domingo, 24 de agosto de 2014

Dejectos Verbais

Ando a abusar da imprensa on-line
Chego a esta conclusão quando o resumo das notícias que guardo na cabeça são os insultos nos comentários no final das notícias e no Facebook
Fico na dúvida se as pessoas acham mesmo as alarvidades que dizem ou se apenas esperam um motivo para despejar a raiva. Ler "que volte o Hitler" ou "que volte o Salazar", fora todos os outros dejectos verbais que por lá escarrapacham, faz-me sentir a única sã do manicómio.
Ou então a maluca sou eu.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Ressaca (Podem Passar à Frente Que Este Post é Só Para Matar o Vício)

Há precisamente dez dias que não escrevo nada aqui no blogue. 
Tenho tido uma certa (imensa) preguiça, a inspiração foi dar volta, há um vazio qualquer neste peito (ou cérebro)... Enfim... Não sei!
Só sei que estou a ressacar a escrita. Por isso, hoje escrevo esta porcaria de texto só para escrever alguma coisa e não ir para a cama cheia de comichões como nas noites passadas. 
Carregar nas teclas e ter a sensação que estou a dizer alguma coisa, por pior que seja a qualidade dessa coisa, faz-me sentir bem. Ridículo, não? Mas verdade.

Pronto, já me sinto um bocadinho melhor. Boa noite e até amanhã.

A Educação Também Está...


... no exemplo.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Histórias Guardadas

O peso dos ombros inclina-a um pouco para a frente. Sentada na cadeira de napa azul-esverdeada encostada à parede da sala de convívio, junta as mãos no regaço. Os dedos entrelaçados como que a fechar o abraço à volta do próprio corpo cerram em si histórias mil. Oitenta e sete anos de agitadas aventuras dentro daquela vida, agora, estagnada. 

Quem diria que um dia enclausurada entre os momentos em que se lembra, e os que esquece, que naquela sala de convívio não se convive?

Se o olhar se levanta das mãos que guardam todos os anos, vê velhos em estado meio demente, entregues à falta de tempo dos familiares e à distância protectora dos profissionais, que aguardam a morte no vazio do agora.
Ela bem conhece o passado cheio que, também eles, trazem e ninguém vê. Bem sente o peso das lutas e conquistas que lhes preenche os corpos inúteis à vontade de fugir.
Tal como eles, acaba por calar a revolta no entorpecimento dos medicamentos e na resignação da vida que ficou no que foi e já não é. Mas o segredo que guarda em si não está nos males que o corpo insiste em suportar, mas no peso das histórias que viveu, que a inclina um pouco para a frente, quando está sentada na cadeira de napa azul-esverdeada, e que faz questão de carregar para todo o lado, imponentemente, sobre os ombros.

domingo, 3 de agosto de 2014

- Estou a Falar da Empresa X e o Meu Nome é Luís!

De pasta de cabedal a tira-colo, Luís faz todos os dias o caminho para o call-center. Num passo decidido e forçado, segue para mais um dia de chamadas telefónicas.
Mal chega, repete o ritual diário. Senta-se na pequena secretária, por onde tem de puxar a perna com a mão para a conseguir encaixar debaixo da mesa, espalha pela secretária alguns pertences de forma meticulosamente ordenada: a caneta, o minúsculo bloco de notas, os óculos de ver ao perto. Por fim, coloca os auscultadores nos ouvidos com cerimoniosa concentração.

- Estou a falar da empresa X e o meu nome é Luís!

Enquanto tenta convencer os clientes que aquele é o melhor pacote de telefone, televisão, Internet e telemóveis, Luís imagina os átomos e as moléculas que anteriormente estudava a formar combinações químicas inusitadas dentro do cérebro dos seus interlocutores.

Antes de ter sido despedido, Luís liderava uma equipa que estudava as reacções químicas no cérebro dos doentes de Alzheimer.
Quando lhe disseram "Luís, acabou-se o subsídio do Estado para este projecto. Não há mais fundos que o continuem a financiar. Vamos ter de ficar por aqui." caiu-lhe tudo ao chão.
O estômago foi o primeiro. Correu para a casa-de-banho e despejou tudo o que tinha comido ao almoço sanita adentro. Depois vieram as lágrimas que lhe saltaram dos olhos como se se quisessem atirar de uma ponte abaixo. As mãos tremiam-lhe como doidas e a boca desenhava um "quinze anos nisto para acabar assim" silencioso.
Luís sempre tinha vivido no meio de moléculas, átomos, protões, electrões e todas essas partículas que tanto estudou. Tirarem-lhe a química era enfiarem-lhe a vida num tubo de ensaio, aquecerem-na numa lamparina e fazerem-na explodir.
E foi isso mesmo que fizeram, quando lhe entregaram a carta de despedimento.
Durante uns meses, andou a bater mal. Pensou em acabar com a vida várias vezes. Numa delas, chegou a pendurar uma corda nas traves do tecto do sótão, mas a mulher apanhou-o pendurado no banco a ajeitar a corda e fê-lo jurar que não colocaria aquela gravata e a abandonaria no meio de tanta aflição.
A partir desse dia, decidiu que, já que não se podia matar, iria tentar arranjar um trabalho. Sem átomos ou moléculas, mas com um salário ao fim do mês.

