quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Da paixão

J.- O que eu gosto mais, de tudo, é de basquetebol!
Eu - Sim, eu sei.
J.- Bem, tudo menos tu, o pai e a avó...
Eu - Sim? Sinto-me muito lisonjeada.
J. - Podia morrer tudo, menos tu, o pai e a avó, e se eu só tivesse o basquetebol era feliz!

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Brad e Angelina ou Pitt e Jolie. Enfim, o que quiserem

DAQUI

Confesso que o título e a imagem são armadilhas para atrair o monte de voyeurs que segue a saga do divórcio dos dois actores americanos para este meu bloguezinho solitário. Sim, gosto de utilizar estas técnica manhosas para falar de assuntos sérios a pessoas que só se interessam por coscuvilhar a vida alheia. Sim, sou manhosa que me farto!

De escudo em punho para me proteger das pedras que me queiram atirar, digo-vos que o caso Brad e Angelina ou Pitt e Jolie, ou até "Bradjelina", como preferirem, não me interessa minimamente enquanto conto de fadas destruído. Sim, eles são lindos de morrer, e tal, e tal, e tal, mas se me deu para reflectir sobre este assunto não foi só para atrair os amigos voyeurs (pois... sou uma "intelectualoide" de categoria que raciocina até sobre temas mundanos e sem interesse nenhum, pintando-os de outras cores para falar de coscuvilhices sem descer ao nível dos coscuvilheiros), mas essencialmente para me focar na reacção das pessoas aos casos de divórcio, violência doméstica (sobre o par e sobre os filhos) e sobre o fim das relações amorosas em geral.
(Viram, como tornei este assunto sensaborão num assunto sério e interessante?!)

Ups, acabei de me desviar de uma pedrinha que me acertou em cheio no escudo romano que seguro firmemente!

Não sei se o que motivou o divórcio daqueles dois foi a violência sobre os filhos, ou sobre um dos dois; se foi a dependência do álcool; se foi um caso extra-conjugal; ou se foi o mau-feitio da Angelia ou do Brad. Na verdade, nem me interessa.

O que me interessa não é a parte dos pormenores sórdidos da relação. Se ele lhe deu um murro ou se ela lhe atirou com uma garrafa à cabeça; se ele se embebeda com uísque ou com cervejinhas geladas; ou se ele obriga os putos a fazer os T.P.C  à lei da porrada; ou até se ele ou ela dormiram com outros... São assuntos que não me dizem respeito. Não tenho nada a ver com isso. Eles lá saberão e só a eles diz respeito.

O que acho interessante nesta fantochada mediática é a reacção do público a este caso de divórcio, como também já tinha vindo a acontecer em versão nacional, o famoso caso Carrilho / Guimarães.

Acho incrível a forma como as mulheres atacam as mulheres que vivem estas situações conturbadas de divórcio. Ora, que a dita intenta divorciada era uma galdéria; ora que o coitado do moço, tão sério, viveu momentos penosos de infidelidade ou sofreu a rodos nas mãos das maluqueiras da bruxa; ora que o coitado só teve um deslize porque se sentia triste e abandonado e que a obrigação dela seria o perdão; e por aí fora... Desculpas mal enjorcadas para culpar as mulheres e perdoar os homens é o que não faltam!

É engraçado ver que os primeiros a julgar as mulheres que se querem divorciar e sair de um suposto "conto de fadas" são as próprias mulheres; que os homens são vistos normalmente como vítimas de uma situação que elas, e só elas, provocaram.

Não venho desculpar as mulheres com a postura feminista de que somos sempre vítimas de discriminação de género. Não somos sempre, somos às vezes.

Nos casos de divórcio tanto as mulheres quanto os homens são culpados. As relações fazem-se a dois e se elas acabam é porque não funcionam pelo menos para um dos lados. A velha máxima "quando um não quer, dois não fazem" parece-me que faz todo o sentido aqui.

Claro que se há qualquer forma de violência (e incluo a psicológica geralmente tão desprezada), ou seja, de crime, deve ser julgada nas instâncias devidas, em tribunal e por juízes capazes de não misturarem os seus preconceitos e convicções pessoais com a análise transparente dos factos e no julgamento dos agressores / criminosos.

