quinta-feira, 30 de abril de 2015

E Numa Subtil Proximidade, Chego o Nariz Ao Teu Cabelo...

Às vezes as palavras não chegam e o toque não se proporciona. Estamos longe ou apressados. Ou estamos longe e apressados. Temos também vidas em paralelo. Tu, pequeno ainda, tens amigos em construção, relações a firmar, uma imensidão de coisas a aprender. Tens os dias a fazerem-se quotidiano.
Eu, já grande, tenho coisas a tratar e a fazer, manutenção do que edifiquei, reconstrução pessoal, enfim... Tenho quotidiano que me passa pelos dias.

Às vezes as palavras não chegam e o toque não se proporciona. E numa subtil proximidade, chego o nariz ao teu cabelo, dou-te um beijo na testa, rasgo a distância que teima atravessar-se entre nós e inspiro o aroma que exalas. Sei da tua tranquilidade ou tormenta pelo cheiro, reconheço-me as entranhas em ti. Adivinho pelo cheiro da cria que é, afinal, tão parte de mim.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Matéria de Ciências

A fazer perguntas de Ciências ao J. como preparação para o teste.

- Que tipos de reprodução há?
- Há a sexuada e a assexuada.
- Como é a assexuada?
- É um ser que se reproduz sozinho.
- Como?
- A partir de uma parte do corpo que origina outro ser igual a ele.
- E a sexuada?
- Oh, tu sabes...
- Sim, sei, mas quero que me expliques.
- Oh, oh, é através do... sexo. 
- Sim... mas como?
- Ó mãe, isto hoje é só a palavra sexual para cá e para lá...
- É normal já que a matéria é sobre a reprodução!
- Explica-me lá como é a reprodução sexuada.
- É através do espermatozóide que fecunda o óvulo.
- E pode ser o quê? 
- O quê, como?
- Interna e externa...
- Ah pois...
- O que quer dizer?
- Que pode ser dentro ou fora do corpo da senhora.
- Sim, da fêmea. Não precisa de ser uma senhora.
- Pois.
- E os rituais de acasalamento? O que são?
- São rituais antes de acasalarem.
- Boa! Dá-me um exemplo.
- Há um pássaro que dá uma minhoca à fêmea.
- Convida-a para jantar?
- Ah ah ah! Sim é isso. As pessoas também têm rituais de acasalamento?
- Sim, dão ramos de flores e caixas de bombons.
- A sério?
- Não, estou a brincar!

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Who Are You, Kurt?

Fui ver este filme no fim-de-semana. 
Mais do que pensar na vida da estrela, Kurt Cobain: Montage of Heck, fez-me pensar no meu filho. Se a forma como o estamos a educar é a correcta; se há, realmente, alguma forma correcta de se educar os filhos; se lhe damos amor suficiente, e se ele o sente como tal; se o nosso amor não o sufoca; se o facto de ele ter sido um miúdo muito fácil e compreensivo até agora, significará que irá ser um adolescente difícil; o que é isso de "adolescência difícil" e "infância fácil"; onde está o ponto de equilíbrio entre a protecção e segurança e a liberdade de experimentar e de crescer. 

Se gostei do filme? Adorei, mas saí de lá meio angustiada. Valeu pela humanização da estrela, pela minha introspecção e pela música genial. 
Valeu por tudo. Vão ver!

sábado, 25 de abril de 2015

Olho Invejável

O sábado passado foi dedicado à fotografia.

O pai do J. é homem de máquina em riste e, por acaso, é bom mas bom na cena. Bem, não é por acaso, é porque ele tem um olho invejável. Este homem vê para lá do que nós, comuns mortais, vemos. E depois fotografa o que vê, o que é óptimo para ceguinhas como eu que, geralmente, não vêem nada.
Além do olho, o homem tem mais umas tantas coisas que me enchem de orgulho de ser este o pai que calhou ao J. (e o homem que me calhou a mim), mas não as vou discriminar aqui. Primeiro, porque não gosto de ajudar a concorrência a crescer, depois porque atiraria este post para a categoria porno-coisa e teria de pôr uma bolinha vermelha no canto superior direito, coisa que, como exímia "lerdinha das informáticas", não sei fazer. (Se o soubesse também não adiantaria muito, pois o header é vermelho e a bela da bolinha nem se veria). Adiante.

