinhas também nas aulas? "Por favor", dirá aquela mãe indignada e pensarão todos os outros pais.

O que acho piada nisto tudo, mas que não tem piada nenhuma, é que se estes mesmos pais soubessem que os filhos andavam a fumar ganzas na escola todos os dias, ficariam altamente preocupados, arranjariam maneira de culpar a escola e fariam alarido, mas como os filhos só andam de olhos postos nos ecrãs dos telemóveis durante dezoito horas por dia e também dentro das aulas, já não se ralam. Talvez lhes saísse, no máximo, um "oh, que chatice!" e virariam a cara para o lado com um "puf!".

A verdade é que como este fenómeno é relativamente recente e ainda não há estudos suficientes que digam que a dependência dos ecrãs faz mal às criancinhas, ninguém se rala muito, porque eles enquanto estão dentro dos telemóveis não chateiam e, pronto, é muito útil poder telefonar-lhes sempre que nos dá na gana, mesmo quando estejam dentro das salas de aulas.

O pior é que apareceu por aí uma tal de baleia azul e agora está toda a gente concentrada na baleia e a espreitar para os telemóveis dos filhos a ver se a vê por lá.

Pois... Talvez a dita cuja não apareça assim em tantos telemóveis, mas se calhar era de valor não se abandonar tanto os filhos e deixá-los tanto tempo entregues aos devaneios da Internet e dos telefones...

Talvez as experiências reais, aquelas que metem gente de carne e osso e que treinam a socialização real dos adolescentes, ensinando-os a lidar com os outros; em que eles aprendem a identificar os seus próprios limites de uma forma mais saudável, fossem ainda de algum valor para o crescimento deles...
Não sei, digo eu que sou só uma ovelha negra e ainda não cresci o suficiente para me tornar uma baleia azul.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Portei-me bem, não portei, mãe?

No dia de aniversário da minha avó é costume encontrar-me com os meus tios e primos e, agora, com os filhos dos meus primos.
No ano passado, como de costume, encontrámo-nos em casa da minha avó para festejarmos os seus 79 anos. 
O meu filho é o mais velho das crianças e raramente vê os filhos dos meus primos, por isso andou por lá numa brincadeira pegada com eles.
No final da noite, quando vínhamos embora, diz:
- Portei-me bem, não portei, mãe?
- Sim, portaste. Porque perguntas isso?
- Eh eh eh! Porque pus os putos todos a brincar à porrada!

sábado, 8 de abril de 2017

Os bichos

Tenho bichos nos dedos. Uma necessidade premente de escrever não me deixa sossegar.
Tenho bichos que me fazem cócegas no cérebro. Tenho o cérebro cheio de bichos! Ideias que saltam, pensamentos que se atiram contra o vazio... O meu vazio é cheio de minhoquinhas irrequietas. Enquanto não as despejo (a elas, às ideias e aos pensamentos) este vazio parece infinito.

Só digo parvoíces, não é? Pelos menos já mexi os dedos e agitei o cérebro e consegui livrar-me de alguns dos bichos...
Agora já posso ir dormir um pouco mais tranquila.
Boa noite, bicharada!

quinta-feira, 9 de março de 2017

Dia da Mulher atrasado

Às vezes penso que é a questão da maternidade que assusta tanto as sociedades em que a liberdade das mulheres é restringida por homens; que se fôssemos igualmente livres, com a capacidade que temos de gerar pessoas dentro de nós, poderiam considerar-nos ameaçadoras da liberdade masculina.
Às vezes, penso isto mas tento afastar o pensamento, porque sinceramente acredito na igualdade. Acredito que somos iguais, apesar das diferenças. Diferenças morfológicas essencialmente, mas mesmo assim diferenças.
Fazem-me confusão as formas de celebração do Dia da Mulher. Acho-as terrivelmente machistas. Como se a mulher é que devesse ser celebrada e não luta pela igualdade de géneros relembrada. Exaltam-se as características ditas femininas, através das flores, dos bombons, da beleza, da sensibilidade, da atenção ao lar e à família. E ser mulher não é nada disso. É ser igual a ser homem. É ser pessoa.
Mais do que se celebrarem as mulheres, deve-se relembrar que ainda não nos consideram iguais e plenas dos mesmos direitos. Deve-se relembrar as mulheres, daqueles países "longínquos" que ainda não podem conduzir, praticar desporto, ou até sair à rua sem ser à sombra de um homem. Deve-se relembrar as mulheres que são amputadas e exploradas sexualmente; que são utilizadas como escravas ou pertença de homens.
Há mulheres neste mundo com menos direitos do que animais ou objectos. Há mulheres sem voz.
Ontem, mais do que tudo, devíamos ter dado voz a estas mulheres aprisionadas. Porque não são de flores, bombons, beleza, sensibilidade ou atenção ao lar que as suas vidas se enchem. São de dureza, insensibilidade, desrespeito, exploração e maldade. Porque são, essencialmente, pessoas mal-tratadas e reduzidas a quase nada.
É delas, e da luta delas, o Dia da Mulher; não dos floreados e das visões hipócritas.

