quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Tia Adelaide

Lembro-me bem da pele macia, velhinha e enrugada, mas macia e a cheirar a sabonete. Tenho a ideia que todos os velhotes cheiram a sabonete. Talvez os meus velhotes cheirem...

Tivemos pouco tempo juntas. Estiveste presente num curto período da minha vida. Nem tenho bem ideia quando foi que morreste.
Tenho-te como se só eu te conhecesse, não me lembro de nós com outras pessoas. Sempre sós e eu almoçar e a fazer os trabalhos de casa em tua casa. A tua casa era daquelas antigas que lembram os anos 50 e tinha um patiozinho ao fundo. Lembro-me do corredor até ao fundo, à cozinha e ao pátio. E tu velhota com dificuldade em atravessá-lo para ires abrir a porta.

Eu era tão criança... Ainda hoje consigo sentir a sensação de ser criança quando penso na tua casa e em ti. És a lembrança da minha infância, da ingenuidade e da inocência. A sede da descoberta e a incapacidade de compreender certas coisas lembram-me a tua casa. Como se esse lugar fosse mágico e me fisgasse com uma vontade enorme de lá voltar. Fecho os olhos e estou a correr pelo teu corredor fora sem a noção de que se te tocar, podes cair porque tens dificuldade em te mover. É tão ingénua a minha ignorância da tua fragilidade que é quase perdoável; que eu quase me perdoou de não me lembrar de quando morreste...
Às vezes, acho que a minha inocência ficou em tua casa; ficou aí à espera que voltássemos. E não voltámos.

Quero voltar a almoçar contigo, a fazer os trabalhos de casa na tua mesa de madeira escura e a ouvir a tua voz.
Quase a oiço, quando fecho os olhos e vou aí visitar-te.

Dos blogues

Há tempos lia uma imensidão de blogues. Tenho uma lista gigante no feed.
Agora só leio dois. Dois de entre uma imensidão.
Desde que a minha vida se entregou à escrita que me tornei mais exigente. Preciso de ler algo que me sacie. Preciso de sugar a escrita dos outros e sorver mundos para lá do óbvio. Como se me alimentasse do que outros escrevem para encontrar a minha própria palavra.
Os blogues de actualidade e sem substância ficam sempre para mais tarde. Até que um dia, com centenas de textos à espera, os apago em bloco e os esqueço.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Na corda bamba

Isto de ser trapezista não é fácil. Ter uma corda como chão, que ao mínimo sopro balança de um lado para outro, empoleira-nos a vida em dois centímetros de espessura. 
Pé ante pé, procuramos apoio num fio que nos foge dos dedos e nos rouba o equilíbrio. Entregamo-nos, então, a uma busca interminável e insana para o tentar recuperar.
Se o sopro cresce em ventania, a insanidade envolve-nos num abraço doloroso de onde incansavelmente nos procuramos soltar. Mas sem nos mexermos muito não vá um pé, da corda, escapar.
Isto de ser trapezista é coisa de loucos. Iça-nos no ar e obriga-nos a decidir se tombamos mais para a esquerda, ou mais para a direita, sem sabermos, porém, de que lado está o equilíbrio.
Clama a dúvida: Será que ele se esconde em dar a mão ou deixar ir? 

É que isto de ser trapezista é quase tão difícil quanto ser mãe.

 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Menos escola, por favor!

Nos moldes em que a escola se tece, haja menos escola!

Sinto uma alienação geral no que se refere à escola. Oiço dizer "desde que eles estejam ocupados, tudo bem..."
O tanas! Desocupem os miúdos e espicacem-lhes a curiosidade e terão melhores alunos!

Parem de impingir merdas às crianças! 
Elas nunca serão prós em todas as disciplinas, nem excelentes em todas as matérias! Não serão, desenganem-se! Por muito que os pais se esforcem. Por muito que os professores lhes atazanem a cabeça, haverá sempre alguma coisa que não entenderão, com que embirrarão, ou que não quererão mesmo saber. E está no direito delas. As crianças têm direito a não ser perfeitas.

Elas são pessoas, já repararam? 
Elas precisam de tempos mortos, de sentir tédio, de ficarem aborrecidas para inventarem qualquer coisa que as distraia, de tempo para respirar e, essencialmente, de tempo para sonhar. Dêem-lhes tempo e espaço e não lhes dêem livros de instruções para tudo. Deixem-nas encantarem-se com uma pedrinha ou uma folha e inventarem mundos só delas!

Parem de arranjar actividadezinhas para ocupar os miúdos! 
E, por favor, não lhes impinjam mais escola como substituição dos pais.
Se os pais trabalham mais horas do que o tempo que eles estão na escola, então a solução passa por terem um sítio onde possam brincar livremente, mas onde estejam sob uma certa vigilância. E digo "uma certa vigilância" de propósito, porque os miúdos também precisam de sentir que estão por sua conta e risco para dosearem esse mesmo risco.

Parem de inventar tretas para entreter os miúdos!
Eles não precisam de ser entretidos. Eles precisam sim, de atenção; de alguém que os oiça; de alguém disponível para se inteirar dos seus problemas.
Não precisam de desenvolver capacidades, mas de sentir vontade de conhecer mundo e de o questionar.

E não precisam de saber mais coisas. Precisam de querer saber coisas! 
Dêem-lhes o prazer da dúvida e da incógnita e não necessitarão de os obrigar a estudar.