Também tem piada verificar que as mulheres bonitas, como a Angelina e a Bárbara, são normalmente mais atacadas pelas outras mulheres nestes casos relações desfeitas...
Mais uma vez a imagem e a invejazinha recalcada falam mais alto do que a razão e vêem-se, e ouvem-se, mulheres a dizer coisas tão cretinas como "com aquele ar, já era de esperar", "ela sempre andou à caça de outros", ou até as simples, mas não menos cretinas "nunca fui com a cara dela, ele deve ter passado muito com uma mulher daquelas".

Ups, mais uma pedra, desta vez um calhau, que quase me roça a orelha!

Não sou ingénua para não saber que há mulheres que utilizam os crimes de agressão para vencer os casos em tribunal, para conseguir a guarda dos filhos ou até para simplesmente atingirem o ex-parceiro. Há que as há e não são poucas. Mas se usam estes meios é porque podem, e podem porque ainda há muita cabecinha deformada e ainda não chegámos ao estádio em que homens e mulheres são vistos como iguais, em que qualquer um pode mentir, agredir e ser um sacana de merda.

Sim, ainda não somos iguais aos olhos da maior parte das pessoas. Infelizmente!

Mas se as mulheres atacam as mulheres, os homens também atacam as mulheres... E atacam como se fosse obrigação feminina sustentar as relações, equilibrá-las para perdurarem, segurar as pontas, enrolá-las e atar de novo para que não se soltem os laços sagrados do matrimónio. Tretas! Nem o matrimónio é sagrado, nem esta é uma função exclusiva de qualquer uma das partes. "Quando um não quer, dois não fazem!", lembram-se?

Desviei-me!!! Ainda não me acertaram! Eh eh eh! Vai mais uma pedrinha?

Os homens também usam os mesmos argumentos das mulheres para se desculparem, mas muitas vezes vêm com a alegação da carne fraca. Irónico este argumento quando se têm em conta como o sexo forte... Como é isso afinal, hã? Carne fraca, mas sexo forte? Não será uma a antítese do outro?

Enfim, desculpas que se vêem como factos e que se espalham como verdades.

Se a carne das mulheres fraqueja são umas indignas, se a carne dos homens fraqueja, é assim mesmo, coitadinhos que não conseguem conter os impulsos sexuais. É triste ver-me a escrever isto em pleno século XXI, mas infelizmente não lhe posso fugir, esta ideia ainda se encontra entranhada em muita gente. E aparece, se não conscientemente, muitas vezes escondida atrás de outras ideias tidas como "p'rá frentex" e "anti-discriminação".

Já para não falar no impulso agressivo dos homens que segue a mesma linha do impulso sexual...

No entanto, não só os homens são desculpados dos seus actos impulsivos, as mulheres também são desculpadas das artimanhas para ficarem com a guarda total dos filhos, como se a maternidade fosse mais importante do que a paternidade e como se actos tresloucados se desculpassem facilmente se camuflados no "imenso amor de mãe".
Tretas! Se formos sacanas por causas "belas e grandiosas", somos menos sacanas? Não, não somos, não se iludam as mãezinhas! Somos igualmente sacanas e, pior, quando somos sacanas para os pais dos nossos filhos, estamos a ser sobretudo sacanas para os nossos filhos.
Onde põem agora o "imenso amor de mãe" que tudo justifica?

Eh pá, esse calhau não, que me mataria aqui num instante!!!

Voltando ao Brad e à Angelina (que os voyeurs já estão a ficar aborrecidos), sim, sei dos mexericos que por aí circulam, mas o meu voyeurismo não aponta na direcção deles, mas sim na vossa, amigos!

Hello, I'm watching you! Eh eh eh!




Pronto, já tenho dois galos na cabeça! Contentes?



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Múltiplos

Perdemo-nos a cada segundo que gastamos imersos em múltiplos.

Já raramente paramos para ler, ouvir, ver, sentir ou falar. Fazemos tudo ao mesmo tempo numa pressa que algo se esgote.
Querem-nos capazes de dominar vários idiomas, ferramentas, técnicas. Querem que sejamos dinâmicos e que tenhamos mil e uma competências; que estejamos aptos para tudo.
Se não temos determinada competência ou se não estamos aptos para certa função, que desenvolvamos as competências em segundos e que aprendamos rápido tudo o que ainda não sabemos.
Querem-nos imensos num. Queremo-nos imensos num. E corremos a colmatar cada falha, cada vazio, cada incapacidade.

