quarta-feira, 6 de abril de 2016

A fuga seria inevitável

Chove lá fora. Os vidros das portas de correr que nos separam do jardim enchem-se de gotas de água. O vento abana as janelas e sente-se-lhe a pressão.
Cá dentro, espera-se a morte. O vento e a chuva tornam-se menores se comparados com o temporal que cá dentro se vive. Temporal interior e silencioso, mas não menos agressivo do que aqueles que levam casas pelo ar e arrancam árvores da terra.
As pessoas sentadas em redor da sala, como que expostas à sua inutilidade, decoram o ambiente de tristeza e solidão.
De vez em quando, as mãos na cara e uns beijos repenicados na testa com cheiro a artifício. Exuberante afecto falso que pretende toscamente interpretar o afago.

O vento lá fora a abanar as árvores com força.
Cá dentro, o tempo a esfumar-se nos dias. E as drogas a toldar a percepção do abandono. Se não fossem as drogas, a fuga seria inevitável.
Há quem procure nas paredes o descanso do olhar; quem apoie a cabeça na almofada equilibrada no braço da cadeira; quem oiça rádio junto ao ouvido; quem veja um programa qualquer na televisão; e há ela, sentada no cadeirão, de olhos semi-cerrados a fingir que não ouve o que dizem dela, como se não estivesse ali. Abre os olhos quando lhe interessa a conversa e fecha-os para ouvir um pouco mais do que não querem que oiça.
Fala como se a vida ainda lhe fosse normal, como se estivesse em casa e acolhesse aquelas visitas. Transporta aventuras do imaginário para a realidade como que para lhe dar um toque de entusiasmo. De outra forma, morreria antes mesmo da morte a vir buscar.

Aproxima-se uma senhora empurrando o seu carrinho. Pergunta se me conhece. Respondo-lhe que não, que nunca nos vimos antes. Estende-me um bocado de chocolate e duas moedas.
- Tome. É para si.
Agradeço recusando. Insiste. Volto a recusar.
- É por ser pouco? - pergunta-me.
Fico embaraçada.
- Não, não. Fica para si. Não se incomode. - respondo.
Dizem-me para aceitar e devolver à funcionária. Na minha indecisão, há quem o faça por mim.
A senhora volta para a sua cadeira e fica ali a revolver a mala, quem sabe à procura de mais alguma coisa para me oferecer.

Ela abre os olhos e diz que passeou de carro no outro dia e que fez pastéis, cento e tal pastéis e que nem os viu porque os comeram todos.
Volta a fechar os olhos e fala-se dela. Diz-se que já não vive na realidade e que, às vezes, bate nos outros com a bengala. Por isso, tiraram-lha.

Duas senhoras, ao fundo da sala, dão as mãos e encostam as cabeças. Preferem-se às fracas representações de ternura que as funcionárias, bondosamente e em esquizofrénicas interpretações, lhes oferecem. O tempo que levam a lidar com pessoas daquela idade, ou a pura insensibilidade, impedem-nas de distinguir velhos de crianças. Tratam-nos de igual forma, negligenciando a sabedoria e maturidade que os anos acumulam e levando-os com elas ao seu ridículo.

Ela pergunta pelo carro. Dizem-lhe que está guardado na garagem. Sossega.
A hora da visita já vai adiantada e temos todos ainda muito que fazer. Despedimo-nos beijando-a e deitando-lhe olhares de pesar. "O que ela foi e como está agora", pensamos em uníssono.
Sorri-nos com carinho e deixa-nos ir às nossas vidas agitadas. Recosta-se na cadeira, fecha os olhos e vai buscar o carro à garagem ou fazer pastéis para aquela gente toda.
É isso ou a fuga seria inevitável.

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