domingo, 31 de julho de 2016

O humor corrosivo é genético

Enquanto arrumava a loiça na máquina, o pequeno corrosivo cá de casa diz-me:
- Mãe, sabes, aconteceu uma coisa ainda pior do que a morte do Mário Moniz Pereira?!
- Então?
- O Benfica perdeu!
- E isso é pior do que a morte do senhor?
- Claro que sim. Imagina só a quantidade de mulheres que neste momento está a sofrer violência doméstica!
Ui!

terça-feira, 26 de julho de 2016

Música deles

Os óculos do contrabaixista dão um pulo em direcção à ponta do nariz a cada nota tocada na parte mais baixa do instrumento.
O guitarrista estende a guitarra para trás com emoção para deixar soltar os sons mais estridentes.
Ao fundo, o baterista toca de olhos fechados, vivendo a percussão nos tambores e pratos dentro de si mesmo.
O saxofone desce aos joelhos do músico quando a música se torna mais vibrante.

No banquinho de cortiça, que dá para a lateral do baterista, o miúdo. Nos seus 12, 13 anos,  numa luta com o sono, esforça-se para manter os olhos abertos e sorver cada gesto do músico dos tambores. Observa atentamente como que a beber cada pancada, cada toque, das baquetas.

Em frente ao palco, sentado no sofá de napa que dá o ombro à banda, um homem mais velho. De olhos fechados como os do baterista, coca-cola à frente e dedos a tactearem timidamente por debaixo da mesa ao som da música. O gesto da mão direita do homem repete os dedos do saxofonista na transição de notas que empresta ao jazz.
Os pontos altos da melodia são assentidos com um movimento de cabeça discreto, como que a dizer "sim, é isso, perfeito". Dentro dele, o improviso dança. Há anos que lá deve dançar... Vive ali, numa compreensão incompreendida dos leigos. Mora-lhe na ponta dos dedos e sai-lhe pelos poros: o jazz.

O homem mais velho e o miúdo entendem-se no amor à música. Um pelo seu perfeito entendimento, outro pela sede de a aprender.
Estão longe em anos e no espaço, mas perto, tão perto, nessa leitura de sons que lhes embala, só a eles, a alma.

DAQUI

terça-feira, 19 de julho de 2016

Ainda o Centro...

Há uns anos, numa outra situação de desemprego, também estive inscrita num Centro de Emprego e a situação era completamente diferente. Tratavam-nos bem, tentavam conciliar as nossas opções com o mercado de trabalho, propunham-nos cursos em vez de nos obrigarem a frequentá-los e não havia as maravilhosas apresentações periódicas.

Acredito que muitas das alterações que se têm notado vêm da elevada taxa de desemprego e do número astronómico de pessoas em situações precárias sem fim à vista. Acredito que o factor mais penalizador para os desempregados e para resolução deste problema crescente das sociedades actuais é a falta de empregos generalizada.
Desde a Revolução Industrial que a mão-de-obra tem vindo a ser menos necessária, essencialmente pelo desenvolvimento tecnológico e pelo aumento da população (muito devido à evolução da medicina e, por conseguinte, ao aumento da esperança média de vida que é coisa boa, mas que, neste caso, torna a população excedente), já para não falar no número de pessoas com menor capacidade de trabalho como os idosos que, como é óbvio, também têm direito a subsistir.

O problema do desemprego não é um problema fácil de resolver, nada fácil mesmo.
Mas será que estas políticas o vão melhorar? Será que a solução, ou pelo menos a diminuição do número de desempregados, não estará mais na valorização da força trabalhadora? Ou até numa solução perto disto?

Não sei. Pergunto-me apenas.

A verdade é que as políticas instituídas em Portugal (e agora vou bater no antigo governo, desculpem-me lá!) tornaram os Centro de Emprego locais onde se têm de cumprir regras ridículas que, para as pessoas que lá trabalham, também não serão fáceis de cumprir e defender, pois são elas que, todos os dias, levam com as queixas e frustração dos desempregados. Na verdade, são elas quem dá a cara por aquilo que alguém, fechadinho na segurança de um qualquer gabinete e longe dos olhares ameaçadores de quem tem de se sujeitar a regras idiotas, determinou este desrespeito por uma classe potencialmente trabalhadora. Não quero com isto desculpar os maus modos de certos funcionários dos Centros, que há alguns indesculpáveis, mas quero sim tentar compreendê-los, porque afinal também eles estão neste barco de possíveis futuros desempregados. E, felizmente, também ainda há excepções e pessoas que resistem a tornarem-se maus fígados ambulantes.