Para quê? De que vale sermos vários se não conseguimos ser um? Se gastamos tempo a ser vários, em vez de nos demorarmos num?

Perdemos histórias, música, cor, toque e palavras. Perdemos vida a cada momento, a cada instante que nos ausentamos de nós mesmos. E ausentamo-nos tantas vezes.
Saímos de nós para buscar outros que não fomos, que não somos, que nunca seremos.

E levamos os filhos atrás.
Queremo-los muitos num só. Que controlem tudo. Que sejam perfeitos em cada tarefa, em cada esfera em que se movam...

Estamos a perder o "eu" para alimentar o "eu".

Quantos "eus" conseguiremos ainda alimentar? Quantos "eus" teremos ainda que sustentar para ver crescer o "eu" que se perdeu entre muitos?

Quantos?

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Fã do Harry Potter, mas nem tanto...

Perguntei ao meu miúdo se queria ir ao lançamento do novo livro do Harry Potter na Ler Devagar.

- Achas? Quero o novo livro, mas não vou em palhaçadas! Agora andar lá naquele amontoado de gente mascarada?!

Ok, encomendo-o online.

DAQUI

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Dos blogues

DAQUI

Comecei isto dos blogues faz tempo. Mais precisamente em 2011. Faz tanto tempo que este menino aqui já completou cinco anos em Agosto.

Há cinco anos e picos que venho para aqui arrotar as minhas postas de pescada. Primeiro, em núpcias das delícias da maternidade; depois confrontada com o fim das núpcias; hoje, com a consciência de que a maternidade se expande por tudo o que é lado da vida da gente.

Nunca, mas mesmo nunca, tentei tornar este blogue num lugar cuchi-cuchi, fofinho e queridinho. Este lugar não é de todo fofinho. Não há por aqui adoçantes da vida, nem marcas a embelezar o que se passa por dentro e por fora da minha experiência enquanto mãe, ou enquanto pessoa, ou até mesmo a comandar o que escrevo. Não me deixo limitar por "politicamente correctos" ou estereótipos que atentem contra a minha liberdade na escrita. Escrevo o que me dá na real gana, quando me dá na real gana.

Em tempos, cheguei a ter por aqui uma publicidade, mas nada que me prendesse e algo de que até gostava. Hoje, tenho a do Google por aí espalhada que não me rende nadinha, mas adorna os espaços vagos, fica bonitinho e dá um ar de homenzinho a este blogue imaturo.

Talvez por nunca ter tido a sorte, ou o azar, do blogue ir para além de umas diminutas visualizações, nunca ficou na moda, nunca se encheu de "gostantes" no Facebook ou noutra rede social qualquer.
Se houver por aí alguma marca que se queira associar a este modelo anti-cuchi-cuchi, não me importarei que ponham aqui a sua montra, no entanto não me ralo muito com isso, não empreendo esforços para que o façam, nem vou a correr atrás delas a dizer "estou aqui, olhem lá para este sítio tão giro. Não querem que vos venda uns produtos, fingindo que os aprecio bué?". Se fosse uma livraria, até não me importava de experimentar alguns produtos... Fica dica, hã?!

De certa maneira, até estou agradecida que não venham colar-se aqui para que não me sinta presa ou condicionada a elas. Gosto de andar por aqui em liberdade, gosto de sentir que, mais do que dos leitores, este espaço é meu.
Falo convosco com a sinceridade que gosto de usar, mas, na verdade, falo mais comigo do que convosco. Sinto este cantinho como muito meu, mas tenho todo o prazer nas vossas visitas e, especialmente, nas nossas trocas de impressões. E sermos poucos até torna isto mais intimista e acolhedor e por isso mais agradável.
Nem consigo imaginar se tivesse para aqui um monte de gente mal-educada a meter-se na minha vida e a opinar. Acho que as enxotava a pontapé. Vá, a pontapé não, mas à vassourada que é mais meigo.

Porém, este ano concorri ao concurso Blogs do Ano, promovido pela TVI. Honestamente, não sei muito bem porque o fiz. Pensei "já tens uns aninhos nestas andanças de arrotar postas de pescada, vamos lá ver no que isto dá", sem grandes esperanças de chegar onde quer que fosse, pois sei bem quais os critérios de avaliação dos blogues actualmente e, já que não respeito nenhuns, o mais certo seria ficar de fora.

