sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Por Isto E Por Muito Mais

Li este post do João Miguel Tavares e aviso já a quem interessar que não faço quaisquer trabalhos manuais com o meu filho!

Primeiro, porque sou contra os pais fazerem os TPC dos/com os filhos; segundo, porque não gosto de trabalhos manuais; terceiro, porque já tive a minha dose de trabalhos manuais e as respectivas notas e não me apetece ser avaliada por isso outra vez; quarto, porque eu e o meu filho fazemos coisas muito mais giras em conjunto; quinto, porque se gastarmos o tempo juntos a fazer trabalhos manuais, não temos tempo para fazer essas coisas muito mais giras; sexto, porque acho que os professores e a escola não podem mandar TPC que não possam ser feitos sem a colaboração dos pais; sétimo, porque tenho umas mãozinhas que parecem uns pezinhos e não quero que o meu filho saiba; oitavo, porque já não me lembro de mais razões mas quero continuar a enumerá-las e escrevo barbaridades como a do ponto sétimo só para encher; nono, porque a barbaridade do ponto sétimo não é eu ter umas mãozinhas que parecem uns pezinhos, como vos deve ter parecido, mas eu não querer que o meu filho saiba isso; décimo, porque não tendo mais nada a dizer estou viciada nesta coisa da enumeração, da vírgula, da razão e do ponto e vírgula no final; décimo primeiro, porque queria chegar ao ponto anterior e como não sabia como, embalei de tal forma nisto de não dizer nada que até já o ultrapassei.

Ah, mas volto a avisar a quem interessar que não faço quaisquer trabalhos manuais com o meu filho! Ok?

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O Perigoso Mundo do Zapping

Preparo-me a rigor: pijama, pantufas, manta a tapar tudo desde os pés até às axilas, gato sobre os joelhos, comando da televisão na mão direita. Dou início ao zapping. 
Passo depressa pelas telenovelas dos primeiros canais, corro através da Casa dos Segredos de olhos e ouvidos fechados para não ficar contaminada pelas Legionelas que por ali pairam e estaciono num canal de notícias pensando-me a salvo. Quando ainda estou a arrumar o veículo, sou bombardeada por jactos de escárnio e devassa Socrática e fujo para o canal seguinte. Aqui, sou brutalmente atropelada por tanques de análise futebolística. Volto a fugir a sete pés e caio que nem uma patinha num canal até ao presente desconhecido. No canto superior esquerdo posso ler Sic Caras. Por ser estranho, demoro-me uns minutos a observar o espécime. Quatro seres alinham-se em poltronas que formam uma meia-lua. Oiço-os comentar o que outros seres, que vão aparecendo em fotografias, trazem vestido. Assustada, interrogo-me como pode haver quem goste de fazer aquilo. E quem goste de ver e ouvir aquilo. Como ninguém me responde, nem eu própria consigo arranjar uma resposta que me satisfaça, fico ali entre a indignação e o terror. Reparo que um dos joelhos por debaixo do gato começa a tremer. Ele incomoda-se e muda de posição. Sinto os nervos a pulsarem-me nas têmporas, a respiração aproxima-se do arfar, os batimentos cardíacos aceleram, toda eu estou agora em alerta. Procuro desesperadamente um local seguro onde ninguém, daquela gente, me encontre. Debaixo da mesa? Da manta? Do gato? 
Volto atrás no zapping. O polegar aumenta a velocidade a cada canal que se vai. Encontro um onde só há gente de facas nas mãos, comida, tachos e uns gajos que falam aos saltinhos. Peço refúgio aos gajos dos saltinhos. 

Pouso o comando, deslizo no sofá até ficar com o gato ao colo e adormeço na paz das maioneses e dos ovos estrelados. 
Ámen!

DAQUI

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Filho Quase Verde

O meu filho é daqueles que separa sempre os lixos, e ralha com quem não o faz, guarda as tampinhas de plástico que entregamos na Junta de Freguesia para as transformar em cadeiras-de-rodas e afins, guarda as rolhas de cortiça que a escola troca por livros, fecha a torneira do lavatório quando está a lavar os dentes e não precisa da água corrente. 
A última diligência ecológica que levou a cabo foi encher garrafões com a água que aquece para o duche.
Só lhe falta mesmo é apagar as luzes das divisões de onde sai.

Lá chegaremos!

sábado, 22 de novembro de 2014

Nota Máxima Em Ingenuidade

Às vezes, acho-me um bocado ingénua. Pensar as notas como o resultado do empenho, esforço e/ou sabedoria dos alunos relativamente a determinada matéria é uma das ingenuidades que venho alimentando. Penso que, se não representam o que os alunos sabem ou o esforço que fazem para saber as matérias, não fazem sentido e não servem para mais nada. Ingenuidade a minha, pois as notas encobrem todo um universo paralelo!

