terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O dom da palavra

Penso as relações com abertura, sinceridade, frontalidade. Não consigo sustentar amuos, mal-entendidos, palavras por dizer.
Sei que às vezes sou bruta nesta forma de agir, que a minha frontalidade fere e incomoda, que às vezes ofende. Mas os silêncios piedosos, as incompatibilidades por resolver e as dores caladas são sempre mais cruéis, porque aquilo que não se verbaliza fica a doer para sempre, a escarafunchar-nos por dentro e ergue muros difíceis de transpor entre o que somos e o que o outro pensa e sente que somos.
A palavra, por mais dura que seja, vem dar espaço ao entendimento, à compreensão do outro, à partilha de emoções, ao fortalecimento das relações.
Calar a dor não a destrói, pelo contrário, amplifica-a. Fá-la gritar-nos aos ouvidos a sua presença e trá-la à superfície sempre que estamos mais frágeis.

Há entendimento sem palavras, que há. Às vezes, esse é o mais forte e profundo, porque prescinde de quase tudo, bastando-nos existir para percebermos o outro e para que o outro nos perceba. Mas, infelizmente, é raro, porque depende de uma comunicação quase telepática entre as pessoas, que nem sempre existe.

A palavra abre-nos ao outro, revela-nos, torna-nos conscientes de nós próprios e do que sentimos e dá-nos, entrega-nos ao outro - a palavra sincera, que vem de dentro, não a que nos sai por comodismo ou gentileza, mas aquela que vamos buscar às inseguranças e medos, às incertezas, às fragilidades. Essa palavra que nos torna débeis e confronta as debilidades do outro, mas que, ao mesmo tempo, nos impõe a força para ultrapassarmos os obstáculos daquilo que sentimos, daquilo que o outro sente e que, no final, vem amenizar tudo, apaziguar e fortalecer as relações. Esse é dom da palavra.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Aridez

Sinto um desapego crescente pelos objectos. Talvez por isso me distancie de tudo o que é compras e o consumismo me aflija tanto...
Vai longe o tempo em que havia muito que me fazia falta. Hoje, não sinto falta de coisa nenhuma. Não desejo nenhum presente de Natal ou de aniversário. Nada me encheria as medidas ou ocuparia os espaços que trago vazios. E tenho vários, nos quais os objectos nunca caberiam.

Todos os anos, a minha mãe obriga-me a escolher qualquer coisa que me ofereça. Escolho um creme para a cara que não compraria se não mo oferecessem. Há já vários anos que é isso que me cai no sapato vindo dela e me dura o ano certinho de cara apresentável.

Ficaram para trás os velhos tempos em que usava produtos de maquilhagem.
A base, o batom ou as sombras ainda tenho as da altura do curso de manequim, de há uns 15 anos. Tenho-os ali, dentro de uma bolsinha que nunca uso, para o caso de um dia me apetecer ou precisar. Nunca precisei, nem me apeteceu. Prefiro a cara limpa de gorduras e cores. Um risco nos olhos e rímel nas pestanas chegam para me tornar numa outra, mais arranjadinha e senhora como a vida por vezes me impõe.

Hoje, fui com a minha mãe comprar o tal creme do ano. A funcionária da perfumaria que nos atendeu perguntou o que punha na cara. Nada, não ponho nada. Vi o espanto crescer-lhe na expressão. Nem base? Não, nada, só creme hidratante, quando o tenho ou quando não é Verão e a transpiração mo leva do rosto num instante.

Já no corpo é a mesma coisa, só creme hidratante e só quando me apetece algum besunte que me alivie as escamas da pele seca.
Toda eu, sou seca de pele. Escamo e arranho, mas prefiro-o ao óleo dos cosméticos, ao sebo escorregadio dos produtos e ao cheiro excessivo que alguns trazem.

Talvez a secura me venha de dentro para me proteger dos exageros nos gastos... Talvez esta secura em crescendo seja a capa que me separa daquilo que me é fútil, estranho, insignificante... Talvez a aridez da idade me tenha vindo limpar dos supérfluos, assim como que a preparar-me para o fundamental e para aquilo que me poderá encher os imensos vazios que habitam este deserto sedento de oásis...

Ou talvez eu seja mesmo só desleixada e desprovida de afeição pela matéria...

Vá-se lá saber...

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Só para variar

Ando cansada. Tão cansada que não me apetece fazer nada. Só me apetece embrenhar-me no meio da natureza e ficar por lá, embrenhada. Já só me faz sentido olhar o céu, sentir os cheiros que dançam no ar e revolver a terra com as unhas. Tudo o resto me parece falso, inútil, fútil.

Não suporto o espírito natalício que me rodeia. Irritam-me as pessoas com a sua caridadezinha natalícia, com a adoração pelas crianças que só vem nesta época, com a falsa solidariedadezinha, com a fome consumista. Irritam-me as pessoas com as suas vidas de aparências e de alegrias exibicionistas.
As luzes de Natal que iluminam ruas vazias parecem-me cada vez mais artificiais. Não há gente para elas. E a que há não está realmente lá. As pessoas já não saem, não vivem, não conversam. Fingem que fazem imensas coisas e tiram fotos. Sugam tudo para dentro dos telemóveis e ficam-se por aí.
Parece que não há nada para fazer e nunca houve tanto para fazer. Apesar de certos locais se encherem, quem por lá anda, segue numa solidão atroz. Na Era da comunicação não há comunicação e o que se comunica é vazio, plástico, fingido.

Já não aguento o exibicionismo. Estamos cheios de exibicionismos. Queremos mostrar tudo, mas damos tão pouco... Não nos damos aos outros, não abrimos o coração para os deixarmos entrar. Pelo contrário, fechamo-nos. E por lá nos deixamos ficar cerrados a sete chaves. Somos intolerantes, cobardes e cruéis e exibimos a nossa intolerância, cobardia e crueldade da mesma forma que exibimos a nossa caridadezinha, solidariedadezinha e alegriazinha.

Foda-se, para onde foram as pessoas de verdade? Onde se esconderam? Porque escolheram viver nestas fogueiras de vaidades?
Onde estão as conversas profundas, os choques de ideias, o pensamento crítico, o afecto puro e despojado de interesses? Para onde foi o amor, a amizade, o apego?

Vivemos à superfície. Porquê, porra? Porque abdicámos de mergulhar na vida, quando podia ser tão mais fácil irmos ao fundo de nós próprios, dos outros e das coisas que nos circundam?
Temos tudo tão perto: conhecimento, informação, meios de chegar aos que estão longe, voz... E, no entanto, distanciamo-nos. Recolhemo-nos em quotidianos insalubres, estéreis e débeis e ficamos a padecer alegremente das nossas vidas doentias.

Preciso de ar, sinto-me a afogar no rol de mentiras que é a existência humana. Preciso de contemplar o céu, de sentir os cheiros que dançam no ar e de revolver a terra com as unhas. Preciso de um pouco de verdade. Só para variar...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A cama

Sentou-se na beira da cama e descalçou os chinelos um a um. Encostou-os geometricamente lado a lado à parede em frente, mesmo por debaixo da janela.
Rodou sobre as nádegas e enfiou as pernas dentro da cama. Abriu o livro, abandonado há já três dias, e retirou o marcador de metal da página 57 que leu por quatro vezes sem reter uma palavra. Desistiu. Voltou a marcar a página 57 e a abandonar o livro por tempo incerto.
Deixou-se deslizar para dentro dos lençóis e aninhou-se, como de costume, na posição fetal virado para a esquerda.
Fechou os olhos e tentou silenciar os pensamentos.
Faltava-lhe o calor do corpo dela a aquecer-lhe as costas. As dobras dos joelhos não tinham o toque dos joelhos dela, as plantas dos pés sentiam a falta dos peitos dos pés dela, o calor da sua respiração na cova que lhe separava os omoplatas já não estava ali para lhe eriçar os pêlos. Faltava o som do ar que saía e entrava nos pulmões dela a um ritmo certo e lhe sossegava as ideias até as calar num sono profundo. O braço que lhe envolvia o ventre, acabando numa mão fria a rodear-lhe o pulso era agora apenas uma sensação fantasma.

Rodou para o lado contrário e apalpou a cama vazia a seu lado. Estava tão gelada que o frio lhe percorreu o corpo por inteiro.

Durante trinta anos, aquele lado da cama fora ocupado pelo corpo da mulher que o envolvia todas as noites. Agora a sua ausência enchia o espaço que outrora fora de amor e protecção, tornando-o insuportável.
O vazio do aconchego que lhe precedera o sono até ao fim da vida da mulher, tomou conta da cama e atirou-o para fora como se lhe tivesse dado um empurrão.

Foi ao armário buscar um cobertor e enroscou-se no sofá da sala.
Deixara de pertencer, para sempre, àquela cama.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Ao toque das notificações

Wall-E

Há consenso quando se diz que as crianças andam a abusar dos smartphones; que não largam os aparelhómetros e que já quase não socializam umas com as outras.

Se nos olharmos ao espelho, por sinal um exercício deveras enriquecedor que devíamos experimentar mais vezes, também nós, pais, abusamos dos smartphones e deixamos que eles invadam a nossa vida e nos roubem o tempo que é dos nossos filhos.
Ah, ok, nós temos desculpa, porque é o e-mail do chefe que chegou, ou o da escola dos filhos com o agendamento da reunião de pais, ou porque "postámos" uma coisa muito gira nas redes sociais e precisamos urgentemente saber se os nossos amigos do Facebook ou do Instagram gostaram. Sim, nós temos sempre desculpa.

Todos estamos abusivamente ligados ao mundo virtual, de tal forma que praticamente vivemos dentro dele. Transferimos as amizades para um espaço conjunto imaginário que preferimos ao contacto presencial com as outras pessoas. Já não precisamos de ir ao café à noite, ou ao bar, para nos encontrarmos com os amigos. Dentro da caixinha que não largamos por um minuto estão lá todos. Para quê sair de casa e apanhar o frio do fim de tarde ou o bafo do fumo dos cigarros dos bares, se conversamos com quem queremos através do telefone em pijama e chinelos no conforto do lar?

Quando temos o azar de ter de sair de casa, captamos cada momento com a máquina fotográfica do aparelho sempre em riste. Registamos tudo para provarmos aos outros e a nós próprios que ainda vivemos alguma coisa. E incluímos os filhos nos nossos delírios. Mandamos os miúdos enquadrarem-se com os quadros da exposição, com o pôr-do-sol na praia, com a maior árvore de Natal da Europa ou com as flores do jardim, mas não lhes respondemos às perguntas, não respiramos em conjunto a brisa do mar ou rebolamos na areia, não lhes explicamos porque o pintor pintou aquele quadro ou o que se festeja no Natal. Introduzimos apenas os miúdos no aparelho para os exibirmos, e à nossa falsa felicidade, nas redes sociais. Porque a vida deixou de ser vivida para passar a ser apenas mostrada. Mostramos aquilo que gostaríamos de ser, mas não conseguimos ser nada em concreto.