Como tão bem adivinhei, não fui seleccionada para nada... Os assuntos que por aqui falo interessam a uma ínfima minoria, nunca atingindo as massas. Não tenho uma vida idílica, uns filhos vestidos com fatinhos feitos por medida com ar de betinhos, não passo férias em resorts de luxo, nem vou às festinhas das mamãs babadas. Realmente, tenho uma vidinha bem desinteressante como a maioria dos portugueses...
Porque raio alguém se interessaria pela minha conversa? Ainda mais quando ela é tão monótona que mostra tantas vezes os lados mais negros e chatos da vida?
Não há cá espaço para as pessoas sonharem ou se apoderarem da minha vida ou até para se misturam comigo (como acontece com os blogues das figuras públicas); não ofereço prendinhas, nem empreendo concursos em que tenham de gostar da minha página de Facebook em troca de um sabonete; ou sequer faço campeonatos de larachas que contribuam para aumentar a minha auto-estima. Resumindo, sou desconhecida, desinteressante, sem grande piada e não ofereço nada a ninguém. Pronto, estou out, como diria um qualquer fashion blog.

Apesar da minha insignificância, sinto-me francamente agradecida, porque tenho a liberdade, que aqueles que se fundem com marcas ou respeitam estereótipos não têm (se eles saírem do rumo que tomaram são apedrejados e eu posso andar para aqui aos ziguezagues que ninguém me liga nenhuma. Eh eh eh!); tenho a ler este blogue quem realmente se interessa por aquilo que escrevo e os blogues cuchi-cuchi têm a maralha toda mal-educada e metediça. Eu não tenho por cá nem os gulosos das prendinhas nem as sanguessugas de personalidades e eles têm de levar com eles a chuparem-lhes o sangue.

Ok, não tenho dinheiro a partir daqui, mas como sempre dei mais valor à liberdade do que ao dinheiro, estou feliz assim.

Enfim, sou pobrezinha mas livre.

Obrigada aos poucos, mas bons, que me vão aturando! Prontos para os próximos cinco anos???

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Hello?? Está aí alguém? Hello????


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Oh pá, querem ver que fugiram todos?!

domingo, 18 de setembro de 2016

Mediocridade

DAQUI

Entristece-me constatar que quem está à frente de grupos, os ditos lideres, são, geralmente, pessoas menores. Chamo-lhes "menores" não por acreditar que existem vários de níveis de pessoas, mas por considerar "menores" aqueles que se deslumbram e pavoneiam numa insegurança e falta de carácter que só o exercício do poder (por mais diminuto que seja) sobre aqueles que consideram maiores do que eles desfaz a mediocridade em que vivem.

A mediocridade de cada um, se não bem gerida pelos próprios, transforma-se em cancros sociais que apodrecem o que os circundam, criam raízes até aos extremos e atacam todos os órgãos.

Estamos cheios de cancros que destroem tudo em raios de cinco metros. Infectam instituições, pessoas e valores. Infectam e alastram-se. Movem multidões em redor de falácias e imprimem a auto-destruição na verdade e na autenticidade daqueles que lhes são maiores. E "maiores" são aqueles que não precisam do poder para se sentirem cheios, porque a mediocridade não lhes mora na alma que a expiam sem pisar o que os rodeia. Porque a mediocridade existe sempre, só a capacidade de a expiar é exclusiva de alguns. Como a frustração, a dúvida ou a insegurança que todos temos, mas que dependem de uma gestão cuidada para que não nos engulam.

Os menores, esses assoberbados pela própria pequenez, crescem sempre que o poder lhes é entregue. E exercem-no com furor sobre o mundo, destruindo-o e absorvendo-o para a bolha minúscula em que se movem. Fazem-na crescer e enchem-na dos que a poderiam rebentar.

Entristece-me ver aprisionada na bolha tanta gente de valor, afogada pela mediocridade de alguns, enclausurada na inércia dos menores, corroída pelos cancros que estes alimentam na ostentação da própria pequenez.

domingo, 11 de setembro de 2016

A morte do encantamento

DAQUI

O excesso de informação, conjugado com o fácil acesso ao esclarecimento de dúvidas pontuais e com a falsa proximidade do que dantes se sentia inalcançável, tem contribuído para a morte do encantamento.