Ultimamente, em conversa com alguns pais e avós de colegas do J. muito bons alunos, tenho constatado que, afinal, as boas notas são mais o resultado do trabalho dos familiares, que funcionam como uma equipa altamente organizada para os alunos em causa obterem bons resultados, do que do mérito individual dos miúdos. Na verdade, estes familiares estão tão preocupados com o brilhantismo das notas das suas crianças que se organizam de forma a funcionarem como uma linha de montagem de excelentes alunos. Empenho familiar, este que devia estar a ser aproveitado pelo ministério da educação para demonstrar o quão eficiente é o sistema de ensino em Portugal. (Desta cratinice não se lembrou o Nuno, hã?!).

Para juntar à ingenuidade de não perceber que "por trás de um grande aluno, está todo um aparelho familiar", aparece a ingenuidade de não partilhar a crença de que "um bom aluno é o reflexo das suas notas". Tenho pena, mas infelizmente não partilho desta crença. Ser-me-ia tão mais fácil e favorável acreditar nisto, já que o meu filho também tira boas notas e, assim, poderia discutir com os outros pais quem tinha o filho mais brilhante e ter tema de conversa para horas de ilações escolares. Infelizmente, sou ingénua demais para isso e as nossas conversas acabam por durar pouco tempo!
Aqui que ninguém nos ouve, para ser sincera (mais um dos meus grandes defeitos) não me interessam nada as notas dos putos, quando lhes pergunto pela escola só o faço para meter conversa. Uso este tema como se fosse o da meteorologia, pergunto "a escola está a correr bem?" como poderia perguntar "está um lindo dia hoje, não está?". Após o chavão já nem oiço a resposta, só quero mesmo quebrar o silêncio que, por vezes, faz mais ruído do que estas conversas da treta a que nem eu nem os putos ligamos a mínima. Mas estes pais ligam e falam das notas dos filhos como se o assunto fosse uma questão de vida ou morte, desenvolvem o tema de forma a conduzirem a conversa até qualquer coisa como "o meu filho teve 100% a Português!". E aí o regozijo é total. Vemo-los crescerem uns centímetros perante os 100% e se, ainda por cima, os nossos filhos só tiveram 98% à mesma disciplina, crescem mais um pouco, como se aqueles 2% equivalessem ao nível de superioridade das suas crias perante as nossas. Ingenuidade a minha que não percebo que a minha cria é 2, 10 ou 20% inferior à deles!

Mas, infelizmente e para acrescentar uns pontos à minha ingenuidade, a paranóia das notas dos putos não é exclusiva dos pais com filhos excelentes alunos, ela atinge também os pais de filhos maus alunos e os pais de filhos mais ou menos bons alunos. Na verdade, parece-me que a paranóia com as notas é um mal geral e que até há pais que medem o amor aos filhos em percentagens e escalas que vão do "mau" ao "muito bom".
Felizmente, sou suficientemente ingénua para o amor que sinto pelo meu filho não ter escala que o meça. Assim, não preciso de andar sempre a fazer contas. Ufa!


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Tostões

Gente que se vende a tostões. Venda por venda que se peça um valor alto pela alma. Agora tostões?! Já nem valem nada, os tostões... Já nem existem, mas há, ainda, quem troque convicções por eles.

Estranho...

Quão voláteis serão as convicções? E que farão aos tostões? Serão poucos e não haverá muito que se possa fazer com tamanha escassez. A não ser guardá-los. Ou utilizá-los como peça decorativa. Ou recordação do que em tempos se acreditou e se acabou por vender.

A tostões.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Ouvir Quem Sabe

O meu filho é um desportista nato. Dá o litro, tem uma garra invejável e uma resistência inabalável. 

Falávamos das minhas corridas. 
- O meu problema é a respiração. Fui tantos anos fumadora que me custa aguentar a respiração acelerada na corrida, falta-me o ar ainda antes de me doer as pernas - desabafei.
- Mãe, não desistas. Mesmo que pareça que vais morrer, não desistas! Continua sempre. - aconselhou-me.

A verdade é que sempre que estou p'ra morrer a meio de uma corrida, é este conselho que ecoa na minha cabeça. Já lá vão cinco semanas de quatro treinos semanais, o objectivo aproxima-se e ainda não desisti.

Obrigada, filho!

