terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Fumar um cigarro à janela das lembranças

Tenho mortos que não morrem. Ficam para sempre comigo. Vou visitá-los às memórias, como quem vai à gaveta das recordações. Quando tenho saudades, abro a janela das lembranças e visito-os dentro da minha cabeça.

Os meus mortos não me são necessariamente próximos. Alguns nunca mais vi. Seguiram vidas longe e perdi-lhes o rasto até saber que morreram. Mas sabia-os lá, em qualquer sítio, e isso chegava-me. Depois morreram e começaram a fazer-me muita falta. O lugar que lhes tinha destinado dentro de mim teve de mudar repentinamente. Da lembrança suave e sossegada passei-os para um quarto de memórias cheio de vazios. Cheio de vazios... Custa-me mantê-los aqui, porque o espaço se torna demasiado grande e as recordações repletas de histórias e vida passam a ficar cheias de vazios. Há bocados que lhes faltam, porque há pessoas a menos. 
Tento constantemente ocupar os espaços em branco com os meus mortos, construindo segmentos das suas vidas em mim, numa tentativa vã de os ressuscitar. Claro que não os ressuscito, porque continuam mortos, mas há vida deles que perdura dentro de mim. E assim imortalizo-os. Ou assim creio que o faço... 

Há tempos descobri que uma senhora para quem trabalhei quando estive na Bélgica morrera. Fiquei muito triste. Continuo muito triste. Ela não era das pessoas a quem é consentida a morte. (Apesar de ser normal, mais cedo ou mais tarde, a senhora morrer, visto eu ter lá estado há uns 15 anos e a ela ter perto dos 60 anos nessa altura). Mas não a consigo matar dentro de mim... Continua tão viva como quando lá estive. Renasceu até... Desperto-a quase todos os dias e sinto-lhe a falta como se me tivesse deixado há pouco tempo.

Ainda lhe consigo ver os movimentos: ela bebia imenso chá preto e vinha fumar às escondidas do marido para o pé de mim. Tínhamos uma cumplicidade engraçada, já que era o tabaco que mais nos unia. Éramos cúmplices no fumo e nos cigarros e isso fez nascer uma amizade. Comprava pacotes de dez maços de tabaco e trazia-mos. Também gostava imenso de flores e ia buscá-las a uma feira na Holanda, que era mesmo ali ao lado. 
Um dia tentei ir de bicicleta sozinha à Holanda, mas desisti a meio. Fartei-me de pedalar, sem nunca mais lá chegar, cansei-me. Voltei para trás a meio do percurso. Penso que foi a meio... nunca tive a certeza, pois nunca cheguei a arriscar a meter-me ao caminho de novo.

Lembro-me bem dos cavalos da senhora e da estufa com a plantação de tomates que eu regava ao mesmo tempo que comia os tomates. Eram bons os tomates daquela estufa. Já naquele tempo, a senhora gabava-se de os seus tomates não terem produtos químicos... (Ainda os portugueses andavam a aprender o significado de agricultura biológica, já os belgas a praticavam religiosamente).
Havia um cavalo Andaluz que mordia se não lhe enfiássemos cenouras goela abaixo enquanto o levávamos do paddock para boxe e vice-versa. Ainda tentei ensiná-lo a não morder, mas acabei por desistir. Ia ser um longa guerra com ele e não iria durar, já que toda a gente preferia dar-lhe as cenouras. Também eu continuei a enfiar-lhe as cenouras goela abaixo durante o percurso. Tinha de ser rápida e não parar de lhe encher a boca ou ele acabava por me comer os dedos.

A senhora era gira: loira, magra e muito bronzeada. Bronzeada demais talvez... Tinha umas mãos que pareciam uns troncos. Nunca vi mãos como as dela. Os dedos eram grossos como os de um homem, secos e fortes. Ensinou-me a fazer a trança corrida nas crinas dos cavalos com aqueles troncos enormes... Enrolava as crinas entre os dedos e passava-as de um lado para outro com uma agilidade espantosa para uns dedos tão grossos. Segurava o cigarro entre os dentes e explicava, no seu inglês afrancesado, pelo canto da boca livre como se fazia a trança. Era incrível como ela fazia tudo de cigarro entre os dentes! Não parava para fumar como eu que gostava de saborear o cigarro sem distracções. Ela corria de um lado para o outro como se o dia não lhe chegasse para tudo. E fumava sempre que o marido virava costas, e fumava cigarro atrás de cigarro, antes que ele voltasse.
Tenho saudades de fumar um cigarro com ela... 

Pena os mortos e eu termos deixado de fumar, ou iríamos, as duas, fumar um cigarro à janela das lembranças... Enquanto ela corria de um lado para o outro, eu iria sentar-me no parapeito da janela e, ali, poríamos a conversa em dia.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Hoje, véspera de Natal, penso...

Hoje, véspera de Natal, não penso no David Duarte que, com apenas 29 anos, morreu num hospital sem a assistência médica devida por conta das poupanças de um Ministério da Saúde doente. 
Não penso nele, porque sei que deve ter imensa gente que o ama e que não o vai esquecer neste dia, nem nos próximos.
Penso antes em quem comandou esse ministério durante anos e o tornou no que é hoje, um ministério doente. Penso nesse ministro que deve passar a consoada em família, com uma mesa farta em bacalhau, peru e doçaria tradicional, mas sem um pingo de amor ao próximo. Penso na consciência desse homem que, cada vez que der uma dentada num sonho, se poderá lembrar que os sonhos do David já não se irão realizar por sua culpa; que o David já não tem mais sonhos porque ele, ministro da saúde, decidiu gerir a saúde como quem gere uma empresa, sem pensar que o negócio aqui é a vida das pessoas, e não acções ou títulos bancários. 
Foi a vida do David, tal como a de tantos outros doentes, que andou nas mãos deste carniceiro a quem chamam gestor. 
Que consciência permanecerá intacta a tanta morte? Como dormirá este homem que acabou com a vida de tanta gente? 
Penso nele, porque, provavelmente, poucos serão os que o têm no coração e se lembrarão dele hoje...

Hoje, véspera de Natal, e porque é véspera de Natal, tenho pena desta gente... Tenho pena de quem tem pedra no peito. E tenho pena que pessoas assim não vão ter no Natal mais do que uma mesa cheia de comida e uma árvore cheia de presentes...

Hoje, porque é véspera de Natal, tenho pena que haja gente como esta sem mais nada para além daquilo que o dinheiro é capaz de comprar...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Porra!

A conversa vem, assim, a propósito de nada. Saem-nos palavras que dirigimos um ao outro. Gosto de falar com ele...
Conversamos sobre tudo. Ou sobre nada. 
Malucamos. Sinto-me rejuvenescer cada vez que maluco com ele. Brincamos parvoíces. Ele diz um disparate e eu digo outro. Para ser sincera, eu digo mais disparates do que ele. 
Às vezes, quer-me parar. 
- Mãe, pára com isso!
E eu não paro. E ele rir-se e acrescenta parvoíces ao que digo. 
Tem um humor acutilante. Sai ao pai. Como gosto de ver nele aquilo que me encanta no pai. "Que bom ter herdado esta parte", penso. E é inteligente nas piadas. Porra, como é inteligente nas piadas! E não é só nas piadas. Porra, como é inteligente em tudo! E desce-me um arrepio na espinha. Porra, como o acho tão perfeito! E sei que não é, mas sinto-o perfeito na mesma. E o arrepio trepa-me a espinha. Morro de medo que lhe aconteça alguma coisa. Morro de medo. 
E acho que a perfeição não existe, mas está nele. Morro de medo que ele fuja. Como um truque de magia, se desvaneça. Ou que não exista também, a par com a perfeição.
E um amor maior quase me sufoca. Porra, como amo este miúdo! Porra, como é perfeito este amor! 
O humor dele escarafuncha. Pena haver quem não o entenda... Pena haver quem não tenha humor. Nem amor... Deve ser tão triste não conseguirmos rir dos outros nem de nós...  Deve ser tão triste não sentirmos um amor assim, perfeito.
Deve ser tão triste... Porra!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Instantes de nós

Nos dias que passam sem que nos apercebamos, fica na quietude dos momentos bocados de nós. Deixamos para trás pedaços do que fomos a cada instante que teimamos viver com afinco. Como se em páginas de livros deixássemos escrito aquilo que não somos porque nos transformámos noutros. Cada segundo, cada milésimo de segundo, fomos e não voltaremos a ser.
Se há quem nos entre vida adentro e nos construa com a sua presença, há também quem se vá e leve consigo a história da gente.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Era só isto


Na era das redes sociais e da opinião, a objectividade dos factos morreu.
Resta-nos o poder de análise e o pensamento crítico. É por este último que temos de lutar e manter vivo nas gerações futuras, pois é nele que ainda mora alguma lucidez.

domingo, 6 de setembro de 2015

Saudades

Tenho saudades do meu amor. Da quietude com que nos amamos baixinho nas entrelinhas da conversa quotidiana. Sem o estardalhaço das paixões passageiras ou o ruído das rotinas.
Tenho saudades de nós dois, sozinhos.

sábado, 5 de setembro de 2015

O Tuga é Fixe!