Se o que nos era distante se fez perto, mesmo que virtualmente perto, o fascínio da descoberta foi-se esvaindo na ilusão do conhecimento.

A falsa proximidade e o aparente saber como a perda do pudor no exibicionismo parvo.

Lembro-me do constrangimento em se venerar a própria imagem; do recato no orgulho das qualidades estéticas ou na admissão das virtudes pessoais.
Sei que em muitos casos a suposta modéstia se fazia por polidez. E, por isso, não a tenho de grande valor, mas não tenho dúvidas que o excessivo culto do corpo e da aparência, assim como a auto-promoção das qualidades e competências de cada um, em praça pública ou gritados aos sete ventos, num narcisismo assoberbado, têm a sua dose de responsabilidade no definhar do encantamento.

Temos vindo a perder o mistério da descoberta e a capacidade de deslumbramento quando a curiosidade nos vem sendo facilmente saciada. Quando perante uma breve interrogação alcançamos uma breve, mas imediata, resposta. Não que acredite que todas as respostas que nos chegam sejam verdadeiras, claro que não, mas a rapidez e ligeireza com que atingimos um estado de contentamento, mesmo que fugaz, fazem-me acreditar que o processo encantatório se tem perdido com a proximidade a uma qualquer e ilusória solução. A verdade é que nos sentimos cheios com bocadinhos de quase nada. Transbordamos horas a ver as montras dos outros e a assimilar aquilo de que não precisamos. Empilhamos informações que nos são dispensáveis ao mesmo tempo que desenvolvemos a montra para nos vendermos. 

Somos, hoje, seres de uma vaidade desmesurada que abrimos a porta da intimidade para nos promovermos; que saltamos as fases da dúvida e do esclarecimento, do erro e da correcção; que roubamos o vagar à procura do que somos realmente porque exigimos o fácil e descartável, porque não nos queremos demorar no processo, nem arranhar a imagem que, constantemente, esculpimos de nós.

Vejo uma sociedade frenética em busca de prazeres diminutos. Vejo a tolerância à frustração e a degustação da vida diminuírem a cada passo para o futuro. Vejo o ser inteiro dissolver-se na construção de um imaginário, permitindo às almas sentirem-se completas na venda de um produto que não é mais do que a idealização daquilo que gostariam de ser. Vejo a procura perder-se no imediato e na ostentação da imagem, em detrimento da essência das pessoas e das coisas.

Guardo a esperança de que nos cansemos de prazeres efémeros e de que larguemos a necessidade de nos vendermos, ressuscitando, assim, o encantamento.


sábado, 10 de setembro de 2016

Um olhar em silêncio que nos prende ao amor


Passam carros e gentes em corrupio. Hora de ponta na cidade e a quietude em nós.
O largo enche-se de vidas cruzadas apenas pelo espaço. Seguem trilhos, na ignorância de que o caminho é já definido. Vão. E vêm.
O silêncio ampara-nos no tempo perdido e prende-nos por dentro. Fechamos portas ao quotidiano e abrimos janelas ao pensamento. Enclausuramo-nos na solidão daqueles que, alheios ao mundo, vivem de sentir.

O som da rua grita em vão, enquanto o olhar se demora em quem amamos. Porque ao amor nada o rodeia. Não há carros, não há gentes, não há sons. Há o silêncio do olhar que diz mil palavras sem um ruído. E no entanto, toca-nos na pele e acelera-nos o coração...
Enche-nos os espaços que não temos para o mundo e diz-nos que vida é só isto, um olhar em silêncio que nos prende ao amor.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Vejam só o que encontrei!



Resumindo

  • Licenciatura em marketing (um profissional certificado);
  • Gosto pela área comercial (amor cego que se venda barato); 
  • De preferência, recém-licenciado (cabeça fresquinha e sem manhas);
  • Com vontade de aprender (que aceite, feliz, todas as "óptimas" condições de trabalho que lhe oferecem, porque os ensinamentos não têm preço);
  • Disponibilidade imediata (já a sair de casa e a arregaçar as mangas); 
  • Carta de condução (vai de carro e não seguro, como a Leonor descalça do Camões); 
  • Oito horas de trabalho por dia e não por noite (muito tempo luminoso para aprender, sem necessidade de acender velas).