DAQUI

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O Quarto Mandamento

- Mãe, a professora de Português disse para pesquisarmos os Dez Mandamentos!
- Ok, vai lá ao computador pesquisar!
O J. pesquisa e dá de caras com isto: 


- O quê? É isto?! Vou ter que escrever isto?!
- Queres que te dite?
- Ditas?
- Dito. "Os Dez Mandamentos. Número um - Amar a Deus sobre todas as coisas". "Deus" com letra grande.
- Oh, mãe, tenho vergonha!
- Tens vergonha de quê?
- De estar a escrever estas coisas religiosas! Isto é uma parvoíce!
- Não há razão para teres vergonha. Há muitos anos, foram estas coisas religiosas que ensinaram as pessoas a serem melhores. Vá, "Número dois - Não tomar seu santo nome em vão".
- Oh, o quê? Vou ter que escrever isso?
- Vais! "Não tomar seu santo nome em vão". Olha aqui como tem coisas importantes: "Não matar", "não roubar". Vês ensina as pessoas a não fazerem estas coisas más!
- Ponto três?
 "Guardar domingos e festas de guarda". E o mais importante de todos é o número quatro "Honrar Pai e Mãe". Este é o que deves ter mais atenção! Eh eh eh!
- Ah ah ah! Sim, sim!
- Pois é! Respeitinho é muito bonito e pai e mãe são sagrados! 

Para o Lado Que Estamos Virados

Durante o jantar.
- Os meus colegas acham preocupante haver gente que não conhece a Miley Cyrus.
- Acham? Porquê?
- Não faço ideia. Eu acho preocupante é haver colegas meus que não sabem quem é o ministro da educação!
- Quem não sabe quem é a Miley Cyrus? Tu?
- Não, o V. Achas preocupante?
- Não. Ele pode não estar interessado nesse tipo de música e não estar atento. Não acho mesmo nada preocupante.
- Eu também não. Mas não saberem quem é o chato do ministro da educação já me preocupa!
- Preocupa?
- Sim. Aposto que nenhum deles sabe.
- Oh, deve haver quem conheça. O J.T. por exemplo.
- Não, acho que não!
- Mas ele sabe muitas coisas... Pode saber o nome do ministro.
- Não, o J.T. só sabe coisas alegres. Não está virado para essas coisas más! Devo ser o único que conheço o Crato.
- Hummm... E tu não estás virado para essas coisas alegres?
- Não. Quando nos viramos para as coisas más, já não há volta!
- Não há volta? Se calhar a culpa é minha de estares virado para coisas más... É? Não queria nada virar-te para coisas más...
- Não sei, mas estares sempre a ver essas coisas da Legionella pode ser uma razão.
- Glup!
- Há colegas meus que têm imenso medo do Ébola. Acham que há Ébola em todo o lado.
- Hum. Mas não há. Eu nem tenho estado nada atenta ao Ébola.
- Pois... Mas os pais deles devem estar. Tu estás atenta à Legionella.
- Glup!

Para Pensar



sábado, 8 de novembro de 2014

Amor é...

... ver o meu homem na televisão e, de peito cheio de orgulho, sair-me "o meu homem é tão lindo!" como se namorássemos há dezoito meses em vez de há dezoito anos.

DAQUI

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Felicidade Exacerbada

Estamos cercados por selfies risonhas, retratos sobre paisagens paradisíacas, imagens de pratos cheios de comida bonita e apetitosa.
Estamos cercados de felicidade exacerbada. Da falsa felicidade com que vivem os tontos, onde tudo é artificial e para mostrar e nada é genuíno e privado.
Vive-se num filme cor-de-rosa, numa comédia romântica. Vive-se com uma alegria contagiante cheia de gadgets por onde se diz ao mundo o quanto se está feliz, e alegre, e contente, e feliz outra vez.

Desligam-se os dispositivos electrónicos e a felicidade

apaga-se.

A Anos-Luz

Sei que ando um bocadinho afastada daqui. 
No fundo, no fundo, não é só daqui ou nem é daqui. Ando afastada desta coisa da escrita porque também destas coisas que se passam na vida. Das notícias, das polémicas, das conversas, das pessoas. Das pessoas. Cada vez mais das pessoas. Afligem-me muito. O que pensam, o que dizem, o que sentem. Mas o mal é meu que não consigo entendê-las. O mal é meu que não consigo dar a importância necessária a coisas, para mim, frívolas. Ou é meu que não encontro pessoas com quem sinta proximidade intelectual além dos meus muito próximos. Não que me sinta superior, que não sinto, é mais uma coisa de sintonia - não me sinto em sintonia com mais ninguém além dos meus muito próximos. Parece que estou sempre noutra, numa muito diferente da dos outros. 
Às vezes, chego a ter a sensação que vivo num planeta diferente. 
O que a mim me parece claro e lógico, aos outros parece completamente ridículo e sem nexo. E vice-versa. Não que eu ou os outros sejamos melhores ou piores. Somos diferentes, muito diferentes, tão diferentes que poderíamos ter um oceano ou um céu a separar-nos. Daí a sensação de assincronia. Daí a ideia de imensidão entre nós, de incompreensão.

De solidão.  

segunda-feira, 3 de novembro de 2014