Quero, essencialmente, tentar perceber que caminho é este que se trilha e que nos levará a todos para um não-retorno neste tipo de sociedade em que vivemos.

Se não tivermos trabalho e forma de subsistência, como vamos sobreviver? Haverá uma elevada taxa de mortalidade, devido a situações de pobreza extrema que nivelará a relação quantidade de empregos/quantidade de cidadãos? Teremos que passar por isso para haver trabalho digno para todos?

O pior, e o que mais me atormenta, é que há dinheiro suficiente neste mundo para todos cá cabermos, mas ele está maioritariamente concentrado em práticas que determinam a destruição da espécie humana e do planeta.
Não será altura de tentarmos reverter este processo para preservarmos a nossa própria subsistência enquanto espécie?

No seguimento deste texto.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Centro de quê?

Há mais de um ano que trabalho sem parar num projecto no qual acredito. Trabalho dia e noite, normalmente mais noites do que dias.
Ainda não recebi um tostão e já gastei alguns neste projecto. Mas continuo a acreditar nele. Nele e em mim. Porque, apesar de não ganhar um tostão com o meu esforço, não desisti de viver. Porque, ao contrário do que se possa pensar, não vivo para as férias, para festas, para os fins-de-semana. Provavelmente, sou demasiado ambiciosa em pensar em viver para mim todos os dias e em querer fazer aquilo que gosto e viver daquilo que gosto de fazer. Mas, infelizmente, também tenho que comer para continuar a viver. Tenho que vestir e respirar. E, hoje, tudo isso custa dinheiro. Por isso, procuro empregos, envio e-mails e candidato-me a lugares de que não gosto. Porque preciso de subsistir, porque preciso de sobreviver. Porque amo a liberdade e a independência e já vivo há demasiado tempo dependente financeiramente.

Tenho 41 anos e não há empregos para velhas como eu. Nem para velhas, nem para novos. Na realidade não há empregos. Há exploração, abuso, trapaças...

Estou desempregada há tempo suficiente para já ter encontrado de tudo. E as piores coisas que fui encontrando vêm de onde seria menos provável depararmo-nos com desrespeito, abuso, exploração, trapaças. O pior local para um desempregado é um Centro de Emprego. Além de nos tratarem como cidadãos de segunda categoria, respondem-nos mal, obrigam-nos a apresentações periódicas como se fossemos prisioneiros (sim, já sei que foi aprovada uma lei para acabar com as apresentações, felizmente), obrigam-nos a frequentar cursos que não servem para nada, a não ser justificar gastos de dinheiros públicos, pois nem sequer se faz uma relação com o percurso profissional das pessoas que os frequentam ou com os seus planos de procura de emprego, ou, até com cursos que se tiram por iniciativa própria.
Ameaçam-nos com a anulação da inscrição no Centro de Emprego se nos negamos a fazer o que nos obrigam, e, anulada a inscrição, saímos das estatísticas e baixamos as taxas de desemprego, perdemos o acesso a programas que facilitam as entidades empregadoras de nos contratarem e ficamos impedidos de nos reinscrevermos por um período de 90 dias.

Se este tratamento é mau e improdutivo na intenção de empregar desempregados, pior ainda são as ofertas de emprego que surgem na plataforma da dita instituição. (Algumas bem piores do que as dos sites de emprego comuns).
Lá, há ofertas de emprego para licenciados, técnicos e especialistas com ordenados iguais aos que se oferece a empregados domésticos com o 4º ano: 530€.
Isto devia ser terminantemente proibido, ainda mais numa plataforma estatal. (Deviam nivelar-se os salários por habilitações, por baixo e por cima. Um licenciado, não devia receber menos do que x nem ganhar mais do que y. E por aí adiante, conforme as habilitações necessárias para determinada função).

Andou o Estado, e o próprio trabalhador, a gastar dinheiro e tempo para dar formação às pessoas para os empregadores lhes pagarem o salários mínimo? É para esta desvalorização da mão-de-obra, pelo mercado de trabalho com o conluio do IEFP, que se anda a estudar anos a fio?