Tudo isto, a troco de:

  • Um contrato a termo incerto (um trabalho p'rá vida);
  • 550€ / mês de salário negociável (uma fortuna que pode ser negociável, caso o candidato seja um ingrato);
  • Refeições incluídas (é melhor comer bem durante as horas de serviço, porque vai passar muita fominha a partir daquela hora do dia em que tiver de acender as velas);
Portanto, uma óptima oferta de emprego!
Eu cá já guardei nos favoritos para não perder esta preciosidade!



Este aqui, que recruta um engenheiro mecânico, deixo à vossa consideração, porque tem um perfil do candidato p'ró complicado e esta minha cabeça loira não tem capacidade para o avaliar.




E só mais este para uma ligeira comparação...


Onze anos de formação só custam mais 20€ /mês às duas entidades patronais lá de cima? A educação está barata e não se pode sobrevalorizá-la, não é? Vinte euritos chegam e sobram!
Depois de ver este anúncio, fiquei na dúvida se as "refeições incluídas", dos dois primeiros anúncios, são o valor das refeições ou se são "em género" como as deste último. 

Neste presente aqui em baixo, a entidade patronal é uma empresa de trabalho temporário que utiliza os serviços do Centro de Emprego para lhe seleccionar candidatos.
É impressão minha, ou há aqui alguma coisa estranha?

Ah, ok, a estranha sou eu!

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Strangers in the life

Já vos disse que os seres desta casa são estranhos?
Ups, está escrito a um "post" daqui, mesmo ali em baixo!

Este Verão, fomos de férias a nossa habitual semanita. Há anos que não temos mais de uma semana de férias. Para ser sincera, acho que nunca tivemos mais do que isso. Não, pensando bem, já tivemos sim, uma vez ou outra. Normalmente chega-nos esse tempo para desanuviar, mudar de ares e recarregar baterias e, nestas férias, seguimos o costume.

Este ano, fartos de andarmos agarrados a computadores e tecnologias, sedentos de ar livre e aventura, pegámos no carro e seguimos a sul, rumo somewhere. A única coisa que acordámos com antecedência foi ir para sul junto à costa. Metemos o filho, sacos com alguma roupa, tenda e sacos-cama na bagageira (não o filho não foi na bagageira, só as tralhas) e lá fomos por este país abaixo.

Deixámos os computadores arrumaditos em casa e usámos os telemóveis só quando estritamente necessário. E o estritamente necessário foi sossegar a minha mãe dizendo-lhe que estávamos vivos e dar um espiadela ao Facebook profissional e responder a mensagens de amigos e colaboradores.

Por cá, também nunca ligamos os GPSs dos telefones, que não temos outros e estes vêm encastrados nos bichos, por isso os silenciamos.
Ainda vivemos no tempo dos mapas das estradas. Lembram-se daqueles papelitos dobrados várias vezes com riscos que simulam as estradas do país e nos indicam direcções? Isso! Usámos isso! Eu como o co-piloto, de mapa em punho, e o pai do J. como piloto a seguir minhas instruções, o que me provocou uma sensação de poder incrível. (Vá, miúdo, é mentira, estou a brincar!)

Saímos de casa mais ou menos à hora do almoço e fomos parando onde nos apeteceu.
Seguíamos junto à costa e íamos dormir mais para o interior que é mais barato e tem menos gente.
(Para dizer a verdade, não chegámos a usar os sacos-cama nem a tenda. Para a próxima já não os levamos que só ocupam espaço).

Fomos a praias só ver o mar ou tomar uns banhitos, a castelos, a serras, a praias fluviais. Enfim, fomos por aí e ao sabor do acaso.

As dormidas eram decididas cerca de uma hora antes. Rondávamos a terra escolhida para pernoitar à procura de pensões ou residenciais, entrávamos e perguntávamos se tinham quarto para nós três. Por incrível que possa parecer, arranjámos quarto quase sempre no primeiro sítio em que entrámos. E mais, como chegávamos sem avisar, só tinham quartos duplos para os três, o que nos saiu bem mais baratinho.

Almoçávamos qualquer coisa amanhada nos supermercados e jantávamos nos restaurantes que nos cheiravam bem. Num dos dias, seguimos o cheiro a frango assado, noutro o cheiro a esplanada fresca e agradável.
Seguimos instintos e vontades, livres de compromissos, o que nos soube a ginjas.

