terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Fumar um cigarro à janela das lembranças

Tenho mortos que não morrem. Ficam para sempre comigo. Vou visitá-los às memórias, como quem vai à gaveta das recordações. Quando tenho saudades, abro a janela das lembranças e visito-os dentro da minha cabeça.

Os meus mortos não me são necessariamente próximos. Alguns nunca mais vi. Seguiram vidas longe e perdi-lhes o rasto até saber que morreram. Mas sabia-os lá, em qualquer sítio, e isso chegava-me. Depois morreram e começaram a fazer-me muita falta. O lugar que lhes tinha destinado dentro de mim teve de mudar repentinamente. Da lembrança suave e sossegada passei-os para um quarto de memórias cheio de vazios. Cheio de vazios... Custa-me mantê-los aqui, porque o espaço se torna demasiado grande e as recordações repletas de histórias e vida passam a ficar cheias de vazios. Há bocados que lhes faltam, porque há pessoas a menos. 
Tento constantemente ocupar os espaços em branco com os meus mortos, construindo segmentos das suas vidas em mim, numa tentativa vã de os ressuscitar. Claro que não os ressuscito, porque continuam mortos, mas há vida deles que perdura dentro de mim. E assim imortalizo-os. Ou assim creio que o faço... 

Há tempos descobri que uma senhora para quem trabalhei quando estive na Bélgica morrera. Fiquei muito triste. Continuo muito triste. Ela não era das pessoas a quem é consentida a morte. (Apesar de ser normal, mais cedo ou mais tarde, a senhora morrer, visto eu ter lá estado há uns 15 anos e a ela ter perto dos 60 anos nessa altura). Mas não a consigo matar dentro de mim... Continua tão viva como quando lá estive. Renasceu até... Desperto-a quase todos os dias e sinto-lhe a falta como se me tivesse deixado há pouco tempo.

Ainda lhe consigo ver os movimentos: ela bebia imenso chá preto e vinha fumar às escondidas do marido para o pé de mim. Tínhamos uma cumplicidade engraçada, já que era o tabaco que mais nos unia. Éramos cúmplices no fumo e nos cigarros e isso fez nascer uma amizade. Comprava pacotes de dez maços de tabaco e trazia-mos. Também gostava imenso de flores e ia buscá-las a uma feira na Holanda, que era mesmo ali ao lado. 
Um dia tentei ir de bicicleta sozinha à Holanda, mas desisti a meio. Fartei-me de pedalar, sem nunca mais lá chegar, cansei-me. Voltei para trás a meio do percurso. Penso que foi a meio... nunca tive a certeza, pois nunca cheguei a arriscar a meter-me ao caminho de novo.

Lembro-me bem dos cavalos da senhora e da estufa com a plantação de tomates que eu regava ao mesmo tempo que comia os tomates. Eram bons os tomates daquela estufa. Já naquele tempo, a senhora gabava-se de os seus tomates não terem produtos químicos... (Ainda os portugueses andavam a aprender o significado de agricultura biológica, já os belgas a praticavam religiosamente).
Havia um cavalo Andaluz que mordia se não lhe enfiássemos cenouras goela abaixo enquanto o levávamos do paddock para boxe e vice-versa. Ainda tentei ensiná-lo a não morder, mas acabei por desistir. Ia ser um longa guerra com ele e não iria durar, já que toda a gente preferia dar-lhe as cenouras. Também eu continuei a enfiar-lhe as cenouras goela abaixo durante o percurso. Tinha de ser rápida e não parar de lhe encher a boca ou ele acabava por me comer os dedos.

A senhora era gira: loira, magra e muito bronzeada. Bronzeada demais talvez... Tinha umas mãos que pareciam uns troncos. Nunca vi mãos como as dela. Os dedos eram grossos como os de um homem, secos e fortes. Ensinou-me a fazer a trança corrida nas crinas dos cavalos com aqueles troncos enormes... Enrolava as crinas entre os dedos e passava-as de um lado para outro com uma agilidade espantosa para uns dedos tão grossos. Segurava o cigarro entre os dentes e explicava, no seu inglês afrancesado, pelo canto da boca livre como se fazia a trança. Era incrível como ela fazia tudo de cigarro entre os dentes! Não parava para fumar como eu que gostava de saborear o cigarro sem distracções. Ela corria de um lado para o outro como se o dia não lhe chegasse para tudo. E fumava sempre que o marido virava costas, e fumava cigarro atrás de cigarro, antes que ele voltasse.
Tenho saudades de fumar um cigarro com ela... 