O bom, o mau e a promoção

Ainda não acredito que haja gente totalmente má, ou totalmente boa. Digo "ainda", porque talvez daqui a uns anos esta minha ideia venha a mudar. Não sei... espero que não.

Ser bom ou mau não é uma posição estática. Ninguém é sempre bom ou sempre mau. Além de as pessoas mudarem à medida que vão crescendo e vivendo, também não conseguem prolongar a sua bondade ou maldade infinitamente. Há momentos em que saem da sua "categoria" e embarcam na outra. Por isso, catalogar alguém como bom ou mau é redutor. Na verdade, catalogar alguém do que quer que seja é sempre redutor.

Ora, hoje, mais do que em qualquer outra altura da História, a promoção é o factor que marca a diferença nesta visão do bom e do mau, atirando toda a gente para um lugar no catálogo da humanidade e pespegando-lhe uma legenda por baixo. A propaganda tem este efeito estranhamente desumano de colar etiquetas difíceis de arrancar nas pessoas. Estas etiquetas não só dizem respeito à bondade e à maldade de cada um, mas também ao "ser-se bom" ou "ser-se mau" em determinada matéria ou função.

O que me parece triste é termos mesmo de lutar por um lugar de destaque no catálogo e que, para recebermos a etiqueta certa, baste aplicarmo-nos na auto-promoção. Infelizmente, precisamos menos de ser e de nos esforçarmos para melhorar, do que de desenvolvermos a capacidade de nos promovermos.
Se nos promovermos bem e nos etiquetarmos com a etiqueta dourada, estamos safos! Se não nos soubermos promover, chapéu!, estamos fritos! Se não publicitarmos os nossos feitos, por melhor que eles sejam, não lhes dão o devido valor, tal como por pior que façamos mal, se encapotarmos as nossas maldades ou mal-feitos, ninguém se dá conta.

No fundo, o que está aqui em causa não é a nossa bondade, maldade, competência, etc., o que está em causa é a nossa capacidade de exibirmos aquilo que somos ou aquilo que queremos que os outros pensem que somos para que, ao consultarem o catálogo, percebam a que secção pertencemos. O maior problema é as pessoas já não se verem umas às outras. Olham de relance e tiram conclusões. Talvez a pressa com que andamos e a rapidez da informação sejam as culpadas por não olharmos duas vezes para os outros. Ou até para nós próprios. Mas atribuir culpas é fácil. O que é difícil é reverter esta tendência de olharmos tudo de relance.

Não são raras as vezes em que encontramos gente completamente incompetente em determinados serviços que por lá se mantêm, durante anos a fio, sem que melhorem um milímetro e alguém note, ou que o próprio note. Bem como encontramos gente terrível com auréola de santo e gente maravilhosa com cornos de diabo.

Estranhamente, é tudo uma questão de auto-promoção e nada de real valorização ou, sequer, de análise atenta.
Estas ausências e desatenções nas relações humanas são perigosas porque nos afastam uns dos outros. Criam fossos entre nós e deixam-nos entregues ao relance e ao lugar que ocupamos no catálogo. Ficamos reduzidos a uma etiqueta sem nos apercebermos que somos tão mais do que isso.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Facebook lovers

DAQUI

Chegam ao restaurante de mãos dadas como nos tempos em que ele ainda não tinha a barriguinha que lhe força os botões da camisa e ela as duas camadas de base em tonalidades diferentes que escondem os traços que o tempo lhe foi desenhando no rosto.
Ele afasta a cadeira para ela se sentar num gesto que reproduz o cavalheirismo dos filmes românticos de Hollywood. Ela senta-se com olhar meloso, encarnando a personagem feminina da trama, e ajeita a saia que lhe aperta as formas agora mais arredondadas.

Num silêncio premeditado, o frente-a-frente impõe-se. Afinal é dia dos namorados e o romantismo é a palavra de ordem.
O gesto automático tira o telemóvel do bolso da camisa dele que só acaba quando o objecto é pousado sobre a mesa. Está ansioso, mas não quer lhe notem a inquietação. Afinal, é só mais um dia dos namorados.

