sexta-feira, 29 de maio de 2015

E A Neve Fechou Os Olhinhos...

- Estás cada vez mais bonita. - disse-me em voz trémula aquele pedaço do que um dia foi a minha tia-avó.
Mirrada pela fragilidade que a vem atacando faz tempo, reduzida a uma cama com colchão anti-escaras, olhei-a numa tentativa de a ver como dantes. Tenho por hábito tentar não ver a decadência nas pessoas de quem gosto. Fi-lo com o meu avô; fi-lo com a minha mãe quando esteve um farrapo atacado pelos cancros; fi-lo com o meu filho quando confinado àquela cama de Santa Maria e fi-lo agora com a "tuzinha". 

- Estás cada vez mais bonita.

E um punhado de ossos dentro de uma camisa de noite. E a vontade de lhes tocar e senti-la inteira. Sou pouco dada a tocar nas pessoas, mas às vezes apetece-me chegar-lhes. 
Arranjo-lhe o cabelo com a desculpa de que está desalinhado.

- Realmente o dinheiro faz milagres... Tratam-nos diferente quando pagamos... 

Vem-me à cabeça a falta que lhe faz um pirilampo mágico na cabeceira da cama. Como o que o meu filho teve no hospital. O deste ano é rosa. Vamos comprar-lhe um para a curar das doenças e depois juntar à colecção que guarda no armário do escritório. Amanhã, já o compramos.

- No hospital só faltou baterem-me...

Entram e saem pessoas da sala e nós ficamos. Ela presa à cama e eu presa à memória dela. 

- E a neve fechou os olhinhos...

- A neve não tem olhos!

- Chop, chop, chop, faz o cãozinho...

Cheira-me ao teu café da manhã. Cheira-me muitas vezes ao teu café da manhã, tiazinha.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Da Homofobia Que Não Há

Num destes dias, enquanto ouvíamos Adriana Calcanhotto, contei ao pai do J. que a mulher da Adriana tinha morrido de cancro da mama havia pouco tempo. O J., que me ouviu, perguntou:
- Mulher? A Adriana Calcanhotto era casada com uma mulher?
- Casada casada, não sei, mas eram namoradas há muitos anos. Para lá de uns vinte anos...
- Vinte anos são muitos anos, mãe.
- Se são, J.

Ontem, ouvíamos de novo Adriana Calcanhotto e o J. diz-me:
- A Adriana deve estar tão triste... Não deve, mãe?
Eu, desatenta, pergunto:
- Hã? Triste? Porquê?
- Por causa da mulher dela que morreu. Elas já estavam juntas há tanto tempo...
- É verdade, J., deve estar mesmo triste.

A Criança da Noite

Gostava de saber porque funciono muito melhor durante a noite do que durante o dia. Passo o dia feita zumbie e à noite estou pronta para as curvas. Como fico acordada até tarde, no dia seguinte ando, outra vez, feita zumbie e à noite, de novo, eléctrica. 
DAQUI
Não me venham dizer que acordar cedo vira a rotina ao contrário, porque já tentei e não resultou, apenas me custou um pouco a fase do anoitecer, passada a barreira da meia-noite, fiquei pronta para trabalhar all night long.
Ainda por cima gosto mesmo de trabalhar à noite, estou muito mais inspirada e a criatividade acompanha-me a insónia.
O problema é que todo o mundo dorme e quando se levanta vou-me eu deitar. 

Ó Crato, não dá para arranjar umas escolas nocturnas para os filhos das noctívagas?



quarta-feira, 20 de maio de 2015

Qual é o Tamanho Do Desgosto?

É enorme. Deve ser enorme. Não quero nem imaginar. Mas o amor não acaba. O amor pelos filhos não se esgota na desilusão ou no desgosto. Nem que os filhos se nos mostrem monstros. Amamos os monstros. Para sempre.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O Meu Homem É Um Romântico!

Num rasgo de Dj, o meu homem operando o difícil sistema do Youtube apenas com um dedo no botão esquerdo do rato, diz, levantando a mão no ar e apontado para mim:
- E agora, esta música é dedicada à Sophie!
Carrega no play e ouve-se sair das colunas do computador:
- Não deixe o mau-hálito afectar a sua boca e o seu corpo...

