terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O dom da palavra

Penso as relações com abertura, sinceridade, frontalidade. Não consigo sustentar amuos, mal-entendidos, palavras por dizer.
Sei que às vezes sou bruta nesta forma de agir, que a minha frontalidade fere e incomoda, que às vezes ofende. Mas os silêncios piedosos, as incompatibilidades por resolver e as dores caladas são sempre mais cruéis, porque aquilo que não se verbaliza fica a doer para sempre, a escarafunchar-nos por dentro e ergue muros difíceis de transpor entre o que somos e o que o outro pensa e sente que somos.
A palavra, por mais dura que seja, vem dar espaço ao entendimento, à compreensão do outro, à partilha de emoções, ao fortalecimento das relações.
Calar a dor não a destrói, pelo contrário, amplifica-a. Fá-la gritar-nos aos ouvidos a sua presença e trá-la à superfície sempre que estamos mais frágeis.

Há entendimento sem palavras, que há. Às vezes, esse é o mais forte e profundo, porque prescinde de quase tudo, bastando-nos existir para percebermos o outro e para que o outro nos perceba. Mas, infelizmente, é raro, porque depende de uma comunicação quase telepática entre as pessoas, que nem sempre existe.

A palavra abre-nos ao outro, revela-nos, torna-nos conscientes de nós próprios e do que sentimos e dá-nos, entrega-nos ao outro - a palavra sincera, que vem de dentro, não a que nos sai por comodismo ou gentileza, mas aquela que vamos buscar às inseguranças e medos, às incertezas, às fragilidades. Essa palavra que nos torna débeis e confronta as debilidades do outro, mas que, ao mesmo tempo, nos impõe a força para ultrapassarmos os obstáculos daquilo que sentimos, daquilo que o outro sente e que, no final, vem amenizar tudo, apaziguar e fortalecer as relações. Esse é dom da palavra.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Aridez

Sinto um desapego crescente pelos objectos. Talvez por isso me distancie de tudo o que é compras e o consumismo me aflija tanto...
Vai longe o tempo em que havia muito que me fazia falta. Hoje, não sinto falta de coisa nenhuma. Não desejo nenhum presente de Natal ou de aniversário. Nada me encheria as medidas ou ocuparia os espaços que trago vazios. E tenho vários, nos quais os objectos nunca caberiam.

Todos os anos, a minha mãe obriga-me a escolher qualquer coisa que me ofereça. Escolho um creme para a cara que não compraria se não mo oferecessem. Há já vários anos que é isso que me cai no sapato vindo dela e me dura o ano certinho de cara apresentável.

Ficaram para trás os velhos tempos em que usava produtos de maquilhagem.
A base, o batom ou as sombras ainda tenho as da altura do curso de manequim, de há uns 15 anos. Tenho-os ali, dentro de uma bolsinha que nunca uso, para o caso de um dia me apetecer ou precisar. Nunca precisei, nem me apeteceu. Prefiro a cara limpa de gorduras e cores. Um risco nos olhos e rímel nas pestanas chegam para me tornar numa outra, mais arranjadinha e senhora como a vida por vezes me impõe.

Hoje, fui com a minha mãe comprar o tal creme do ano. A funcionária da perfumaria que nos atendeu perguntou o que punha na cara. Nada, não ponho nada. Vi o espanto crescer-lhe na expressão. Nem base? Não, nada, só creme hidratante, quando o tenho ou quando não é Verão e a transpiração mo leva do rosto num instante.

Já no corpo é a mesma coisa, só creme hidratante e só quando me apetece algum besunte que me alivie as escamas da pele seca.
Toda eu, sou seca de pele. Escamo e arranho, mas prefiro-o ao óleo dos cosméticos, ao sebo escorregadio dos produtos e ao cheiro excessivo que alguns trazem.

Talvez a secura me venha de dentro para me proteger dos exageros nos gastos... Talvez esta secura em crescendo seja a capa que me separa daquilo que me é fútil, estranho, insignificante... Talvez a aridez da idade me tenha vindo limpar dos supérfluos, assim como que a preparar-me para o fundamental e para aquilo que me poderá encher os imensos vazios que habitam este deserto sedento de oásis...

Ou talvez eu seja mesmo só desleixada e desprovida de afeição pela matéria...

Vá-se lá saber...

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Só para variar

Ando cansada. Tão cansada que não me apetece fazer nada. Só me apetece embrenhar-me no meio da natureza e ficar por lá, embrenhada. Já só me faz sentido olhar o céu, sentir os cheiros que dançam no ar e revolver a terra com as unhas. Tudo o resto me parece falso, inútil, fútil.