Voltando ao sábado passado, a razão de paparmos quase tudo o que é fotografia deve-se ao facto do pai do J. ter este olho invejável e consumir doses altas de fotografia. Tenho quase a certeza que, se ele não tivesse este olho invejável não consumiria tanta fotografia e se não consumisse tanta fotografia, nós não teríamos a oportunidade de papar tantas exposições quanto as que papamos.
O pior disto tudo é que nós também já começámos a ficar viciados na coisa e não vamos ver as exposições, com ar de seca, só para o acompanhar, vamos porque também gostamos e porque isso passou a ser um prazer também para nós. Ora bolas que já não há quem controle a gulodice nesta casa!

Voltando ao sábado (que estou sempre a perdê-lo), fomos ver a exposição Modernidades: Fotografia Brasileira à Gulbenkian, depois à Cordoaria Nacional, ver a Génesis do Sebastião Salgado e acabámos em beleza a ver, no cinema, o documentário O Sal da Terra de Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders sobre o mesmo Sebastião Salgado. Foi óptimo! Uma barrigada de fotografias belíssimas e poderosíssimas. No entanto, uma dinheirama... (Neste país, se o povo quer ser culto, tem de pagar bem, quiçá deixar de comer para se poder cultivar. O que vale é que no fim de um dia assim sentimo-nos tão preenchidos que esquecemos a fome. Digo eu para amenizar a coisa e evitar pôr-me aqui a chamar nomes a essa maltinha ranhosa do governo!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

E Ainda Dizem que os Aliens Não Existem...

O meu miúdo tem andado meio estranho. De manhã, quando acorda, tem vómitos. Depois passa-lhe e não tem mais durante todo o dia. 
Fui com ele ao médico que isto de o ver sofrer, por mais leve que seja, dá-me a volta ao estômago e aperta-me o peito. Tento fingir que não, que sou forte e muito racional, mas a verdade é que me apetece ir logo com ele ao médico em completo histerismo. A sorte é que a minha mãe faz esse papel da histérica mais rápido do que eu, o que me dá algum espaço de manobra para me armar em racional.
Foi o papel da racional e ponderada que encarnei durante duas semanas em que experimentámos tudo: mudámos de pequeno-almoço, tomou-o mais tarde, não lavou os dentes a seguir a comer, lavou os dentes antes de comer, não lavou os dentes de todo, jantou mais cedo no dia anterior, dormiu de cabeceira levantada, etc., etc. Depois destas experiências, do miúdo continuar com vómitos e de eu já poder ser histérica de consciência tranquila, fomos mesmo ao médico que lhe passou análises. Por causa delas, hoje fomos tirar sangue. 
O miúdo é um corajoso nestas coisas e foi impecável. A parte do sangue a sair foi serena, o problema foi a papelada e... comigo, claro.
Ok, eu sou uma chata, eu sei, mas há princípios que não largo, o que é que querem? 
A minha chatice de hoje foi no final da senhora receber a credencial e registar o que tinha a registar, no momento em que entregou um papel ao meu miúdo para ele assinar. Mal sabia ela o que estava a fazer... 
Perguntei se podia ser eu a assinar.
- Ah... ah... sim, mas tem que pôr o número do BI... Se for ele é mais fácil. 
- Ok, eu ponho o número do BI. Assino eu que ele não tem idade para ser responsável. Deixemo-lo aproveitar enquanto pode - respondi com meio sorriso.
- Mas não tem a ver com responsabilidade... Basta assinar - insistiu a senhora.
- Ok, assino eu. Quando ele tiver idade, ele assina.
- Temos que os deixar crescer... E eles até gostam de ser eles a assinar...
- Sim, mas é uma questão de princípios como outra qualquer, prefiro ser eu a assinar.
Assinei, pus o malvado do número do BI que custa tanto a pôr e fomos tirar sangue. A senhora e restantes clientes trocaram olhares cúmplices como quem diz "esta é maluquinha, ainda se agarra a essas porcarias chamadas princípios... dá tanto mais trabalho pôr o número do BI do que fazer como manda a burocracia..."
Fomos embora com a etiqueta de aliens colada às costas e o J. não esperou muito para me perguntar porque não o tinha deixado assinar. Também quis saber se eu achava que ele tinha sido totó por estar prestes a assinar quando a senhora lhe tinha dado a caneta e dito para ele o fazer.
Disse-lhe que não o achava nada totó e que era normalíssimo ele aceitar assinar já que a senhora lhe tinha dito para o fazer e expliquei-lhe que tinha insistido para ser eu, porque assinar um documento é responsabilizarmo-nos por ele, é um acto de cidadania em que pomos o nosso nome por baixo daquilo que lemos e aceitamos e que ele ainda tem dez anos, por isso não tem responsabilidade para o fazer e nem precisa preocupar-se com isso. Disse-lhe ainda que, quando ele tiver idade para isso, ele assinará as coisas dele com a devida responsabilidade sobre aquilo que assina e não porque gosta de brincar aos adultos como a senhora disse que os miúdos gostam de fazer. Ainda me perguntou se estava chateada. Disse-lhe que mais ou menos, que estas coisas me irritavam um bocado, mas que não era nada com ele.