A voz sai-lhe tão melosa quanto o olhar que ela lhe dirige:
- Estás linda! - semicerra os olhos como que a comprovar a veracidade das suas palavras.
Aponta-lhe a objectiva do telemóvel, ainda com olhos lânguidos para não quebrar o feitiço do amor e conseguir arrancar aquele momento único. Ela ajeita-se depressa para uma posição esteticamente mais aceitável, pousando o queixo sobre os nós dos dedos.
Um clique e um sorriso, dois cliques e um segundo sorriso.
- Deixa ver! - pede para aprovar o disparo - a primeira está melhor! - afirma.
Ele envia a fotografia da companheira para o seu Facebook, juntando-lhe uma frase de romantismo inegável "Vim jantar com o meu amor. Não sou um sortudo?".
E os likes, corações e comentários não param de aparecer em sonoras notificações. Sorriem um para o outro extasiados com o som que lhes alegra os dias.
- Olha, o Zé gostou! Diz que sou mesmo um sortudo e para te tratar bem!
Ela responde-lhe com o sorriso que imortalizou no rosto para este dia e com um pestanejar repetido.

O empregado chega e entrega uma ementa a cada um. O restaurante é de requinte e o menu é composto apenas pelos mais requintados pratos, ou não fosse hoje dia de extravagâncias.
É a vez dela. Tira o telemóvel da mala a cheirar a mofo e fotografa as letras clássicas que adornam a ementa encadernada a cabedal.
Rapidamente envia a fotografia para o seu perfil, antecedida pela frase "Vejam só o que vou comer com o meu amor!". E uma enxurrada de comentários, que se dizem invejosos, atacam-lhe o telefone.

Fazem o pedido ao empregado que lhes serve um vinho branco fresco.
Unem os copos e fotografam o tilintar dos copos numa jura de amor eterno.
No prato dela aparece uma rosa vermelha e um cartão que o empregado deixou quando trouxe o vinho. Ela cheira a rosa e lê o cartão.
- Oh, que lindo! - diz, com uma lágrima a espreitar-lhe no olho direito - És um querido!
Regista o momento da rosa no prato e do cartão aberto e deixa-o no seu mural do Facebook ao lado da fotografia dos copos elegantes a chocarem. "Sou ou não sou uma sortuda?", diz ao mundo para que não duvide da sua felicidade.
Ele beija-a por cima da mesa, depois de desviar a vela que lhes ilumina o amor e acertar o telemóvel na direcção dos lábios que se tocam.
Envia a imagem captada pelo Iphone para o seu mural: António a sentir-se feliz com Maria no restaurante Love Lounge "O meu eterno e grande amor! Feliz Dia dos Namorados para todos os meus amigos!", acrescenta, perpetuando-lhes o sentimento e distribuindo-o pelos amigos.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Quero morar aí dentro

Quero ser o sangue que te percorre de lés a lés. Por dentro.
Invadir-te os órgãos e dar-lhes vida.
Quero sarar-te as feridas e oxigenar-te por inteiro.
Entrar nesse coração a cada segundo e viajar pelos cantos mais recônditos desse teu ser.
Quero morar aí dentro. Para sempre.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Deixem-se de merdas!!!!

Já vos falei da minha opinião quanto ao ensino em Portugal. Sim, já falei vezes demais sobre este assunto, mas como não me conformo, vou continuar a falar. Nem que seja para as paredes!

A revolta é tão grande que me sinto continuamente a viver num mundo à parte. Como se houvesse uma bolha em volta dos pais, professores e escola de onde eles não conseguissem sair de maneira nenhuma. Sim, a bolha rodeia-os a eles, não a mim! Parece que estão sempre a martelar na mesma tecla, cultivando um sistema completamente obsoleto, centrado em resultados, bons comportamentos, teorias da treta, como se não vissem para além do que lhes é imposto, como se não vissem o óbvio: que os alunos só aprendem se quiserem aprender; que o que interessa não são os fins, mas os meios para atingir os fins; que os bons resultados são o resultado (desculpem o pleonasmo) da vontade e não da imposição.

Merda para estas mentes fechadas em caixinhas minúsculas! Merda para eles, é o que tenho a dizer! Continuem a formar gente deformada e depois venham-se queixar:
"Ai, o meu filho tem más notas e não aprende nada nas aulas.... A culpa é da escola e dos professores!".  - Uma merda!!! A culpa é tua que o obrigas a estudar em vez de lhe abrires a mente à descoberta!

