terça-feira, 12 de agosto de 2014

Histórias Guardadas

O peso dos ombros inclina-a um pouco para a frente. Sentada na cadeira de napa azul-esverdeada encostada à parede da sala de convívio, junta as mãos no regaço. Os dedos entrelaçados como que a fechar o abraço à volta do próprio corpo cerram em si histórias mil. Oitenta e sete anos de agitadas aventuras dentro daquela vida, agora, estagnada. 

Quem diria que um dia enclausurada entre os momentos em que se lembra, e os que esquece, que naquela sala de convívio não se convive?

Se o olhar se levanta das mãos que guardam todos os anos, vê velhos em estado meio demente, entregues à falta de tempo dos familiares e à distância protectora dos profissionais, que aguardam a morte no vazio do agora.
Ela bem conhece o passado cheio que, também eles, trazem e ninguém vê. Bem sente o peso das lutas e conquistas que lhes preenche os corpos inúteis à vontade de fugir.
Tal como eles, acaba por calar a revolta no entorpecimento dos medicamentos e na resignação da vida que ficou no que foi e já não é. Mas o segredo que guarda em si não está nos males que o corpo insiste em suportar, mas no peso das histórias que viveu, que a inclina um pouco para a frente, quando está sentada na cadeira de napa azul-esverdeada, e que faz questão de carregar para todo o lado, imponentemente, sobre os ombros.

3 comentários:

  1. Avó??
    Belo texto com sempre...

    Beijinho,.
    ANDA BEM , mammyeu?

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    Respostas
    1. Uma espécie de avó, mas não minha.
      Ando bem. Obrigada.

      Beijinhos Anamar

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