Sinceramente, acho a assinatura de documentos uma coisa muito importante e que se a passarmos às crianças como uma brincadeira, elas crescerão a pensar que não tem qualquer importância e não se responsabilizarão por aquilo que assinam. 
Ao contrário do que a senhora disse, deixo o meu filho crescer, mas dou-lhe espaço e tempo para isso, porque quero que ele quando tiver que se responsabilizar pelas coisas se responsabilize mesmo e não ande por aí a fingir que é muito consciencioso com coisas que não faz a mínima ideia do que são e, como algumas pessoas que vejo, finja que sabe o que anda a fazer. Quero que ele saiba mesmo, mas no tempo devido, não cedo demais e só porque me dá mais trabalho.

Sim, esta porcaria dos princípios que os aliens têm a mania de usar não os deixa agir como lhes mandam, feitos autómatos. É coisa para os fazer pensar um bocado, mesmo naquilo que, à partida, parece uma insignificância. Sim, dá algum trabalho e isso é chato e aborrece os terrestres que são seres muito atarefados e não têm tempo para andar por aí a pôr o número do BI em tudo o que é papel.

Temos pena, vão para Marte!

quinta-feira, 23 de abril de 2015

#5 Excertos de Uma Coisa Qualquer (Continuação Inventada do 1º Parágrafo da "Metamorfose" do Kafka)

Não estava habituado a ser insecto. Geralmente, acordava cão ou gato. Em tempos, acordara peixe e tivera que saltar para a banheira cheia de água tal fora a agonia que sentira por não conseguir respirar. Acordar insecto era uma novidade. As dificuldades de locomoção eram enormes já que tinha a mania de dormir de barriga para cima e fora assim que acordara. A desproporção entre o corpo e as perninhas minúsculas que se agitavam no ar impedia que Gregor rodasse sobre si próprio de forma a adoptar uma posição que lhe permitisse andar. Este obstáculo era novidade, pois os cães e os gatos em que se tornara anteriormente tinham corpos de dimensões mais harmoniosas, uma maior agilidade e quatro patas em vez de seis. À partida, podia parecer que mais patas significaria maior facilidade de locomoção, mas o facto mostrara-se completamente o oposto: mais patas só incomodavam.
Gregor era exímio em transformar-se em animal pela manhã. Deitava-se humano, não muito humano, é certo, mas semelhante a um e acordava animal. Passava todo o dia na forma do animal em que acordara e à noite, já tarde, voltava a assemelhar-se a um humano. Estas sucessivas metamorfoses diárias tinham-no provido da capacidade de se adaptar a qualquer tipo de alteração que se lhe atravessasse pelo caminho. O primeiro desafio daquele dia seria arranjar um modo de sair da cama.
Na esperança de que as três perninhas de um dos lados tocassem a cama e se lhe agarrassem com força suficiente para o virar, balançou o corpo. Balançou-o uma vez, duas vezes, três vezes sem sucesso. As perninhas de insecto mostraram-se a maior inutilidade que lhe tinha surgido durante esta odisseia animalesca.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