Sim, o tuga é fixe. E bondoso. Tão bondoso que até quando tira a selfie em frente ao velho monumento, o faz com cara de anjo e dentes arreganhados. Não interessa o calhau que lhe serve de fundo, interessa apenas o sorriso repleto de bondade. Resplandecente de bondade. 
A benevolência é tal que está sempre pronto a dar o pedaço de pão ao pobre, a fazer o voluntariadozinho junto dos coitadinhos, a salvar o cão que lhe matou o filho, a levar o refugiado para casa... Coração imenso, grandioso.

Só tem um bocadito de medo de votar diferente nas urnas, não vá um estranho para o poder e lhe troque as voltas. E mude alguma coisa no país que o faça deixar de saber onde está o coitadinho, como se pode desviar do pobre, se cortaram as unhas ao cão ou quem é o refugiado. E tem medo de exigir que os governos governem e que a igualdade se torne realidade. (É que estas coisas acabadas em "ade" sempre foram tão perigosas... Assim como a liberdade que, ao fim de quarenta anos, ainda não sabe bem como gerir.)

Oh, mas está completamente disponível para receber refugiados em casa! (Até porque os cãezinhos fazem mais porcaria e precisam de espaço para correr...) O refugiado pode ficar no chão do quarto dos miúdos ou no sofá da sala e ainda lhe vai agradecer. Sim, agradecer e dizer ao amigos lá da terra dele que o tuga é fixe. Que o tuga é muito fixe. O tuga é tão fixe que até lhe serve comida quente ao jantar. E ensina-lhe umas palavrinhas em português, vá.

Mas impor-se como um homenzinho e obrigar o governo a fazer frente à Europa para evitar que estes povos abandonem as suas terras e se atirem ao mar em desespero? Eh pá, isso já não dá! Eh pá, isso já não é nada cool. Eles podem chatear-se connosco e atirarem-nos para o fundo da sala de aula com umas orelhas de burro. E isso não é fixe. As orelhas de burro não cabem nas selfies e fica feio. (Se fossem umas orelhas moucas, ou assim... Isso já lhe dava um certo charme, à lá povo rico e elegante.)
Não interessa que dêem à costa mais mortos que algas. Enquanto forem lá longe, o tuga disponibiliza-se a receber os que sobreviverem.
Só os que sobreviverem, claro, que para aturar mortos, o tuga não tem paciência!

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

No Meu Colo

É incrível que quando vens de manhã deitar-te a meu lado, o abraço que me dás continue a ser com aqueles braços pequeninos de há anos.
O estado semi-adormecido em que me encontro não distingue os anos que já passaram. Sinto as tuas mãos pequeninas a apertarem instintivamente o meu braço, como se ainda não conseguissem controlar a força ou o movimento; como se, ainda, tivessem os dedos gordinhos e minúsculos. 
Abro os olhos e estás grande, mas a expressão do teu rosto é igual à do bebé que me cabia no colo. De certa forma, continuas a caber-me no colo... 
O meu peito abraça-te, não os braços. E com o peito podemos abraçar o mundo. Cabe-nos tudo cá dentro. E tu, mesmo quando não estás, estarás sempre aqui dentro. No meu peito. E no meu colo.
De certa forma, continuarás sempre a caber-me no colo. 

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Nasceste-me

Nasceste-me no momento em que vi o tracinho rosa. É desde aí que me existes. Ainda um esboço do que és hoje, mas tão inteiro já.
Vives-me e cresces-me e amo-te para além do possível. 
Fizeste onze anos há uns meses e eu vou fazendo anos, meses e dias de ti...
Estamos crescidos, meu amor!

sábado, 22 de agosto de 2015

Perguntinha Que Me Importuna Há Já Vários Anos

Porque é que as mulheres com os pés mais feios são as que têm a mania de os fotografar?
Alguém me tira desta inquietação, por favor?

terça-feira, 11 de agosto de 2015

E que saudades eu tenho de escrever aqui...

Tem sido difícil. 
E se vos dissesse que tenho andado agarrada ao computador quase 24h / 24h? Não seria uma boa desculpa para a ausência, pois não?
Mas é a mais pura das verdades! Arre!

domingo, 12 de julho de 2015

Revelações dos 40

Engraçado ter de chegar aos 40 anos para perceber esta coisa da essência do amor...
Olhar para trás e ver o quanto andávamos enganados quando julgávamos que nos amavam e afinal só nos queriam como adornos, ou porque éramos giros ou porque ficávamos bem num conjunto de gente igual a nós.
Concluir que a beleza física é realmente um factor determinante nas relações pessoais, que é até capaz de incluir imbecis e rejeitar génios e que tem esse enorme poder de nos ludibriar, é revelador da idiotice de uma grande parte da nossa vida guiada por ideais estéticos e desolador quando tentamos encontrar aí algum significado.
E é também revelador apercebermo-nos, aos 40, da diferença que provocamos nos outros se tivermos dez quilos a mais e constatar que somos muito menos inseguros agora, que não temos um corpo magro, do que quando correspondíamos às medidas de uma manequim. É revelador e irónico ao mesmo tempo. 
Mas sentir que, apesar de excluídos das selfies da gente bonita nas festas e de vermos os convites para encontros reduzidos, agora somos livres, livres de sermos nós verdadeiros, inteiros e imperfeitos, e que mesmo assim, fora dos padrões estéticos, quem nos ama, ama-nos no matter what e quem não nos ama, nunca nos amou.


O Poder da Necessidade de Aprovação

"O envelhecimento na mulher é "feio" porque as mulheres adquirem poder com o passar do tempo e porque os elos entre as gerações de mulheres devem sempre ser rompidos. As mulheres mais velhas temem as jovens, as jovens temem as velhas, e o mito da beleza mutila o curso da vida de todas. E o que é mais instigante, a nossa identidade deve ter como base a nossa "beleza", de tal forma que permaneçamos vulneráveis à aprovação externa, trazendo nosso amor-próprio, esse órgão sensível e vital, exposto a todos."
Naomi Wolf in "O Mito da Beleza"

sábado, 11 de julho de 2015

Ser Mãe é Mesmo Tramado!

Depois de andar às voltas para pôr o J. a fazer alguma coisa que não implicasse um ecrã, proibindo-o de jogar Playstation e reduzindo o tempo em frente à televisão, fomos para a rua. Ele levou a bicicleta e eu um livro para ler enquanto, sentada no banco de jardim, lhe dava um olhinho. 

De volta a casa, pergunta-me:
- E agora que já tenho o rabo todo lixado, posso jogar Playstation?
- Não!!!!

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Anoitece no Verão

O rosa do horizonte envolve-me a tristeza e leva-a para longe. Penso o infinito e respiro-me no fresco da noite que ainda está por vir. A iminência de mais um dia fechado liberta-me das poeiras da vida. 
Queria-me sempre assim, quase inteira, onde os pedaços que faltam são aqueles que apenas sobram.

Coisas Mais Estúpidas Ainda

Pela segunda vez.


Coisas Estúpidas

Parti o dedo mindinho do pé.

Amor Amor

Onde mora o amor-próprio? 
Da incapacidade em enfrentar o que nos é estranho até à rejeição do todo que o espelho reflecte, onde mora o amor-próprio?
Poderemos amar-nos na cobardia? E num corpo disforme? Amar-nos-emos mais se formos corajosos ou se vestirmos um corpo bonito?
Onde mora esse amor que tantos contornam?
Num cabelo arranjado? Num copo de vinho com amigos? Numa conversa intensa? Nos corpos entrelaçados? Nas unhas arranjadas?

Procura-se esse amor desesperadamente como se ele estivesse longe demais. Nem sempre está. 
Às vezes, procura-se nos lugares errados.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Vazio

Há pessoas cuja existência nos basta. Saber que estão ali chega-nos. 
Quando deixam de estar, forma-se-nos um buraco no peito.
Tenho mais um aqui a crescer... 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Selfies

Estamos a chegar àquela fase em que os momentos que não foram fotografados são como se não tivessem existido.
Tenho tanto para dizer sobre isto, mas tão pouco tempo para isso...

A ver se arranjo um bocadinho para vir aqui mandar umas larachas.

sábado, 27 de junho de 2015

Elderinas à Vista

No carro.
- Mãe, olha, vão ali as Elderinas!
Olho e só vejo duas raparigas de costas que não consigo reconhecer.
- Como sabes que são as Elderinas?
- São, claro que são! Quando vão duas raparigas loiras a andar muito direitinhas e com as cabeças a rodar para um lado e para o outro como se estivessem a observar tudo à sua volta e a achar tudo maravilhoso só podem ser Elderinas!
Passamos as supostas Elderinas e eu olho para trás para ver se o J. tinha razão. Tinha, eram elas.
- Vês, mãe, como são elas!