Pena os mortos e eu termos deixado de fumar, ou iríamos, as duas, fumar um cigarro à janela das lembranças... Enquanto ela corria de um lado para o outro, eu iria sentar-me no parapeito da janela e, ali, poríamos a conversa em dia.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Hoje, véspera de Natal, penso...

Hoje, véspera de Natal, não penso no David Duarte que, com apenas 29 anos, morreu num hospital sem a assistência médica devida por conta das poupanças de um Ministério da Saúde doente. 
Não penso nele, porque sei que deve ter imensa gente que o ama e que não o vai esquecer neste dia, nem nos próximos.
Penso antes em quem comandou esse ministério durante anos e o tornou no que é hoje, um ministério doente. Penso nesse ministro que deve passar a consoada em família, com uma mesa farta em bacalhau, peru e doçaria tradicional, mas sem um pingo de amor ao próximo. Penso na consciência desse homem que, cada vez que der uma dentada num sonho, se poderá lembrar que os sonhos do David já não se irão realizar por sua culpa; que o David já não tem mais sonhos porque ele, ministro da saúde, decidiu gerir a saúde como quem gere uma empresa, sem pensar que o negócio aqui é a vida das pessoas, e não acções ou títulos bancários. 
Foi a vida do David, tal como a de tantos outros doentes, que andou nas mãos deste carniceiro a quem chamam gestor. 
Que consciência permanecerá intacta a tanta morte? Como dormirá este homem que acabou com a vida de tanta gente? 
Penso nele, porque, provavelmente, poucos serão os que o têm no coração e se lembrarão dele hoje...

Hoje, véspera de Natal, e porque é véspera de Natal, tenho pena desta gente... Tenho pena de quem tem pedra no peito. E tenho pena que pessoas assim não vão ter no Natal mais do que uma mesa cheia de comida e uma árvore cheia de presentes...

Hoje, porque é véspera de Natal, tenho pena que haja gente como esta sem mais nada para além daquilo que o dinheiro é capaz de comprar...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Porra!

A conversa vem, assim, a propósito de nada. Saem-nos palavras que dirigimos um ao outro. Gosto de falar com ele...
Conversamos sobre tudo. Ou sobre nada. 
Malucamos. Sinto-me rejuvenescer cada vez que maluco com ele. Brincamos parvoíces. Ele diz um disparate e eu digo outro. Para ser sincera, eu digo mais disparates do que ele. 
Às vezes, quer-me parar. 
- Mãe, pára com isso!
E eu não paro. E ele rir-se e acrescenta parvoíces ao que digo. 
Tem um humor acutilante. Sai ao pai. Como gosto de ver nele aquilo que me encanta no pai. "Que bom ter herdado esta parte", penso. E é inteligente nas piadas. Porra, como é inteligente nas piadas! E não é só nas piadas. Porra, como é inteligente em tudo! E desce-me um arrepio na espinha. Porra, como o acho tão perfeito! E sei que não é, mas sinto-o perfeito na mesma. E o arrepio trepa-me a espinha. Morro de medo que lhe aconteça alguma coisa. Morro de medo. 
E acho que a perfeição não existe, mas está nele. Morro de medo que ele fuja. Como um truque de magia, se desvaneça. Ou que não exista também, a par com a perfeição.
E um amor maior quase me sufoca. Porra, como amo este miúdo! Porra, como é perfeito este amor! 
O humor dele escarafuncha. Pena haver quem não o entenda... Pena haver quem não tenha humor. Nem amor... Deve ser tão triste não conseguirmos rir dos outros nem de nós...  Deve ser tão triste não sentirmos um amor assim, perfeito.
Deve ser tão triste... Porra!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Instantes de nós

Nos dias que passam sem que nos apercebamos, fica na quietude dos momentos bocados de nós. Deixamos para trás pedaços do que fomos a cada instante que teimamos viver com afinco. Como se em páginas de livros deixássemos escrito aquilo que não somos porque nos transformámos noutros. Cada segundo, cada milésimo de segundo, fomos e não voltaremos a ser.
Se há quem nos entre vida adentro e nos construa com a sua presença, há também quem se vá e leve consigo a história da gente.