Como se pretende empregar, assim, as pessoas? Como queremos ter profissionais competentes e um país a evoluir e a recuperar economicamente? É pela exploração dos trabalhadores? É colocando empregados a fazer o que não gostam, e como se isso já não fosse suficiente para baixar a produtividade, a receber salários miseráveis para as suas habilitações?

Pois eu não percebo nada disto. Afinal sou só mais uma desempregada.

Continua AQUI.

sábado, 16 de julho de 2016

Desamor

O amor torna-nos maiores. Crescemos à medida que somos capazes de amar. É o amor que nos faz melhores. Melhores amantes, melhores pais, melhores filhos, melhores pessoas. Melhores.
O amor não é uma ilusão. É concreto.

Vejo um mundo despojado de amor. Cheio de ódio. O ódio está a comandá-lo, a comandar-nos. O ódio e o medo.
A vitória no Euro trouxe, junto com a adoração exacerbada aos atletas portugueses, o ódio aos franceses. A selecção francesa foi estraçalhada nas redes sociais. Difamada, mal-tratada. As pessoas quiseram atirar-lhes o "caneco" às ventas. Depois, camuflaram o veneno em ternura pelo menino que consolou o adepto francês, pensando "além de sermos melhores no futebol, também somos melhores em sentimentos. Vêem como somos tão melhores do que vocês, franceses do cara$&/"%?"

O mundo e o amor estão em perigo.
Atentados terroristas em todo o lado. De repente, odeia-se os franceses e, logo a seguir, tem-se-lhes piedade.
Armas e mortes. Torturas. Autoritarismo. Desrespeito. Desprezo. Desprezo, tanto desprezo.
Deixam-se morrer milhares de pessoas nas águas do mediterrâneo... Matam-se crianças, negros, homossexuais, polícias e ladrões. Mata-se indiscriminadamente. Por nada. Para nada.
As armas despejam ódio para os dois lados. O tiro sai pelo cano e pela culatra. Sempre.

Pendemos aos extremos. Ou somos contra ou somos a favor. Já nem pensamos em prós e contras. Descaímos para um dos lados. Só. Porque não temos tempo para assimilar toda a informação que nos cai no colo; porque nos cai no colo um só tipo de informação; porque nos demitimos de pensar ou porque simplesmente não nos apetece.
Na Era da informação, voltámos a ser seres irracionais. Movemo-nos ao sabor do vento. No fundo, andamos à deriva. Deixámos de viver. Ilustramos a nossas vidas com fotografias de todos os lugares que pisámos. E só os pisámos realmente. Não os vivemos, não nos demos aos lugares que pisámos, não aprendemos nada com eles. Fotografámo-los. Só. E roubámo-lhes o encanto, desacreditando-os quando não os conseguimos ver.
Na verdade, nós não estamos nas fotografias. Na verdade, nós não estamos em lado nenhum. Somos corpos a deambular pelo espaço que tocamos. E destilamos ódios. Dizemos mal de tudo e todos. Insurgimo-nos como se fossemos agir. Mas não agimos. Paramos a olhar para o telemóvel, rasgamos um sorriso e clicamos aquilo que gostaríamos de ser. Mas não somos.

Estamos vazios de amor, de pensamento, de raciocínio. E temos medo. Temos medo de tudo e de todos. Somos a nossa própria censura. Censurámo-nos no momento em que deixámos de lutar, de ver, de ouvir, de sentir, de pensar, de viver. Estamo-nos a tornar autómatos de nós próprios.

Somos a nossa própria fotografia, estampada numa qualquer rede social, cheia de likes e vazia de amor. E vazia de nós.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O palco

Do trabalho ligado às redes sociais, da análise de comportamentos e tendências, do meu lugar recôndito na plateia a que assisto às interpretações de um imenso leque de actores, tenho constatado que todos ganhámos um novo palco. Pequeno, é certo, mas suficiente para que encarnemos personagens diárias e fiquemos à espera dos aplausos.

No palco da vida somos mais espontâneos, exigentes, verdadeiros. No palco das redes sociais somos actores, plateia e os nossos próprios lobbies. Vivemos à espera da notificação que nos aplaude e gostamos do que é nosso ou a nós diz respeito.