DAQUI
Elderinas = Nome que carinhosamente demos aos membros do sexo feminino da Igreja Mórmon.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Aquelas Coisas Pré-Históricas

Estávamos à espera para pagar na bomba de gasolina que o funcionário atendesse um senhor que trocava uma bilha de gás. O J., que observava atentamente a cena, pergunta-nos:
- Há quem use estas coisas?
Eu, que estava distraída a falar com o pai, pergunto:
- Quais coisas?
- Coisas como aquela que aquele senhor está carregar... Aquelas coisas são pré-históricas, não são?



segunda-feira, 22 de junho de 2015

O Clube

Entrei para o clube dos "entas", dizem. E o que há por aí, pergunto. Dizem que é diferente dos "intas". Será? Não sei. Sei que a partir de determinada altura nesta vida deixei de acreditar que aqui chegava. Cheguei. Estou cá para o que der e vier, sem medo de envelhecer, a adorar a possibilidade de envelhecer. Quero mais, muitos mais anos. 
Que venham eles! Sem medos!

DAQUI

sábado, 20 de junho de 2015

É Deixar Alourar...

Eu sei, eu sei, ando desaparecida... 
Mas vou voltar! Não abandonei este blogue, juro! Fui só ali fazer uma descida de QI.
Mais ainda?, perguntam vocês.
Claro, amigos, para lá das loiras estão as loiríssimas e eu fui alourar mais um bocadinho, pois andava a ficar a modos que deprimida (ver vídeo de post anterior, por favor).


terça-feira, 9 de junho de 2015

Pressa

A pressa de crescer revela-se na urgência da independência que se pensa sinónimo de liberdade.
Infelizmente não é.

Como se explica isto a um catraio de onze anos sem lhe destruir as ilusões?

Não Gosto de Princesas!

Estava aqui a pensar porque não gosto nada da ideia das princesas e no quanto me irrita chamar-se princesa a tudo o que é menina...
Enquanto criança sempre quis ser índia. As princesas pareciam-me sempre demasiado inactivas, não faziam nada senão esperar que os cavaleiros as viessem buscar ao cimo das torres onde alguém as tinha prendido. Já as índias conduziam canoas, andavam a cavalo, costuravam roupas com peles de animais e viviam entre os animais. Tinham uma vida muito mais interessante e, na minha opinião, eram muito mais bonitas. Adorava os cabelos longos e negros, as roupas de cabedal com missangas e franjinhas, as tranças e as penas coloridas.
Pelo contrário, as princesas viviam apertadas em espartilhos e passavam os dias em frente ao espelho a pentear uns cabelos demasiado desenxabidos e à espera de um príncipe que nunca mais vinha. Demasiado monótono para quem, como eu, gostava de aventuras e de trepar às árvores e detestava esperar. Se tivesse de escolher entre a vida das princesas e a dos príncipes, por exemplo, sem dúvida que escolhia a dos príncipes. Eles sim tinham vidas entusiasmantes, passavam os dias a cavalo, trepavam às torres, lutavam com dragões e com outros cavaleiros e não se preocupavam com as unhas ou com os cabelos desalinhados.
Ainda hoje não gosto do que se relaciona com princesas. Sou pelo conforto acima do bonito, raramente pinto as unhas, maquilho-me poucas vezes e apenas de forma básica, não uso saltos altos a não ser que seja estritamente necessário, não gosto especialmente de malas e sapatos e detesto estar dentro de roupa que me aperte (o que visto justo tem de ser confortável).
Resumindo, continuo ainda hoje a encaixar-me mais no perfil da índia ou do príncipe do que no da princesa e, talvez por isso, me pareça redutor adjectivar as meninas de princesas, porque as vidas das princesas sempre me pareceram demasiado reduzidas, pequeninas até. Passar o tempo em redor de um espelho e à espera que alguém nos traga uma vida numa bandeja é entediante, e redutor, muito redutor, e encaixar as meninas, futuras mulheres, neste padrão chega a ser ofensivo.
Pelo menos para mim é.

DAQUI

quinta-feira, 4 de junho de 2015

terça-feira, 2 de junho de 2015

Tempo

Vivemos com o tempo desajustado. Vivemos um presente de olhos postos no futuro. Preparamos os filhos para uma vida que virá e esquecemo-nos que eles não são só futuro. São presente e passado. 
Idealizamos as fases da vida em tempos estranhos: as crianças serão amanhã; os velhos foram ontem e os adultos são o presente. Presente envenenado. 
Roubamos a vida aos velhos e às crianças acreditando que estão fora dos seus tempos. Não estão. Estamos nós. Completamente enganados.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

E A Neve Fechou Os Olhinhos...

- Estás cada vez mais bonita. - disse-me em voz trémula aquele pedaço do que um dia foi a minha tia-avó.
Mirrada pela fragilidade que a vem atacando faz tempo, reduzida a uma cama com colchão anti-escaras, olhei-a numa tentativa de a ver como dantes. Tenho por hábito tentar não ver a decadência nas pessoas de quem gosto. Fi-lo com o meu avô; fi-lo com a minha mãe quando esteve um farrapo atacado pelos cancros; fi-lo com o meu filho quando confinado àquela cama de Santa Maria e fi-lo agora com a "tuzinha". 

- Estás cada vez mais bonita.

E um punhado de ossos dentro de uma camisa de noite. E a vontade de lhes tocar e senti-la inteira. Sou pouco dada a tocar nas pessoas, mas às vezes apetece-me chegar-lhes. 
Arranjo-lhe o cabelo com a desculpa de que está desalinhado.

- Realmente o dinheiro faz milagres... Tratam-nos diferente quando pagamos... 

Vem-me à cabeça a falta que lhe faz um pirilampo mágico na cabeceira da cama. Como o que o meu filho teve no hospital. O deste ano é rosa. Vamos comprar-lhe um para a curar das doenças e depois juntar à colecção que guarda no armário do escritório. Amanhã, já o compramos.

- No hospital só faltou baterem-me...

Entram e saem pessoas da sala e nós ficamos. Ela presa à cama e eu presa à memória dela. 

- E a neve fechou os olhinhos...

- A neve não tem olhos!

- Chop, chop, chop, faz o cãozinho...

Cheira-me ao teu café da manhã. Cheira-me muitas vezes ao teu café da manhã, tiazinha.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Da Homofobia Que Não Há

Num destes dias, enquanto ouvíamos Adriana Calcanhotto, contei ao pai do J. que a mulher da Adriana tinha morrido de cancro da mama havia pouco tempo. O J., que me ouviu, perguntou:
- Mulher? A Adriana Calcanhotto era casada com uma mulher?
- Casada casada, não sei, mas eram namoradas há muitos anos. Para lá de uns vinte anos...
- Vinte anos são muitos anos, mãe.
- Se são, J.

Ontem, ouvíamos de novo Adriana Calcanhotto e o J. diz-me:
- A Adriana deve estar tão triste... Não deve, mãe?
Eu, desatenta, pergunto:
- Hã? Triste? Porquê?
- Por causa da mulher dela que morreu. Elas já estavam juntas há tanto tempo...
- É verdade, J., deve estar mesmo triste.

A Criança da Noite

Gostava de saber porque funciono muito melhor durante a noite do que durante o dia. Passo o dia feita zumbie e à noite estou pronta para as curvas. Como fico acordada até tarde, no dia seguinte ando, outra vez, feita zumbie e à noite, de novo, eléctrica. 
DAQUI
Não me venham dizer que acordar cedo vira a rotina ao contrário, porque já tentei e não resultou, apenas me custou um pouco a fase do anoitecer, passada a barreira da meia-noite, fiquei pronta para trabalhar all night long.
Ainda por cima gosto mesmo de trabalhar à noite, estou muito mais inspirada e a criatividade acompanha-me a insónia.
O problema é que todo o mundo dorme e quando se levanta vou-me eu deitar. 

Ó Crato, não dá para arranjar umas escolas nocturnas para os filhos das noctívagas?



quarta-feira, 20 de maio de 2015

Qual é o Tamanho Do Desgosto?

É enorme. Deve ser enorme. Não quero nem imaginar. Mas o amor não acaba. O amor pelos filhos não se esgota na desilusão ou no desgosto. Nem que os filhos se nos mostrem monstros. Amamos os monstros. Para sempre.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O Meu Homem É Um Romântico!

Num rasgo de Dj, o meu homem operando o difícil sistema do Youtube apenas com um dedo no botão esquerdo do rato, diz, levantando a mão no ar e apontado para mim:
- E agora, esta música é dedicada à Sophie!
Carrega no play e ouve-se sair das colunas do computador:
- Não deixe o mau-hálito afectar a sua boca e o seu corpo...