Como podemos ter legitimidade para criticar as crianças? Como podemos ter autoridade para as proibirmos de abusar dos telemóveis que nós próprios lhes oferecemos e que até nos dão muito jeito quando queremos jantar no restaurante sossegados sem que nos interrompam com mil e uma perguntas ou quando os queremos contactar a qualquer hora quando estão na escola?

Não me parece que tenhamos nem legitimidade nem autoridade.
Somos o primeiro exemplo que os nossos filhos seguem e somos o pior exemplo que poderiam seguir.

"Ah e tal, mas o mundo do trabalho exige que estejamos sempre ligados à Internet!". Sim, exige, porque nós deixámos e continuamos a deixar cada dia um pouco mais. Porque deixámos o trabalho invadir o nosso espaço privado e porque somos preguiçosos e seguimos sempre o caminho aparentemente mais fácil.

É mais fácil receber o e-mail do chefe do que o ouvir; é mais fácil receber a convocatória para reunião de pais por e-mail do que ter de assinar um papel que nos enviem para casa; é mais fácil ligar para o telemóvel dos nossos filhos do que ligar para a escola e pedir que os chamem; é mais fácil ter os filhos com as cabeças dentro de um ecrã do que lhes responder às perguntas que têm para nos fazer durante o jantar.

Hoje, temos crianças incapazes de socializar, crianças que vivem dentro dos seus telemóveis, assim como os pais vivem dentro dos deles.
Os nossos filhos são o espelho ao qual viramos a cara para não nos enxergarmos e que vamos deixando que se percam dentro de um ecrã, no mesmo ecrã em que vivemos comandados pelo toque das notificações.

Será que algum dia os iremos encontrar fora do ecrã? Será que eles saberão viver fora do quadradinho? No que nos estamos todos a tornar?

sábado, 3 de dezembro de 2016

Ensino e aprendizagem

Na turma do meu filho há um miúdo repetente que tem 15 ou 16 anos. O meu filho está no 7º ano, o que quer dizer que o miúdo já deve ter chumbado uns três ou quatro anos.
No outro dia, dizia-me ele:
- Sabes, mãe, acho que se vê quem são os meus professores bons pelas notas do B.?
- Então?
- Acho que o B. vai ter muito boa nota a Educação Visual e o professor é dos melhores que temos.
- Porque achas que uma coisa está relacionada com a outra?
- Porque ele consegue estar atento às aulas e faz trabalhos muito bons, ao contrário de nas aulas das outras disciplinas.

Esta conversa com o meu filho, fez-me pensar que hoje, o ensino e o sucesso escolar dependem demais da qualidade dos professores.
Haver alunos que chumbam vezes sem conta está demasiado nas mãos dos professores porque o sistema de ensino não funciona. Se houvesse uma maior abertura às necessidades, expectativas e características de cada aluno, em vez de se "encarneirar" toda a gente, talvez houvesse menos miúdos a chumbar e a chumbar menos vezes.
Não acho que se deva baixar o nível de exigência, de maneira nenhuma, mas parece-me imperativo que a forma de ensino e as matérias leccionadas interessem aos aprendizes. E quando digo "interessem", não digo que as matérias se cinjam a jogar minecraft ou até que o meio para se transmitir o conhecimento deva ser a partir das novas tecnologias (acho até que a introdução das novas tecnologias nas aulas começa a ser um pouco excessiva), quando digo "interessem", quero dizer que vão de encontro às características e interesses dos alunos e, especialmente, lhes incutam uma certa sede por mais conhecimento.

Se o colega do meu filho se interessa por desenho, porque não se chega a ele através do desenho para lhe ensinar matemática, português ou outra disciplina qualquer?
Porque as turmas são gigantes e porque o ensino é descabido quando insiste que todos os alunos aprendam da mesma maneira. Assim, só mesmo a mestria de um muito bom professor para conseguir ensinar alguma coisa. E como os professores são pessoas, com todas as suas qualidades e defeitos, não podemos ter o ensino dependente da mestria de cada um deles. Antes pelo contrário, o ensino tem de funcionar independentemente das características de quem o lecciona. Tem de haver um sistema (ou vários) que amplifique as formas de ensinar de maneira a que ele chegue aos diferentes alunos, sem uniformizar as pessoas, tanto alunos quanto professores. É o método, ou melhor a amplificação dos métodos, que deve possibilitar o acesso aos ensinamentos por todos.
O processo de aprendizagem deve ser estimulante para que os alunos gostem de aprender, porque só gostando de aprender se aprende realmente.
Se os alunos sentirem curiosidade pelas coisas e se sentirem impelidos a expandirem o leque de conhecimentos, vão aprender com maior facilidade. E o que aprenderem vai ficar-lhes para sempre. Esta sede de conhecimento e gosto pela aprendizagem até os ajudaria a assimilarem matérias que lhes são menos interessantes ou aborrecidas, porque o processo em si já os estimularia.

Pelo contrário, vejo que se pretende que os aprendizes "marrem" matérias para as despejarem nos testes. As aulas são maioritariamente monocórdicas e não incentivam à participação activa dos alunos, ao questionamento, à visão crítica e à reflexão. Há até quem não permita que se duvide ou se perspective os assuntos tratados.
Percebo que a questão "tempo" seja um factor preponderante na ausência dos debates abertos nas aulas, mas não pode ser determinante. Afinal, quer-se que os alunos aprendam ou não?
Eu acho que não e isso preocupa-me sinceramente, porque quando se tem um sistema de ensino que não tem como objectivo primordial a aprendizagem é sinal que esse sistema não está a funcionar, que é obsoleto e que deve ser rejeitado. Mas não o vejo ser rejeitado, nem por professores, nem pelos pais que fazem manobras e contorcionismos para adaptarem os alunos e os filhos a algo que não lhes serve, nem servirá nunca. Vejo professores preocupados com o andamento das aulas dadas e com o cumprimento dos programas e pais fixados nos resultados dos testes e no bom aproveitamento às disciplinas como se isso chegasse como prova dos conhecimentos adquiridos.

Se fizéssemos perguntas aos alunos sobre matérias dadas no ano anterior, aposto que a maior parte deles não saberia responder correctamente, mesmo que tivessem tido boas notas. Aprenderam o que lhes ensinaram? A mim, parece-me que não.
Já se perguntássemos ao B., colega do meu filho, sobre um desenho que ele tenha feito no ano anterior, aposto que ele saberia responder correctamente. Porquê? Talvez porque só se sabe o que se quer verdadeiramente saber e porque quando damos alguma coisa a alguém, essa pessoa tem de estar aberta a recebê-la.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A "panne"

Era tarde. Os candeeiros altos com luzes amarelas iluminavam a rua. De tempos a tempos, um carro aparecia devagar. Rodava a uns 30 km/h para parar e fazer inversão de marcha.

Ela esperava dentro de um Volkswagen amarelo. Estava sentada ao volante com a cabeça encostada à cabeceira do banco. Quase não se movia, apenas oscilando o olhar entre um novo carro que se aproximava e o vazio. Olhava o carro e voltava a encostar-se como se a espera não pudesse ser interrompida. Nem o movimento junto ao Honda cinzento lhe quebrou a serenidade. Conferia os automóveis que chegavam e marcavam o prolongamento da sua espera.
Nada havia que a inquietasse. Trazia a tranquilidade aos ombros que a prendia ao banco e a mantinha impávida.

As pessoas do Honda falavam alto e gesticulavam. O carro tinha empanado e não conseguiam fazê-lo voltar a mover-se.
Eram três. Dois homens e uma mulher. Ela, no lugar do condutor, rodava a chave e carregava no acelerador, enquanto eles, decididos e enérgicos, empurravam o veículo. Mas nada, o bicho não havia maneira de voltar a andar.
Faziam barulho e praguejavam e a mulher do Volkswagen nada, como o Honda. Só os carros que apareciam de vez em quando a faziam dar sinais de vida.

Ao fim de quinze minutos de empurrões inúteis, o Honda roncou e, num solavanco, pôs-se em marcha com os dois homens a correr-lhe atrás.

Mal o Honda traçou a linha do horizonte, a mulher do carro amarelo ergueu a cabeça, rodou a chave e partiu.

Foi-se a serenidade e a espera.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Matar o tempo

Estou à espera de consulta.
Entram e saem pessoas dos gabinetes: doentes, médicos, assistentes.
Há quem fale ao telefone; quem passeie os dedos no ecrã do telemóvel; quem veja televisão; quem leia revistas.

Pego no meu caderninho e escrevo. Observo as pessoas e desenho-as no papel. Uma força intrínseca obriga-me a transcrever momentos, como se uma fome insaciável me impelisse a sugar a alma dos outros que só cessa em forma de palavras. Preciso perpectuá-las por escrito para que não me fujam da memória.

- Sr. Diogo Sousa! - chama a assistente do gabinete quatro.
O Diogo, de uns 15 anos acabados de fazer, lá segue para o gabinete quarto de phones nos ouvidos e telemóvel na mão. A mãe acompanha-o com ar preocupado, o mesmo ar preocupado que todas as mães têm quando vão ao médico com os filhos.

- Nº 47!
E a senhora da senha 47 dirige-se ao balcão.

Cruzam-se conversas em burburinho. O casal que está ao meu lado fala de trivialidades. Matam o tempo, aqueles dois.
A recepcionista recebe dinheiro e marca novas consultas.
E eu escrevo com pressa para que o tempo até à minha consulta não me falte à escrita. A caneta desliza no papel numa caligrafia estranha. Escrevo-os a todos, até ao senhor que hesita aproximar-se do balcão...
Dá dois passos e detém-se junto à parede, onde encosta o ombro e ali fica, à espera, como todos nós.
Esperamos a nossa hora que, a uns, tarda em chegar.

A mim falta-me o tempo que não quero matar, mas que tento estender até que as palavras me faltem. Até acabar esta minha escrita.

Chamam-me ao consultório. Guardo o caderno, arreliada, e passo pelo senhor encostado à parede. Queria-o inteiro no meu no papel. Fica pela metade. Hoje.

sábado, 5 de novembro de 2016

Os TPC e os pais

Esta semana, a notícia de uns pais espanhóis que iniciaram uma greve aos TPC gerou mais discussão em volta dos trabalhos de casa.
Vou voltar a este assunto, de que já falei aqui várias vezes, e volto, porque me revolve o estômago deparar-me com lutas destas, ao contrário e egoístas.