Dos presos políticos em Angola e sua libertação, pouco queremos saber. Dos mortos no Bangladesh, dos atentados em Istambul, pouco nos importamos. É lá longe e não nos diz, directamente, respeito.
Todos os dias morre gente por aí. Mas se o gatinho do vizinho partiu desta para melhor, atiramos-lhe um "RIP" sentido e choroso.

O gatinho como as vítimas do terrorismo em França. Estes, sim, dizem-nos respeito, porque temos lá um ou dois familiares emigrados, porque já fomos à Torre Eiffel e gostámos muito e porque somos todos Charlies e os Charlies querem-se unidos.

Gostamos de nos ver espelhados nos olhos dos outros. Se falam de nós, se aparecemos nas fotografias, se a nossa imagem é projectada para outros palcos, isso sim, interessa, preocupa-nos. Queremos que nos digam que estamos certos, que somos bonitos e que tocamos os limites da bondade. Queremos que nos aprovem e nos venerem, que nos lambam as botas e que façam vénias à nossa passagem. Queremos permanecer em palco e que se encha a plateia.

E esquecemo-nos, realmente, de nós. Do que temos dentro e não se vê. Do que sentimos e de pensar. Cerramos a linha do pensamento porque isso nos dá trabalho e aborrece; porque isso nos faz sair do papel que interpretamos. Cortamos a empatia com o que não nos é, particularmente, próximo, porque vivemos à espera da crítica positiva ao nosso espectáculo.

Estamos a esvaziar-nos sem sequer nos enchermos com a personagem que escolhemos. Estamos ocos e o eco são as palmas que esperamos dos outros. Vivemos para as palmas e para o palco. Um palco tão vazio quanto nós.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O meu pai

Lembro-me de, aos 15 anos, ter amigos com pais com idades entre os 50/60 anos. Olhava para eles e pensava "fogo, os pais deles são tão velhos".
O meu pai tinha 36 anos quando eu tinha 15 e os dos meus amigos tinham idades próximas da dele agora. O meu pai descobriu esta coisa da parentalidade aos 21. Quando fiz 21, ele só tinha 41, quase 42.

Hoje, faz 62 anos e sou eu que tenho 41. A diferença de idades continua a mesma, mas sinto-me mais próxima dele. Mais próxima em idade e mais próxima fisicamente.

Somos diferentes e ao mesmo tempo iguais. Discutimos que nos fartamos, porque adoramos uma boa discussão. Um diz preto e o outro diz branco. Raramente, chegamos ao cinzento, porque somos igualmente casmurros.

O meu pai esteve longe muito tempo. Tempo demais. Até nas razões do que nos distanciou discordamos. Porém, concordamos que devíamos ter estado sempre mais perto.

Em pequena, era incapaz de lhe perdoar a distância. Aceitava-a simplesmente, mas com uma mágoa maior do que eu.
Hoje, continuo a aceitar e até compreendo o que o levou a distanciar-se. Às vezes, acho que o compreendo melhor do que ele pensa e do que ele a mim. Mas sei que, no meio das nossas diferenças, também me aceita e isso acaba por me chegar.
Perdoei-lhe francamente a distância, apesar de haver momentos em que não estivemos juntos que são irrecuperáveis. Nunca mais estaremos naquelas fases da vida para acompanharmos o crescimento do outro. Sim, o crescimento, que mesmo os adultos estão permanentemente em crescimento.

Agora que estamos ambos nos "entas" sinto-o mais próximo do que alguma vez estivemos desde que se separou da minha mãe.
Apesar de discutirmos muito, também falamos e os conselhos que me dá são preciosos. Gosto de saber a sua opinião sobre coisas da minha vida. Leva-me ao lado em que eu não pensaria, porque como somos muito diferentes, aquele que nunca seria o meu ponto de vista. Por isso, ouvi-lo ajuda-me a ver aquilo que naturalmente não veria, a colocar hipóteses que não poria e isso dá-me uma percepção mais ampla das coisas e permite que tenha um leque mais abrangente de escolhas.