A sorte dele foi que a seguir ao anúncio deu esta música que sossegou os meus instintos assassinos.
Haja amor!


quarta-feira, 13 de maio de 2015

#6 Excertos De Uma Coisa Qualquer: Cazé - El Matador

O jantar estava prestes a acabar. A sala cheia de clientes engravatados que intercalavam o manejo silencioso dos talheres com risadas efusivas.
No fundo da sala, mesmo no cantinho, eles dois sentados um em frente ao outro. O ambiente entre eles tinha chegado àquele ponto em que a ausência de palavras incomodava mais do que uma enxurrada delas sem sentido.
Como que para quebrar o constrangimento do momento e enquanto penteava, com os dedos milimetricamente afastados, o cabelo grisalho reflectido na janela atrás dela, Cazé perguntou numa voz dengosa:
- Já escolheste a sobremesa, querida?
- Quero uma mousse de chocolate - respondeu ela olhando os anéis que lhe adornavam os dedos e pensando se ali não caberia mais um.
- Muito bem! - rematou Cazé.
Pediu a mousse e um café ao empregado, olhou-a nos olhos e voltou a pousar a mão sobre a dela. De vez em quando, mexia o indicador e o polegar em jeito de festa. O movimento dos dedos era acompanhado por uma espreitadela ao vidro da janela, onde confirmava se a expressão do seu olhar coincidia com a intensidade das suas acções e palavras.
Ela contemplava-o como a uma obra de arte. Tinha de usar a imaginação para ver o que Cazé fingia esconder debaixo da roupa, mas que trabalhava arduamente todos os dias no ginásio. 
Ele adorava o efeito que tinha sobre mulheres como ela. Sentia-se poderoso sempre que o olhavam daquela maneira; sempre que o ouviam contar detalhadamente as tarefas do dia; sempre que o deixavam notar a ânsia por um novo convite para sair. Nestes momentos, Cazé era rei e a sua presença fazia vibrar o mundo. Ó se fazia!
Acabado o café, tirou o pacote de pastilhas do bolso da camisa. Com um movimento rápido e certeiro atirou uma pastilha para dentro da boca e disse de si para si, enquanto a mascava cheio de vitalidade:

- Cazé, é hoje. Podes ter a certeza que não passa de hoje!

terça-feira, 12 de maio de 2015

O Bullying das Orelhas

O rapaz está traumatizado, não vai à escola, porque lhe gozaram com as orelhas na televisão. Ok, foi mau, mas o programa é péssimo, sempre gozou com as pessoas. Ou porque não cantam bem, ou porque têm voz esganiçada, ou porque lhes apetece. O programa serve para isso, senão não passavam as imagens das audições e faziam-nas antes do programa vir para o ar e usavam-nas como forma de triagem dos concorrentes, não os ridicularizando em público.
O programa é mau, é insuportável, e vive de gozar com as pessoas, alimentando-se do escárnio aos concorrentes que já sabem de antemão que, ou são escolhidos, ou são gozados, ou são escolhidos e gozados e, às vezes, desrespeitados e muito mal-tratados.

A culpa do miúdo ter ficado traumatizado é do programa? É, porque é uma merda.
A culpa do miúdo ter ficado traumatizado é dos pais do miúdo? É, porque o deixaram concorrer a um programa de merda.

O que me admira é que só agora, depois de gozarem com as orelhas de um puto, perceberem que o programa não presta. 

Vá lá, antes tarde que nunca.

DAQUI

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Gente dos Lenços

David Cameron a falar na, pouco usual nos hospitais, Sic Notícias. Sentada por baixo da televisão, uma cabeça coberta com um lenço rosa desbotado. O filho ao lado, já adulto, com o dedo a trabalhar no telemóvel. O lenço está atado para o lado do filho. Cai-lhe o resto sobre o ombro a fazer de rabo-de-cavalo de um cabelo que já não tem. 
De vez em quando, olha-me que estou de frente para o David e para ela. Muitos anos de vida e agora isto. Sem cabelo e com um bicho qualquer a comer-lhe as vísceras. Ouve o Cameron sem atenção. Afinal, nem sabe quem ele é. Se estivesse de frente talvez lhe reconhecesse a cara. Agora assim... 
Os pensamentos falam-lhe mais alto do que o primeiro-ministro britânico que está lá no alto sobre a sua cabeça e para quem poucos olham. Como irá correr o exame? E a cozinha deixada por arrumar... Saída à pressa de casa para esta espera... Que sentença lhe estará reservada?
Observa os pés para, de seguida, cruzar o olhar no meu. Há uma compreensão silenciosa nos nossos olhos. Aqui, sempre falámos assim, com os olhos. Na linguagem do IPO não há palavras, apenas olhares.
Entra um homem sem boca. Em lugar dela uma cavidade. Tenta escondê-la com o lenço de papel branco. Todos sabemos que já não está lá, mas fingimos não reparar. Olhamo-lo com cumplicidade apenas nos olhos que vão perdendo o brilho, evitando a cavidade que já foi boca. 
Todos conhecemos aquele brilho que se esvai. Temos olhos que passaram pelo mesmo. Alguns de nós já não se lembram como brilhavam. Já cá andam há muito tempo. É bom sinal. É sinal de que não ficámos pelo caminho. 
Não, nem todos conhecemos o brilho que se ausenta... Os que nunca estiveram doentes disto não falam esta língua, apenas decifram algumas dores através de nós que usamos, ou usámos, lenços. Os olhos deles ainda têm o brilho que se nos foi. São analfabetos nos olhos e de lenços a tapar-lhes a dor.
Sai o lenço rosa agarrado ao filho. Sai trôpego para mais um exame, mas lá vai.
Há um casal que entra com um cãozinho de algibeira ao colo. Podem entrar aqui cães? Uma voz a articular palavras de bebé irrompe o silêncio. São para o cãozinho de algibeira. Penso no quanto detesto gente que articula palavras de bebé aos animais. E aos bebés. Na verdade, detesto gente que fala como bebés. Só os bebés deviam poder falar como bebés. 
O David Cameron dá lugar ao parlamento. Os deputados discutem muito, mas ninguém os ouve. Querem lá saber do que dizem! Quando a saúde está em causa, que se lixe aquela gente do parlamento! Ficam pequeninos, tão pequeninos diante das faltas de bocados de corpo que tapamos com um lenço...
O cãozinho geme a ausência da dona que foi fazer o exame e a senhora que fala à bebé diz "coitadinho, quer a dona, quer?" e eu arrepio-me de desagrado e pouso o olhar nas costas do homem sem boca. Sinto-me tão mais próxima dele do que da bebé, como se só conseguisse encontrar humanidade em nós, nos dos lenços que encobrem um vazio e descobrem o todo da gente.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Às Vezes a Sintonia Materializa-se Num Frasco de Nutella

Estou farta dos dias disto e daquilo. Confesso que já não tenho grande vontade de os comemorar. Além do 25 de Abril e do 1 de Maio, que me parecem agora mais emergentes do que nunca lembrar, dispenso todos os outros dias festivos. Não lhes vejo grande sentido, nem me apetece oferecer presentes só porque sim, porque somos obrigados ou porque parece mal não oferecer. Na verdade, todo o limite do "parece mal" é combustível para me apetecer fazer.
Coisas de adolescente rebelde por resolver, o que é que querem?

Este ano, estive mesmo para não oferecer nada à minha mãe, mas ela mostrou-se meia triste, por isso acabei por lhe comprar uma florzinha.
A minha mãe queria oferecer uma flor à minha avó, sua mãe, então fomos os três à florista, eu, ela e o meu bicharoco. 
No caminho, o bicharoco, que ainda é mais contracorrente do que eu, disse:
- Flores? Oh, não, não têm piada nenhuma... Depois vão ter de as regar.
- Não, J., estas flores não se regam, põem-se numa jarra com água e pronto.
- Mas assim elas morrem... E flores toda a gente dá. Temos de arranjar alguma coisa mais original.
- Então arranja. Mais original como o quê, por exemplo?
- Um frasco de Nutella ou qualquer coisa do género... Comprávamos um para a bisavó e outro para a avó com aqueles autocolantes que dizem o nome delas ou dizem"mãe".
- A bisavó nem gosta muito de Nutella e eu também não comia aquilo tudo. - disse a minha mãe.
- Oh, mas flores?!
- Sim, flores. A bisavó vai gostar mais, de certeza, e a avó também quer uma, não quer? - atiro a pergunta à minha mãe como quem não quer a coisa.
- Não, não é preciso - responde-me naquele tom de voz dela que quer dizer sim.

