domingo, 30 de outubro de 2016

Supermercado milagroso

Amanheci em desalento. A noite havia sido pouca, levantei-me irritada e sem sono que, há já vários dias, andava em falta, chorei, discuti. Não saí de casa até à hora em que fui ao supermercado. 
No espelho, antes de sair, vi-me velha e cheia de rugas, cabelo estranho, olheiras, olhar triste e cansado.
O fim do dia prometia não destoar do seu início, ainda mais por ter de ir às compras que detesto.

Já no supermercado, na secção dos laticínios, encontrei dois chineses em busca de leite gordo. Olhavam as prateleiras desorientados e pediram-me socorro. Procurei o que pretendiam e ajudei-os a distinguir as várias qualidades de leite para que numa próxima ocasião não precisassem do auxílio de ninguém. Agradeceram-me muito e levaram o produto que pretendiam.

Na secção dos congelados, uma senhora abalroou-me o carrinho de compras. Pediu-me imensas desculpas e devolvi-lhe um sorriso acompanhado por um "não faz mal".

Na padaria, esqueci-me de tirar a senha e a freguesa que me seguia tirou-a por mim e entregou-ma, antes de tirar a dela. Agradeci-lhe e trocámos algumas palavras enquanto esperávamos que nos atendessem. Acabou por me aconselhar um novo bolo que assenti e levei para casa.
Na caixa, a funcionária, que já me conhece, travou uma animada conversa comigo e despedimo-nos a rir.

Saí do supermercado melhor do que entrei (o que é raro em mim), mas perseguida pela dúvida se a minha aparência desgraçada teria contribuído para que as pessoas me tratassem melhor ou se simplesmente estavam mais simpáticas naquele dia.

Quando me reencontrei com o meu homem, recebeu-me com um "estás cada vez mais nova e bonita" que estranhei por achar precisamente o contrário.

Sim, parece que, ao contrário de todas as expectativas, há dias maus que acabam bem!

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

É o país que temos!

Esta típica frase portuguesa aparece vezes sem conta a rematar conversas que não se querem ter mais do que à superfície. Faz-me lembrar o fado, o fatalismo, a resignação a um destino.
Oiço-a amiúde e não sou capaz de a deixar de ouvir.
"Os impostos são muito altos. É o país que temos!"; "Os políticos são todos uns corruptos! É o país que temos!"; "O ladrão saiu em liberdade! É o país que temos!"; "Hoje choveu! É o país que temos!"; e por aí fora aplicada a qualquer conversa de circunstância. 

"É o país que temos" é o ponto final. Acabou, não há nada a fazer. Temos pena, mas agora vamos à nossa mísera vidinha de cabeça baixa num lamento interminável!

Claro que há muito a fazer, porra! 

É este o país que queremos ter? 
Se não é, porque não o mudamos?

Eu respondo: porque do que gostamos realmente é de nos lastimar. Seja lá do que for. Se fizermos coisas, se mudarmos o que está mal, já não temos razão de queixa. Já não temos o fado, temos tudo tragicamente bem. E isso é que não pode ser. Que iríamos fazer a seguir? Desfrutar da vida alegremente, assim, sem mais nem menos?
Que conversas teríamos no café? Que bocas mandaríamos nas redes sociais? Que ofensas poderíamos atirar aos outros?
Nada! Deixávamos de ter assuntos para debater. Perderíamos a alegria de sermos eternamente infelizes.

É o país que temos!


sábado, 8 de outubro de 2016

Tenho uma tatuagem no meio do peito

Ontem, no elevador, olhei ao espelho o meu peito que espreitava pelo decote em bico da camisola, e vi-a. "Tenho uma tatuagem no meio do peito", pensei. Geralmente, não a vejo. Faz parte de mim, há dez anos, aquele pontinho meio azulado. Já quase invisível aos meus olhos, pelo contrário, ontem, olhei-a com atenção, porque o tempo já me separa do dia em que ma fizeram e me deixa olhá-la sem ressentimentos. À tatuagem como à cicatriz que trago no pescoço.

A cicatriz foi para tirar o gânglio que confirmou o linfoma. Lembro-me do médico me dizer "vamos fazer uma cicatriz bonitinha. Ainda é nova e vamos conseguir escondê-la na dobra do pescoço. Vai ver que quase não se vai notar". Naquela altura pouco me importava se se ia notar. Entreguei o meu corpo aos médicos como o entrego ao meu homem quando fazemos amor.
"Façam o que quiserem desde que me mantenham viva", pensava. "Cortem e cosam à vontade! Que interessa a estética de um corpo se ele está a morrer?!"
Estranha esta entrega que nos põe à mercê de quem não conhecemos. É uma entrega total como a que fazemos ao amor. Profunda, completa, intensa...

A tatuagem foi a marcação dos limites da radioterapia. Dezanove sessões, dezanove dias, em que marcou o limite do local a queimar. Porque aquilo queima e mata tudo o que irradia.
Fizeram-na no mesmo dia em que construíram o molde da máscara que ia usar nas sessões. Uma máscara de uma espécie de rede que me prendia a cabeça e a segurava na inclinação certa. Mediram-me toda nesse dia. Fizeram-me esquadrias no peito e desenharam-me...
"Vamos fazer-lhe uma pequena tatuagem aqui no meio do peito", disseram.
"Depois sai?", perguntei.
"Não, fica para sempre, mas é apenas um pequeno pontinho!"
"Ok!", respondi. Mais uma coisa para sempre. Que fique num "sempre" longo.

Depois de marcada e mascarada, foram as sessões de radio numa sala de onde todos fugiam. Acho que foi o que me marcou mais da radioterapia: fugirem todos e deixarem-me ali sozinha pendurada numa máquina, de máscara na cara, a levar radiações sob vários ângulos.
Fui deixando de conseguir comer, nada me passava pelas goelas; de sentir o sabor dos alimentos, tudo me ardia na boca; deixei de ter saliva e ter de bochechar com saliva artificial para conseguir engolir em seco; tinha dores incríveis que me levaram a precisar de injecções para as amainar; enchi-me de fungos na boca, placas brancas que mais tarde me apareceram noutros sítios. O meu pescoço ficou muito vermelho e precisei de andar de lenço enrolado para o proteger do sol e a besuntá-lo com Biafine todos os dias. Tinha enjoos e fome ao mesmo tempo. Fiquei tempos sem poder arrancar dentes por medo do maxilar se partir. Ainda hoje, tremo quando tenho de arrancar um dente de baixo.
As radiações que a tatuagem delimitou fizeram-me careca da nuca para baixo, sem pêlo por debaixo dos cabelos que na parte de cima da cabeça já tinham crescido e escondiam o vazio da pele magoada.

Às dezanove sessões, pedi à médica para não fazer as duas que faltavam.
"Podemos ficar assim?", perguntei.
"Sim, mas era bom fazermos as duas sessões que faltam para completar o tratamento", respondeu-me.
"Ficamos assim, deixe lá isso!"
E ela deixou, felizmente.

Ontem, ao olhar-me ao espelho no elevador, lembrei-me que o pontinho que tenho no meio do peito e que parece um ponto negro, é cheio de história. No mero pontinho está tatuada a parte mais dolorosa dos tratamentos ao linfoma. Mais do que a quimioterapia que me levou muitos cabelos embora, mas nunca me pôs completamente careca, a radioterapia escreveu-me uma história no meio peito que está aqui discreta e em tons azulados.