"Ai, os alunos não se sabem comportar na sala de aula e não estão com atenção... A culpa é dos pais!".  - Uma merda, a culpa é tua porque não lhes sabes impor respeito ou interessá-los pela matéria que leccionas!

"Ai, os alunos são mal comportados e tiram notas baixinhas... A culpa é dos professores que não querem fazer nada e dos pais que não sabem educar os filhos!"  - Uma merda, a culpa é tua que entretens os professores em actividades burocráticas de merda em vez de lhes dares tempo e espaço para prepararem aulas minimamente interessantes e que andas a aplicar castiguinhos da treta aos alunos que não lhes adiantam nada na compreensão dos seus comportamentos menos correctos, nem no respeito pelos outros!

Sim, como dizia José Mário Branco no seu famoso FMI, "a culpa é de todos e a culpa não é de ninguém!"

Uma merda, pá! Se querem mudar alguma coisa, façam por isso, em vez de andarem a atirar culpas para cima uns dos outros! Dêem o exemplo aos vossos filhos e alunos, mostrem como se pode construir um presente, um futuro, um mundo, uma vida melhor para todos. Instruam-se, vão aprender a serem melhores profissionais, melhores pais, melhores pessoas! Lutem, caraças! Lutem! Lutem! Lutem para serem melhores, para evoluírem! Não se deixem ficar agarrados ao telemóvel a ler notícias de Facebook e a ver vídeos de gatinhos! Vejam tudo isso, mas vejam mais além! Vejam longe, procurem o horizonte e não se deixem parar por ele que a mudança não é uma miragem. A mudança acontece, é só querermos e mexermo-nos para isso!

Deixem-se de merdas!
Se querem mesmo mudar alguma coisa, podem começar por assinar esta petição, que pode ser o princípio dessa mudança, ou podem fazer outras, mas mexam-se e deixem-se de queixinhas e de culpar o próximo! Movam pessoas, digam coisas, indignem-se, juntem-se, gritem, mas, por favor, deixem-se de merdas!!!!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Às mijadoiras

Respeito quem anda de roupa suja, rota, rasgada ou descosida.
Respeito igualmente quem traz a pele suja; quem cheira a sono ou suor; quem exagera nos perfumes ou quem não os usa de todo; quem não lava a cara, os dentes ou os pés.
Respeito quem se veste com roupas estranhas, desajustadas, excessivamente grandes ou pequenas.

Só não respeito quem mija para fora das sanitas e não limpa o seu mijado. E digo "mija" de propósito, porque esta gente não faz xixi, não urina, mija!
As mijadoiras dizem-se muito limpinhas e que mijam de rabinho no ar para não conspurcarem o dito cujo. No entanto, conspurcam tudo à volta. É que os seus reais rabinhos no ar impedem que o mijo que lhes sai das entranhas acerte dentro sanita... E, porque são muito limpinhas e têm nojo do próprio mijo, deixam-no espalhado por todo o lado, para que a próxima o limpe.

Não, não são limpinhas, minhas queridas, são mesmo porcas!

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A miúda

Um dia conheci uma miúda no IPO (na verdade, nunca a conheci pessoalmente, mas de vista). Tínhamos a mesma médica e encontrámo-nos algumas vezes na "sala de chuto" do hospital. Devia ter uns dezasseis ou dezassete anos e tinha a vivacidade própria dessa idade.

Num dia em que tínhamos quimioterapia à mesma hora, ela chegou atrasada. Vinha com uns três ou quatro amigos da mesma idade e queimada do sol.
Era Verão, um daqueles dias abrasadores de Verão, e a miúda tinha ido à praia antes de ir para ali. Tudo normal se ela não estivesse em tratamentos de quimioterapia, já que as pessoas nesta situação não devem apanhar muito sol, porque ficam sujeitas a queimaduras mais facilmente. Mas a miúda, na frescura dos seus dezasseis ou dezassete anos, não quis saber e foi para a praia com os amigos.
Claro que a nossa médica se zangou e ralhou com ela, o que não quebrou aquela alegria de viver, nem a galhofa com os amigos.
Invejei essa alegria várias vezes... O alheamento à gravidade da situação, a inocência, a inconsciência... Até nos momentos mais dolorosos, em que vomitava durante a quimio, aquela miúda mantinha a leveza que só a pouca idade permitia...

Lembro-me dela muitas vezes. Hoje, terá quase trinta anos, uns vinte e sete ou vinte e oito anos... Lembro-a como se lembram os companheiros de cancro, em que a pergunta que primeiro nos vem à cabeça é "Será que ainda está viva?".

Gostava tanto que sim...