Enquanto a avó do J. esperou no carro, eu e o bicharoco fomos comprar as flores. Escolhemos uma de cada cor para cada uma das mães, mas o J. ficou a olhar para um molho de cravos vermelhos que espreitava de dentro de um balde à nossa frente.
- Mãe, acho que a bisavó ia gostar mais de um cravo...
Eu, que já lhe tinha lido o pensamento, respondi que tinha razão e que íamos levar um cravo, também, para a bisavó.

De volta ao carro, explico à minha mãe porque trouxemos o cravo e digo em voz provocadora:
- O J. lembrou-se do cravo para a bisavó, mas não se lembrou de uma flor para mim...
- Oh, tu querias? - pergunta-me desiludido.
- Não, prefiro um daqueles pequenos-almoços na cama que tu tão bem sabes fazer ou esse frasco de Nutella de que falaste.
- Ah, bem me parecia! - suspirou de alívio.



domingo, 3 de maio de 2015

Frases do Dia da Mãe

A partir de agora este blogue começa a bombar em visualizações!
É que, em todos os Dias das Mães, o pessoal cai aqui de pára-quedas quando anda à procura de frases para pôr no Facebook das mães.

Welcome, strangers!
Podem levar esta, é um presente! Para a viagem não ter sido em vão.

Feliz Dia da Mãe!



quinta-feira, 30 de abril de 2015

E Numa Subtil Proximidade, Chego o Nariz Ao Teu Cabelo...

Às vezes as palavras não chegam e o toque não se proporciona. Estamos longe ou apressados. Ou estamos longe e apressados. Temos também vidas em paralelo. Tu, pequeno ainda, tens amigos em construção, relações a firmar, uma imensidão de coisas a aprender. Tens os dias a fazerem-se quotidiano.
Eu, já grande, tenho coisas a tratar e a fazer, manutenção do que edifiquei, reconstrução pessoal, enfim... Tenho quotidiano que me passa pelos dias.

Às vezes as palavras não chegam e o toque não se proporciona. E numa subtil proximidade, chego o nariz ao teu cabelo, dou-te um beijo na testa, rasgo a distância que teima atravessar-se entre nós e inspiro o aroma que exalas. Sei da tua tranquilidade ou tormenta pelo cheiro, reconheço-me as entranhas em ti. Adivinho pelo cheiro da cria que é, afinal, tão parte de mim.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Matéria de Ciências

A fazer perguntas de Ciências ao J. como preparação para o teste.

- Que tipos de reprodução há?
- Há a sexuada e a assexuada.
- Como é a assexuada?
- É um ser que se reproduz sozinho.
- Como?
- A partir de uma parte do corpo que origina outro ser igual a ele.
- E a sexuada?
- Oh, tu sabes...
- Sim, sei, mas quero que me expliques.
- Oh, oh, é através do... sexo. 
- Sim... mas como?
- Ó mãe, isto hoje é só a palavra sexual para cá e para lá...
- É normal já que a matéria é sobre a reprodução!
- Explica-me lá como é a reprodução sexuada.
- É através do espermatozóide que fecunda o óvulo.
- E pode ser o quê? 
- O quê, como?
- Interna e externa...
- Ah pois...
- O que quer dizer?
- Que pode ser dentro ou fora do corpo da senhora.
- Sim, da fêmea. Não precisa de ser uma senhora.
- Pois.
- E os rituais de acasalamento? O que são?
- São rituais antes de acasalarem.
- Boa! Dá-me um exemplo.
- Há um pássaro que dá uma minhoca à fêmea.
- Convida-a para jantar?
- Ah ah ah! Sim é isso. As pessoas também têm rituais de acasalamento?
- Sim, dão ramos de flores e caixas de bombons.
- A sério?
- Não, estou a brincar!

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Who Are You, Kurt?

Fui ver este filme no fim-de-semana. 
Mais do que pensar na vida da estrela, Kurt Cobain: Montage of Heck, fez-me pensar no meu filho. Se a forma como o estamos a educar é a correcta; se há, realmente, alguma forma correcta de se educar os filhos; se lhe damos amor suficiente, e se ele o sente como tal; se o nosso amor não o sufoca; se o facto de ele ter sido um miúdo muito fácil e compreensivo até agora, significará que irá ser um adolescente difícil; o que é isso de "adolescência difícil" e "infância fácil"; onde está o ponto de equilíbrio entre a protecção e segurança e a liberdade de experimentar e de crescer. 

Se gostei do filme? Adorei, mas saí de lá meio angustiada. Valeu pela humanização da estrela, pela minha introspecção e pela música genial. 
Valeu por tudo. Vão ver!

sábado, 25 de abril de 2015

Olho Invejável

O sábado passado foi dedicado à fotografia.

O pai do J. é homem de máquina em riste e, por acaso, é bom mas bom na cena. Bem, não é por acaso, é porque ele tem um olho invejável. Este homem vê para lá do que nós, comuns mortais, vemos. E depois fotografa o que vê, o que é óptimo para ceguinhas como eu que, geralmente, não vêem nada.
Além do olho, o homem tem mais umas tantas coisas que me enchem de orgulho de ser este o pai que calhou ao J. (e o homem que me calhou a mim), mas não as vou discriminar aqui. Primeiro, porque não gosto de ajudar a concorrência a crescer, depois porque atiraria este post para a categoria porno-coisa e teria de pôr uma bolinha vermelha no canto superior direito, coisa que, como exímia "lerdinha das informáticas", não sei fazer. (Se o soubesse também não adiantaria muito, pois o header é vermelho e a bela da bolinha nem se veria). Adiante.

Voltando ao sábado passado, a razão de paparmos quase tudo o que é fotografia deve-se ao facto do pai do J. ter este olho invejável e consumir doses altas de fotografia. Tenho quase a certeza que, se ele não tivesse este olho invejável não consumiria tanta fotografia e se não consumisse tanta fotografia, nós não teríamos a oportunidade de papar tantas exposições quanto as que papamos.
O pior disto tudo é que nós também já começámos a ficar viciados na coisa e não vamos ver as exposições, com ar de seca, só para o acompanhar, vamos porque também gostamos e porque isso passou a ser um prazer também para nós. Ora bolas que já não há quem controle a gulodice nesta casa!

Voltando ao sábado (que estou sempre a perdê-lo), fomos ver a exposição Modernidades: Fotografia Brasileira à Gulbenkian, depois à Cordoaria Nacional, ver a Génesis do Sebastião Salgado e acabámos em beleza a ver, no cinema, o documentário O Sal da Terra de Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders sobre o mesmo Sebastião Salgado. Foi óptimo! Uma barrigada de fotografias belíssimas e poderosíssimas. No entanto, uma dinheirama... (Neste país, se o povo quer ser culto, tem de pagar bem, quiçá deixar de comer para se poder cultivar. O que vale é que no fim de um dia assim sentimo-nos tão preenchidos que esquecemos a fome. Digo eu para amenizar a coisa e evitar pôr-me aqui a chamar nomes a essa maltinha ranhosa do governo!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

E Ainda Dizem que os Aliens Não Existem...

O meu miúdo tem andado meio estranho. De manhã, quando acorda, tem vómitos. Depois passa-lhe e não tem mais durante todo o dia. 
Fui com ele ao médico que isto de o ver sofrer, por mais leve que seja, dá-me a volta ao estômago e aperta-me o peito. Tento fingir que não, que sou forte e muito racional, mas a verdade é que me apetece ir logo com ele ao médico em completo histerismo. A sorte é que a minha mãe faz esse papel da histérica mais rápido do que eu, o que me dá algum espaço de manobra para me armar em racional.
Foi o papel da racional e ponderada que encarnei durante duas semanas em que experimentámos tudo: mudámos de pequeno-almoço, tomou-o mais tarde, não lavou os dentes a seguir a comer, lavou os dentes antes de comer, não lavou os dentes de todo, jantou mais cedo no dia anterior, dormiu de cabeceira levantada, etc., etc. Depois destas experiências, do miúdo continuar com vómitos e de eu já poder ser histérica de consciência tranquila, fomos mesmo ao médico que lhe passou análises. Por causa delas, hoje fomos tirar sangue. 
O miúdo é um corajoso nestas coisas e foi impecável. A parte do sangue a sair foi serena, o problema foi a papelada e... comigo, claro.
Ok, eu sou uma chata, eu sei, mas há princípios que não largo, o que é que querem? 
A minha chatice de hoje foi no final da senhora receber a credencial e registar o que tinha a registar, no momento em que entregou um papel ao meu miúdo para ele assinar. Mal sabia ela o que estava a fazer... 
Perguntei se podia ser eu a assinar.
- Ah... ah... sim, mas tem que pôr o número do BI... Se for ele é mais fácil. 
- Ok, eu ponho o número do BI. Assino eu que ele não tem idade para ser responsável. Deixemo-lo aproveitar enquanto pode - respondi com meio sorriso.
- Mas não tem a ver com responsabilidade... Basta assinar - insistiu a senhora.
- Ok, assino eu. Quando ele tiver idade, ele assina.
- Temos que os deixar crescer... E eles até gostam de ser eles a assinar...
- Sim, mas é uma questão de princípios como outra qualquer, prefiro ser eu a assinar.
Assinei, pus o malvado do número do BI que custa tanto a pôr e fomos tirar sangue. A senhora e restantes clientes trocaram olhares cúmplices como quem diz "esta é maluquinha, ainda se agarra a essas porcarias chamadas princípios... dá tanto mais trabalho pôr o número do BI do que fazer como manda a burocracia..."
Fomos embora com a etiqueta de aliens colada às costas e o J. não esperou muito para me perguntar porque não o tinha deixado assinar. Também quis saber se eu achava que ele tinha sido totó por estar prestes a assinar quando a senhora lhe tinha dado a caneta e dito para ele o fazer.
Disse-lhe que não o achava nada totó e que era normalíssimo ele aceitar assinar já que a senhora lhe tinha dito para o fazer e expliquei-lhe que tinha insistido para ser eu, porque assinar um documento é responsabilizarmo-nos por ele, é um acto de cidadania em que pomos o nosso nome por baixo daquilo que lemos e aceitamos e que ele ainda tem dez anos, por isso não tem responsabilidade para o fazer e nem precisa preocupar-se com isso. Disse-lhe ainda que, quando ele tiver idade para isso, ele assinará as coisas dele com a devida responsabilidade sobre aquilo que assina e não porque gosta de brincar aos adultos como a senhora disse que os miúdos gostam de fazer. Ainda me perguntou se estava chateada. Disse-lhe que mais ou menos, que estas coisas me irritavam um bocado, mas que não era nada com ele.