Os pais espanhóis revoltaram-se contra os TPC de fim-de-semana, porque, segundo os mesmos, "invadem o tempo das famílias" e "violam o direito ao recreio, à brincadeira e a participar nas actividades artísticas e culturais". 

Ora, se os miúdos têm algum tempo para fazer trabalhos de casa, esse tempo será aos fins-de-semana, certo? E quanto aos TPC durante semana, não há revolta? Ah, ok, os dias de semana não dão para irem passear e fazer outras actividades com as famílias, mas dão para os miúdos irem ao futebol, à música, à ginástica ou ao inglês e estas actividades não lhes roubam tempo nenhum para o recreio ou para as brincadeiras, pois não? Ah e tal, são artísticas e culturais e dão muito jeito para ocupar os miúdos mais umas horinhas por dia para os pais poderem respirar.

As crianças também são crianças durante a semana, não são? Ou durante a semana são adultos pequeninos que devem ter os mesmos (ou maiores) horários que os adultos grandes lá de casa? 
Não precisarão de tempo para brincar ou simplesmente para não fazerem nada todos os dias? 
Ah não, claro que não, crianças desocupadas é que nunca! Se não têm nada para fazer, elas gritam, saltam, correm e fazem perguntas, muitas perguntas. Enfim, dão uma trabalheira do caraças! E para trabalho já basta o emprego dos pais! Não é?

Na notícia do Expresso, o presidente da Confederação Espanhola de Associações de Pais e Mães dos Alunos (Ceapa), José Luis Pazos alega ainda que “as escolas estão a delegar nas famílias tarefas que não devem”. 

Ora, aqui surge-me a dúvida se são as famílias que estudam nas escolas e trazem trabalhos para fazer em casa ou se são os alunos. 

Se são as famílias, parece-me muito bem que, também elas, devam fazer os TPC. Se são os alunos, não vejo qual é o tormento para as famílias ou quais são as "tarefas que não devem". 
Se os pais assumissem que quem tem de fazer os trabalhos de casa são os filhos e se se deixassem de competiçõezinhas entre si (fazendo os TPC das crianças para que elas sejam as melhores), não vejo onde isso lhes acrescentaria novas tarefas. 

Os trabalhos de casa, volto a afirmar, servem para os alunos consolidarem conhecimentos e para promover o trabalho autónomo
Autónomo quer dizer independente, livre. Alunos são os estudantes, aqueles que recebem ensinamentos, formação, instrução. Não vejo onde estão os pais nesta fórmula.

Depois das notícias sobre o caso espanhol, seguiu-se a dos pais portugueses que querem os TPC feitos na escola que, quanto a mim, não me parece totalmente descabido, mas longe, muito longe, de ser o ideal.

Quanto à conversa do presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) que diz que há o perigo de os TPC serem um factor discriminatório, já a acho completamente disparatada, pois o senhor justifica-o com o facto de haver pais que podem ajudar os filhos e/ou pagar a explicadores, e outros não. 
Voltando ao início, os TPC são para os alunos fazerem sozinhos, ou não?

O que me parece preocupante nesta questão não são os TPC em si (que, não sendo em quantidades industriais, são úteis para a percepção dos conhecimentos adquiridos por parte dos alunos), mas o tempo que as crianças não têm e o facto de os pais se auto-assumirem ajudantes nesta tarefa. 

Na maioria dos casos, o tempo que as crianças não têm não é totalmente ocupado com trabalhos de casa, mas com mil e uma actividades extra-escolares e, voilà, com a própria escola. Ou seja, a maior parte da vida das crianças é dentro da escola e não fora dela e é esse tempo que se tem de diminuir, não os TPC em doses homeopáticas.Tem que se aumentar as horas livres para a brincadeira, fantasia, imaginação e auto-descoberta das crianças, sem que alguém as esteja sempre a ensinar como brincar, fantasiar ou imaginar coisas. 



Mas isso já não interessa nada aos pais tão preocupados em ter de ajudar com os TPC, pois, na escola, os filhos estão à guarda de alguém que lhes permite adquirir uma catrefada de competências para o futuro e exigente mercado de trabalho e, além disso, também estão resguardados da vida real e perigosa. Assim, o tempo na escola até é um tempo que dava jeito aumentar, pois tiraria um peso de cima dos ombros dos pais que poderiam trabalhar mais e desfrutar de algumas actividades lúdicas sem o encargo dos filhos e seus TPC.

Com filhos pequenos até compreendo a existência de locais onde as crianças estejam protegidas e mais resguardadas, apesar de achar que o ideal seria elas estarem num sítio onde pudessem brincar ao ar-livre sem actividades programadas, onde houvesse quem olhasse por elas, mas não lhes orientasse as brincadeiras, deixando-as livres na relação umas com as outras. Esse sítio até poderia ser uma espécie de escola, mas sem a clausura que a actual lhes impõe. 
Acredito que teríamos crianças mais autónomas, responsáveis e capazes de sociabilizar.

Quanto aos miúdos maiores, começarem a sair de casa sozinhos, apanharem transporte para a escola, preparem pequenas refeições, irem para a rua brincar com os amigos, não me parece nenhum sacrilégio ou negligência parental. Antes pelo contrário, acho que lhes faz falta; que é uma forma de irem conquistando, as poucos, a sua independência; que os põe em contacto com o mundo e que os ensina a moverem-se pelas estradas da vida.

Se me desse para fazer greve a alguma coisa, seria aos intermináveis horários escolares, à acumulação de actividades extra-escolares que prendem os miúdos a cadeiras e mesas em salas fechadas e que lhes exigem comportamento irrepreensível, inactividade física, silêncio e que os transformam em autómatos e carecidos de imaginação, criatividade e autonomia. 

Esta sim, seria uma greve pelas crianças! A outra é pelos pais.

domingo, 30 de outubro de 2016

Supermercado milagroso

Amanheci em desalento. A noite havia sido pouca, levantei-me irritada e sem sono que, há já vários dias, andava em falta, chorei, discuti. Não saí de casa até à hora em que fui ao supermercado. 
No espelho, antes de sair, vi-me velha e cheia de rugas, cabelo estranho, olheiras, olhar triste e cansado.
O fim do dia prometia não destoar do seu início, ainda mais por ter de ir às compras que detesto.

Já no supermercado, na secção dos laticínios, encontrei dois chineses em busca de leite gordo. Olhavam as prateleiras desorientados e pediram-me socorro. Procurei o que pretendiam e ajudei-os a distinguir as várias qualidades de leite para que numa próxima ocasião não precisassem do auxílio de ninguém. Agradeceram-me muito e levaram o produto que pretendiam.

Na secção dos congelados, uma senhora abalroou-me o carrinho de compras. Pediu-me imensas desculpas e devolvi-lhe um sorriso acompanhado por um "não faz mal".

Na padaria, esqueci-me de tirar a senha e a freguesa que me seguia tirou-a por mim e entregou-ma, antes de tirar a dela. Agradeci-lhe e trocámos algumas palavras enquanto esperávamos que nos atendessem. Acabou por me aconselhar um novo bolo que assenti e levei para casa.
Na caixa, a funcionária, que já me conhece, travou uma animada conversa comigo e despedimo-nos a rir.

Saí do supermercado melhor do que entrei (o que é raro em mim), mas perseguida pela dúvida se a minha aparência desgraçada teria contribuído para que as pessoas me tratassem melhor ou se simplesmente estavam mais simpáticas naquele dia.

Quando me reencontrei com o meu homem, recebeu-me com um "estás cada vez mais nova e bonita" que estranhei por achar precisamente o contrário.

Sim, parece que, ao contrário de todas as expectativas, há dias maus que acabam bem!

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

É o país que temos!

Esta típica frase portuguesa aparece vezes sem conta a rematar conversas que não se querem ter mais do que à superfície. Faz-me lembrar o fado, o fatalismo, a resignação a um destino.
Oiço-a amiúde e não sou capaz de a deixar de ouvir.
"Os impostos são muito altos. É o país que temos!"; "Os políticos são todos uns corruptos! É o país que temos!"; "O ladrão saiu em liberdade! É o país que temos!"; "Hoje choveu! É o país que temos!"; e por aí fora aplicada a qualquer conversa de circunstância. 

"É o país que temos" é o ponto final. Acabou, não há nada a fazer. Temos pena, mas agora vamos à nossa mísera vidinha de cabeça baixa num lamento interminável!

Claro que há muito a fazer, porra! 

É este o país que queremos ter? 
Se não é, porque não o mudamos?

Eu respondo: porque do que gostamos realmente é de nos lastimar. Seja lá do que for. Se fizermos coisas, se mudarmos o que está mal, já não temos razão de queixa. Já não temos o fado, temos tudo tragicamente bem. E isso é que não pode ser. Que iríamos fazer a seguir? Desfrutar da vida alegremente, assim, sem mais nem menos?
Que conversas teríamos no café? Que bocas mandaríamos nas redes sociais? Que ofensas poderíamos atirar aos outros?
Nada! Deixávamos de ter assuntos para debater. Perderíamos a alegria de sermos eternamente infelizes.

É o país que temos!


sábado, 8 de outubro de 2016

Tenho uma tatuagem no meio do peito

Ontem, no elevador, olhei ao espelho o meu peito que espreitava pelo decote em bico da camisola, e vi-a. "Tenho uma tatuagem no meio do peito", pensei. Geralmente, não a vejo. Faz parte de mim, há dez anos, aquele pontinho meio azulado. Já quase invisível aos meus olhos, pelo contrário, ontem, olhei-a com atenção, porque o tempo já me separa do dia em que ma fizeram e me deixa olhá-la sem ressentimentos. À tatuagem como à cicatriz que trago no pescoço.

A cicatriz foi para tirar o gânglio que confirmou o linfoma. Lembro-me do médico me dizer "vamos fazer uma cicatriz bonitinha. Ainda é nova e vamos conseguir escondê-la na dobra do pescoço. Vai ver que quase não se vai notar". Naquela altura pouco me importava se se ia notar. Entreguei o meu corpo aos médicos como o entrego ao meu homem quando fazemos amor.
"Façam o que quiserem desde que me mantenham viva", pensava. "Cortem e cosam à vontade! Que interessa a estética de um corpo se ele está a morrer?!"
Estranha esta entrega que nos põe à mercê de quem não conhecemos. É uma entrega total como a que fazemos ao amor. Profunda, completa, intensa...