#4 Excertos de Uma Coisa Qualquer

As canetas de feltro estavam espalhadas na mesa que fazia de toucador e secretária em simultâneo. Rita trocava de caneta consoante a cor de que queria pintar o céu , a casa, o sol. Tentava não ouvir a mãe que não parava de falar e de arrumar coisas nas malas.
- Em casa da avó vais poder brincar no jardim, andar de baloiço, dar de comer às galinhas e brincar com os coelhinhos. Adoras brincar com os coelhinhos, não adoras?
- Sim, mãe. - responde Rita enquanto mostra o desenho ao pai que a observa em silêncio.
- A avó faz bolinhos muito bons. Ao pequeno-almoço vais ter bolinhos acabados de fazer, ainda quentinhos, e vais poder ouvir os passarinhos a cantar. Eles cantam muito alto de manhã. - continua a mãe.
- E a escola, mãe? Vou deixar de ir à escola?
- Só por uns tempos. Depois voltas.
O pai levanta-se da cadeira ao lado da filha e dirige-se à janela. Olha o parque de estacionamento do hotel lá em baixo e pergunta a Rita:
- Porque não fazes um desenho de nós dois a brincar para o pai levar? Podia pendurá-lo na parede... como se fosse um quadro.
- E com a mãe? Assim ficávamos os três pendurados na parede para sempre como num quadro.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Eis o Que Sobrou Das Maminhas Que Amamentam

Escrevi um longo post sobre a prova das maminhas que dão leite, mas achei que não valia a pena publicá-lo. Apaguei-o.

Do longo texto sobraram as seguintes questões:

O que raio é medicina ocupacional?

- Andam a ver se tiram o benefício das duas horas diárias a quem amamenta porque começaram a ver muitas mães a amamentar os filhos depois do ano de idade? 

Não, não deve ser isto, afinal o incentivo à natalidade é muito mais importante do que duas horas diárias de trabalho.

Ou não é?

#3 Excertos de Uma Coisa Qualquer

O poder do dinheiro e da reputação eram uma droga de má ressaca. Inebriar-se agora com o novo posto significava dias fechado no quarto, de cama, a vomitar as falsidades dos outros, os sorrisos amarelos e as cortesias forçadas. Sabia o que o esperava, no entanto não hesitava em comprar o bilhete para aquela viagem. Embarcaria de qualquer jeito, mesmo sabendo que dali poderia não haver regresso. 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

#2 Excertos de Uma Coisa Qualquer

Começou por correr devagar e foi acelerando o passo a cada minuto. Os óculos serviam de barreira ao vento que soprava cada vez mais forte e empurrava-lhe os cabelos para trás. Aproveitava a corrida para apreciar a paisagem e rever a vida. As férias ainda mantinham uma presença viva na memória. A namorada a bater com a porta do quarto de hotel e a dizer que não o queria voltar a ver ecoava-lhe na mente.  Cada passada era o bater daquela porta e a sensação de abandono que o seguira. Tentava, em vão, que a aceleração da corrida empurrasse aquela solidão para trás das costas.
Em vão.

Bullying Blogosférico

Assisti a alguns episódios de bullying blogosférico e não gostei nada do que vi.
Não, não eram adolescentes. Não, não eram crianças.
Sim, eram pessoas adultas que, supostamente, deviam ter educação e algum juízo.
Mas não. Foram episódios tristes, muito tristes.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Proibição e Educação