Sinceramente, acho a assinatura de documentos uma coisa muito importante e que se a passarmos às crianças como uma brincadeira, elas crescerão a pensar que não tem qualquer importância e não se responsabilizarão por aquilo que assinam. 
Ao contrário do que a senhora disse, deixo o meu filho crescer, mas dou-lhe espaço e tempo para isso, porque quero que ele quando tiver que se responsabilizar pelas coisas se responsabilize mesmo e não ande por aí a fingir que é muito consciencioso com coisas que não faz a mínima ideia do que são e, como algumas pessoas que vejo, finja que sabe o que anda a fazer. Quero que ele saiba mesmo, mas no tempo devido, não cedo demais e só porque me dá mais trabalho.

Sim, esta porcaria dos princípios que os aliens têm a mania de usar não os deixa agir como lhes mandam, feitos autómatos. É coisa para os fazer pensar um bocado, mesmo naquilo que, à partida, parece uma insignificância. Sim, dá algum trabalho e isso é chato e aborrece os terrestres que são seres muito atarefados e não têm tempo para andar por aí a pôr o número do BI em tudo o que é papel.

Temos pena, vão para Marte!

quinta-feira, 23 de abril de 2015

#5 Excertos de Uma Coisa Qualquer (Continuação Inventada do 1º Parágrafo da "Metamorfose" do Kafka)

Não estava habituado a ser insecto. Geralmente, acordava cão ou gato. Em tempos, acordara peixe e tivera que saltar para a banheira cheia de água tal fora a agonia que sentira por não conseguir respirar. Acordar insecto era uma novidade. As dificuldades de locomoção eram enormes já que tinha a mania de dormir de barriga para cima e fora assim que acordara. A desproporção entre o corpo e as perninhas minúsculas que se agitavam no ar impedia que Gregor rodasse sobre si próprio de forma a adoptar uma posição que lhe permitisse andar. Este obstáculo era novidade, pois os cães e os gatos em que se tornara anteriormente tinham corpos de dimensões mais harmoniosas, uma maior agilidade e quatro patas em vez de seis. À partida, podia parecer que mais patas significaria maior facilidade de locomoção, mas o facto mostrara-se completamente o oposto: mais patas só incomodavam.
Gregor era exímio em transformar-se em animal pela manhã. Deitava-se humano, não muito humano, é certo, mas semelhante a um e acordava animal. Passava todo o dia na forma do animal em que acordara e à noite, já tarde, voltava a assemelhar-se a um humano. Estas sucessivas metamorfoses diárias tinham-no provido da capacidade de se adaptar a qualquer tipo de alteração que se lhe atravessasse pelo caminho. O primeiro desafio daquele dia seria arranjar um modo de sair da cama.
Na esperança de que as três perninhas de um dos lados tocassem a cama e se lhe agarrassem com força suficiente para o virar, balançou o corpo. Balançou-o uma vez, duas vezes, três vezes sem sucesso. As perninhas de insecto mostraram-se a maior inutilidade que lhe tinha surgido durante esta odisseia animalesca.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

#4 Excertos de Uma Coisa Qualquer

As canetas de feltro estavam espalhadas na mesa que fazia de toucador e secretária em simultâneo. Rita trocava de caneta consoante a cor de que queria pintar o céu , a casa, o sol. Tentava não ouvir a mãe que não parava de falar e de arrumar coisas nas malas.
- Em casa da avó vais poder brincar no jardim, andar de baloiço, dar de comer às galinhas e brincar com os coelhinhos. Adoras brincar com os coelhinhos, não adoras?
- Sim, mãe. - responde Rita enquanto mostra o desenho ao pai que a observa em silêncio.
- A avó faz bolinhos muito bons. Ao pequeno-almoço vais ter bolinhos acabados de fazer, ainda quentinhos, e vais poder ouvir os passarinhos a cantar. Eles cantam muito alto de manhã. - continua a mãe.
- E a escola, mãe? Vou deixar de ir à escola?
- Só por uns tempos. Depois voltas.
O pai levanta-se da cadeira ao lado da filha e dirige-se à janela. Olha o parque de estacionamento do hotel lá em baixo e pergunta a Rita:
- Porque não fazes um desenho de nós dois a brincar para o pai levar? Podia pendurá-lo na parede... como se fosse um quadro.
- E com a mãe? Assim ficávamos os três pendurados na parede para sempre como num quadro.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Eis o Que Sobrou Das Maminhas Que Amamentam

Escrevi um longo post sobre a prova das maminhas que dão leite, mas achei que não valia a pena publicá-lo. Apaguei-o.

Do longo texto sobraram as seguintes questões:

O que raio é medicina ocupacional?

- Andam a ver se tiram o benefício das duas horas diárias a quem amamenta porque começaram a ver muitas mães a amamentar os filhos depois do ano de idade? 

Não, não deve ser isto, afinal o incentivo à natalidade é muito mais importante do que duas horas diárias de trabalho.

Ou não é?

#3 Excertos de Uma Coisa Qualquer

O poder do dinheiro e da reputação eram uma droga de má ressaca. Inebriar-se agora com o novo posto significava dias fechado no quarto, de cama, a vomitar as falsidades dos outros, os sorrisos amarelos e as cortesias forçadas. Sabia o que o esperava, no entanto não hesitava em comprar o bilhete para aquela viagem. Embarcaria de qualquer jeito, mesmo sabendo que dali poderia não haver regresso. 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

#2 Excertos de Uma Coisa Qualquer

Começou por correr devagar e foi acelerando o passo a cada minuto. Os óculos serviam de barreira ao vento que soprava cada vez mais forte e empurrava-lhe os cabelos para trás. Aproveitava a corrida para apreciar a paisagem e rever a vida. As férias ainda mantinham uma presença viva na memória. A namorada a bater com a porta do quarto de hotel e a dizer que não o queria voltar a ver ecoava-lhe na mente.  Cada passada era o bater daquela porta e a sensação de abandono que o seguira. Tentava, em vão, que a aceleração da corrida empurrasse aquela solidão para trás das costas.
Em vão.

