terça-feira, 30 de agosto de 2016

Adolescência e liberdade

Os casos de adolescentes que se agridem têm inundado a comunicação social. Ora os irmãos, filhos de um embaixador, que espancaram um rapaz de 15 anos; ora o rapaz de 16 anos que espancou outro de 14 até à morte.
Para a comunicação social, estes casos são "doces". Geram polémica, opiniões controversas, ódios e amores e duram, duram, gerando imensos artigos com informações e contra-informações.

O primeiro caso, conhecido por "caso dos irmãos iraquianos" pode ter "origens xenófobas", diz-se por aí. A verdade é que se não teve "origens xenófobas" pode vir a ter "fins xenófobos". O facto de se sublinhar que os gémeos são iraquianos na divulgação das notícias sobre este caso está a abrir caminho para potenciar ódios de cariz xenófobo. A opinião pública revolta-se contra os agressores, que não tendo desculpa pelas agressões, seja qual for a origem destas, relacionam-nos com a sua nacionalidade. "Ah e tal, são iraquianos!"; "Essa gente, desses países estranhos como o Iraque...".
Se não havia a tal xenofobia à partida, haverá, com certeza, na análise popular da situação.
Parece-me que estampar-se a nacionalidade nos agressores não será a forma mais correcta de se falar sobre o caso. Claro que é uma informação importante, ainda mais por se tratarem de filhos de um embaixador e da questão da imunidade diplomática, mas não é a principal e, por isso, não devia estar no título de praticamente todas as notícias sobre este assunto e, muito menos, este passar a ser conhecido como o "caso dos irmãos iraquianos". Parece-me impróprio e potenciador de racismos especialmente perigosos, devido aos visados serem miúdos.

Não tenho conhecimento do caso a fundo, como ninguém deve ter neste momento, excepto agressores e agredido, por isso não sei se estas posições serão assim tão estáticas quanto aparentam: se os agressores não terão sido também agredidos e se o agredido não terá sido também agressor. Não sei. E não quero com isto desculpar os irmãos pela brutal agressão ao miúdo de 15 anos! Não têm desculpa! Mas pode haver uma explicação melhor do que realmente aconteceu e, penso, que é essa que se deve procurar, não só para se poder perceber este caso, como também para se tentar descortinar o que se passa com esta adolescência que se agride tão violentamente.

E aqui surge o segundo caso, o do miúdo de 16 anos que espancou o de 14 até à morte com uma soqueira.
Parece-me estranho eu não ter conseguido encontrar uma única referência à nacionalidade do agressor neste segundo caso... Será o rapaz "anacionalizado" (sei que a palavra não existe, mas gosto dela, ok?)? Ou será português e, por isso, "isso não interessa nada", porque somos sempre os "máiores"?
Pois... lá está mais uma vez: Não sei! Apenas coloco questões.

Na verdade, o que realmente me importa é debruçar-me sobre a violência entre jovens e, como mãe de um pré-adolescente, importa-me preveni-la, porque não estamos sempre com os nossos filhos para os proteger e, mesmo se estivéssemos, não os poderíamos estar sempre a proteger, por mais que nos apetecesse.

Como dizia José Saramago "filho é um ser que nos emprestam para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos", e eu acrescento, "amor tão grande que nos transcende a todos os níveis".

Tenho acreditado, nesta travessia de 12 anos de maternidade, e até hoje ainda nada veio contrariar a teoria (o que não quer dizer que isso não venha a acontecer no futuro, que isto da maternidade /paternidade é coisa volúvel) que é por dentro que se estruturam as pessoas.
Arranjar ferramentas de auto-protecção e prevenção de situações deste tipo, talvez seja a melhor forma de ajudarmos os nossos filhos a "construírem-se" e a perceberem o que significa "voar sozinho pelo mundo".
Princípios como o da não-agressão gratuita; o do respeito pelos outros; o da não-discriminação; o do não-julgamento precipitado, talvez sejam de levar em conta quando tentamos esta "estruturação por dentro" das pessoínha que geramos. E digo "talvez" de propósito, por causa da tal volubilidade da maternidade /paternidade...
Indicações preventivas como não falar com estranhos; estar acompanhado em situações de risco potencial; informar os familiares onde se vai; etc., etc., também me parecem importantes. Sem alarmismos, dar um plano geral de como o mundo funciona pode preparar os miúdos para situações em que precisem de se defender e, também, para situações em que precisem de evitar agredir os outros. Porque os nossos filhos não são imunes ao erro, às acções mal pensadas, aos maus sentimentos. Os nossos filhos não são perfeitos, assim como não são os dos outros.