A sorte dele foi que a seguir ao anúncio deu esta música que sossegou os meus instintos assassinos.
Haja amor!


quarta-feira, 13 de maio de 2015

#6 Excertos De Uma Coisa Qualquer: Cazé - El Matador

O jantar estava prestes a acabar. A sala cheia de clientes engravatados que intercalavam o manejo silencioso dos talheres com risadas efusivas.
No fundo da sala, mesmo no cantinho, eles dois sentados um em frente ao outro. O ambiente entre eles tinha chegado àquele ponto em que a ausência de palavras incomodava mais do que uma enxurrada delas sem sentido.
Como que para quebrar o constrangimento do momento e enquanto penteava, com os dedos milimetricamente afastados, o cabelo grisalho reflectido na janela atrás dela, Cazé perguntou numa voz dengosa:
- Já escolheste a sobremesa, querida?
- Quero uma mousse de chocolate - respondeu ela olhando os anéis que lhe adornavam os dedos e pensando se ali não caberia mais um.
- Muito bem! - rematou Cazé.
Pediu a mousse e um café ao empregado, olhou-a nos olhos e voltou a pousar a mão sobre a dela. De vez em quando, mexia o indicador e o polegar em jeito de festa. O movimento dos dedos era acompanhado por uma espreitadela ao vidro da janela, onde confirmava se a expressão do seu olhar coincidia com a intensidade das suas acções e palavras.
Ela contemplava-o como a uma obra de arte. Tinha de usar a imaginação para ver o que Cazé fingia esconder debaixo da roupa, mas que trabalhava arduamente todos os dias no ginásio. 
Ele adorava o efeito que tinha sobre mulheres como ela. Sentia-se poderoso sempre que o olhavam daquela maneira; sempre que o ouviam contar detalhadamente as tarefas do dia; sempre que o deixavam notar a ânsia por um novo convite para sair. Nestes momentos, Cazé era rei e a sua presença fazia vibrar o mundo. Ó se fazia!
Acabado o café, tirou o pacote de pastilhas do bolso da camisa. Com um movimento rápido e certeiro atirou uma pastilha para dentro da boca e disse de si para si, enquanto a mascava cheio de vitalidade:

- Cazé, é hoje. Podes ter a certeza que não passa de hoje!

terça-feira, 12 de maio de 2015

O Bullying das Orelhas

O rapaz está traumatizado, não vai à escola, porque lhe gozaram com as orelhas na televisão. Ok, foi mau, mas o programa é péssimo, sempre gozou com as pessoas. Ou porque não cantam bem, ou porque têm voz esganiçada, ou porque lhes apetece. O programa serve para isso, senão não passavam as imagens das audições e faziam-nas antes do programa vir para o ar e usavam-nas como forma de triagem dos concorrentes, não os ridicularizando em público.
O programa é mau, é insuportável, e vive de gozar com as pessoas, alimentando-se do escárnio aos concorrentes que já sabem de antemão que, ou são escolhidos, ou são gozados, ou são escolhidos e gozados e, às vezes, desrespeitados e muito mal-tratados.

A culpa do miúdo ter ficado traumatizado é do programa? É, porque é uma merda.
A culpa do miúdo ter ficado traumatizado é dos pais do miúdo? É, porque o deixaram concorrer a um programa de merda.

O que me admira é que só agora, depois de gozarem com as orelhas de um puto, perceberem que o programa não presta. 

Vá lá, antes tarde que nunca.

DAQUI

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Gente dos Lenços

David Cameron a falar na, pouco usual nos hospitais, Sic Notícias. Sentada por baixo da televisão, uma cabeça coberta com um lenço rosa desbotado. O filho ao lado, já adulto, com o dedo a trabalhar no telemóvel. O lenço está atado para o lado do filho. Cai-lhe o resto sobre o ombro a fazer de rabo-de-cavalo de um cabelo que já não tem. 
De vez em quando, olha-me que estou de frente para o David e para ela. Muitos anos de vida e agora isto. Sem cabelo e com um bicho qualquer a comer-lhe as vísceras. Ouve o Cameron sem atenção. Afinal, nem sabe quem ele é. Se estivesse de frente talvez lhe reconhecesse a cara. Agora assim... 
Os pensamentos falam-lhe mais alto do que o primeiro-ministro britânico que está lá no alto sobre a sua cabeça e para quem poucos olham. Como irá correr o exame? E a cozinha deixada por arrumar... Saída à pressa de casa para esta espera... Que sentença lhe estará reservada?
Observa os pés para, de seguida, cruzar o olhar no meu. Há uma compreensão silenciosa nos nossos olhos. Aqui, sempre falámos assim, com os olhos. Na linguagem do IPO não há palavras, apenas olhares.
Entra um homem sem boca. Em lugar dela uma cavidade. Tenta escondê-la com o lenço de papel branco. Todos sabemos que já não está lá, mas fingimos não reparar. Olhamo-lo com cumplicidade apenas nos olhos que vão perdendo o brilho, evitando a cavidade que já foi boca. 
Todos conhecemos aquele brilho que se esvai. Temos olhos que passaram pelo mesmo. Alguns de nós já não se lembram como brilhavam. Já cá andam há muito tempo. É bom sinal. É sinal de que não ficámos pelo caminho. 
Não, nem todos conhecemos o brilho que se ausenta... Os que nunca estiveram doentes disto não falam esta língua, apenas decifram algumas dores através de nós que usamos, ou usámos, lenços. Os olhos deles ainda têm o brilho que se nos foi. São analfabetos nos olhos e de lenços a tapar-lhes a dor.
Sai o lenço rosa agarrado ao filho. Sai trôpego para mais um exame, mas lá vai.
Há um casal que entra com um cãozinho de algibeira ao colo. Podem entrar aqui cães? Uma voz a articular palavras de bebé irrompe o silêncio. São para o cãozinho de algibeira. Penso no quanto detesto gente que articula palavras de bebé aos animais. E aos bebés. Na verdade, detesto gente que fala como bebés. Só os bebés deviam poder falar como bebés. 
O David Cameron dá lugar ao parlamento. Os deputados discutem muito, mas ninguém os ouve. Querem lá saber do que dizem! Quando a saúde está em causa, que se lixe aquela gente do parlamento! Ficam pequeninos, tão pequeninos diante das faltas de bocados de corpo que tapamos com um lenço...
O cãozinho geme a ausência da dona que foi fazer o exame e a senhora que fala à bebé diz "coitadinho, quer a dona, quer?" e eu arrepio-me de desagrado e pouso o olhar nas costas do homem sem boca. Sinto-me tão mais próxima dele do que da bebé, como se só conseguisse encontrar humanidade em nós, nos dos lenços que encobrem um vazio e descobrem o todo da gente.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Às Vezes a Sintonia Materializa-se Num Frasco de Nutella