Bullying Blogosférico

Assisti a alguns episódios de bullying blogosférico e não gostei nada do que vi.
Não, não eram adolescentes. Não, não eram crianças.
Sim, eram pessoas adultas que, supostamente, deviam ter educação e algum juízo.
Mas não. Foram episódios tristes, muito tristes.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Proibição e Educação

"O mais fácil é proibir."
Em tempos, quando me dei ao trabalho, ou ao prazer, de me dedicar a analisar comportamentos humanos, nomeadamente de professores, pais, educadores, etc., reparei que a lei do menor esforço anda, geralmente, de mãos dadas com as proibições. Proibir é o mais fácil: não há explicações a dar, não há intenção de educar, ou de justificar o porquê de uma causa surtir num determinado efeito. Nada. Proíbe-se e está feito. Se não se respeitar a proibição é-se sancionado, ponto final parágrafo. Vai-se de castigo, leva-se uma palmada, ou qualquer outra coisa que faça uma mossa idêntica à falha cometida. Assunto arrumado, não se fala mais nisso.
Ora eu sou teimosa e detesto castigos. E só dou palmadas se achar que o meu filho precisa de um abanão para estar mais atento ao que lhe quero dizer. Sim, admito, dou palmadas de vez quando. Muito raramente, porque não lhes vejo grande utilidade. Prefiro abrir as portas da consciência dos próprios actos do que abrir a mão e espetar um tabefe ao miúdo. 
Além de me parecer uma atitude mais útil, confesso que vislumbrar a compreensão da causa / efeito nos olhos do meu filho e o entendimento de uma parte importante da vida me dá maior satisfação do que o ver chorar por lhe doer o rabo. Na verdade, as palmadas que lhe dei, doeram-me sempre mais a mim do que a ele e, se não fosse por mais nada senão para proteger este coração demasiado sensível de mãe, evito magoar o meu filho seja com as mãos, seja com as palavras ou com castigos. Por isso, não dou a mão à preguiça e sou, amiúde, chata p'ra caraças. Explico tudo e mais alguma coisa e mostro que os efeitos das nossas acções não falham, e, infelizmente, nem sempre tardam. Gasto tempo a explicar-lhe as coisas, gasto tempo com o assunto, mas asseguro-me de que a mensagem passou e de que ele aprendeu alguma coisa com o erro, a falha ou a experiência, ou como lhe queiram chamar. Só assim me parece que serviu de alguma coisa, só assim vejo que aprendeu, que cresceu.
Mas às vezes, tenho que deixar o erro acontecer e ficar à espera que ele ponha o pé no buraco para aprender a olhar para o chão - para ser sincera, esta é a parte que mais me custa, mas nem por isso a acho menos importante. Antes pelo contrário, acho-a das mais importantes e decisivas para o crescimento saudável das crianças e, parece-me que andamos todos a querer saltar esta parte.
"Ah e tal, proibimos o consumo de álcool e eles já não se embebedam"; "ah e tal, controlamos as saídas da escola através de cartõezinhos electrónicos e eles já não saem da escola para irem fazer asneiras"; "ah e tal, damos-lhes uma PSP cheia de jogos giros e educativos e eles já não se distraem com coisas potencialmente perigosas como drogas e coisas dessas que viciam muito".
Explicar que há coisas que lhes fazerem mal? "Oh não, não é preciso que eles nem lhes vão chegar perto!" Deixá-los queimar os dedos para perceberem que o fogo queima? "Oh não, não é preciso que eles nunca vão usar isqueiro, porque estão proibidos de fumar e o fogão é de vitrocerâmica"

Mas um dia a bolha rebenta e eles saem lá de dentro virgens para uma vida cheia de coisas novas (boas e más) e caem no primeiro buraco que lhes aparece, porque não fazem ideia que o chão pode ter buracos. Não sabem que, além dos jogos, o álcool e o tabaco também viciam; que a escola existe fora dos muros e da porta; que o lume queima e que há gente má que, às vezes, faz mal a outras gentes.

Nesse dia, o fácil torna-se difícil. Muito difícil.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Miúda Gira Que Se Farta

A amizade não escolhe quando nascer. Às vezes, basta um pequeno instante para florir, assim como o amor que não bate à porta quando quer entrar. Surge simplesmente. E apanha-nos desprevenidos. 

Tive uma amizade destas, fugaz, que durou muito menos do que eu desejaria, porque a minha instantânea e querida amiga faleceu no passado fim-de-semana. Foi um cancro que a levou. Mais um sacana desses... 
Fica a saudade das conversas que não tivemos tempo de ter. Fica a saudade desta "miúda gira que se farta". Fica a saudade de ti, Isabel.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Lugares-Comuns

Lugares-comuns dão falta de ar.
O ar rareia no espaço apertadinho do lugar-comum, tornando-o claustrofóbico. Só as palavras mudam, saltitando entre aquelas que custam alguns tostões e as gratuitas. Podia encher-se o pequeno espaço de palavras vazias que resultaria no mesmo. Mas não. Há quem insista em repletá-lo de palavras preciosas, enclausurando-as no covil banal. Pobres são as que calham aninharem-se em minúsculo recinto de banalidades. Pobres e miseráveis.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

#1 Excertos De Uma Coisa Qualquer

Começar agora era como nascer adulto e enfrentar o mundo com experiência de sábio. Naquele momento, trazer toda a sabedoria de uma vida carregada de ensinamentos às costas e explorar princípios pareceu justificar toda a minha existência. Justificou-a realmente. Se não tivesse dado aquele passo teria apagado a força que me permitiu sobreviver às intempéries da vida, à tempestade que aquela separação se mostrou. A mudança para Barcelona não apagou a dor e a mágoa, mas transformou-as em dormências toleráveis.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Silêncio das Mãos

Há tempos que não escrevo. Há tempos que não escrevo nada.
É como se tivesse uma mão a tapar-me a boca com coisas a querer sair que esbarram nela.
Tenho coisas para dizer. Mas não digo. Limito-me a um silêncio que não conheço. Este da não escrita, da mão quieta e silenciosa.
Tenho mãos com muito para dizer. Boca não. Digo poucas coisas pela boca. Digo só aos meus, aos íntimos. Às vezes, de rompante. Às vezes, magoo com as palavras que me saem da boca.
A minha boca é íntima como os meus. Tão íntima que não gosto de beijos a estranhos. Nem os que a cordialidade obriga. Chega-me a mão que aperta a outra. Ou diz "bom dia", ou diz outras coisas.
Tenho uma boca que se cala para dar voz às mãos. Sim, às mãos, que já não se escreve só com uma. Escreve-se com as duas. Estão inquietas, as minhas. Loucas para dizer coisas e cansadas de se calarem.
Hoje, as minhas mãos precisam de gritar bem alto que não são mudas e que precisam de dizer

coisas.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Estou Mesmo A Ficar Velhota!

Bem me parecia que a Clínica do Avô não estava aqui por acaso. É que esta que vos escreve anda com problemas de memória como os mais velhotes. Ou melhor, não é bem como os mais velhotes, porque, segundo me parece, eles lembram-se melhor do passado mais remoto do que do mais recente. Eu sou o contrário. Lembro-me com relativa clareza de coisinhas sem importância que tenham acontecido há... minutos, mas já não me lembro bem se este planeta é a Terra ou Marte. 
É que a humanidade apareceu por aqui há já muito tempo.

Não é que no post anterior troquei a Terra por Marte?
Chegou aqui o pai do J. a dizer "o quê? Marte? Não era isso que eu dizia, era Terra!". 
Ups!
Respondi-lhe que realmente não me suava bem Marte, mas que me tinha saído assim e acabei por deixar ficar.
"Desculpa lá, mas vais ter que mudar isso! Não tem lógica nenhuma ser Marte. Quem é que anda a chamar um bebé de Marte e para Marte? Nós estamos é na Terra!" 

Dei a mão à palmatória e mudei, um bocado contra vontade. 
Podem ir lá ver que o bebé, afinal, era chamado para a Terra. 

Se soubéssemos o que sabemos hoje, provavelmente tê-lo-íamos chamado mas era mesmo para Marte que se deve estar lá bem melhor do que aqui! Digo eu que gosto pouco de dar a mão à palmatória!

terça-feira, 17 de março de 2015

Alô, Alô, Terra Chama Bebé!

DAQUI
Quando o meu filho nasceu, ficou a dormir quase dois dias. O miúdo vinha cansado, o que é que se pode fazer? 
Eu também teria dormido, que esta história de parto é cansativa que se farta, mas pus-me a chorar. As hormonas, ainda aos saltos, encheram-me de tristezas e o vazio do ventre subiu-me à cabeça. Mal me levaram o filho, depois de mo terem pousado sobre o peito, o vazio instalou-se. Aquele pequeno ser, que há tão poucos minutos se tinha materializado em bebé, tinha acabado de me abandonar depois de oito meses e meio em permanente presença. Como poderia eu gerir aquela sensação de abandono, juntamente com a percepção de que aquele peso na barriga que não me deixava ver os pés era, afinal, um bebé? Como poderia eu gerir o facto de ter tido um filho e terem-mo levado assim, sem mais nem menos, enquanto as hormonas me gritavam coisas más aos ouvidos?
Quando mo devolveram, trouxeram um bebé adormecido. Aquele bichinho chorão que eu havia visto por breves instantes após irromper por mim afora, era agora um bebé tranquilo, tão tranquilo que não acordava por nada. E eu, sempre em plena luta com as hormonas, chorava. Ele dormia e eu chorava. Eu chorava e ele dormia. O miúdo dormia tanto que as enfermeiras não o largavam, ora a medir a glicose através de picadas nos seus pequeninos dedos dos pés, ora a dobrá-lo e a contorcê-lo para que acordasse. Mas ele nada. Não queria saber de enfermeiras malvadas nem daquela mãe que lhe calhou na sorte (bem mais tranquila vista de dentro) que agora só chorava. Deve ter pensado que, para aturar aquela gente, mais valia não ter nascido e ter ficado no quentinho a ouvir as piadas de uma voz que lhe falava de vez em quando e o chamava à Terra. "Alô, alô, Terra chama bebé! Alô, alô, Terra chama bebé! Escuto. Escuto." E ele dava-lhe um pontapé no ouvido encostado à barriga, ao que a voz, em vez de chateada, ficava contente. Devia desconfiar que aquela voz continuava por ali, mas como não dizia tantas piadas e a mãe chorava em vez rir, preferia dormir. E dormia.

