segunda-feira, 25 de abril de 2016

Palavras enterradas na dor

Hoje, estou num impasse. Apetece-me tremendamente escrever, mas não há nada que me saia, assim, fluído. Preciso arrancar as palavras que me estão enterradas na dor. Na dor da alma. Dói-me a confiança, as convicções, as certezas, a direcção para onde levar a vida e até a mim própria. Dói-me tudo como se fosse uma parte do meu corpo, assim como a quem dói a cabeça ou os dentes. E não há paracetamol que me valha, porque a dor está na definição e não na sua simples existência. Tomar um comprimido para aclamar o sofrimento não basta, porque o sofrimento existe na ambiguidade, e essa é imensamente lata e difícil de limitar. 
É preciso definir e pensar. É preciso pensar muito e o pensamento só ajuda a corroer a indefinição. Por isso as palavras não sabem quais me devem sair. Ficam entaladas entre a dúvida e a incerteza e daí não saem, nem com um grande copo de água garganta abaixo.
Acho que hoje não vou escrever. Pronto!

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A Bolha

Esta coisa da escrita tornou-se um mal físico. Se passa tempo sem que me entorne no papel, cresce-me uma bolha no peito que só rebenta quando me abro outra vez às palavras.
Maldita bolha que cresce sem parar levando-me ao sufoco. Toma todo o espaço do peito e chega-me ao pescoço até que me trava o ar no caminho para os pulmões.
Em apneia, esperneio por oxigénio que só me entra no despejo da alma em prosa.
Arre bolha maldita que me ocupas o íntimo e desassossegas o espírito!

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domingo, 17 de abril de 2016

Os Vampiros

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Vampirizam momentos, pessoas, monumentos, arte, paisagem. Vampirizam de telefone em riste, sugam tudo até ao último pingo através daquela caixinha de ecrã brilhante que trazem na mão.
Sugam para possuir, sem perceber que só possuem aquilo que vêem, ouvem, entendem. E não vêem, ouvem, entendem aquilo que à bruta tentam subjugar.
Devoram violentamente e destroem antes de sorver o que coleccionam e submetem aos seus egos incompletos e sedentos de provas da própria existência.
Existem tão somente naquilo que extorquem com o clique do obturador. Vampirizam os pais, os filhos, as árvores, as casas, a comida, os amantes. Vampirizam em desespero atroz até à exaustão.

Os vampiros vivem à beira deles próprios e do mundo. O que não fotografam não existe. Morrem na ausência de momentos captados e de se verem reflectidos em imagens. Só mesmo a imagem da estaca que trazem no peito é que os vampiros não captam.

domingo, 10 de abril de 2016

Isto aqui não é o da Joana!

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A mochila da Joana correu o país inteiro. Toda a gente falou da tralha que a moça levaria na mochila da RTP para uma tal de estância de férias chamada "Campo de Refugiados".
A rapariga só levaria: o Iphone, os phones, o Ipad, as lãs e a agulha, o caderno e os lápis, as jóias, os óculos de sol e mais não sei o quê.
Qual é o problema? Nem me parece muita coisa!
Não entendo tamanho falatório. A única coisa que me parece absurda ali é ela não levar o carregador para o Iphone e Ipad, mas, enfim, ela lá sabe.
(Já o adorado recém-presidente da República levava o carregador. É um rapaz mais esperto ou não teria chegado a presidente da república com tanta facilidade!) 
Quanto à Joana parece-me disparatada tamanha indignação, ainda mais com o caso dos papéis do Panamá por aí aos saltos que, se Deus quiser (até fiquei religiosa de repente, que só mesmo a fé num ser inexistente poderá fazer justiça neste caso), atirará para as prisões deste mundo fora imensa gente que nos anda a roubar a todos há imenso tempo. 
Para ser sincera, parecer-me-ia bem mais normal o povo indignar-se com a roubalheira que poderá agora ser provada (se Deus quiser) do que com as tralhas que a Joana irá levar para um campo de refugiados.
Na verdade, nunca gostei muito da Joana. Gosto do trabalho dela, mas, dizem as más-línguas, a rapariga não é lá muito boa nas relações pessoais e, apesar de não a conhecer pessoalmente, fiquei, assim, meio de pé atrás com ela. Por isso, sentir-me-ia até bem confortável em vir para aqui dizer mal dela. O problema é que não vejo razão para isso. Cada um tem o direito de levar o que quiser para onde quiser. Se ela não roubar nada a ninguém para fugir à guerra, que leve o que lhe der na gana! 
O que me indigna aqui é ver a indignação em massa por causa de uma merda destas. Parece-me que as pessoas não têm mais nada que fazer do que se entreterem com merdices desta espécie. Ainda não consegui perceber se são mesmo estes assuntinhos que as preocupam ou se estas coisinhas servem apenas para as distrair e não terem de pensar em coisas realmente importantes. Das duas, preferia a segunda, apesar de não acreditar muito que esta possa ser a verdadeira razão. 
De uma coisa tenho, praticamente, a certeza: os verdadeiros refugiados estão-se nas tintas para as porcarias que a Joana levaria na mochila para onde quer que fosse. Até porque eles têm muito mais em que pensar.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A fuga seria inevitável

