sexta-feira, 24 de junho de 2016

A Honra e os quadros

Há uns tempos comentei este texto, que já tem uns aninhos, da Rita Ferro Alvim sobre os Quadros de Honra. Como voltou a ser muito comentado, fui recebendo notificações no e-mail com as opiniões de quem por lá foi passando.
Volto a este assunto (que penso já ter abordado por aqui, mas que não me apetece ir procurar) porque me começou a fazer impressão os comentários que foram fazendo ao texto da Rita.
Desde chamarem-na invejosa até dizerem que a ausência de Quadros de Honra promove a mediocridade, fui lendo de tudo.

Concordo com a Rita. Acho os Quadros de Honra uma treta.
E não é por ser invejosa ou mediocre (que até posso ser noutros assuntos, mas não neste caso) é por os achar mesmo uma treta. Primeiro, porque não servem para nada a não ser para promover uma espécie de competiçãozinha irritante entre os miúdos. Depois, porque só têm em conta as notas dos alunos e todos sabemos que as notas não querem dizer grande coisa.
Se fossem capazes de medir a evolução dos alunos ou o esforço, até os podia achar de algum valor. Assim, acho-os pequeninos, fraquinhos mesmo, e uma perfeita fantochada.
Podem vir cá chamar-me o que quiserem que até sei do que estou a falar, porque o meu filho foi lá receber o papelinho todos os anos e mesmo assim o papelinho ainda não me convenceu.
O miúdo até gosta daquilo, não vou negar, mas parece-me que é mais a sua veia teatral, que o impele a saltar para tudo o que é palco, do que pelo suposto reconhecimento das suas qualidades. Até porque as suas qualidades não são reconhecidas pela escola...

A escola não está preparada para ver os miúdos. Há qualidades que a escola não enxerga de maneira nenhuma por não ver quem é suposto "educar". Vê notas, pontuações, rankings, directivas do ministério, pais que gritam e lhe mete medo, alunos que lhe responde mal. Mas ver os miúdos? Não vê.

A culpa não é dela, é só porque não está treinada. Ver os miúdos exigiria, em primeiro lugar, abrir os olhos (que é coisa difícil para a maior parte das pessoas, quanto mais para uma instituição como a escola); em segundo lugar precisaria de ter turmas mais pequenas e professores mais satisfeitos com o seu trabalho e, por fim, gente mais competente (quando falo em competência não falo em canudos nem me resumo aos professores, mas em valores humanos, carácter e atenção de todo o pessoal que lida pessoas em desenvolvimento).
A escola precisa urgentemente de gente mais competente e de abrir os olhos. Se o fizesse, chegaria facilmente aos alunos e conseguiria perceber como aprendem para os poder ensinar. Não se ensina ninguém fazendo debitar matéria em testes de cruzinhas. Ensina-se criando o gosto de aprender e estimulando a curiosidade, observação e sentido crítico. De preferência por esta ordem. E não é tão difícil quanto parece, já que o botão de ensino é no mesmo sítio do de aprender.

Na verdade, acho que nem o meu filho nem qualquer outro aluno só com notas altas, deva estar no Quadro de Honra que não avalia senão quantificações e que de Honra nada conhece.

O meu filho assim como tantos outros miúdos, que até podem ter notas baixinhas, deviam estar no Quadro com Honra. Pelo esforço, pela evolução que se exigem, pela capacidade de se superarem e corrigirem os próprios erros, pela verdade, a sua verdade, pelo sentido crítico, pela imaginação. Enfim, pela capacidade de crescimento interior, social e humano.

Mas isso é Honra que a escola não consegue ver, quanto mais reconhecer. Infelizmente vai-se ficando pelos quadros.


quinta-feira, 9 de junho de 2016

Há um "quê" de machismo na adopção da linguagem inclusiva

Imagem DAQUI

A linguagem inclusiva visa não discriminar as mulheres pelo uso do género masculino para generalizar um todo, do qual há mulheres que o compõem.
A evolução da linguagem arrastou-se por vários períodos em que os homens eram tidos como pessoas e as mulheres como seus acessórios.
A linguagem, assim como a humanidade, à medida que se foi desenvolvendo, foi passando a incluir as mulheres nos plurais, nos grupos, no todo.

Hoje, as mulheres fazem parte do todo e deixaram de ser acessórios (não em todo o lado, mas na sua maioria). "O requerente" inclui "a requerente", "o Homem" designa a Humanidade que integra homens e mulheres, coisa que há alguns anos não acontecia - as mulheres não eram, sequer, consideradas quanto mais incluídas no que quer que seja.