Não suporto o espírito natalício que me rodeia. Irritam-me as pessoas com a sua caridadezinha natalícia, com a adoração pelas crianças que só vem nesta época, com a falsa solidariedadezinha, com a fome consumista. Irritam-me as pessoas com as suas vidas de aparências e de alegrias exibicionistas.
As luzes de Natal que iluminam ruas vazias parecem-me cada vez mais artificiais. Não há gente para elas. E a que há não está realmente lá. As pessoas já não saem, não vivem, não conversam. Fingem que fazem imensas coisas e tiram fotos. Sugam tudo para dentro dos telemóveis e ficam-se por aí.
Parece que não há nada para fazer e nunca houve tanto para fazer. Apesar de certos locais se encherem, quem por lá anda, segue numa solidão atroz. Na Era da comunicação não há comunicação e o que se comunica é vazio, plástico, fingido.

Já não aguento o exibicionismo. Estamos cheios de exibicionismos. Queremos mostrar tudo, mas damos tão pouco... Não nos damos aos outros, não abrimos o coração para os deixarmos entrar. Pelo contrário, fechamo-nos. E por lá nos deixamos ficar cerrados a sete chaves. Somos intolerantes, cobardes e cruéis e exibimos a nossa intolerância, cobardia e crueldade da mesma forma que exibimos a nossa caridadezinha, solidariedadezinha e alegriazinha.

Foda-se, para onde foram as pessoas de verdade? Onde se esconderam? Porque escolheram viver nestas fogueiras de vaidades?
Onde estão as conversas profundas, os choques de ideias, o pensamento crítico, o afecto puro e despojado de interesses? Para onde foi o amor, a amizade, o apego?

Vivemos à superfície. Porquê, porra? Porque abdicámos de mergulhar na vida, quando podia ser tão mais fácil irmos ao fundo de nós próprios, dos outros e das coisas que nos circundam?
Temos tudo tão perto: conhecimento, informação, meios de chegar aos que estão longe, voz... E, no entanto, distanciamo-nos. Recolhemo-nos em quotidianos insalubres, estéreis e débeis e ficamos a padecer alegremente das nossas vidas doentias.

Preciso de ar, sinto-me a afogar no rol de mentiras que é a existência humana. Preciso de contemplar o céu, de sentir os cheiros que dançam no ar e de revolver a terra com as unhas. Preciso de um pouco de verdade. Só para variar...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A cama

Sentou-se na beira da cama e descalçou os chinelos um a um. Encostou-os geometricamente lado a lado à parede em frente, mesmo por debaixo da janela.
Rodou sobre as nádegas e enfiou as pernas dentro da cama. Abriu o livro, abandonado há já três dias, e retirou o marcador de metal da página 57 que leu por quatro vezes sem reter uma palavra. Desistiu. Voltou a marcar a página 57 e a abandonar o livro por tempo incerto.
Deixou-se deslizar para dentro dos lençóis e aninhou-se, como de costume, na posição fetal virado para a esquerda.
Fechou os olhos e tentou silenciar os pensamentos.
Faltava-lhe o calor do corpo dela a aquecer-lhe as costas. As dobras dos joelhos não tinham o toque dos joelhos dela, as plantas dos pés sentiam a falta dos peitos dos pés dela, o calor da sua respiração na cova que lhe separava os omoplatas já não estava ali para lhe eriçar os pêlos. Faltava o som do ar que saía e entrava nos pulmões dela a um ritmo certo e lhe sossegava as ideias até as calar num sono profundo. O braço que lhe envolvia o ventre, acabando numa mão fria a rodear-lhe o pulso era agora apenas uma sensação fantasma.

Rodou para o lado contrário e apalpou a cama vazia a seu lado. Estava tão gelada que o frio lhe percorreu o corpo por inteiro.

Durante trinta anos, aquele lado da cama fora ocupado pelo corpo da mulher que o envolvia todas as noites. Agora a sua ausência enchia o espaço que outrora fora de amor e protecção, tornando-o insuportável.
O vazio do aconchego que lhe precedera o sono até ao fim da vida da mulher, tomou conta da cama e atirou-o para fora como se lhe tivesse dado um empurrão.