Nunca fui apologista da vigilância às escondidas dos filhos. Tal como dos namorados, amigos, etc... Vasculhar bolsos, ler mensagens de telemóvel, ou invadir a privacidade dos outros de qualquer outra forma não é coisa que me agrade ou que use com os meus próximos.
Acredito em relações baseadas na confiança mútua. Acho que só assim podem ser verdadeiras relações.
Se não confiamos em quem amamos, perdemo-nos em dúvidas, incertezas, desconfianças. Perdemo-nos e acabamos por perder quem amamos.
Prefiro correr o risco de ser enganada do que viver assombrada com uma desconfiança permanente. Prefiro que me desiludam ao enganarem-me do que me desiludir comigo própria e viver em ansiedade constante. Por isso, se tenho dúvidas, pergunto directamente, assim como digo directamente o que me perturba.

E na relação com o meu filho, faço questão que ele saiba que estou atenta, não para o controlar (que não acredito nisso do controle) mas para o ajudar a aprender a viver solto. Porque, acima de tudo, o quero soltar para o mundo e para ele próprio; porque, acima de tudo, quero que ele experimente a liberdade, de preferência, consciente do que é isso de se ser livre.

É claro que a volubilidade da maternidade pode dizer-me, daqui a uns anos, que isto está tudo errado, mas enquanto não diz, vou acreditando que o caminho é por aqui e seguindo em frente.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Fragilidades

Há séculos que luto contra a ideia de se esconderem as fragilidades. Parece-me completamente surreal o ser-humano não ser capaz de aceitar as próprias lacunas ou as dos outros.

Vivermos num mundo plástico em que só os ditos "vencedores" são considerados incomoda-me. Vencer, ser bem-sucedido em todas as áreas da vida, não existe. Temos falhas, tantas falhas que às vezes estas são mais do que os sucessos. Muito mais.

Qual é o problema de sermos frágeis? Somos humanos, porra! Não há gente perfeita. Felizmente.
Ser frágil significa que se que sente alguma coisa. Magoamo-nos, incomodamo-nos, sentimos. É bom termos a capacidade de sentir.

A capa que alguns põem de vida perfeita é falsa e só mesmo uma capa. Para quê? Se é com as próprias fragilidades que mais aprendemos... Com os erros, com os constrangimentos, com aquele assunto que nos põe à prova.

A vida engomadinha, bonitinha, arranjadinha, perfeita, é um embuste. Para os outros e, especialmente, para os próprios.
Podíamos ser todos tão melhores se soubéssemos aceitar a fraqueza alheia e pudéssemos verbalizar a nossa em voz alta sem que nos considerassem menores.

Se pudéssemos falar sobre aquilo que nos deixa débeis, mais facilmente nos tornaríamos capazes de aprender a força e a auto-superação. Porque elas vêm daí: das contingências, das contrariedades, do sofrimento.
Não vêm dos sucessos.
Os sucessos não contribuem em nada para a força ou para o equilíbrio da nossa existência. Vêm depois e nunca antes.  São alegrias que se conquistam. São momentos. Não são a máscara que se veste quando se sai à rua.

Quem sempre foi bem-sucedido, à primeira fraqueza, cai. E cai porque não tem o suporte das quedas anteriores, o apoio da experiência da queda. Caímos para nos levantarmos logo a seguir. Caímos para tapar aquele buraco e não voltarmos a cair nele de novo.
Devíamos ter orgulho, e não vergonha, das nossas quedas. São elas que nos constroem, que edificam as nossas competências e a nossa essência.

Esconder aquilo que nos torna vulneráveis é viver na mentira de nós próprios; é inventar o mar quando se vive o deserto e deixar de procurar água; é gastar o tempo que nos resta a fingir que somos outros e prescindir de nos fortalecermos e de nos tornarmos mais humanos. É desistir de nos tornarmos mais nós.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A loucura da lucidez


Hoje, reli um texto que a minha mãe escreveu sobre a sua experiência enquanto doente oncológica.
Reler os acontecimentos e vê-los assim, em catadupa, entrega-nos a um passado que julgávamos quase arrumado. Não que ele não nos tivesse ficado marcado, mas que o tivéssemos escondido por debaixo de recordações boas, como que a camuflá-lo.

