sábado, 30 de janeiro de 2016

Silêncio

É urgente o silêncio. 
As emoções em excesso ensurdecem. As palavras em demasia enlouquecem.
É urgente o silêncio. 
O intimo exposto perde a preciosidade do recato, do que é só nosso, do que se consome no peito e se digere na reflexão.
É urgente o silêncio.
É preciso parar o ruído do supérfluo, parar o movimento pela impossibilidade de quietude.
É urgente a meditação, a introspecção...
E o silêncio.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Plateia ausente

Este palco em que o Homem decidiu morar é pouco tolerante com as humanidades. Errar é inadmissível. Fugir ao padrão estabelecido é pecado.  O Homem (que inclui a mulher, por isso não me vou pôr para aqui com femininos inúteis) auto-encarcerou-se numa jaula da qual não tem a chave. Fechou a porta e atirou a chave para longe por entre as grades. Está ali, fechado, a olhar para fora e a dizer que a liberdade é uma merda. (Realmente, a liberdade pode ser uma merda para quem não tem o desejo de voar. Até porque voar foge às regras...)

O Homem deixou de acreditar na diferença e crê que se distingue se se colar a um extremo. Os extremos estão cheios de gente igual que se junta, sem se unir, em pequenos nichos repletos de preconceito e discriminação.
O Homem substituiu a própria existência pela ficção e está a representá-la num teatro que se encontra completamente vazio.
Pobrezinho...

Tuga

Durante o jantar:
- Sabem, os pais de algumas das minhas amigas são mesmo tugas?
- Sim? Então porquê?
- Na sexta à noite vão sair com os amigos e beber uns copos.
- E as mães?
- As mães não vão, claro! Eles são tugas, mãe! 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

História do ladrão

Às vezes vem-me à cabeça aquela tua história do assalto... Aquela parte em que dizias:
- E ele perguntou-me "é aqui a casa do Neto?". E eu respondi-lhe "Casa do Neto? Oh não, o senhor está enganado, aqui não é a casa do Neto!" e conduzi-o para a porta.
Lembro-me bem da tua expressão e de como sorríamos quando contavas a tua façanha, reforçando como soubeste ser inteligente e manter a cabeça fria numa altura como aquela. E repetias:
- "É aqui a casa do Neto?, Oh não, o senhor está enganado, aqui não é a casa do Neto!" - e rias, e nós ríamos contigo.
- E depois disse-lhe como se soubesse muito bem quem era o tal Neto "O senhor vai até lá ao fundo e depois vira à esquerda. A casa do Neto é mesmo ali" - contavas como tinhas enganado tão bem o ladrão, enquanto o punhas fora de casa. E continuavas - E ele saiu. Quando o vi fora de casa nem queria acreditar como tive coragem para fazer aquilo! Ele era muito maior do que eu, se quisesse dava-me uma pantufada e eu ficava ali estendida no chão! 
E nós sentíamos orgulho em ti... Uma velhota como tu, tão pequenina, magrinha e frágil, conseguiu pôr um ladrão fora de casa quase sem ele se aperceber que estava a ser delicadamente expulso e tão bem enganado. 
- Ele deve ter pensado "a velhota está maluca, de certeza!" Ah ah ah! - rias da estupidez do ladrão e da tua esperteza em fazeres-te passar por maluca. 

Contaste-nos esta história tantas vezes que já quase a sabíamos de cor. Contava-la como se fosse a primeira vez e nós ouviamo-la como se fosse a primeira vez. Era uma espécie de acordo sem que tivéssemos combinado nada. Até o J. gostava de ouvir a história do ladrão... Dizias-lhe:
- Gostas, J.? Gostas de ouvir a tizinha contar a história de como pôs o ladrão na rua? - e seguravas-lhes o rosto entre as mãos para lhe dares um beijo na face. Ele franzia-se todo com o teu beijo inesperado e dizia-te que sim para ficares contente. Mesmo já sabendo a história, não se importava de a volta a ouvir. E nós também não. Sabia-nos bem ver o teu entusiasmo a contar a história e gostávamos de nos rirmos contigo. Sabes, sentia um verdadeiro orgulho em ti? Foste mesmo uma velhota valente! Ainda me pergunto como conseguiste continuar a viver ali, naquela casa isolada, sozinha, depois do ladrão lá ter entrado. Nem toda a gente que teria a tua coragem. Podes ter a certeza que não!