A tatuagem foi a marcação dos limites da radioterapia. Dezanove sessões, dezanove dias, em que marcou o limite do local a queimar. Porque aquilo queima e mata tudo o que irradia.
Fizeram-na no mesmo dia em que construíram o molde da máscara que ia usar nas sessões. Uma máscara de uma espécie de rede que me prendia a cabeça e a segurava na inclinação certa. Mediram-me toda nesse dia. Fizeram-me esquadrias no peito e desenharam-me...
"Vamos fazer-lhe uma pequena tatuagem aqui no meio do peito", disseram.
"Depois sai?", perguntei.
"Não, fica para sempre, mas é apenas um pequeno pontinho!"
"Ok!", respondi. Mais uma coisa para sempre. Que fique num "sempre" longo.

Depois de marcada e mascarada, foram as sessões de radio numa sala de onde todos fugiam. Acho que foi o que me marcou mais da radioterapia: fugirem todos e deixarem-me ali sozinha pendurada numa máquina, de máscara na cara, a levar radiações sob vários ângulos.
Fui deixando de conseguir comer, nada me passava pelas goelas; de sentir o sabor dos alimentos, tudo me ardia na boca; deixei de ter saliva e ter de bochechar com saliva artificial para conseguir engolir em seco; tinha dores incríveis que me levaram a precisar de injecções para as amainar; enchi-me de fungos na boca, placas brancas que mais tarde me apareceram noutros sítios. O meu pescoço ficou muito vermelho e precisei de andar de lenço enrolado para o proteger do sol e a besuntá-lo com Biafine todos os dias. Tinha enjoos e fome ao mesmo tempo. Fiquei tempos sem poder arrancar dentes por medo do maxilar se partir. Ainda hoje, tremo quando tenho de arrancar um dente de baixo.
As radiações que a tatuagem delimitou fizeram-me careca da nuca para baixo, sem pêlo por debaixo dos cabelos que na parte de cima da cabeça já tinham crescido e escondiam o vazio da pele magoada.

Às dezanove sessões, pedi à médica para não fazer as duas que faltavam.
"Podemos ficar assim?", perguntei.
"Sim, mas era bom fazermos as duas sessões que faltam para completar o tratamento", respondeu-me.
"Ficamos assim, deixe lá isso!"
E ela deixou, felizmente.

Ontem, ao olhar-me ao espelho no elevador, lembrei-me que o pontinho que tenho no meio do peito e que parece um ponto negro, é cheio de história. No mero pontinho está tatuada a parte mais dolorosa dos tratamentos ao linfoma. Mais do que a quimioterapia que me levou muitos cabelos embora, mas nunca me pôs completamente careca, a radioterapia escreveu-me uma história no meio peito que está aqui discreta e em tons azulados.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Da paixão

J.- O que eu gosto mais, de tudo, é de basquetebol!
Eu - Sim, eu sei.
J.- Bem, tudo menos tu, o pai e a avó...
Eu - Sim? Sinto-me muito lisonjeada.
J. - Podia morrer tudo, menos tu, o pai e a avó, e se eu só tivesse o basquetebol era feliz!

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Brad e Angelina ou Pitt e Jolie. Enfim, o que quiserem

DAQUI

Confesso que o título e a imagem são armadilhas para atrair o monte de voyeurs que segue a saga do divórcio dos dois actores americanos para este meu bloguezinho solitário. Sim, gosto de utilizar estas técnica manhosas para falar de assuntos sérios a pessoas que só se interessam por coscuvilhar a vida alheia. Sim, sou manhosa que me farto!

De escudo em punho para me proteger das pedras que me queiram atirar, digo-vos que o caso Brad e Angelina ou Pitt e Jolie, ou até "Bradjelina", como preferirem, não me interessa minimamente enquanto conto de fadas destruído. Sim, eles são lindos de morrer, e tal, e tal, e tal, mas se me deu para reflectir sobre este assunto não foi só para atrair os amigos voyeurs (pois... sou uma "intelectualoide" de categoria que raciocina até sobre temas mundanos e sem interesse nenhum, pintando-os de outras cores para falar de coscuvilhices sem descer ao nível dos coscuvilheiros), mas essencialmente para me focar na reacção das pessoas aos casos de divórcio, violência doméstica (sobre o par e sobre os filhos) e sobre o fim das relações amorosas em geral.
(Viram, como tornei este assunto sensaborão num assunto sério e interessante?!)

Ups, acabei de me desviar de uma pedrinha que me acertou em cheio no escudo romano que seguro firmemente!

Não sei se o que motivou o divórcio daqueles dois foi a violência sobre os filhos, ou sobre um dos dois; se foi a dependência do álcool; se foi um caso extra-conjugal; ou se foi o mau-feitio da Angelia ou do Brad. Na verdade, nem me interessa.

O que me interessa não é a parte dos pormenores sórdidos da relação. Se ele lhe deu um murro ou se ela lhe atirou com uma garrafa à cabeça; se ele se embebeda com uísque ou com cervejinhas geladas; ou se ele obriga os putos a fazer os T.P.C  à lei da porrada; ou até se ele ou ela dormiram com outros... São assuntos que não me dizem respeito. Não tenho nada a ver com isso. Eles lá saberão e só a eles diz respeito.

O que acho interessante nesta fantochada mediática é a reacção do público a este caso de divórcio, como também já tinha vindo a acontecer em versão nacional, o famoso caso Carrilho / Guimarães.

Acho incrível a forma como as mulheres atacam as mulheres que vivem estas situações conturbadas de divórcio. Ora, que a dita intenta divorciada era uma galdéria; ora que o coitado do moço, tão sério, viveu momentos penosos de infidelidade ou sofreu a rodos nas mãos das maluqueiras da bruxa; ora que o coitado só teve um deslize porque se sentia triste e abandonado e que a obrigação dela seria o perdão; e por aí fora... Desculpas mal enjorcadas para culpar as mulheres e perdoar os homens é o que não faltam!

É engraçado ver que os primeiros a julgar as mulheres que se querem divorciar e sair de um suposto "conto de fadas" são as próprias mulheres; que os homens são vistos normalmente como vítimas de uma situação que elas, e só elas, provocaram.

Não venho desculpar as mulheres com a postura feminista de que somos sempre vítimas de discriminação de género. Não somos sempre, somos às vezes.

Nos casos de divórcio tanto as mulheres quanto os homens são culpados. As relações fazem-se a dois e se elas acabam é porque não funcionam pelo menos para um dos lados. A velha máxima "quando um não quer, dois não fazem" parece-me que faz todo o sentido aqui.

Claro que se há qualquer forma de violência (e incluo a psicológica geralmente tão desprezada), ou seja, de crime, deve ser julgada nas instâncias devidas, em tribunal e por juízes capazes de não misturarem os seus preconceitos e convicções pessoais com a análise transparente dos factos e no julgamento dos agressores / criminosos.

Também tem piada verificar que as mulheres bonitas, como a Angelina e a Bárbara, são normalmente mais atacadas pelas outras mulheres nestes casos relações desfeitas...
Mais uma vez a imagem e a invejazinha recalcada falam mais alto do que a razão e vêem-se, e ouvem-se, mulheres a dizer coisas tão cretinas como "com aquele ar, já era de esperar", "ela sempre andou à caça de outros", ou até as simples, mas não menos cretinas "nunca fui com a cara dela, ele deve ter passado muito com uma mulher daquelas".

Ups, mais uma pedra, desta vez um calhau, que quase me roça a orelha!

Não sou ingénua para não saber que há mulheres que utilizam os crimes de agressão para vencer os casos em tribunal, para conseguir a guarda dos filhos ou até para simplesmente atingirem o ex-parceiro. Há que as há e não são poucas. Mas se usam estes meios é porque podem, e podem porque ainda há muita cabecinha deformada e ainda não chegámos ao estádio em que homens e mulheres são vistos como iguais, em que qualquer um pode mentir, agredir e ser um sacana de merda.

Sim, ainda não somos iguais aos olhos da maior parte das pessoas. Infelizmente!

Mas se as mulheres atacam as mulheres, os homens também atacam as mulheres... E atacam como se fosse obrigação feminina sustentar as relações, equilibrá-las para perdurarem, segurar as pontas, enrolá-las e atar de novo para que não se soltem os laços sagrados do matrimónio. Tretas! Nem o matrimónio é sagrado, nem esta é uma função exclusiva de qualquer uma das partes. "Quando um não quer, dois não fazem!", lembram-se?

Desviei-me!!! Ainda não me acertaram! Eh eh eh! Vai mais uma pedrinha?

Os homens também usam os mesmos argumentos das mulheres para se desculparem, mas muitas vezes vêm com a alegação da carne fraca. Irónico este argumento quando se têm em conta como o sexo forte... Como é isso afinal, hã? Carne fraca, mas sexo forte? Não será uma a antítese do outro?

Enfim, desculpas que se vêem como factos e que se espalham como verdades.

Se a carne das mulheres fraqueja são umas indignas, se a carne dos homens fraqueja, é assim mesmo, coitadinhos que não conseguem conter os impulsos sexuais. É triste ver-me a escrever isto em pleno século XXI, mas infelizmente não lhe posso fugir, esta ideia ainda se encontra entranhada em muita gente. E aparece, se não conscientemente, muitas vezes escondida atrás de outras ideias tidas como "p'rá frentex" e "anti-discriminação".

Já para não falar no impulso agressivo dos homens que segue a mesma linha do impulso sexual...

No entanto, não só os homens são desculpados dos seus actos impulsivos, as mulheres também são desculpadas das artimanhas para ficarem com a guarda total dos filhos, como se a maternidade fosse mais importante do que a paternidade e como se actos tresloucados se desculpassem facilmente se camuflados no "imenso amor de mãe".
Tretas! Se formos sacanas por causas "belas e grandiosas", somos menos sacanas? Não, não somos, não se iludam as mãezinhas! Somos igualmente sacanas e, pior, quando somos sacanas para os pais dos nossos filhos, estamos a ser sobretudo sacanas para os nossos filhos.
Onde põem agora o "imenso amor de mãe" que tudo justifica?

Eh pá, esse calhau não, que me mataria aqui num instante!!!

Voltando ao Brad e à Angelina (que os voyeurs já estão a ficar aborrecidos), sim, sei dos mexericos que por aí circulam, mas o meu voyeurismo não aponta na direcção deles, mas sim na vossa, amigos!

Hello, I'm watching you! Eh eh eh!




Pronto, já tenho dois galos na cabeça! Contentes?



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Múltiplos

Perdemo-nos a cada segundo que gastamos imersos em múltiplos.

Já raramente paramos para ler, ouvir, ver, sentir ou falar. Fazemos tudo ao mesmo tempo numa pressa que algo se esgote.
Querem-nos capazes de dominar vários idiomas, ferramentas, técnicas. Querem que sejamos dinâmicos e que tenhamos mil e uma competências; que estejamos aptos para tudo.
Se não temos determinada competência ou se não estamos aptos para certa função, que desenvolvamos as competências em segundos e que aprendamos rápido tudo o que ainda não sabemos.
Querem-nos imensos num. Queremo-nos imensos num. E corremos a colmatar cada falha, cada vazio, cada incapacidade.

