quinta-feira, 23 de abril de 2015

#5 Excertos de Uma Coisa Qualquer (Continuação Inventada do 1º Parágrafo da "Metamorfose" do Kafka)

Não estava habituado a ser insecto. Geralmente, acordava cão ou gato. Em tempos, acordara peixe e tivera que saltar para a banheira cheia de água tal fora a agonia que sentira por não conseguir respirar. Acordar insecto era uma novidade. As dificuldades de locomoção eram enormes já que tinha a mania de dormir de barriga para cima e fora assim que acordara. A desproporção entre o corpo e as perninhas minúsculas que se agitavam no ar impedia que Gregor rodasse sobre si próprio de forma a adoptar uma posição que lhe permitisse andar. Este obstáculo era novidade, pois os cães e os gatos em que se tornara anteriormente tinham corpos de dimensões mais harmoniosas, uma maior agilidade e quatro patas em vez de seis. À partida, podia parecer que mais patas significaria maior facilidade de locomoção, mas o facto mostrara-se completamente o oposto: mais patas só incomodavam.
Gregor era exímio em transformar-se em animal pela manhã. Deitava-se humano, não muito humano, é certo, mas semelhante a um e acordava animal. Passava todo o dia na forma do animal em que acordara e à noite, já tarde, voltava a assemelhar-se a um humano. Estas sucessivas metamorfoses diárias tinham-no provido da capacidade de se adaptar a qualquer tipo de alteração que se lhe atravessasse pelo caminho. O primeiro desafio daquele dia seria arranjar um modo de sair da cama.
Na esperança de que as três perninhas de um dos lados tocassem a cama e se lhe agarrassem com força suficiente para o virar, balançou o corpo. Balançou-o uma vez, duas vezes, três vezes sem sucesso. As perninhas de insecto mostraram-se a maior inutilidade que lhe tinha surgido durante esta odisseia animalesca.

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