A história da minha mãe está enrolada na minha. Eu fui a primeira a experimentar esta coisa do cancro. Um linfoma de Hodgkin alojou-se-me no pescoço, escondido num gânglio. Fez dez anos em Abril. Dez, porra! Sobrevivi dez anos depois daquela porcaria me ter tentado estrangular. Estrangular pois... que morreria pelo pescoço.

Depois de mim, a minha mãe. Com aquela porcaria na ponta do pulmão direito. Sorte ser o direito que tinha mais por onde cortar, que o esquerdo tem de deixar espaço para o coração. E que coração, o da minha mãe que até inchou durante os tratamentos!

Na recuperação dela, o acidente. Onde ela, a minha avó e o meu filho levaram com outro carro em cima. O meu filho a vomitar os morangos do almoço no infantário, a minha mãe com um novo pneumotórax e a minha avó aflita das pernas.

Quinze dias de miúdo à beira da morte. Seis anos acabados de fazer e o oxigénio a diminuir no aparelho de medição. Quinze dias sem comer, traumatismo abdominal com lesões no fígado e pâncreas. E o pâncreas a jorrar líquido e a parar os intestinos. Dos piores dias da minha vida, senão mesmo os piores.

A minha mãe noutro hospital e o pai do meu filho no estrangeiro...
Se não fosse o meu pai aparecer no hospital e as amigas da minha mãe a segurar as minhas pontas que se desfiavam, desfazer-me-ia ali.

À noite, na cadeira azul das mães dos meninos doentes do hospital, o medo encrostava-se-me nos ossos. A febre do miúdo a subir, a tosse, as dores... Tudo isso eram facadas no meu peito. Esvaía-me por ali. O meu corpo deixou de se fazer sentir. Não sei como, mas silenciei o cansaço e andei aqueles dias tipo zumbi. Só a dor dele era a minha. Só essa se fazia realmente sentir.

Lá fora, no cigarro da pausa que me permitia ver a luz do sol, sentada no chão e encostada à parede fresca do edifício a dor cravava-me tão fundo que saía em forma das lágrimas que não podiam sair à frente do miúdo e me molhavam a camisola como se tivesse acabado de lavar a cara.
O vazio escavava-me um buraco no peito que crescia à medida que a dor se ocupava de me tomar o corpo por inteiro.
Acabava-se o cigarro e a dor silenciava-se no caminho até ao quarto do hospital. Mantinha-se quietinha até um novo cigarro me ser permitido lá fora. Os cigarros alimentaram-me durante estes quinze dias de hospital. A comida não entrava em mim se o meu filho não podia também ingeri-la. Era como um pacto de fome que o meu corpo de mãe tinha feito com o corpo do meu filho. Quando ele se pudesse alimentar, o meu corpo também se iria permitir a esse luxo.

O meu filho voltou a comer e reaprendeu a andar no dia em que saiu do hospital. Parecia um bebé a degustar a comida. E a andar com o reflexo da marcha, tal elevava os joelhos e palmilhava o chão.

A minha mãe safou-se sem que eu pudesse estar ali a acompanhá-la naquela aflição. Mas o sacana do cancro voltou a atacá-la. Desta vez no cólon e quase, quase a levá-la.
No dia em que foi operada pela segunda vez, e de urgência, ao intestino, pensei que ia morrer. Ela e eu. Julguei que, pronto, era daquela que vez que o buraco que o meu filho doente tinha escavado no meu peito atirava tudo cá para fora e tomava posse de mim por inteiro. Quase me vomitei de dor. Parecia que todas as aflições acumuladas queriam sair-me à força pela boca.
A minha mãe sofreu a rodos,  num processo que durou uns bons anos.
Desde 2006 que andamos nisto. Digo andamos, porque eu comecei e ela continuou. Continuamos, porque esta espada sobre as nossas cabeças continua por cá, pendente.