Para quê? De que vale sermos vários se não conseguimos ser um? Se gastamos tempo a ser vários, em vez de nos demorarmos num?

Perdemos histórias, música, cor, toque e palavras. Perdemos vida a cada momento, a cada instante que nos ausentamos de nós mesmos. E ausentamo-nos tantas vezes.
Saímos de nós para buscar outros que não fomos, que não somos, que nunca seremos.

E levamos os filhos atrás.
Queremo-los muitos num só. Que controlem tudo. Que sejam perfeitos em cada tarefa, em cada esfera em que se movam...

Estamos a perder o "eu" para alimentar o "eu".

Quantos "eus" conseguiremos ainda alimentar? Quantos "eus" teremos ainda que sustentar para ver crescer o "eu" que se perdeu entre muitos?

Quantos?

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Fã do Harry Potter, mas nem tanto...

Perguntei ao meu miúdo se queria ir ao lançamento do novo livro do Harry Potter na Ler Devagar.

- Achas? Quero o novo livro, mas não vou em palhaçadas! Agora andar lá naquele amontoado de gente mascarada?!

Ok, encomendo-o online.

DAQUI

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Dos blogues

DAQUI

Comecei isto dos blogues faz tempo. Mais precisamente em 2011. Faz tanto tempo que este menino aqui já completou cinco anos em Agosto.

Há cinco anos e picos que venho para aqui arrotar as minhas postas de pescada. Primeiro, em núpcias das delícias da maternidade; depois confrontada com o fim das núpcias; hoje, com a consciência de que a maternidade se expande por tudo o que é lado da vida da gente.

Nunca, mas mesmo nunca, tentei tornar este blogue num lugar cuchi-cuchi, fofinho e queridinho. Este lugar não é de todo fofinho. Não há por aqui adoçantes da vida, nem marcas a embelezar o que se passa por dentro e por fora da minha experiência enquanto mãe, ou enquanto pessoa, ou até mesmo a comandar o que escrevo. Não me deixo limitar por "politicamente correctos" ou estereótipos que atentem contra a minha liberdade na escrita. Escrevo o que me dá na real gana, quando me dá na real gana.

Em tempos, cheguei a ter por aqui uma publicidade, mas nada que me prendesse e algo de que até gostava. Hoje, tenho a do Google por aí espalhada que não me rende nadinha, mas adorna os espaços vagos, fica bonitinho e dá um ar de homenzinho a este blogue imaturo.

Talvez por nunca ter tido a sorte, ou o azar, do blogue ir para além de umas diminutas visualizações, nunca ficou na moda, nunca se encheu de "gostantes" no Facebook ou noutra rede social qualquer.
Se houver por aí alguma marca que se queira associar a este modelo anti-cuchi-cuchi, não me importarei que ponham aqui a sua montra, no entanto não me ralo muito com isso, não empreendo esforços para que o façam, nem vou a correr atrás delas a dizer "estou aqui, olhem lá para este sítio tão giro. Não querem que vos venda uns produtos, fingindo que os aprecio bué?". Se fosse uma livraria, até não me importava de experimentar alguns produtos... Fica dica, hã?!

De certa maneira, até estou agradecida que não venham colar-se aqui para que não me sinta presa ou condicionada a elas. Gosto de andar por aqui em liberdade, gosto de sentir que, mais do que dos leitores, este espaço é meu.
Falo convosco com a sinceridade que gosto de usar, mas, na verdade, falo mais comigo do que convosco. Sinto este cantinho como muito meu, mas tenho todo o prazer nas vossas visitas e, especialmente, nas nossas trocas de impressões. E sermos poucos até torna isto mais intimista e acolhedor e por isso mais agradável.
Nem consigo imaginar se tivesse para aqui um monte de gente mal-educada a meter-se na minha vida e a opinar. Acho que as enxotava a pontapé. Vá, a pontapé não, mas à vassourada que é mais meigo.

Porém, este ano concorri ao concurso Blogs do Ano, promovido pela TVI. Honestamente, não sei muito bem porque o fiz. Pensei "já tens uns aninhos nestas andanças de arrotar postas de pescada, vamos lá ver no que isto dá", sem grandes esperanças de chegar onde quer que fosse, pois sei bem quais os critérios de avaliação dos blogues actualmente e, já que não respeito nenhuns, o mais certo seria ficar de fora.

Como tão bem adivinhei, não fui seleccionada para nada... Os assuntos que por aqui falo interessam a uma ínfima minoria, nunca atingindo as massas. Não tenho uma vida idílica, uns filhos vestidos com fatinhos feitos por medida com ar de betinhos, não passo férias em resorts de luxo, nem vou às festinhas das mamãs babadas. Realmente, tenho uma vidinha bem desinteressante como a maioria dos portugueses...
Porque raio alguém se interessaria pela minha conversa? Ainda mais quando ela é tão monótona que mostra tantas vezes os lados mais negros e chatos da vida?
Não há cá espaço para as pessoas sonharem ou se apoderarem da minha vida ou até para se misturam comigo (como acontece com os blogues das figuras públicas); não ofereço prendinhas, nem empreendo concursos em que tenham de gostar da minha página de Facebook em troca de um sabonete; ou sequer faço campeonatos de larachas que contribuam para aumentar a minha auto-estima. Resumindo, sou desconhecida, desinteressante, sem grande piada e não ofereço nada a ninguém. Pronto, estou out, como diria um qualquer fashion blog.

Apesar da minha insignificância, sinto-me francamente agradecida, porque tenho a liberdade, que aqueles que se fundem com marcas ou respeitam estereótipos não têm (se eles saírem do rumo que tomaram são apedrejados e eu posso andar para aqui aos ziguezagues que ninguém me liga nenhuma. Eh eh eh!); tenho a ler este blogue quem realmente se interessa por aquilo que escrevo e os blogues cuchi-cuchi têm a maralha toda mal-educada e metediça. Eu não tenho por cá nem os gulosos das prendinhas nem as sanguessugas de personalidades e eles têm de levar com eles a chuparem-lhes o sangue.

Ok, não tenho dinheiro a partir daqui, mas como sempre dei mais valor à liberdade do que ao dinheiro, estou feliz assim.

Enfim, sou pobrezinha mas livre.

Obrigada aos poucos, mas bons, que me vão aturando! Prontos para os próximos cinco anos???

...

...

...

Hello?? Está aí alguém? Hello????


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Oh pá, querem ver que fugiram todos?!

domingo, 18 de setembro de 2016

Mediocridade

DAQUI

Entristece-me constatar que quem está à frente de grupos, os ditos lideres, são, geralmente, pessoas menores. Chamo-lhes "menores" não por acreditar que existem vários de níveis de pessoas, mas por considerar "menores" aqueles que se deslumbram e pavoneiam numa insegurança e falta de carácter que só o exercício do poder (por mais diminuto que seja) sobre aqueles que consideram maiores do que eles desfaz a mediocridade em que vivem.

A mediocridade de cada um, se não bem gerida pelos próprios, transforma-se em cancros sociais que apodrecem o que os circundam, criam raízes até aos extremos e atacam todos os órgãos.

Estamos cheios de cancros que destroem tudo em raios de cinco metros. Infectam instituições, pessoas e valores. Infectam e alastram-se. Movem multidões em redor de falácias e imprimem a auto-destruição na verdade e na autenticidade daqueles que lhes são maiores. E "maiores" são aqueles que não precisam do poder para se sentirem cheios, porque a mediocridade não lhes mora na alma que a expiam sem pisar o que os rodeia. Porque a mediocridade existe sempre, só a capacidade de a expiar é exclusiva de alguns. Como a frustração, a dúvida ou a insegurança que todos temos, mas que dependem de uma gestão cuidada para que não nos engulam.

Os menores, esses assoberbados pela própria pequenez, crescem sempre que o poder lhes é entregue. E exercem-no com furor sobre o mundo, destruindo-o e absorvendo-o para a bolha minúscula em que se movem. Fazem-na crescer e enchem-na dos que a poderiam rebentar.

Entristece-me ver aprisionada na bolha tanta gente de valor, afogada pela mediocridade de alguns, enclausurada na inércia dos menores, corroída pelos cancros que estes alimentam na ostentação da própria pequenez.

domingo, 11 de setembro de 2016

A morte do encantamento

DAQUI

O excesso de informação, conjugado com o fácil acesso ao esclarecimento de dúvidas pontuais e com a falsa proximidade do que dantes se sentia inalcançável, tem contribuído para a morte do encantamento.

Se o que nos era distante se fez perto, mesmo que virtualmente perto, o fascínio da descoberta foi-se esvaindo na ilusão do conhecimento.

A falsa proximidade e o aparente saber como a perda do pudor no exibicionismo parvo.

Lembro-me do constrangimento em se venerar a própria imagem; do recato no orgulho das qualidades estéticas ou na admissão das virtudes pessoais.
Sei que em muitos casos a suposta modéstia se fazia por polidez. E, por isso, não a tenho de grande valor, mas não tenho dúvidas que o excessivo culto do corpo e da aparência, assim como a auto-promoção das qualidades e competências de cada um, em praça pública ou gritados aos sete ventos, num narcisismo assoberbado, têm a sua dose de responsabilidade no definhar do encantamento.

Temos vindo a perder o mistério da descoberta e a capacidade de deslumbramento quando a curiosidade nos vem sendo facilmente saciada. Quando perante uma breve interrogação alcançamos uma breve, mas imediata, resposta. Não que acredite que todas as respostas que nos chegam sejam verdadeiras, claro que não, mas a rapidez e ligeireza com que atingimos um estado de contentamento, mesmo que fugaz, fazem-me acreditar que o processo encantatório se tem perdido com a proximidade a uma qualquer e ilusória solução. A verdade é que nos sentimos cheios com bocadinhos de quase nada. Transbordamos horas a ver as montras dos outros e a assimilar aquilo de que não precisamos. Empilhamos informações que nos são dispensáveis ao mesmo tempo que desenvolvemos a montra para nos vendermos. 

Somos, hoje, seres de uma vaidade desmesurada que abrimos a porta da intimidade para nos promovermos; que saltamos as fases da dúvida e do esclarecimento, do erro e da correcção; que roubamos o vagar à procura do que somos realmente porque exigimos o fácil e descartável, porque não nos queremos demorar no processo, nem arranhar a imagem que, constantemente, esculpimos de nós.