O meu pai tem a descontracção do pai do J. São iguais nisso. O stress parece que não os aflige. Aparentam um calma irritante para quem, como eu, entra em pânico facilmente. Mas equilibram, obrigam os stressados a reduzir a velocidade para, assim, poderem pensar. Valeu-me, muitas vezes, a calma deles para me fazer descer à terra.
Quando stresso costumo levantar voo. Abro as asas e aí vou eu, levada pela aflição para as terras distantes do martírio e da auto-comiseração.
E é esse martírio que tanto o meu pai quanto o pai do J. sabem quebrar, agarrando-me pelos tornozelos, puxando-me para baixo e chamando-me à razão.

O meu pai, com os seus recentes 62 anos, é um homem novo com uma enorme estrada pela frente que desejo, do fundo do coração, sem percalços e feliz.

O meu pai é o meu pai, assim, diferente de mim e, no entanto, igualzinho.

sábado, 2 de julho de 2016

Urgência de humor

Descobri que a grande muralha que me separa de muitos outros é a falta de sentido de humor. Comunicar com quem não sabe rir, é-me quase impossível. Pode ser deficiência minha, não excluo de todo essa possibilidade, mas vejo-a como uma falha desses outros.
A incapacidade de nos rirmos de nós próprios, das situações e até das outras pessoas é penosa, porque nos impede de elevar o espírito a níveis de sarcasmo hilariantes.

Aprendi o humor com um ex-namorado da minha mãe. Apareceu-me numa altura da vida em que eu ainda absorvia tudo e absorvi-lhe o humor. Por vezes, cansada de tanto rir, por vezes desejando que falasse um bocadinho a sério, mas absorvendo-lhe sempre a capacidade de perverter qualquer assunto. Aprendi isso com ele e muito mais. Na verdade, foi-me pai muitas vezes e continua a ser um pilar na orientação estratégica da minha vida. Talvez por isso, o humor me seja tão necessário. Talvez me ajude a orientar os pontos cruciais das questões que me vão aparecendo a cada esquina, a cada passo, a cada inspiração.

Um tempo depois, surgiu-me o pai do J. que também adora corromper os padrões da seriedade. Não só os corrompe, como os rasga e os arrasta pelos cabelos até à exaustão, chegando a conseguir adicionar uma mistura de urina e lágrimas ao riso de quem com ele integra verdadeiras orgias de escárnio.

Há uma urgência de humor, riso e perversão que se me entranha nos dias.
Aos assuntos sérios reverto-os em sarcasmo. Gosto de os adornar com parvoíces, diminuindo-os e tornando-os insignificantes. Acho eu que os consigo tornar insignificantes. Se não, encho-os de matéria que me eleva o astral e me ajuda a combater a depressão.

Sou atreita a depressões, apesar de nunca acabar por lhes ceder por completo. Injecto-lhes ironia e tento esgotar-lhes as amarras do sofrimento. Tento. Porque me sinto muitas vezes com um pé à beira do precipício, à espera da rabanada de vento que me vai desequilibrar.
Não são poucas as ocasiões em que bastava uma aragem para me entornar no abismo. Porém, não sei bem como, imerjo dos confins da tristeza com um sorriso nos lábios, meio tonto, é certo, mas um sorriso ou, até, mesmo uma gargalhada.
É o humor que me dá a mão e me traz à realidade. Uma realidade não tão negra como eu a pintei, que até tem a sua graça, e que me é urgente, tão urgente quanto o humor.

Excursão aos terrores escondidos

Para viajar por dentro e reviver terrores, basta um clique. Ir de encontro aos dias em que a nossa vida se pendurava por um fio, em que vida dos nossos se segurava em suspenso. Pode estar nas paredes de edifícios, em caras de gente, em cheiros.
Vira-nos do avesso o aroma a terra molhada, o vento na cara, ou a relva cortada de fresco. Os sons, os percursos, as palavras abrem feridas e doem.
Excursionamos nos medos que nos levam aos terrores, como se lá morássemos ainda. E moramos. Vivemos em batalha com as nossas aflições. Mas tentamos enganá-las a maior parte do tempo. E só nos enganamos a nós próprios, porque elas estão lá, cravadas bem no fundo. À mínima corrente de ar, soltam-se e provocam-nos tempestades na alma. 
E os dias voltam a ser curtos ou longos demais. A medida certa não se revela e ficamos à espera que a tempestade termine. Eternamente.