Foi ao armário buscar um cobertor e enroscou-se no sofá da sala.
Deixara de pertencer, para sempre, àquela cama.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Ao toque das notificações

Wall-E

Há consenso quando se diz que as crianças andam a abusar dos smartphones; que não largam os aparelhómetros e que já quase não socializam umas com as outras.

Se nos olharmos ao espelho, por sinal um exercício deveras enriquecedor que devíamos experimentar mais vezes, também nós, pais, abusamos dos smartphones e deixamos que eles invadam a nossa vida e nos roubem o tempo que é dos nossos filhos.
Ah, ok, nós temos desculpa, porque é o e-mail do chefe que chegou, ou o da escola dos filhos com o agendamento da reunião de pais, ou porque "postámos" uma coisa muito gira nas redes sociais e precisamos urgentemente saber se os nossos amigos do Facebook ou do Instagram gostaram. Sim, nós temos sempre desculpa.

Todos estamos abusivamente ligados ao mundo virtual, de tal forma que praticamente vivemos dentro dele. Transferimos as amizades para um espaço conjunto imaginário que preferimos ao contacto presencial com as outras pessoas. Já não precisamos de ir ao café à noite, ou ao bar, para nos encontrarmos com os amigos. Dentro da caixinha que não largamos por um minuto estão lá todos. Para quê sair de casa e apanhar o frio do fim de tarde ou o bafo do fumo dos cigarros dos bares, se conversamos com quem queremos através do telefone em pijama e chinelos no conforto do lar?

Quando temos o azar de ter de sair de casa, captamos cada momento com a máquina fotográfica do aparelho sempre em riste. Registamos tudo para provarmos aos outros e a nós próprios que ainda vivemos alguma coisa. E incluímos os filhos nos nossos delírios. Mandamos os miúdos enquadrarem-se com os quadros da exposição, com o pôr-do-sol na praia, com a maior árvore de Natal da Europa ou com as flores do jardim, mas não lhes respondemos às perguntas, não respiramos em conjunto a brisa do mar ou rebolamos na areia, não lhes explicamos porque o pintor pintou aquele quadro ou o que se festeja no Natal. Introduzimos apenas os miúdos no aparelho para os exibirmos, e à nossa falsa felicidade, nas redes sociais. Porque a vida deixou de ser vivida para passar a ser apenas mostrada. Mostramos aquilo que gostaríamos de ser, mas não conseguimos ser nada em concreto.

Como podemos ter legitimidade para criticar as crianças? Como podemos ter autoridade para as proibirmos de abusar dos telemóveis que nós próprios lhes oferecemos e que até nos dão muito jeito quando queremos jantar no restaurante sossegados sem que nos interrompam com mil e uma perguntas ou quando os queremos contactar a qualquer hora quando estão na escola?

Não me parece que tenhamos nem legitimidade nem autoridade.
Somos o primeiro exemplo que os nossos filhos seguem e somos o pior exemplo que poderiam seguir.

"Ah e tal, mas o mundo do trabalho exige que estejamos sempre ligados à Internet!". Sim, exige, porque nós deixámos e continuamos a deixar cada dia um pouco mais. Porque deixámos o trabalho invadir o nosso espaço privado e porque somos preguiçosos e seguimos sempre o caminho aparentemente mais fácil.

É mais fácil receber o e-mail do chefe do que o ouvir; é mais fácil receber a convocatória para reunião de pais por e-mail do que ter de assinar um papel que nos enviem para casa; é mais fácil ligar para o telemóvel dos nossos filhos do que ligar para a escola e pedir que os chamem; é mais fácil ter os filhos com as cabeças dentro de um ecrã do que lhes responder às perguntas que têm para nos fazer durante o jantar.

Hoje, temos crianças incapazes de socializar, crianças que vivem dentro dos seus telemóveis, assim como os pais vivem dentro dos deles.
Os nossos filhos são o espelho ao qual viramos a cara para não nos enxergarmos e que vamos deixando que se percam dentro de um ecrã, no mesmo ecrã em que vivemos comandados pelo toque das notificações.

Será que algum dia os iremos encontrar fora do ecrã? Será que eles saberão viver fora do quadradinho? No que nos estamos todos a tornar?

sábado, 3 de dezembro de 2016

Ensino e aprendizagem

Na turma do meu filho há um miúdo repetente que tem 15 ou 16 anos. O meu filho está no 7º ano, o que quer dizer que o miúdo já deve ter chumbado uns três ou quatro anos.
No outro dia, dizia-me ele:
- Sabes, mãe, acho que se vê quem são os meus professores bons pelas notas do B.?
- Então?
- Acho que o B. vai ter muito boa nota a Educação Visual e o professor é dos melhores que temos.
- Porque achas que uma coisa está relacionada com a outra?
- Porque ele consegue estar atento às aulas e faz trabalhos muito bons, ao contrário de nas aulas das outras disciplinas.