DAQUI
E eu continuava a chorar. Olhava para ele e chorava. Chorava pelo vazio, pela impotência, pela dependência que aquele ser tinha de mim. De mim que me sentia incompetente para tamanha responsabilidade, de mim que não sabia tratar de bebés. Chorava por não lhe saber dar de mamar, mudar fraldas, dar banho, vestir ou despir. E porque me tinham entregado um bebé adormecido e eu não fazia a mínima ideia do que era suposto fazer-lhe. 
E também chorava por ele não acordar. Precisava de um bebé desperto, que me pedisse para mamar, que refilasse por ter a fralda molhada, que demonstrasse desconforto para me obrigar a interagir com ele. Mas ele não. Ele dormia numa calma perene. Parecia que o embalo daquele sono era tudo o que precisava. Como poderia eu querer invadir a serenidade que o meu bebé já trazia? Não podia. Por isso, olhava-o e pensava "é tão lindo o meu bebé!" e chorava.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Correr é...

...Uma merda!

Que me desculpem os apologistas da corrida (inclusive o pai do J.), mas correr sucks! Eh pá, não gosto! Eu esforço-me, e estampo um sorriso nos lábios, e digo a mim mesma que depois dos quinze minutos é que é, é que me vou sentir super bem, e livre, e essas cenas todas que vocês, amantes da corrida, sentem. 
Mas aos quinze minutos não acontece nada e a vontade de parar de correr é cada vez maior, e grito-me (para não ter a desculpa de que não ouvi) que afinal não é aos quinze, mas aos vinte minutos que a magia acontece. Mas a magia não acontece, que eu tenho o mágico avariado, e aos vinte e cinco minutos de tortura ainda estou a pôr a cenoura à frente do burro (ou da burra) com a treta que aos trinta é que é. 
E corro trinta, a trinta e cinco, minutos a enganar-me de que aquilo é bom, e faz bem, e que já estou mais magra, e que correr é uma sensação de liberdade e de superação, e que basta eu deixar de resistir e deixar-me ir que começo a aproveitar o momento e a magia a acontecer. 
Durante trinta e cinco minutos, ecoa na minha cabeça a frase do meu filho "mesmo que estejas a morrer, não pares!". Obedeço em sofrimento até chegar o fim do tempo estipulado (ou a burra zangar-se e comer a cenoura duma dentada só).

Mal paro, voilà, a magia acontece e sinto a tal sensação de liberdade percorrer-me o corpo todo ao mesmo tempo que me diz:

Finalmente parei de correr, porra!

Dia Da Mulher

Não fiz "post" sobre o Dia da Mulher, porque estava sem computador, mas se o tivesse feito seria para lembrar a Rita / Silvina, que escreveu o seu último "post" neste dia de 2013.
Desde O Peso do Cancro que o Dia da Mulher ganhou um novo significado para mim. 
O cancro pesou-lhe muito, demais, e acabou por a levar, mas a memória da Rita / Silvina ficou como homenagem às mulheres.

Saudades de te ler!

Episódios de Radio

Asco de Gente

Às vezes, sinto um desprezo enorme por esta sociedade. 
Às vezes, o desprezo é tanto que chego a ficar enjoada.
Esta gente pequenina, que se faz gigante quando se gaba de merdas insignificantes e diminui gente de valor para se sentir alguém, dá-me a volta ao estômago.
Às vezes, há gente que me enoja não só por aquilo que é, mas por aquilo que representa. E é de asco que me enche.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Não Leio Manuais de Instruções!

Não olho para catálogos para escolher pessoas. Gosto de as ir conhecendo aos poucos, devagarinho. Dou-me, ou vou-me dando, conforme os outros se vão mostrando. Confesso que nem sempre o faço no ritmo certo. Por vezes, vou depressa demais. Noutras vezes, devagar demais. Não leio etiquetas. Na verdade, nem as procuro. Não lhes dou importância. Não quero saber se as pessoas são tóxicas ou saudáveis. Há pessoas que, à partida, me interessam. Outras há que não. Mas gosto do mistério, da procura, da descoberta. Às vezes, tenho sorte e encontro gente valiosa, maravilhosa, construo amizades, edifico relações para a vida. Outras vezes, tenho azar e desiludo-me, bato com a cabeça e descubro gente de merda que só me faz mal.
Contudo, prefiro a incerteza a abrir o catálogo e escolher com quem me dar ou, simplesmente, seguir um manual de instruções.

terça-feira, 3 de março de 2015

Enamoramento Atécnico

Ando a aprender a técnica da escrita. Ou a tentar aprender. 
Sinto que à medida que o véu que cobre, e enche de magia esta arte de juntar palavras que as repleta de sapiência, se vai levantando, algum do encanto da leitura se vai perdendo. E algum do encanto da escrita também se some com a incapacidade de ler apaixonadamente. 
O que dantes fluía solto, fica agora aprisionado em vírgulas, semântica, forma e construção de géneros narrativos. 
E eu fico a sentir-me amordaçada, e desanimada, e desencantada. E a apetecer-me esquecer tudo o que vou aprendendo e deixar-me escorrer na leitura e na escrita amadora, puramente amadora e, por isso, ainda puramente enamorada.

domingo, 1 de março de 2015

Ser Mãe (e Pai) é Tramado


Mas pode ser mais simples do que parece. Basta não complicar.

You Have Made My Day

- Já emagreci cinco quilos! Se continuar assim, lá para os teus anos, estou toda gira!
- Ó mãe, tu és gira de qualquer maneira, gorda ou magra. Deixa lá isso das dietas que estás muito gira assim!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Aproveitar a Vida

O J. ditava-me as referências multibanco enquanto eu fazia os pagamentos da electricidade, telecomunicações e água.
- Tantos pagamentos, mãe! Isto nunca mais acaba!
- E ainda falta o gás, a casa, o condomínio...
- Bem, é mesmo melhor eu aproveitar a vida agora, enquanto posso...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Joanes

Eu e o bicharoco fomos fazer uns recados a nós próprios. Fomos a pé para contrariar o comodismo e aproveitámos para conversar sem o stress do trânsito. 
- Mãe, as pessoas mudam conforme vão crescendo?
- Sim, claro que mudam.
- Então, se a maioria dos meus colegas é parva, quando eles crescerem podem deixar de ser?
- Sim, ou tornar-se mais parvos. Conforme as pessoas vão crescendo, vão mudando, umas vezes para melhor, outras para pior. Mas não podes dizer que a maioria dos teus colegas é parva. Não é verdade!
- É. São quase todos.
- As pessoas podem ter coisas parvas e não ser parvas. Por exemplo, eu tenho coisas parvas, mas também tenho umas fixes. Tal como tu e toda a gente. Ter coisas parvas não quer dizer que sejamos completamente parvos.
- As pessoas mudam como?
- Mudam com as coisas que lhes vai acontecendo na vida. Com o crescimento, vão descobrindo coisas novas, vão deixando de dar importância a algumas coisas e passando a interessar-se mais por outras. Vão aprendendo com os erros e, por isso, mudando.
- Ainda bem.

Música Que Me Beija

O som vinha do teu quarto. Podia ser do meu, mas não, era do teu. Conseguia ouvir-te cantarolar a música que saía do teu rádio num nhó-nhó-nhó que me levou numa nuvem vinte anos para trás. 
Aterrei algures entre a adolescência do teu pai, que nada fazia sem música, e a minha juventude ainda muito agarrada a sonoridades do passado. Música, que ele me foi apresentando enquanto arrumava o quarto e falávamos da escola, ou comíamos pão quente para lá da meia-noite. Música, que nos uniu e consolou quando a dor da separação nos corroía os corações inexperientes. Música, que abraçou este amor e o ajudou a fazer-se maduro. Música, que ainda hoje ouvimos a pensar em nós.
O som que vinha do teu quarto encheu a casa da minha juventude e tu apareceste-me numa versão tão boa do teu pai. Numa versão tão boa de ti, em simultâneo. Vi dez anos do bebé que me saiu do ventre tão perto de me sair, agora, debaixo da asa e florescer num homem. 
Sei que ainda falta, mas em breve, quando levantares voo, carregarás nesse corpo que se faz homem, todo o amor, e a toda música que, desde há vinte anos, imprimem o teu pai em mim.