Vejo uma sociedade frenética em busca de prazeres diminutos. Vejo a tolerância à frustração e a degustação da vida diminuírem a cada passo para o futuro. Vejo o ser inteiro dissolver-se na construção de um imaginário, permitindo às almas sentirem-se completas na venda de um produto que não é mais do que a idealização daquilo que gostariam de ser. Vejo a procura perder-se no imediato e na ostentação da imagem, em detrimento da essência das pessoas e das coisas.

Guardo a esperança de que nos cansemos de prazeres efémeros e de que larguemos a necessidade de nos vendermos, ressuscitando, assim, o encantamento.


sábado, 10 de setembro de 2016

Um olhar em silêncio que nos prende ao amor


Passam carros e gentes em corrupio. Hora de ponta na cidade e a quietude em nós.
O largo enche-se de vidas cruzadas apenas pelo espaço. Seguem trilhos, na ignorância de que o caminho é já definido. Vão. E vêm.
O silêncio ampara-nos no tempo perdido e prende-nos por dentro. Fechamos portas ao quotidiano e abrimos janelas ao pensamento. Enclausuramo-nos na solidão daqueles que, alheios ao mundo, vivem de sentir.

O som da rua grita em vão, enquanto o olhar se demora em quem amamos. Porque ao amor nada o rodeia. Não há carros, não há gentes, não há sons. Há o silêncio do olhar que diz mil palavras sem um ruído. E no entanto, toca-nos na pele e acelera-nos o coração...
Enche-nos os espaços que não temos para o mundo e diz-nos que vida é só isto, um olhar em silêncio que nos prende ao amor.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Vejam só o que encontrei!



Resumindo

  • Licenciatura em marketing (um profissional certificado);
  • Gosto pela área comercial (amor cego que se venda barato); 
  • De preferência, recém-licenciado (cabeça fresquinha e sem manhas);
  • Com vontade de aprender (que aceite, feliz, todas as "óptimas" condições de trabalho que lhe oferecem, porque os ensinamentos não têm preço);
  • Disponibilidade imediata (já a sair de casa e a arregaçar as mangas); 
  • Carta de condução (vai de carro e não seguro, como a Leonor descalça do Camões); 
  • Oito horas de trabalho por dia e não por noite (muito tempo luminoso para aprender, sem necessidade de acender velas).


Tudo isto, a troco de:

  • Um contrato a termo incerto (um trabalho p'rá vida);
  • 550€ / mês de salário negociável (uma fortuna que pode ser negociável, caso o candidato seja um ingrato);
  • Refeições incluídas (é melhor comer bem durante as horas de serviço, porque vai passar muita fominha a partir daquela hora do dia em que tiver de acender as velas);
Portanto, uma óptima oferta de emprego!
Eu cá já guardei nos favoritos para não perder esta preciosidade!



Este aqui, que recruta um engenheiro mecânico, deixo à vossa consideração, porque tem um perfil do candidato p'ró complicado e esta minha cabeça loira não tem capacidade para o avaliar.




E só mais este para uma ligeira comparação...


Onze anos de formação só custam mais 20€ /mês às duas entidades patronais lá de cima? A educação está barata e não se pode sobrevalorizá-la, não é? Vinte euritos chegam e sobram!
Depois de ver este anúncio, fiquei na dúvida se as "refeições incluídas", dos dois primeiros anúncios, são o valor das refeições ou se são "em género" como as deste último. 

Neste presente aqui em baixo, a entidade patronal é uma empresa de trabalho temporário que utiliza os serviços do Centro de Emprego para lhe seleccionar candidatos.
É impressão minha, ou há aqui alguma coisa estranha?

Ah, ok, a estranha sou eu!

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Strangers in the life

Já vos disse que os seres desta casa são estranhos?
Ups, está escrito a um "post" daqui, mesmo ali em baixo!

Este Verão, fomos de férias a nossa habitual semanita. Há anos que não temos mais de uma semana de férias. Para ser sincera, acho que nunca tivemos mais do que isso. Não, pensando bem, já tivemos sim, uma vez ou outra. Normalmente chega-nos esse tempo para desanuviar, mudar de ares e recarregar baterias e, nestas férias, seguimos o costume.

Este ano, fartos de andarmos agarrados a computadores e tecnologias, sedentos de ar livre e aventura, pegámos no carro e seguimos a sul, rumo somewhere. A única coisa que acordámos com antecedência foi ir para sul junto à costa. Metemos o filho, sacos com alguma roupa, tenda e sacos-cama na bagageira (não o filho não foi na bagageira, só as tralhas) e lá fomos por este país abaixo.

Deixámos os computadores arrumaditos em casa e usámos os telemóveis só quando estritamente necessário. E o estritamente necessário foi sossegar a minha mãe dizendo-lhe que estávamos vivos e dar um espiadela ao Facebook profissional e responder a mensagens de amigos e colaboradores.

Por cá, também nunca ligamos os GPSs dos telefones, que não temos outros e estes vêm encastrados nos bichos, por isso os silenciamos.
Ainda vivemos no tempo dos mapas das estradas. Lembram-se daqueles papelitos dobrados várias vezes com riscos que simulam as estradas do país e nos indicam direcções? Isso! Usámos isso! Eu como o co-piloto, de mapa em punho, e o pai do J. como piloto a seguir minhas instruções, o que me provocou uma sensação de poder incrível. (Vá, miúdo, é mentira, estou a brincar!)

Saímos de casa mais ou menos à hora do almoço e fomos parando onde nos apeteceu.
Seguíamos junto à costa e íamos dormir mais para o interior que é mais barato e tem menos gente.
(Para dizer a verdade, não chegámos a usar os sacos-cama nem a tenda. Para a próxima já não os levamos que só ocupam espaço).

Fomos a praias só ver o mar ou tomar uns banhitos, a castelos, a serras, a praias fluviais. Enfim, fomos por aí e ao sabor do acaso.

As dormidas eram decididas cerca de uma hora antes. Rondávamos a terra escolhida para pernoitar à procura de pensões ou residenciais, entrávamos e perguntávamos se tinham quarto para nós três. Por incrível que possa parecer, arranjámos quarto quase sempre no primeiro sítio em que entrámos. E mais, como chegávamos sem avisar, só tinham quartos duplos para os três, o que nos saiu bem mais baratinho.

Almoçávamos qualquer coisa amanhada nos supermercados e jantávamos nos restaurantes que nos cheiravam bem. Num dos dias, seguimos o cheiro a frango assado, noutro o cheiro a esplanada fresca e agradável.
Seguimos instintos e vontades, livres de compromissos, o que nos soube a ginjas.

Mantivemos as férias quase em segredo, já que para isso acontecer basta não publicar uma única foto no Facebook, nem gritar aos sete ventos "estamos aqui!"; "agora, vamos à casa-de-banho ali da praia X, ok?"; "estamos tão lindos e sensuais com o pezinho enterrado na areia, não estamos?"; "comemos sandocha de presunto ao almoço e um sushi cheio de glamour ao jantar, estão ver! Se estão, metam lá o like, se fazem favor!"

Em vez disso, inspirámos o ar das terras por onde passámos e falámos com as pessoas que se foram cruzando no nosso caminho. Só a rádio M80 não nos largou o caminho todo, já que era o único posto que se ouvia bem em todo lado. Nem tudo pode ser perfeito!

Quando voltámos, contámos a algumas pessoas as nossas férias e algumas mostraram-se muito admiradas por termos seguido sem rumo e sem agenda, por aí fora.
"Não viram os hotéis locais na Internet?"; "Não consultaram a aplicação xpto para saberem o tempo?"; "Não marcaram as estadias com antecedência?", ouvimos de algumas pessoas.

Sentimo-nos uns aliens. Como se viver sem Internet durante uma mísera semaninha fosse uma coisa do outro mundo...
Não é, garanto-vos! Não fizemos nada de especial, apenas vivemos um pouco a vida real. Aquela onde não precisamos de ecrãs para estarmos lá, lembram-se qual é?

Ok, somos estranhos!

Toiro "encrençado"

Hoje, gritei com o miúdo, coisa que não é hábito cá em casa.
O meu filho é touro de signo e, como um belo espécime do signo, às vezes "encrença". Fica a marrar nas traves e não sai dali até ficar com um belo galo na cabeça.

Já anda "encrençado" há algum tempo com uma questão lá da vida dele de pré-adolescente e, eu e o pai, temos tentado desviar-lhe a atenção das tábuas para coisas mais alegres, mas o miúdo é tramado e tem continuado a insistir em ficar ali a marrar, a marrar, como se não houvesse amanhã.

Hoje, passei-me e gritei-lhe até que abrisse os olhos. "Porra, pá, sai daí, não vês que só magoas a cabeça e não derrubas essa porcaria!", saiu-me. Abriu os olhos de espanto com a minha reacção e, finalmente, começou a pensar que aquela treta de marrar nas traves só dá dores de cabeça e não derruba nada.

De repente, pareceu que viu a luz. Começou a pensar, a pensar, a pensar tanto que quase se "encrençou" para um lado diferente: que realmente tinha sido um parvo em ficar a marrar na trave e que ia mudar aquilo tudo e que estava arrependido e blá blá blá.

Dei-lhe o segundo berro: "O que está feito, está feito. Não penses mais nisso. Agora, muda o que tens a mudar para te sentires melhor!"
Saiu-se com um "Estás zangada comigo? Desculpa-me!".
"Não estou nada zangada contigo. Tu é que deves estar zangado contigo, porque tens estado a tornar a tua vida mais difícil. Aproveita as coisas boas, concentra-te nelas e diverte-te. Devias era pedir desculpas a ti próprio, não a mim!", respondi-lhe.

Ele vira-se para um ele próprio invisível e diz "desculpa, J.!". Toma o lugar do ele próprio verdadeiro e responde "Estás desculpado!".

E rimo-nos todos.

Ele há toiros tramados! Fogo!

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O engano

O meu homem, enquanto estende a roupa (sim, cá em casa a roupa é cena dele. Somos estranhos, eu sei!), ouve música. Aliás, ele ouve sempre música, mas hoje, enquanto estava a ouvir música e a estender a roupa e eu a arrumar a loiça do almoço (sim, apesar do moço tratar da roupa, eu também faço umas coisitas cá por casa. Sim, eu sei, parece que somos mesmo estranhíssimos!), pôs os Pink Floyd a tocar.

Ao som dos Pink Floyd, comecei a pensar que hoje há pouca cultura que faça as pessoas pensarem como por exemplo os Pink Ployd faziam; que conteste os poderes; que ponha em causa as ditas verdades universais; que cause indignação e contestação.