Esta conversa com o meu filho, fez-me pensar que hoje, o ensino e o sucesso escolar dependem demais da qualidade dos professores.
Haver alunos que chumbam vezes sem conta está demasiado nas mãos dos professores porque o sistema de ensino não funciona. Se houvesse uma maior abertura às necessidades, expectativas e características de cada aluno, em vez de se "encarneirar" toda a gente, talvez houvesse menos miúdos a chumbar e a chumbar menos vezes.
Não acho que se deva baixar o nível de exigência, de maneira nenhuma, mas parece-me imperativo que a forma de ensino e as matérias leccionadas interessem aos aprendizes. E quando digo "interessem", não digo que as matérias se cinjam a jogar minecraft ou até que o meio para se transmitir o conhecimento deva ser a partir das novas tecnologias (acho até que a introdução das novas tecnologias nas aulas começa a ser um pouco excessiva), quando digo "interessem", quero dizer que vão de encontro às características e interesses dos alunos e, especialmente, lhes incutam uma certa sede por mais conhecimento.

Se o colega do meu filho se interessa por desenho, porque não se chega a ele através do desenho para lhe ensinar matemática, português ou outra disciplina qualquer?
Porque as turmas são gigantes e porque o ensino é descabido quando insiste que todos os alunos aprendam da mesma maneira. Assim, só mesmo a mestria de um muito bom professor para conseguir ensinar alguma coisa. E como os professores são pessoas, com todas as suas qualidades e defeitos, não podemos ter o ensino dependente da mestria de cada um deles. Antes pelo contrário, o ensino tem de funcionar independentemente das características de quem o lecciona. Tem de haver um sistema (ou vários) que amplifique as formas de ensinar de maneira a que ele chegue aos diferentes alunos, sem uniformizar as pessoas, tanto alunos quanto professores. É o método, ou melhor a amplificação dos métodos, que deve possibilitar o acesso aos ensinamentos por todos.
O processo de aprendizagem deve ser estimulante para que os alunos gostem de aprender, porque só gostando de aprender se aprende realmente.
Se os alunos sentirem curiosidade pelas coisas e se sentirem impelidos a expandirem o leque de conhecimentos, vão aprender com maior facilidade. E o que aprenderem vai ficar-lhes para sempre. Esta sede de conhecimento e gosto pela aprendizagem até os ajudaria a assimilarem matérias que lhes são menos interessantes ou aborrecidas, porque o processo em si já os estimularia.

Pelo contrário, vejo que se pretende que os aprendizes "marrem" matérias para as despejarem nos testes. As aulas são maioritariamente monocórdicas e não incentivam à participação activa dos alunos, ao questionamento, à visão crítica e à reflexão. Há até quem não permita que se duvide ou se perspective os assuntos tratados.
Percebo que a questão "tempo" seja um factor preponderante na ausência dos debates abertos nas aulas, mas não pode ser determinante. Afinal, quer-se que os alunos aprendam ou não?
Eu acho que não e isso preocupa-me sinceramente, porque quando se tem um sistema de ensino que não tem como objectivo primordial a aprendizagem é sinal que esse sistema não está a funcionar, que é obsoleto e que deve ser rejeitado. Mas não o vejo ser rejeitado, nem por professores, nem pelos pais que fazem manobras e contorcionismos para adaptarem os alunos e os filhos a algo que não lhes serve, nem servirá nunca. Vejo professores preocupados com o andamento das aulas dadas e com o cumprimento dos programas e pais fixados nos resultados dos testes e no bom aproveitamento às disciplinas como se isso chegasse como prova dos conhecimentos adquiridos.

Se fizéssemos perguntas aos alunos sobre matérias dadas no ano anterior, aposto que a maior parte deles não saberia responder correctamente, mesmo que tivessem tido boas notas. Aprenderam o que lhes ensinaram? A mim, parece-me que não.
Já se perguntássemos ao B., colega do meu filho, sobre um desenho que ele tenha feito no ano anterior, aposto que ele saberia responder correctamente. Porquê? Talvez porque só se sabe o que se quer verdadeiramente saber e porque quando damos alguma coisa a alguém, essa pessoa tem de estar aberta a recebê-la.