Partir-se do princípio que é alterando as designações ou passando a utilizar os dois géneros no mesmo sujeito de uma frase que se incluiu as mulheres e se deixa de as discriminar parece-me uma completa aberração. Primeiro, porque se complica a linguagem; segundo, porque quem o faz não deixa de utilizar aquela nota de cavalheirismo bacoco que é designar primeiro as "senhoras" e só depois os "homens": "todas e todos", "deputadas e deputados", etc., etc... Além de que se a linguagem é inclusiva, ela deve incluir e não excluir. Se estamos a querer incluir, porque discriminamos os dois sexos? Porque temos a comiseração parva para com as "miseráveis mulheres" nomeando-as em primeiro lugar?

Se queremos incluir e igualar, porque não acabamos antes com os "homens" e as "senhoras" nas portas das casas-de-banho e passamos a ter "homens" e "mulheres" ou "senhoras" e "senhores"?
Se queremos igualar porque não passamos aleatoriamente uns à frente dos outros em vez de os homens terem de dar passagem sempre às "senhoras"?
Porque distinguimos "senhoras" de "mulheres" e achamos que as "senhoras" merecem um maior cuidado? (Já para não falar que consideramos "um senhor" aquele que nos serve com solicitude exagerada e "homenzeco" aquele que não nos cumprimenta com uma vénia).
Porque ainda fazemos questão que um homem nos abra a porta ou se levante quando chegamos?
Porque ainda aceitamos esta veneração forçada cavalheiresca como recompensa da desconsideração que sofremos durante séculos?

Se há coisa mais discriminatória e machista é o cavalheirismo que obriga os homens a "delicadezas" para provarem reverência às "senhoras" e para se afastarem do estereótipo do homem das cavernas, levando-os a comportamentos sem qualquer profundidade afectiva ou verdade. Pior que o cavalheirismo genuíno só mesmo o cavalheirismo transvestido de inclusão e esse é o "quê" que pontua muita da linguagem dita "inclusiva".

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Ainda há pouco me cabia no colo

O meu filho fez 12 anos. Ainda há pouco me cabia no colo e agora confundo as suas roupas com as do pai, quando as apanho do estendal.
Olho para ele e penso "porra, já está um homenzinho!" 
Já não temos as nossas conversas pré-sono, agora deita-se sozinho e devora livros da Agatha Christie antes de dormir. Lembro-me tão bem quando era eu que os lia... E agora é ele que investiga os casos com o Poirot. Porra, como a vida corre depressa!
Já não falamos antes de dormir, mas continuamos a conversar, especialmente nas viagens de carro. Entre a partida e o destino viajamos pelo espaço. Quer saber o significado da vida e a extensão do universo. Coloca-me dúvidas que também tenho, interroga-se sobre as mesmas coisas do que eu e já não tenho sempre respostas para lhe dar. Digo-lhe tantas vezes que não sei que, qualquer dia, deixa de me perguntar. São as asas do crescimento que o vão levando para longe. E eu fico ali a vê-lo ir, deliciada. 
Quando me responde à bruta, trago-o de volta para o meu colo e mostro-lhe que ainda sou a sua mãe. Deixo-o ir e faço-o regressar como fazem as mães dos adolescentes. É uma nova fase da maternidade que vou aprendendo com ele, ao mesmo tempo que ele aprende a ser adulto. 
Sabe mais do que eu sobre alguns temas. Já há assuntos que é por ele que me actualizo. Ainda há pouco me cabia no colo...
E, no entanto, debate o universo comigo. E tem sede de aprender a vida. 
Lembro-me de mim assim, a sorver cada dia, com fome do futuro e da liberdade. É por isso que abro dedos e lhe largo a mão quando sinto que precisa de ir sozinho. E fico à escuta, com medo de o ouvir cair, com o coração em silêncio para que ao mínimo ruído possa correr na sua direcção. Mas às vezes as pernas não respondem ao cérebro em tempo útil, e deixo-o só por sua conta. 
Quando regressa de sorriso rasgado, o meu coração volta bater e sei que tudo correu bem. Quando se recolhe no meu colo, cheio de dúvidas, sei que devia ter corrido mais depressa que o pensamento. Ou que não, que as contrariedades também ensinam a viver. Mas fico-lhe a faltar. Fico a fazer-lhe a falta que as mães sentem se não estão. 
Sei que tem janelas a abrirem-se-lhe na frente e que o horizonte é infinito. Tento espreitar para medir a altura e para que, através do olhos dele, veja a mesmas coisas do que ele. Mas quando olho, só revejo as minhas próprias janelas que vão batendo ao sabor vento, ditado pelas minhas tempestades. E é aí que me vejo finita na capacidade de o acompanhar pelas ruelas da adolescência, que entre becos e avenidas se define pelos passos que não são os meus. E vejo-me queda, resumida à tarefa de abrir o colo sempre que ele dele precisar. 
Fico aí, à espera, desejosa que o meu abraço lhe sobeje sempre.