quinta-feira, 26 de março de 2015

Silêncio das Mãos

Há tempos que não escrevo. Há tempos que não escrevo nada.
É como se tivesse uma mão a tapar-me a boca com coisas a querer sair que esbarram nela.
Tenho coisas para dizer. Mas não digo. Limito-me a um silêncio que não conheço. Este da não escrita, da mão quieta e silenciosa.
Tenho mãos com muito para dizer. Boca não. Digo poucas coisas pela boca. Digo só aos meus, aos íntimos. Às vezes, de rompante. Às vezes, magoo com as palavras que me saem da boca.
A minha boca é íntima como os meus. Tão íntima que não gosto de beijos a estranhos. Nem os que a cordialidade obriga. Chega-me a mão que aperta a outra. Ou diz "bom dia", ou diz outras coisas.
Tenho uma boca que se cala para dar voz às mãos. Sim, às mãos, que já não se escreve só com uma. Escreve-se com as duas. Estão inquietas, as minhas. Loucas para dizer coisas e cansadas de se calarem.
Hoje, as minhas mãos precisam de gritar bem alto que não são mudas e que precisam de dizer

coisas.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Estou Mesmo A Ficar Velhota!

Bem me parecia que a Clínica do Avô não estava aqui por acaso. É que esta que vos escreve anda com problemas de memória como os mais velhotes. Ou melhor, não é bem como os mais velhotes, porque, segundo me parece, eles lembram-se melhor do passado mais remoto do que do mais recente. Eu sou o contrário. Lembro-me com relativa clareza de coisinhas sem importância que tenham acontecido há... minutos, mas já não me lembro bem se este planeta é a Terra ou Marte. 
É que a humanidade apareceu por aqui há já muito tempo.

Não é que no post anterior troquei a Terra por Marte?
Chegou aqui o pai do J. a dizer "o quê? Marte? Não era isso que eu dizia, era Terra!". 
Ups!
Respondi-lhe que realmente não me suava bem Marte, mas que me tinha saído assim e acabei por deixar ficar.
"Desculpa lá, mas vais ter que mudar isso! Não tem lógica nenhuma ser Marte. Quem é que anda a chamar um bebé de Marte e para Marte? Nós estamos é na Terra!" 

Dei a mão à palmatória e mudei, um bocado contra vontade. 
Podem ir lá ver que o bebé, afinal, era chamado para a Terra. 

Se soubéssemos o que sabemos hoje, provavelmente tê-lo-íamos chamado mas era mesmo para Marte que se deve estar lá bem melhor do que aqui! Digo eu que gosto pouco de dar a mão à palmatória!

terça-feira, 17 de março de 2015

Alô, Alô, Terra Chama Bebé!

DAQUI
Quando o meu filho nasceu, ficou a dormir quase dois dias. O miúdo vinha cansado, o que é que se pode fazer? 
Eu também teria dormido, que esta história de parto é cansativa que se farta, mas pus-me a chorar. As hormonas, ainda aos saltos, encheram-me de tristezas e o vazio do ventre subiu-me à cabeça. Mal me levaram o filho, depois de mo terem pousado sobre o peito, o vazio instalou-se. Aquele pequeno ser, que há tão poucos minutos se tinha materializado em bebé, tinha acabado de me abandonar depois de oito meses e meio em permanente presença. Como poderia eu gerir aquela sensação de abandono, juntamente com a percepção de que aquele peso na barriga que não me deixava ver os pés era, afinal, um bebé? Como poderia eu gerir o facto de ter tido um filho e terem-mo levado assim, sem mais nem menos, enquanto as hormonas me gritavam coisas más aos ouvidos?
Quando mo devolveram, trouxeram um bebé adormecido. Aquele bichinho chorão que eu havia visto por breves instantes após irromper por mim afora, era agora um bebé tranquilo, tão tranquilo que não acordava por nada. E eu, sempre em plena luta com as hormonas, chorava. Ele dormia e eu chorava. Eu chorava e ele dormia. O miúdo dormia tanto que as enfermeiras não o largavam, ora a medir a glicose através de picadas nos seus pequeninos dedos dos pés, ora a dobrá-lo e a contorcê-lo para que acordasse. Mas ele nada. Não queria saber de enfermeiras malvadas nem daquela mãe que lhe calhou na sorte (bem mais tranquila vista de dentro) que agora só chorava. Deve ter pensado que, para aturar aquela gente, mais valia não ter nascido e ter ficado no quentinho a ouvir as piadas de uma voz que lhe falava de vez em quando e o chamava à Terra. "Alô, alô, Terra chama bebé! Alô, alô, Terra chama bebé! Escuto. Escuto." E ele dava-lhe um pontapé no ouvido encostado à barriga, ao que a voz, em vez de chateada, ficava contente. Devia desconfiar que aquela voz continuava por ali, mas como não dizia tantas piadas e a mãe chorava em vez rir, preferia dormir. E dormia.