"O mais fácil é proibir."
Em tempos, quando me dei ao trabalho, ou ao prazer, de me dedicar a analisar comportamentos humanos, nomeadamente de professores, pais, educadores, etc., reparei que a lei do menor esforço anda, geralmente, de mãos dadas com as proibições. Proibir é o mais fácil: não há explicações a dar, não há intenção de educar, ou de justificar o porquê de uma causa surtir num determinado efeito. Nada. Proíbe-se e está feito. Se não se respeitar a proibição é-se sancionado, ponto final parágrafo. Vai-se de castigo, leva-se uma palmada, ou qualquer outra coisa que faça uma mossa idêntica à falha cometida. Assunto arrumado, não se fala mais nisso.
Ora eu sou teimosa e detesto castigos. E só dou palmadas se achar que o meu filho precisa de um abanão para estar mais atento ao que lhe quero dizer. Sim, admito, dou palmadas de vez quando. Muito raramente, porque não lhes vejo grande utilidade. Prefiro abrir as portas da consciência dos próprios actos do que abrir a mão e espetar um tabefe ao miúdo. 
Além de me parecer uma atitude mais útil, confesso que vislumbrar a compreensão da causa / efeito nos olhos do meu filho e o entendimento de uma parte importante da vida me dá maior satisfação do que o ver chorar por lhe doer o rabo. Na verdade, as palmadas que lhe dei, doeram-me sempre mais a mim do que a ele e, se não fosse por mais nada senão para proteger este coração demasiado sensível de mãe, evito magoar o meu filho seja com as mãos, seja com as palavras ou com castigos. Por isso, não dou a mão à preguiça e sou, amiúde, chata p'ra caraças. Explico tudo e mais alguma coisa e mostro que os efeitos das nossas acções não falham, e, infelizmente, nem sempre tardam. Gasto tempo a explicar-lhe as coisas, gasto tempo com o assunto, mas asseguro-me de que a mensagem passou e de que ele aprendeu alguma coisa com o erro, a falha ou a experiência, ou como lhe queiram chamar. Só assim me parece que serviu de alguma coisa, só assim vejo que aprendeu, que cresceu.
Mas às vezes, tenho que deixar o erro acontecer e ficar à espera que ele ponha o pé no buraco para aprender a olhar para o chão - para ser sincera, esta é a parte que mais me custa, mas nem por isso a acho menos importante. Antes pelo contrário, acho-a das mais importantes e decisivas para o crescimento saudável das crianças e, parece-me que andamos todos a querer saltar esta parte.
"Ah e tal, proibimos o consumo de álcool e eles já não se embebedam"; "ah e tal, controlamos as saídas da escola através de cartõezinhos electrónicos e eles já não saem da escola para irem fazer asneiras"; "ah e tal, damos-lhes uma PSP cheia de jogos giros e educativos e eles já não se distraem com coisas potencialmente perigosas como drogas e coisas dessas que viciam muito".
Explicar que há coisas que lhes fazerem mal? "Oh não, não é preciso que eles nem lhes vão chegar perto!" Deixá-los queimar os dedos para perceberem que o fogo queima? "Oh não, não é preciso que eles nunca vão usar isqueiro, porque estão proibidos de fumar e o fogão é de vitrocerâmica"

Mas um dia a bolha rebenta e eles saem lá de dentro virgens para uma vida cheia de coisas novas (boas e más) e caem no primeiro buraco que lhes aparece, porque não fazem ideia que o chão pode ter buracos. Não sabem que, além dos jogos, o álcool e o tabaco também viciam; que a escola existe fora dos muros e da porta; que o lume queima e que há gente má que, às vezes, faz mal a outras gentes.

Nesse dia, o fácil torna-se difícil. Muito difícil.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Miúda Gira Que Se Farta

A amizade não escolhe quando nascer. Às vezes, basta um pequeno instante para florir, assim como o amor que não bate à porta quando quer entrar. Surge simplesmente. E apanha-nos desprevenidos. 

Tive uma amizade destas, fugaz, que durou muito menos do que eu desejaria, porque a minha instantânea e querida amiga faleceu no passado fim-de-semana. Foi um cancro que a levou. Mais um sacana desses... 
Fica a saudade das conversas que não tivemos tempo de ter. Fica a saudade desta "miúda gira que se farta". Fica a saudade de ti, Isabel.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Lugares-Comuns

Lugares-comuns dão falta de ar.
O ar rareia no espaço apertadinho do lugar-comum, tornando-o claustrofóbico. Só as palavras mudam, saltitando entre aquelas que custam alguns tostões e as gratuitas. Podia encher-se o pequeno espaço de palavras vazias que resultaria no mesmo. Mas não. Há quem insista em repletá-lo de palavras preciosas, enclausurando-as no covil banal. Pobres são as que calham aninharem-se em minúsculo recinto de banalidades. Pobres e miseráveis.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

#1 Excertos De Uma Coisa Qualquer

Começar agora era como nascer adulto e enfrentar o mundo com experiência de sábio. Naquele momento, trazer toda a sabedoria de uma vida carregada de ensinamentos às costas e explorar princípios pareceu justificar toda a minha existência. Justificou-a realmente. Se não tivesse dado aquele passo teria apagado a força que me permitiu sobreviver às intempéries da vida, à tempestade que aquela separação se mostrou. A mudança para Barcelona não apagou a dor e a mágoa, mas transformou-as em dormências toleráveis.