Estou farta dos dias disto e daquilo. Confesso que já não tenho grande vontade de os comemorar. Além do 25 de Abril e do 1 de Maio, que me parecem agora mais emergentes do que nunca lembrar, dispenso todos os outros dias festivos. Não lhes vejo grande sentido, nem me apetece oferecer presentes só porque sim, porque somos obrigados ou porque parece mal não oferecer. Na verdade, todo o limite do "parece mal" é combustível para me apetecer fazer.
Coisas de adolescente rebelde por resolver, o que é que querem?

Este ano, estive mesmo para não oferecer nada à minha mãe, mas ela mostrou-se meia triste, por isso acabei por lhe comprar uma florzinha.
A minha mãe queria oferecer uma flor à minha avó, sua mãe, então fomos os três à florista, eu, ela e o meu bicharoco. 
No caminho, o bicharoco, que ainda é mais contracorrente do que eu, disse:
- Flores? Oh, não, não têm piada nenhuma... Depois vão ter de as regar.
- Não, J., estas flores não se regam, põem-se numa jarra com água e pronto.
- Mas assim elas morrem... E flores toda a gente dá. Temos de arranjar alguma coisa mais original.
- Então arranja. Mais original como o quê, por exemplo?
- Um frasco de Nutella ou qualquer coisa do género... Comprávamos um para a bisavó e outro para a avó com aqueles autocolantes que dizem o nome delas ou dizem"mãe".
- A bisavó nem gosta muito de Nutella e eu também não comia aquilo tudo. - disse a minha mãe.
- Oh, mas flores?!
- Sim, flores. A bisavó vai gostar mais, de certeza, e a avó também quer uma, não quer? - atiro a pergunta à minha mãe como quem não quer a coisa.
- Não, não é preciso - responde-me naquele tom de voz dela que quer dizer sim.

Enquanto a avó do J. esperou no carro, eu e o bicharoco fomos comprar as flores. Escolhemos uma de cada cor para cada uma das mães, mas o J. ficou a olhar para um molho de cravos vermelhos que espreitava de dentro de um balde à nossa frente.
- Mãe, acho que a bisavó ia gostar mais de um cravo...
Eu, que já lhe tinha lido o pensamento, respondi que tinha razão e que íamos levar um cravo, também, para a bisavó.

De volta ao carro, explico à minha mãe porque trouxemos o cravo e digo em voz provocadora:
- O J. lembrou-se do cravo para a bisavó, mas não se lembrou de uma flor para mim...
- Oh, tu querias? - pergunta-me desiludido.
- Não, prefiro um daqueles pequenos-almoços na cama que tu tão bem sabes fazer ou esse frasco de Nutella de que falaste.
- Ah, bem me parecia! - suspirou de alívio.



domingo, 3 de maio de 2015

Frases do Dia da Mãe

A partir de agora este blogue começa a bombar em visualizações!
É que, em todos os Dias das Mães, o pessoal cai aqui de pára-quedas quando anda à procura de frases para pôr no Facebook das mães.

Welcome, strangers!
Podem levar esta, é um presente! Para a viagem não ter sido em vão.

Feliz Dia da Mãe!