Gostava de te voltar a ouvir contar a história do ladrão...
Tenho saudades tuas, sabes? 
Fazes-me falta! 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Dar música aos macaquinhos

O meu filho quis ir aprender a tocar bateria. 
Tinha apenas andado na música para bebés e na que tem como disciplina na escola. 
A música para bebés não durou muito tempo porque ele queria era dançar e ver-se ao espelho da sala de ginásio onde eram dadas as aulas e não queria nada com os instrumentos. 
Em pouco tempo, acabámos com a música. Achámos que não valia a pena estarmos a gastar tempo e dinheiro se ele não aproveitava as aulas. 
Desde aí, só teve a música da disciplina na escola. 
Até ao dia em que fomos passar o ano a casa de uns amigos que tinham uma bateria... O puto apaixonou-se. 
Já lá passámos três passagens de ano e ele tenta sempre ficar com o lugar cativo na bateria. 
Nesta última vez foi demais, só saiu da bateria para comer e ir à casa-de-banho. Não parou de tocar toda a noite. Por isso, achámos que era boa opção ele ir experimentar ter aulas para ver se gostava assim tanto daquilo. Gostou. 
As aulas ficaram melhor opção do que lhe comprar uma bateria. Pelo preço, pelo critério "ir à experiência" e, especialmente, pelo barulho do qual livrámos os nossos ouvidos e os dos nossos vizinhos.

Esta semana, inscrevemo-lo nas ditas aulas.

Na escola de música, durante a inscrição, perguntaram-me:
- Quem escolheu o instrumento? Foi ele?
- Sim, claro! - respondi, surpreendida com a pergunta.
- Estou a perguntar isto, porque, sabe, a bateria é um instrumento que não toca, assim... uma melodia... Ele não vai tocar uma música com melodia... Os bateristas são quase considerados não-músicos, o que na realidade, é uma grande injustiça, porque são músicos como outros quaisquer. E os pais, geralmente, não gostam muito que os filhos toquem bateria, preferem outros instrumentos que tenham a possibilidade de fazer melodia. Isto está bem para vocês?
- Sim, claro, não tem problema nenhum, ele vem aprender a tocar bateria porque gosta e porque isso lhe dá prazer. Não esperamos que ele, depois, saia daqui a fazer gracinhas para mostrarmos aos amigos.
- Ah bom, ok... Surpreende-me a vossa abertura.


A sério? Isto está mesmo a chegar a este ponto? São os pais que escolhem o instrumento que os filhos vão aprender? A música serve para atribuir aptidões às criancinhas ou para as pôr a fazer gracinhas para os amigos como maquinhos de circo? Já os maquinhos estão praticamente proibidos nos circos e as crianças continuam a ser veículo do exibicionismo barato dos pais? Ou são antes um produto que se deve melhorar para poder competir com outros produtos idênticos no selvático mercado de trabalho? Ou são as duas coisas e esqueceram-se que estamos aqui a falar de crianças que, por sua vez, são pessoas? Hã? Está tudo maluquinho, é?
O simples prazer que as coisas podem dar às crianças já não interessam nada se houver uma qualquer aptidão a ser trabalhada para que elas se tornem mais competitivas ou melhores do que as outras?

Porra! Vão, mas é todos à merda, que o meu filho vai aprender a tocar bateria só porque curte bué! Olha que merda!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Querer impotente

Esta noite sonhei que te tinha perdido. Anos sem sonhar e agora isto: todas as noites, sonhos; algumas noites, mais do que um sonho. Esta noite, sonhei que me tinhas desaparecido. Sonhos com os medos impressos. Porquê? Estarei numa fase particularmente medrosa? Ou será da "meia-idade"? Desapareceste, mas reapareceste numa varanda do topo de um prédio no Parque das Nações. O teu pai e eu dissemos-te "não saias daí, vamos aí ter!". Não fomos. Perdemo-nos por becos, escadas e varandas e tu à espera. Como a tua espera me doeu! Queria chegar-te e não conseguia. Só encontrávamos gente de ar suspeito e nem um sinal de ti. Saber-te sozinho, sem nós, deixou-me louca, queria voltar ao ponto de partida em que te vi na varanda do topo do prédio. Mas o caminho era tão longo, era tudo tão distante. E se caísses? E se alguém te levasse? E se te fizessem mal? E nós sem conseguirmos chegar-te...
Acordei para apagar os pensamentos. A sensação de impotência chegava próxima da de quando estiveste naquela cama de hospital. Eu sem conseguir valer-te, chegar-te. Eu sem conseguir nada e tu lá sozinho sem saberes como te queria chegar. E o meu querer impotente. E o meu querer impotente.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Da importunação

Em Agosto esta lei foi aprovada:

"Artigo 170.º
Importunação sexual
Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela actos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal."

A comunicação social descobriu em Dezembro e lançou o burburinho, dizendo que a lei que criminaliza o piropo foi aprovada. 