DAQUI
E eu continuava a chorar. Olhava para ele e chorava. Chorava pelo vazio, pela impotência, pela dependência que aquele ser tinha de mim. De mim que me sentia incompetente para tamanha responsabilidade, de mim que não sabia tratar de bebés. Chorava por não lhe saber dar de mamar, mudar fraldas, dar banho, vestir ou despir. E porque me tinham entregado um bebé adormecido e eu não fazia a mínima ideia do que era suposto fazer-lhe. 
E também chorava por ele não acordar. Precisava de um bebé desperto, que me pedisse para mamar, que refilasse por ter a fralda molhada, que demonstrasse desconforto para me obrigar a interagir com ele. Mas ele não. Ele dormia numa calma perene. Parecia que o embalo daquele sono era tudo o que precisava. Como poderia eu querer invadir a serenidade que o meu bebé já trazia? Não podia. Por isso, olhava-o e pensava "é tão lindo o meu bebé!" e chorava.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Correr é...

...Uma merda!

Que me desculpem os apologistas da corrida (inclusive o pai do J.), mas correr sucks! Eh pá, não gosto! Eu esforço-me, e estampo um sorriso nos lábios, e digo a mim mesma que depois dos quinze minutos é que é, é que me vou sentir super bem, e livre, e essas cenas todas que vocês, amantes da corrida, sentem. 
Mas aos quinze minutos não acontece nada e a vontade de parar de correr é cada vez maior, e grito-me (para não ter a desculpa de que não ouvi) que afinal não é aos quinze, mas aos vinte minutos que a magia acontece. Mas a magia não acontece, que eu tenho o mágico avariado, e aos vinte e cinco minutos de tortura ainda estou a pôr a cenoura à frente do burro (ou da burra) com a treta que aos trinta é que é. 
E corro trinta, a trinta e cinco, minutos a enganar-me de que aquilo é bom, e faz bem, e que já estou mais magra, e que correr é uma sensação de liberdade e de superação, e que basta eu deixar de resistir e deixar-me ir que começo a aproveitar o momento e a magia a acontecer. 
Durante trinta e cinco minutos, ecoa na minha cabeça a frase do meu filho "mesmo que estejas a morrer, não pares!". Obedeço em sofrimento até chegar o fim do tempo estipulado (ou a burra zangar-se e comer a cenoura duma dentada só).

Mal paro, voilà, a magia acontece e sinto a tal sensação de liberdade percorrer-me o corpo todo ao mesmo tempo que me diz:

Finalmente parei de correr, porra!

Dia Da Mulher

Não fiz "post" sobre o Dia da Mulher, porque estava sem computador, mas se o tivesse feito seria para lembrar a Rita / Silvina, que escreveu o seu último "post" neste dia de 2013.
Desde O Peso do Cancro que o Dia da Mulher ganhou um novo significado para mim. 
O cancro pesou-lhe muito, demais, e acabou por a levar, mas a memória da Rita / Silvina ficou como homenagem às mulheres.

Saudades de te ler!

Episódios de Radio

Asco de Gente

Às vezes, sinto um desprezo enorme por esta sociedade. 
Às vezes, o desprezo é tanto que chego a ficar enjoada.
Esta gente pequenina, que se faz gigante quando se gaba de merdas insignificantes e diminui gente de valor para se sentir alguém, dá-me a volta ao estômago.
Às vezes, há gente que me enoja não só por aquilo que é, mas por aquilo que representa. E é de asco que me enche.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Não Leio Manuais de Instruções!

Não olho para catálogos para escolher pessoas. Gosto de as ir conhecendo aos poucos, devagarinho. Dou-me, ou vou-me dando, conforme os outros se vão mostrando. Confesso que nem sempre o faço no ritmo certo. Por vezes, vou depressa demais. Noutras vezes, devagar demais. Não leio etiquetas. Na verdade, nem as procuro. Não lhes dou importância. Não quero saber se as pessoas são tóxicas ou saudáveis. Há pessoas que, à partida, me interessam. Outras há que não. Mas gosto do mistério, da procura, da descoberta. Às vezes, tenho sorte e encontro gente valiosa, maravilhosa, construo amizades, edifico relações para a vida. Outras vezes, tenho azar e desiludo-me, bato com a cabeça e descubro gente de merda que só me faz mal.
Contudo, prefiro a incerteza a abrir o catálogo e escolher com quem me dar ou, simplesmente, seguir um manual de instruções.

terça-feira, 3 de março de 2015

Enamoramento Atécnico

Ando a aprender a técnica da escrita. Ou a tentar aprender. 
Sinto que à medida que o véu que cobre, e enche de magia esta arte de juntar palavras que as repleta de sapiência, se vai levantando, algum do encanto da leitura se vai perdendo. E algum do encanto da escrita também se some com a incapacidade de ler apaixonadamente. 
O que dantes fluía solto, fica agora aprisionado em vírgulas, semântica, forma e construção de géneros narrativos. 
E eu fico a sentir-me amordaçada, e desanimada, e desencantada. E a apetecer-me esquecer tudo o que vou aprendendo e deixar-me escorrer na leitura e na escrita amadora, puramente amadora e, por isso, ainda puramente enamorada.

domingo, 1 de março de 2015

Ser Mãe (e Pai) é Tramado


Mas pode ser mais simples do que parece. Basta não complicar.

You Have Made My Day

- Já emagreci cinco quilos! Se continuar assim, lá para os teus anos, estou toda gira!
- Ó mãe, tu és gira de qualquer maneira, gorda ou magra. Deixa lá isso das dietas que estás muito gira assim!