Estranho não nos apercebermos da imensidão de sofrimento quando o vivemos.
É como se o instinto de sobrevivência se lhe sobrepusesse. Naquele momento, temos que ultrapassar aquilo e só depois, às vezes anos volvidos, vem o entendimento, a percepção que estivemos no limiar da loucura e que, incrivelmente, permanecemos lúcidos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Das vestimentas e da hipocrisia

Imagem DAQUI
Parece que esta imagem gerou muita conversa por aí...

"Ai que é uma desgraça as egípcias andarem vestidas daquela maneira!"; "ai os direitos das mulheres estão desrespeitados!"; "ai que isto é um insulto à condição feminina!" e por aí fora.
Pelo que uma das jogadoras egípcias disse AQUI não me parece que ela esteja muito chateada por se vestir com aquela roupa toda, antes pelo contrário.

Como já disse neste blogue, sou contra as religiões, não gosto, acho que não deviam existir. Mas como também sou a favor da liberdade, acho que cada um tem o direito de acreditar naquilo que quiser e de se vestir de acordo com aquilo que quiser.
Ainda sou mais contra as religiões misturadas com os governos dos países. Acho que nunca se podem misturar, porque comprometem a liberdade de todos os que não têm religião. E não ter religião é um direito igual ao de ter.

No fundo, o que me perturba mais aqui não é a roupa das moças. De nenhuma delas. No fundo, no fundo, estou-me marimbando para a roupa que cada pessoa veste, seja qual for a situação em que se encontre. 
(Se chegaram aqui a pensar que iam encontrar um fashion blog, podem dar meia volta que não há nada disso neste canto!).

O que me perturba, como é costume, é a hipocrisia de quem vem de arma em punho defender quem não quer ser defendido, ou quem não pediu ajuda; é a hipocrisia de quem acha o hijab uma coisa muito estranha e acha normal as beatas não entrarem nas igrejas de mangas de cava, mini-saia e sem véu na cabeça. Ou os bancários serem obrigados a vestir fato e gravata, ou as mulheres que vestem uma roupa mais provocante serem consideradas putas, ou descaradas ou de má vida, ou as pessoas tatuadas serem consideradas de má índole ou de pouca confiança, ou os gordos serem visto como sujos e repelentes.

Isso sim, provoca-me náuseas. Porque quem defende a não-discriminação, deve ser o primeiro a não discriminar.
É como ver homossexuais a criticar a forma de vestir deste ou daquele e a chamarem-lhes nomes; ver negros a dizer que uns são mais pretos do que outros e que, por isso, têm menos direitos; ver defensores dos animais a dizer que esta ou aquela pessoa merece morrer por não vestir fatinhos ao cão. 
Verdade, já vi cenas tristes destas! Já ouvi barbaridades desta espécie! 

Porra, mas que raio de não-discriminação é que defendem? A própria e unicamente a própria? Isso é ser igual aos que discriminam. Iguaizinhos!

Salvaguardar o coiro e estar a lixar-se para os outros não é fixe! Não é "p'rá frentex"! É antiquado e retrógrado.

Deixem os outros em paz e aceitem-nos. Só. Abram-se ao mundo e deixem-no entrar.
Esqueçam a merda dos rótulos. Ser cigano não é ser ladrão, ser preto não é ser escravo, ser homossexual não é ser anormal, ser muçulmano não é ser terrorista, ser mulher provocante não é ser prostituta, ser prostituta não é ser má pessoa, ser engravatado não é ser de confiança, ser gordo não é ser nojento, ser "amigo dos animais" não é ser bondoso...

Ser pessoa é ser pessoa. Em todo o lado, seja qual for a raça, religião ou vestimenta. Umas boas, outras más. Abram os olhos e vejam quem têm à frente, de uma vez por todas! E, por favor, deixem-se de hipocrisias!

*Desculpem o palavreado, mas este post estava a pedi-lo!

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Harry Potter style

Enquanto fui buscar os meus óculos novos (que os antigos já estavam a cair de podres), o miúdo foi à bateria (instrumento, não a do telemóvel ou coisa que a valha) para fugir às compras que eu iria fazer a seguir.

Após as compras, quando o fui buscar, perguntei-lhe:

- Então, como correu a bateria?
- Bem. E a ti como correram as aulas de magia? Aprendeste novos feitiços?

Imagem DAQUI