Mantivemos as férias quase em segredo, já que para isso acontecer basta não publicar uma única foto no Facebook, nem gritar aos sete ventos "estamos aqui!"; "agora, vamos à casa-de-banho ali da praia X, ok?"; "estamos tão lindos e sensuais com o pezinho enterrado na areia, não estamos?"; "comemos sandocha de presunto ao almoço e um sushi cheio de glamour ao jantar, estão ver! Se estão, metam lá o like, se fazem favor!"

Em vez disso, inspirámos o ar das terras por onde passámos e falámos com as pessoas que se foram cruzando no nosso caminho. Só a rádio M80 não nos largou o caminho todo, já que era o único posto que se ouvia bem em todo lado. Nem tudo pode ser perfeito!

Quando voltámos, contámos a algumas pessoas as nossas férias e algumas mostraram-se muito admiradas por termos seguido sem rumo e sem agenda, por aí fora.
"Não viram os hotéis locais na Internet?"; "Não consultaram a aplicação xpto para saberem o tempo?"; "Não marcaram as estadias com antecedência?", ouvimos de algumas pessoas.

Sentimo-nos uns aliens. Como se viver sem Internet durante uma mísera semaninha fosse uma coisa do outro mundo...
Não é, garanto-vos! Não fizemos nada de especial, apenas vivemos um pouco a vida real. Aquela onde não precisamos de ecrãs para estarmos lá, lembram-se qual é?

Ok, somos estranhos!

Toiro "encrençado"

Hoje, gritei com o miúdo, coisa que não é hábito cá em casa.
O meu filho é touro de signo e, como um belo espécime do signo, às vezes "encrença". Fica a marrar nas traves e não sai dali até ficar com um belo galo na cabeça.

Já anda "encrençado" há algum tempo com uma questão lá da vida dele de pré-adolescente e, eu e o pai, temos tentado desviar-lhe a atenção das tábuas para coisas mais alegres, mas o miúdo é tramado e tem continuado a insistir em ficar ali a marrar, a marrar, como se não houvesse amanhã.

Hoje, passei-me e gritei-lhe até que abrisse os olhos. "Porra, pá, sai daí, não vês que só magoas a cabeça e não derrubas essa porcaria!", saiu-me. Abriu os olhos de espanto com a minha reacção e, finalmente, começou a pensar que aquela treta de marrar nas traves só dá dores de cabeça e não derruba nada.

De repente, pareceu que viu a luz. Começou a pensar, a pensar, a pensar tanto que quase se "encrençou" para um lado diferente: que realmente tinha sido um parvo em ficar a marrar na trave e que ia mudar aquilo tudo e que estava arrependido e blá blá blá.

Dei-lhe o segundo berro: "O que está feito, está feito. Não penses mais nisso. Agora, muda o que tens a mudar para te sentires melhor!"
Saiu-se com um "Estás zangada comigo? Desculpa-me!".
"Não estou nada zangada contigo. Tu é que deves estar zangado contigo, porque tens estado a tornar a tua vida mais difícil. Aproveita as coisas boas, concentra-te nelas e diverte-te. Devias era pedir desculpas a ti próprio, não a mim!", respondi-lhe.

Ele vira-se para um ele próprio invisível e diz "desculpa, J.!". Toma o lugar do ele próprio verdadeiro e responde "Estás desculpado!".

E rimo-nos todos.

Ele há toiros tramados! Fogo!

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O engano

O meu homem, enquanto estende a roupa (sim, cá em casa a roupa é cena dele. Somos estranhos, eu sei!), ouve música. Aliás, ele ouve sempre música, mas hoje, enquanto estava a ouvir música e a estender a roupa e eu a arrumar a loiça do almoço (sim, apesar do moço tratar da roupa, eu também faço umas coisitas cá por casa. Sim, eu sei, parece que somos mesmo estranhíssimos!), pôs os Pink Floyd a tocar.

Ao som dos Pink Floyd, comecei a pensar que hoje há pouca cultura que faça as pessoas pensarem como por exemplo os Pink Ployd faziam; que conteste os poderes; que ponha em causa as ditas verdades universais; que cause indignação e contestação.