Vivemos na sociedade do engano. Julgamos que temos liberdade, quando somos nós mesmos que restringimos a liberdade, calando-nos. Já não defendemos causas, mandamos umas bocas e ficamo-nos por aí. Os poderes estão instituídos e aceitamo-los, pura e simplesmente, sem um ai realmente sentido. Encolhemos os ombros e distraímo-nos com outras coisas para aliviar a leve pressão que nos possam fazer sentir.

A arte, a música, o teatro já serviram para abrir mentalidades, para iniciar revoluções, para mudar o mundo. Hoje, pouco sobrou destas artes. Vivem vendidas e presas aos poderes políticos e governamentais, às empresas. Vivem amarradas aos subsídiozinhos de subsistência e já não são valorizadas nem pelas instituições, nem pelos públicos adormecidos e alienados. Quem diz a arte, diz a comunicação social, diz os conjuntos de cidadãos, diz o cidadão comum.

Amarrámo-nos ao conforto. "Não vou dizer ao chefe que a cadeira onde me sento tem uma perna partida, porque senão ele pensa que estou descontente ou que não quero trabalhar"; "Não digo que me pagam um ordenado de merda, senão substituem-me por outro"; "Não concordo com o colega que reivindica um direito, senão associam-me a ele e penalizam-me"; e por aí fora até frases cretinas e mentirosas como "O trabalho é tudo para mim"e "Desde que tenha trabalho, estou bem".

E vive-se no engano. Um engano profundo e corrosivo. Vive-se a fingir, sempre a fingir.
E quando a arte e a cultura se calam o perigo aumenta. Já não há para onde ir. Erguem-se muros sobre a evolução, sobre os homens. Paredes enormes separam-nos da verdade, distanciam-nos do encontro com aquilo que sentimos.
E a escravatura impera. Vive-se escravo não só no trabalho como em casa, como nas relações pessoais. Não queremos chocar, não queremos ofender, nem que nos tomem por mal-agradecidos, vendemo-nos por inteiro à imagem que queremos que tenham de nós. Recebemos a esmola e fazemos uma vénia. Sempre. Porque no fundo vivemos de esmolas e a vénia é a porta aberta para a próxima.

E, no fim, frustrados, vamos para as redes sociais (ou para outros locais onde nos julgamos semi-anónimos) ofender tudo o que mexe, atirar-lhes as frustração que não conseguimos matar, porque as abafámos, silenciámos ao tilintar do dinheiro e da imagem.

A cultura torna-se urgente, a cultura do pensamento crítico, do raciocínio, das questões, não esta do folclore em que se diz o que se espera, em que se ecoam interesses e matam gentes. Não esta.


domingo, 4 de setembro de 2016

As calças

Não gosto de ir às compras. Detesto cada vez mais. Nenhumas compras. A única loja em que gosto de entrar é na de livros. Todas as outras dispenso.

Hoje, tive de ir ver roupa. Tenho roupa de que já não gosto e preciso de uma peça ou outra.
Costumo ir às compras a sítios baratos, com saldos, promoções, etc. Como já não dou grande importância ao que visto, não exijo grande qualidade, desde que goste, prefiro o barato. Como com quase a maior parte das coisas. Apenas os livros me impelem à compra, me tentam.

Não me entretenho a coleccionar bens materiais. Há outras coisas que me satisfazem. Não preciso de ter para sentir que sou. Preciso mais daquilo que não é comprável, o que acaba por ter um valor muito superior, sair mais caro, mas ficar para sempre. Sou, assim, um bocado esquisita e difícil de contentar.

Mas hoje, teve de ser. Mau dia, já que ao sábado, depois do fim do mês, há imensa gente a gastar o ordenado nas lojas por aí. E, especialmente, nas baratas.

Foi um tormento. Não só porque não gosto de lojas, mas também por com quem me cruzei na digressão consumista. Gente mal educada, muito mal educada, que nos atropela para chegar mais rápido à camisolinha barata; que não se desvia um milímetro porque está a ver determinada peça de roupa; que quase nos tira as coisas das mãos; que atira com desprezo para o monte uma peça que desdobrou para ver; que não diz "boa tarde" aos funcionários, nem obrigado quando lhe seguramos a porta para passar.
Para já não falar nas casas-de-banho imundas com xixi à volta das sanitas e nas tampas onde é suposto nos sentarmos.

Foi tão difícil a proximidade a estes humanoides que apenas comprei umas calças, afirmando a mim mesma dezenas de vezes que a roupa que tenho me chega e sobra.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Adolescência e liberdade

Os casos de adolescentes que se agridem têm inundado a comunicação social. Ora os irmãos, filhos de um embaixador, que espancaram um rapaz de 15 anos; ora o rapaz de 16 anos que espancou outro de 14 até à morte.
Para a comunicação social, estes casos são "doces". Geram polémica, opiniões controversas, ódios e amores e duram, duram, gerando imensos artigos com informações e contra-informações.

O primeiro caso, conhecido por "caso dos irmãos iraquianos" pode ter "origens xenófobas", diz-se por aí. A verdade é que se não teve "origens xenófobas" pode vir a ter "fins xenófobos". O facto de se sublinhar que os gémeos são iraquianos na divulgação das notícias sobre este caso está a abrir caminho para potenciar ódios de cariz xenófobo. A opinião pública revolta-se contra os agressores, que não tendo desculpa pelas agressões, seja qual for a origem destas, relacionam-nos com a sua nacionalidade. "Ah e tal, são iraquianos!"; "Essa gente, desses países estranhos como o Iraque...".
Se não havia a tal xenofobia à partida, haverá, com certeza, na análise popular da situação.
Parece-me que estampar-se a nacionalidade nos agressores não será a forma mais correcta de se falar sobre o caso. Claro que é uma informação importante, ainda mais por se tratarem de filhos de um embaixador e da questão da imunidade diplomática, mas não é a principal e, por isso, não devia estar no título de praticamente todas as notícias sobre este assunto e, muito menos, este passar a ser conhecido como o "caso dos irmãos iraquianos". Parece-me impróprio e potenciador de racismos especialmente perigosos, devido aos visados serem miúdos.

Não tenho conhecimento do caso a fundo, como ninguém deve ter neste momento, excepto agressores e agredido, por isso não sei se estas posições serão assim tão estáticas quanto aparentam: se os agressores não terão sido também agredidos e se o agredido não terá sido também agressor. Não sei. E não quero com isto desculpar os irmãos pela brutal agressão ao miúdo de 15 anos! Não têm desculpa! Mas pode haver uma explicação melhor do que realmente aconteceu e, penso, que é essa que se deve procurar, não só para se poder perceber este caso, como também para se tentar descortinar o que se passa com esta adolescência que se agride tão violentamente.

E aqui surge o segundo caso, o do miúdo de 16 anos que espancou o de 14 até à morte com uma soqueira.
Parece-me estranho eu não ter conseguido encontrar uma única referência à nacionalidade do agressor neste segundo caso... Será o rapaz "anacionalizado" (sei que a palavra não existe, mas gosto dela, ok?)? Ou será português e, por isso, "isso não interessa nada", porque somos sempre os "máiores"?
Pois... lá está mais uma vez: Não sei! Apenas coloco questões.

Na verdade, o que realmente me importa é debruçar-me sobre a violência entre jovens e, como mãe de um pré-adolescente, importa-me preveni-la, porque não estamos sempre com os nossos filhos para os proteger e, mesmo se estivéssemos, não os poderíamos estar sempre a proteger, por mais que nos apetecesse.

Como dizia José Saramago "filho é um ser que nos emprestam para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos", e eu acrescento, "amor tão grande que nos transcende a todos os níveis".

Tenho acreditado, nesta travessia de 12 anos de maternidade, e até hoje ainda nada veio contrariar a teoria (o que não quer dizer que isso não venha a acontecer no futuro, que isto da maternidade /paternidade é coisa volúvel) que é por dentro que se estruturam as pessoas.
Arranjar ferramentas de auto-protecção e prevenção de situações deste tipo, talvez seja a melhor forma de ajudarmos os nossos filhos a "construírem-se" e a perceberem o que significa "voar sozinho pelo mundo".
Princípios como o da não-agressão gratuita; o do respeito pelos outros; o da não-discriminação; o do não-julgamento precipitado, talvez sejam de levar em conta quando tentamos esta "estruturação por dentro" das pessoínha que geramos. E digo "talvez" de propósito, por causa da tal volubilidade da maternidade /paternidade...
Indicações preventivas como não falar com estranhos; estar acompanhado em situações de risco potencial; informar os familiares onde se vai; etc., etc., também me parecem importantes. Sem alarmismos, dar um plano geral de como o mundo funciona pode preparar os miúdos para situações em que precisem de se defender e, também, para situações em que precisem de evitar agredir os outros. Porque os nossos filhos não são imunes ao erro, às acções mal pensadas, aos maus sentimentos. Os nossos filhos não são perfeitos, assim como não são os dos outros.

Nunca fui apologista da vigilância às escondidas dos filhos. Tal como dos namorados, amigos, etc... Vasculhar bolsos, ler mensagens de telemóvel, ou invadir a privacidade dos outros de qualquer outra forma não é coisa que me agrade ou que use com os meus próximos.
Acredito em relações baseadas na confiança mútua. Acho que só assim podem ser verdadeiras relações.
Se não confiamos em quem amamos, perdemo-nos em dúvidas, incertezas, desconfianças. Perdemo-nos e acabamos por perder quem amamos.
Prefiro correr o risco de ser enganada do que viver assombrada com uma desconfiança permanente. Prefiro que me desiludam ao enganarem-me do que me desiludir comigo própria e viver em ansiedade constante. Por isso, se tenho dúvidas, pergunto directamente, assim como digo directamente o que me perturba.

E na relação com o meu filho, faço questão que ele saiba que estou atenta, não para o controlar (que não acredito nisso do controle) mas para o ajudar a aprender a viver solto. Porque, acima de tudo, o quero soltar para o mundo e para ele próprio; porque, acima de tudo, quero que ele experimente a liberdade, de preferência, consciente do que é isso de se ser livre.

É claro que a volubilidade da maternidade pode dizer-me, daqui a uns anos, que isto está tudo errado, mas enquanto não diz, vou acreditando que o caminho é por aqui e seguindo em frente.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Fragilidades

Há séculos que luto contra a ideia de se esconderem as fragilidades. Parece-me completamente surreal o ser-humano não ser capaz de aceitar as próprias lacunas ou as dos outros.

Vivermos num mundo plástico em que só os ditos "vencedores" são considerados incomoda-me. Vencer, ser bem-sucedido em todas as áreas da vida, não existe. Temos falhas, tantas falhas que às vezes estas são mais do que os sucessos. Muito mais.

Qual é o problema de sermos frágeis? Somos humanos, porra! Não há gente perfeita. Felizmente.
Ser frágil significa que se que sente alguma coisa. Magoamo-nos, incomodamo-nos, sentimos. É bom termos a capacidade de sentir.