"Piropo - palavra ou frase lisonjeira que se dirige a uma pessoa revelando que se acha essa pessoa fisicamente atraente; galanteio."

"Galanteio - acto ou efeito de galantear; acto de dirigir elogios a alguém; dito lisonjeador, com o objectivo de agradar ou seduzir; amabilidade; conversa amorosa;
namoro."

Houve grandes discussões nas redes sociais à volta desta questão: gente a defender a lei; gente a exprimir o descontentamento por se dedicarem a aprovar leis destas quando há outras muito mais importantes a ser aprovadas; gente a gritar por liberdade de expressão, alegando que a lei lhe era uma limitação; gente a questionar o que é, ou não, piropo; gente a defender que o piropo não pode morrer; etc., etc...

Por meu lado, estou profundamente agradada com a aprovação desta lei! Estou-me nas tintas para se se refere ou ou não ao piropo. Sei que não refere, mas se referisse não ficaria nada triste. Detesto piropos. De qualquer espécie. 
A importunação sexual, da qual trata esta lei, a que eu (e talvez mais umas tantas pessoas) chamo "piropo porco", ou "nojento", é coisa para ser criminalizada e bem criminalizada!

Como já disse aqui, sou mocinha para o 1,80 m e sempre fui grande. Desde os meus 12, 13 anos que tenho mais de 1,60 m, por isso sempre me acharam mais velha do que eu era na realidade. 
Desde tenra idade que sou abordada com toda a espécie de piropos porcos. E, como toda a gente, também vesti mini-saias que até não me ficavam mal. Vesti mini-saias, calças e tops justos. Vesti, porque sim, porque gostava e acho que tinha todo o direito de vestir o que me apetecesse sem que ninguém me viesse importunar com bocas porcas.

Hoje, tenho mais 12 quilos do que o meu peso ideal. Já não visto mini-saias e adoptei uma forma de andar na rua o mais discreta possível. Não gosto que olhem para mim e a forma como me mexo e visto passou a ser de acordo com essa minha vontade de passar despercebida. Não me sinto bem com os 12 quilos a mais, não me sinto bem quando me vejo ao espelho nua ou quando me dispo em frente ao meu homem. Não gosto das gordurinhas, nem da celulite, mas gosto de já não ser alvo de olhares esfomeados, nem de bocas porcas ou, até, das menos porcas. Gosto que me olhem nos olhos em vez de nas mamas. Gosto mesmo e acho que estes 12 quilos a mais valem esse sossego. 

No outro dia, passei por uma rapariga da minha altura que tinha um vestido justo e curto. Ficava-lhe muito bem. Ela era muito bonita e bem feitinha de corpo e aquele vestido acentuava-lhe a beleza das formas. Cruzei-me com ela e nas costas dela deparei-me com quatro homens de ar babado a segui-la com o olhar. Quatro, contei-os. Fiquei de frente para aqueles quatro homens e nenhum me viu porque a seguiam com olhar. Fui transparente para eles e senti-me incrivelmente bem na minha invisibilidade. Não a invejei nem um bocadinho. Senti-me livre, livre daqueles olhares que tentam entrar na nossa intimidade. Livre de possíveis piropos porcos, de possíveis galanteios que também detesto que mos dirijam.

Sei que há quem goste de galanteios. Não acho que devam ser criminalizados. Ok, são parvos, mas há quem goste e as pessoas estão no direito de se dirigirem parvoíces à vontade desde que ambas estejam de acordo. 

Agora a importunação sexual... acho que foi muito bem criminalizada, porque as pessoas têm o direito de andar na rua livres de qualquer tipo de invasão à sua privacidade. Livres que lhes queiram cair em cima; livres que lhes queiram lamber as partes íntimas; livres de gente que não sabe controlar os instintos mais primários e respeitar os outros. E é por essa liberdade que estou plenamente de acordo com a aprovação desta lei. 

sábado, 2 de janeiro de 2016

Plàf!

Sentei-me ao lado J. no sofá da Bertrand. Ele estava a ler mais um livro do Asterix (já leu vários em livrarias, o que nos sai bem mais baratinho), olhei para a página onde ele estava e digo-lhe na brincadeira:
- Plaf? - leio - Que partido será esse o "Plaf"?
- Portugal Ligeiramente à Frente. - responde-me ele prontamente.

Os filhos dos terroristas

O J. pegou nos carrinhos e pôs-se a brincar no sofá.
- Vou brincar aos atentados! - disse.
O pai olhou para ele e perguntou:
- Achas que isso é brincadeira que se tenha?
- Claro, os filhos dos terroristas também têm direito a brincar, ou não?