Vivemos na sociedade do engano. Julgamos que temos liberdade, quando somos nós mesmos que restringimos a liberdade, calando-nos. Já não defendemos causas, mandamos umas bocas e ficamo-nos por aí. Os poderes estão instituídos e aceitamo-los, pura e simplesmente, sem um ai realmente sentido. Encolhemos os ombros e distraímo-nos com outras coisas para aliviar a leve pressão que nos possam fazer sentir.

A arte, a música, o teatro já serviram para abrir mentalidades, para iniciar revoluções, para mudar o mundo. Hoje, pouco sobrou destas artes. Vivem vendidas e presas aos poderes políticos e governamentais, às empresas. Vivem amarradas aos subsídiozinhos de subsistência e já não são valorizadas nem pelas instituições, nem pelos públicos adormecidos e alienados. Quem diz a arte, diz a comunicação social, diz os conjuntos de cidadãos, diz o cidadão comum.

Amarrámo-nos ao conforto. "Não vou dizer ao chefe que a cadeira onde me sento tem uma perna partida, porque senão ele pensa que estou descontente ou que não quero trabalhar"; "Não digo que me pagam um ordenado de merda, senão substituem-me por outro"; "Não concordo com o colega que reivindica um direito, senão associam-me a ele e penalizam-me"; e por aí fora até frases cretinas e mentirosas como "O trabalho é tudo para mim"e "Desde que tenha trabalho, estou bem".

E vive-se no engano. Um engano profundo e corrosivo. Vive-se a fingir, sempre a fingir.
E quando a arte e a cultura se calam o perigo aumenta. Já não há para onde ir. Erguem-se muros sobre a evolução, sobre os homens. Paredes enormes separam-nos da verdade, distanciam-nos do encontro com aquilo que sentimos.
E a escravatura impera. Vive-se escravo não só no trabalho como em casa, como nas relações pessoais. Não queremos chocar, não queremos ofender, nem que nos tomem por mal-agradecidos, vendemo-nos por inteiro à imagem que queremos que tenham de nós. Recebemos a esmola e fazemos uma vénia. Sempre. Porque no fundo vivemos de esmolas e a vénia é a porta aberta para a próxima.

E, no fim, frustrados, vamos para as redes sociais (ou para outros locais onde nos julgamos semi-anónimos) ofender tudo o que mexe, atirar-lhes as frustração que não conseguimos matar, porque as abafámos, silenciámos ao tilintar do dinheiro e da imagem.

A cultura torna-se urgente, a cultura do pensamento crítico, do raciocínio, das questões, não esta do folclore em que se diz o que se espera, em que se ecoam interesses e matam gentes. Não esta.


domingo, 4 de setembro de 2016

As calças

Não gosto de ir às compras. Detesto cada vez mais. Nenhumas compras. A única loja em que gosto de entrar é na de livros. Todas as outras dispenso.

Hoje, tive de ir ver roupa. Tenho roupa de que já não gosto e preciso de uma peça ou outra.
Costumo ir às compras a sítios baratos, com saldos, promoções, etc. Como já não dou grande importância ao que visto, não exijo grande qualidade, desde que goste, prefiro o barato. Como com quase a maior parte das coisas. Apenas os livros me impelem à compra, me tentam.

Não me entretenho a coleccionar bens materiais. Há outras coisas que me satisfazem. Não preciso de ter para sentir que sou. Preciso mais daquilo que não é comprável, o que acaba por ter um valor muito superior, sair mais caro, mas ficar para sempre. Sou, assim, um bocado esquisita e difícil de contentar.

Mas hoje, teve de ser. Mau dia, já que ao sábado, depois do fim do mês, há imensa gente a gastar o ordenado nas lojas por aí. E, especialmente, nas baratas.

Foi um tormento. Não só porque não gosto de lojas, mas também por com quem me cruzei na digressão consumista. Gente mal educada, muito mal educada, que nos atropela para chegar mais rápido à camisolinha barata; que não se desvia um milímetro porque está a ver determinada peça de roupa; que quase nos tira as coisas das mãos; que atira com desprezo para o monte uma peça que desdobrou para ver; que não diz "boa tarde" aos funcionários, nem obrigado quando lhe seguramos a porta para passar.
Para já não falar nas casas-de-banho imundas com xixi à volta das sanitas e nas tampas onde é suposto nos sentarmos.

Foi tão difícil a proximidade a estes humanoides que apenas comprei umas calças, afirmando a mim mesma dezenas de vezes que a roupa que tenho me chega e sobra.