A capa que alguns põem de vida perfeita é falsa e só mesmo uma capa. Para quê? Se é com as próprias fragilidades que mais aprendemos... Com os erros, com os constrangimentos, com aquele assunto que nos põe à prova.

A vida engomadinha, bonitinha, arranjadinha, perfeita, é um embuste. Para os outros e, especialmente, para os próprios.
Podíamos ser todos tão melhores se soubéssemos aceitar a fraqueza alheia e pudéssemos verbalizar a nossa em voz alta sem que nos considerassem menores.

Se pudéssemos falar sobre aquilo que nos deixa débeis, mais facilmente nos tornaríamos capazes de aprender a força e a auto-superação. Porque elas vêm daí: das contingências, das contrariedades, do sofrimento.
Não vêm dos sucessos.
Os sucessos não contribuem em nada para a força ou para o equilíbrio da nossa existência. Vêm depois e nunca antes.  São alegrias que se conquistam. São momentos. Não são a máscara que se veste quando se sai à rua.

Quem sempre foi bem-sucedido, à primeira fraqueza, cai. E cai porque não tem o suporte das quedas anteriores, o apoio da experiência da queda. Caímos para nos levantarmos logo a seguir. Caímos para tapar aquele buraco e não voltarmos a cair nele de novo.
Devíamos ter orgulho, e não vergonha, das nossas quedas. São elas que nos constroem, que edificam as nossas competências e a nossa essência.

Esconder aquilo que nos torna vulneráveis é viver na mentira de nós próprios; é inventar o mar quando se vive o deserto e deixar de procurar água; é gastar o tempo que nos resta a fingir que somos outros e prescindir de nos fortalecermos e de nos tornarmos mais humanos. É desistir de nos tornarmos mais nós.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A loucura da lucidez


Hoje, reli um texto que a minha mãe escreveu sobre a sua experiência enquanto doente oncológica.
Reler os acontecimentos e vê-los assim, em catadupa, entrega-nos a um passado que julgávamos quase arrumado. Não que ele não nos tivesse ficado marcado, mas que o tivéssemos escondido por debaixo de recordações boas, como que a camuflá-lo.

A história da minha mãe está enrolada na minha. Eu fui a primeira a experimentar esta coisa do cancro. Um linfoma de Hodgkin alojou-se-me no pescoço, escondido num gânglio. Fez dez anos em Abril. Dez, porra! Sobrevivi dez anos depois daquela porcaria me ter tentado estrangular. Estrangular pois... que morreria pelo pescoço.

Depois de mim, a minha mãe. Com aquela porcaria na ponta do pulmão direito. Sorte ser o direito que tinha mais por onde cortar, que o esquerdo tem de deixar espaço para o coração. E que coração, o da minha mãe que até inchou durante os tratamentos!

Na recuperação dela, o acidente. Onde ela, a minha avó e o meu filho levaram com outro carro em cima. O meu filho a vomitar os morangos do almoço no infantário, a minha mãe com um novo pneumotórax e a minha avó aflita das pernas.

Quinze dias de miúdo à beira da morte. Seis anos acabados de fazer e o oxigénio a diminuir no aparelho de medição. Quinze dias sem comer, traumatismo abdominal com lesões no fígado e pâncreas. E o pâncreas a jorrar líquido e a parar os intestinos. Dos piores dias da minha vida, senão mesmo os piores.

A minha mãe noutro hospital e o pai do meu filho no estrangeiro...
Se não fosse o meu pai aparecer no hospital e as amigas da minha mãe a segurar as minhas pontas que se desfiavam, desfazer-me-ia ali.

À noite, na cadeira azul das mães dos meninos doentes do hospital, o medo encrostava-se-me nos ossos. A febre do miúdo a subir, a tosse, as dores... Tudo isso eram facadas no meu peito. Esvaía-me por ali. O meu corpo deixou de se fazer sentir. Não sei como, mas silenciei o cansaço e andei aqueles dias tipo zumbi. Só a dor dele era a minha. Só essa se fazia realmente sentir.

Lá fora, no cigarro da pausa que me permitia ver a luz do sol, sentada no chão e encostada à parede fresca do edifício a dor cravava-me tão fundo que saía em forma das lágrimas que não podiam sair à frente do miúdo e me molhavam a camisola como se tivesse acabado de lavar a cara.
O vazio escavava-me um buraco no peito que crescia à medida que a dor se ocupava de me tomar o corpo por inteiro.
Acabava-se o cigarro e a dor silenciava-se no caminho até ao quarto do hospital. Mantinha-se quietinha até um novo cigarro me ser permitido lá fora. Os cigarros alimentaram-me durante estes quinze dias de hospital. A comida não entrava em mim se o meu filho não podia também ingeri-la. Era como um pacto de fome que o meu corpo de mãe tinha feito com o corpo do meu filho. Quando ele se pudesse alimentar, o meu corpo também se iria permitir a esse luxo.

O meu filho voltou a comer e reaprendeu a andar no dia em que saiu do hospital. Parecia um bebé a degustar a comida. E a andar com o reflexo da marcha, tal elevava os joelhos e palmilhava o chão.

A minha mãe safou-se sem que eu pudesse estar ali a acompanhá-la naquela aflição. Mas o sacana do cancro voltou a atacá-la. Desta vez no cólon e quase, quase a levá-la.
No dia em que foi operada pela segunda vez, e de urgência, ao intestino, pensei que ia morrer. Ela e eu. Julguei que, pronto, era daquela que vez que o buraco que o meu filho doente tinha escavado no meu peito atirava tudo cá para fora e tomava posse de mim por inteiro. Quase me vomitei de dor. Parecia que todas as aflições acumuladas queriam sair-me à força pela boca.
A minha mãe sofreu a rodos,  num processo que durou uns bons anos.
Desde 2006 que andamos nisto. Digo andamos, porque eu comecei e ela continuou. Continuamos, porque esta espada sobre as nossas cabeças continua por cá, pendente.

Estranho não nos apercebermos da imensidão de sofrimento quando o vivemos.
É como se o instinto de sobrevivência se lhe sobrepusesse. Naquele momento, temos que ultrapassar aquilo e só depois, às vezes anos volvidos, vem o entendimento, a percepção que estivemos no limiar da loucura e que, incrivelmente, permanecemos lúcidos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Das vestimentas e da hipocrisia

Imagem DAQUI
Parece que esta imagem gerou muita conversa por aí...

"Ai que é uma desgraça as egípcias andarem vestidas daquela maneira!"; "ai os direitos das mulheres estão desrespeitados!"; "ai que isto é um insulto à condição feminina!" e por aí fora.
Pelo que uma das jogadoras egípcias disse AQUI não me parece que ela esteja muito chateada por se vestir com aquela roupa toda, antes pelo contrário.

Como já disse neste blogue, sou contra as religiões, não gosto, acho que não deviam existir. Mas como também sou a favor da liberdade, acho que cada um tem o direito de acreditar naquilo que quiser e de se vestir de acordo com aquilo que quiser.
Ainda sou mais contra as religiões misturadas com os governos dos países. Acho que nunca se podem misturar, porque comprometem a liberdade de todos os que não têm religião. E não ter religião é um direito igual ao de ter.

No fundo, o que me perturba mais aqui não é a roupa das moças. De nenhuma delas. No fundo, no fundo, estou-me marimbando para a roupa que cada pessoa veste, seja qual for a situação em que se encontre. 
(Se chegaram aqui a pensar que iam encontrar um fashion blog, podem dar meia volta que não há nada disso neste canto!).

O que me perturba, como é costume, é a hipocrisia de quem vem de arma em punho defender quem não quer ser defendido, ou quem não pediu ajuda; é a hipocrisia de quem acha o hijab uma coisa muito estranha e acha normal as beatas não entrarem nas igrejas de mangas de cava, mini-saia e sem véu na cabeça. Ou os bancários serem obrigados a vestir fato e gravata, ou as mulheres que vestem uma roupa mais provocante serem consideradas putas, ou descaradas ou de má vida, ou as pessoas tatuadas serem consideradas de má índole ou de pouca confiança, ou os gordos serem visto como sujos e repelentes.

Isso sim, provoca-me náuseas. Porque quem defende a não-discriminação, deve ser o primeiro a não discriminar.
É como ver homossexuais a criticar a forma de vestir deste ou daquele e a chamarem-lhes nomes; ver negros a dizer que uns são mais pretos do que outros e que, por isso, têm menos direitos; ver defensores dos animais a dizer que esta ou aquela pessoa merece morrer por não vestir fatinhos ao cão. 
Verdade, já vi cenas tristes destas! Já ouvi barbaridades desta espécie! 

Porra, mas que raio de não-discriminação é que defendem? A própria e unicamente a própria? Isso é ser igual aos que discriminam. Iguaizinhos!

Salvaguardar o coiro e estar a lixar-se para os outros não é fixe! Não é "p'rá frentex"! É antiquado e retrógrado.

Deixem os outros em paz e aceitem-nos. Só. Abram-se ao mundo e deixem-no entrar.
Esqueçam a merda dos rótulos. Ser cigano não é ser ladrão, ser preto não é ser escravo, ser homossexual não é ser anormal, ser muçulmano não é ser terrorista, ser mulher provocante não é ser prostituta, ser prostituta não é ser má pessoa, ser engravatado não é ser de confiança, ser gordo não é ser nojento, ser "amigo dos animais" não é ser bondoso...

Ser pessoa é ser pessoa. Em todo o lado, seja qual for a raça, religião ou vestimenta. Umas boas, outras más. Abram os olhos e vejam quem têm à frente, de uma vez por todas! E, por favor, deixem-se de hipocrisias!

*Desculpem o palavreado, mas este post estava a pedi-lo!

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Harry Potter style

Enquanto fui buscar os meus óculos novos (que os antigos já estavam a cair de podres), o miúdo foi à bateria (instrumento, não a do telemóvel ou coisa que a valha) para fugir às compras que eu iria fazer a seguir.

Após as compras, quando o fui buscar, perguntei-lhe:

- Então, como correu a bateria?
- Bem. E a ti como correram as aulas de magia? Aprendeste novos feitiços?

Imagem DAQUI

domingo, 31 de julho de 2016

O humor corrosivo é genético

Enquanto arrumava a loiça na máquina, o pequeno corrosivo cá de casa diz-me:
- Mãe, sabes, aconteceu uma coisa ainda pior do que a morte do Mário Moniz Pereira?!
- Então?
- O Benfica perdeu!
- E isso é pior do que a morte do senhor?
- Claro que sim. Imagina só a quantidade de mulheres que neste momento está a sofrer violência doméstica!
Ui!