Chove lá fora. Os vidros das portas de correr que nos separam do jardim enchem-se de gotas de água. O vento abana as janelas e sente-se-lhe a pressão.
Cá dentro, espera-se a morte. O vento e a chuva tornam-se menores se comparados com o temporal que cá dentro se vive. Temporal interior e silencioso, mas não menos agressivo do que aqueles que levam casas pelo ar e arrancam árvores da terra.
As pessoas sentadas em redor da sala, como que expostas à sua inutilidade, decoram o ambiente de tristeza e solidão.
De vez em quando, as mãos na cara e uns beijos repenicados na testa com cheiro a artifício. Exuberante afecto falso que pretende toscamente interpretar o afago.

O vento lá fora a abanar as árvores com força.
Cá dentro, o tempo a esfumar-se nos dias. E as drogas a toldar a percepção do abandono. Se não fossem as drogas, a fuga seria inevitável.
Há quem procure nas paredes o descanso do olhar; quem apoie a cabeça na almofada equilibrada no braço da cadeira; quem oiça rádio junto ao ouvido; quem veja um programa qualquer na televisão; e há ela, sentada no cadeirão, de olhos semi-cerrados a fingir que não ouve o que dizem dela, como se não estivesse ali. Abre os olhos quando lhe interessa a conversa e fecha-os para ouvir um pouco mais do que não querem que oiça.
Fala como se a vida ainda lhe fosse normal, como se estivesse em casa e acolhesse aquelas visitas. Transporta aventuras do imaginário para a realidade como que para lhe dar um toque de entusiasmo. De outra forma, morreria antes mesmo da morte a vir buscar.

Aproxima-se uma senhora empurrando o seu carrinho. Pergunta se me conhece. Respondo-lhe que não, que nunca nos vimos antes. Estende-me um bocado de chocolate e duas moedas.
- Tome. É para si.
Agradeço recusando. Insiste. Volto a recusar.
- É por ser pouco? - pergunta-me.
Fico embaraçada.
- Não, não. Fica para si. Não se incomode. - respondo.
Dizem-me para aceitar e devolver à funcionária. Na minha indecisão, há quem o faça por mim.
A senhora volta para a sua cadeira e fica ali a revolver a mala, quem sabe à procura de mais alguma coisa para me oferecer.

Ela abre os olhos e diz que passeou de carro no outro dia e que fez pastéis, cento e tal pastéis e que nem os viu porque os comeram todos.
Volta a fechar os olhos e fala-se dela. Diz-se que já não vive na realidade e que, às vezes, bate nos outros com a bengala. Por isso, tiraram-lha.

Duas senhoras, ao fundo da sala, dão as mãos e encostam as cabeças. Preferem-se às fracas representações de ternura que as funcionárias, bondosamente e em esquizofrénicas interpretações, lhes oferecem. O tempo que levam a lidar com pessoas daquela idade, ou a pura insensibilidade, impedem-nas de distinguir velhos de crianças. Tratam-nos de igual forma, negligenciando a sabedoria e maturidade que os anos acumulam e levando-os com elas ao seu ridículo.

Ela pergunta pelo carro. Dizem-lhe que está guardado na garagem. Sossega.
A hora da visita já vai adiantada e temos todos ainda muito que fazer. Despedimo-nos beijando-a e deitando-lhe olhares de pesar. "O que ela foi e como está agora", pensamos em uníssono.
Sorri-nos com carinho e deixa-nos ir às nossas vidas agitadas. Recosta-se na cadeira, fecha os olhos e vai buscar o carro à garagem ou fazer pastéis para aquela gente toda.
É isso ou a fuga seria inevitável.