- Estou a falar da empresa X e o meu nome é Luís!

Arranjou-o ali, num call center. No meio de colegas com vinte e poucos anos, Luís entregou-se a fazer telefonemas a gente que não está para o ouvir, a troco de umas moedinhas que dão para comprar qualquer coisa que comer até ao dia vinte de cada mês. A partir daí, a mulher faz umas invenções culinárias para chegarem vivos aos dias trinta.

- Estou a falar da empresa X e o meu nome é Luís!

Mas nem só os seus colegas são miúdos, os chefes também ainda estão a maturar. Especialmente aquela coordenadora que o persegue e fica a ver se há algo que o distraia da exímia tarefa de telefonar. Sempre que lhe nota alguma desatenção faz questão de o chamar:
- Luís, está a pensar em quê? Faça já outro telefonema! Não há tempo para ficar a pensar!
Ao mesmo tempo que marca mais um número, (só para contrariar a coordenadora) fica a pensar na frase "não há tempo para ficar a pensar". E não há.
Se dantes lhe pagavam para pensar, agora pagam-lhe para não o fazer. A verdade, é que lhe pagam menos, o que quer dizer que os seus raciocínios anteriores eram mais valiosos do que o seu, agora, vazio mental.
Perante tamanha ausência química, e quiçá física, Luís sabe que se ainda procura O2 em cada inspiração, se deve precisamente a isso, à consciência do valor da sua insaciável mente.

- Estou a falar da empresa X e o meu nome é Luís!

sábado, 2 de agosto de 2014

Pessoal do Estrume

Sei que me olham com algum respeito e interesse enquanto não sabem quais as minhas habilitações académicas. Provavelmente, pensam que tenho algum curseco superior. Talvez por não ser uma completa ignorante ou até por saber ler. Vá-se lá saber!
Sinto que só lhes interesso até de me perguntarem "qual é o teu curso?", "o que é que fazes?" ou "o que é que fazias?".
Quando lhes digo que não tenho nem licenciatura nem mestrado e que por acaso até frequentei o ensino superior, mas nunca o acabei e remato a conversa a dizer que fui tratadora de cavalos ou assistente administrativa, já não lhes interesso. 
De repente, todo o interesse que tinham demonstrado pela minha pela pessoa, esfuma-se no ar.
Noto isto, mas não deixo de lhes dizer o que fiz na vida, já que lhes interessa tanto. Muitas vezes até faço questão de acrescentar que carreguei fardos de palha, sacas de ração e limpei estrume. 
Se pensar bem, ter sido administrativa foi das merdas mais leves que fiz, mas não a de que mais me orgulho. No fundo, no fundo, orgulho-me mais de ter carregado o estrume dos cavalos do que o de executivos. É mais limpinho, biológico e saudável. Porém, este não é tão bem aceite pelos ex-interessados em mim, que deixam automaticamente de me perguntar seja o que for.
Para ser sincera, não me sinto nada diminuída perante os mestres ou licenciados que este tipo de interessados/desinteressados em mim respeitam. Sei que todo o estrume que carreguei nesta vida me deu um arcaboiço que eles nunca terão nem compreenderão. Tal como eu não terei a "experiência" de vida que lhes deu as brincadeiras das praxes durante os anos em que frequentaram as universidades. (Esta foi mazinha, eu sei!) Mas também não trocava. 
(Eh pá, pronto, gosto do estrume, o que é que querem?)

Mas, apesar de não ser rapariga de muito estudo, gosto de olhar para estes comportamentos humanos de uma forma analítica e tentar perceber o que move esta gente a agir desta forma. [Desculpem lá, mas deve ser o contacto com o estrume que faz estes efeitos no cérebro das pessoas como eu, que não estudaram muito. Põe-nas a pensar, assim, um bocado. Ou então é a falta das praxes! 
(Ai que eu sou tão má! A culpa é do estrume, hã!) ]

Olho para estas pessoas ex-interessadas noutras e parece-me que o excesso de informação que as cerca (e a nós, pessoal do estrume, também), as obriga a fazer uma selecção dos outros com que se poderão querer relacionar de uma forma muito mais rápida, porque como todo o tipo de gente e informação lhes aparece quase à velocidade do som, elas não têm tempo de aprofundar o conhecimento, tanto das pessoas como do saber em geral. E aí seleccionam-nas baseadas em critérios completamente superficiais, como as habilitações por exemplo. 
Penso que, primeiro, poderá por ser já uma questão cultural avaliar os outros pelas habilitações académicas. Segundo porque, como já há tantos licenciados e mestrados completamente ignorantes, parte-se do princípio que os não são nem uma coisa nem outra só podem ser perfeitos asnos. 

Lamento, mas vou ter que os desiludir e tornar este processo de selecção de pessoas um pouco mais difícil ao dar-lhes esta pequena informação de borla:

NEM TODOS SÃO PERFEITOS ASNOS. HÁ TAMBÉM OS QUE LHES LIMPAM O ESTRUME! 
OK?