domingo, 19 de janeiro de 2014

A Liberdade de Viver Um Dia de Cada Vez

Durante a minha luta oncológica, disseram-me várias vezes "tem que aprender a viver um dia de cada vez!" 
Nunca consegui. Pensava " viver um dia de cada vez, o tanas! Isto não é viver, é uma merda! Para quê prolongar esta merda? Tratamentos, stress, a vida por um fio, dúvida, sempre a dúvida se o dia seguinte chegará, dor em mim e nos outros. Não quero prolongar isto, quero que passe rápido para a seguir sim, viver de verdade! Todos os dias, vivê-los e saboreá-los, depois". 
Assim fiz. Durante aquele ano de tratamentos, mais coisa menos coisa, vivi em estado moribundo. Deixei que me virassem do avesso, fui às quimios, às radios, às consultas, aos exames, às pequenas cirurgias, etc., etc. Bebi os dois litros de água diários, religiosamente, deixei de fumar, de comer as coisas que me faziam mal, tomei todos os medicamentos que me receitaram à hora certa, enfim, portei-me como a mais bem-comportada das doentes. Na verdade, não vivi aqueles tempos, apenas andei por aí na esperança que acabassem depressa. Mas fui conseguindo aproveitar os poucos momentos bons que me apareciam, com alguma tristeza latente e com a sensação de que poderia ser a última vez que iria viver aquilo, mas aproveitando. Cada minuto de amor, era vivido intensamente. Talvez não vivido, mas sentido, sentido intensamente. 
Um dia de cada vez nunca consegui. Queria todos aqueles dias num, numa hora, num minuto, num segundo. Tudo o mais rápido possível para, a seguir, viver. Desejava poder fazer forward àquela parte da vida como a uma parte chata de uma canção. Acho que, por um lado, até o consegui, pois apaguei da memória muitos momentos dolorosos dessa altura. Tenho essa capacidade de seleccionar memórias, de guardar apenas aquilo que me parece que vale a pena. O resto varro lá bem para trás de todas as memórias que pretendo ir buscar amiúde, arrumo-o tão bem que raramente o volto a encontrar.

Agora que já passaram alguns anos sobre este coma voluntário, e que já me sinto capaz de tentar analisar o porquê de optar por viver moribunda nos dias que podiam ter sido os meus últimos, acho que o fiz sim por medo, claro, mas também pela perspectiva da liberdade futura. Foi como se aceitasse a clausura apenas para poder ser livre outra vez. Privar-me de tudo o que fosse necessário para depois voltar a voar. Ao meu ritmo, à minha vontade. Voar tão só. Voar alto em direcção ao prazer, ao lado bom da vida.
É óbvio que podia ter corrido mal e eu ter morrido pelo caminho como tantos outros morrem. Mas daquela vez não correu mal. Libertei-me da doença (não sabemos por quanto tempo, mas libertei) e ainda aqui estou, não plenamente feliz, mas ainda aqui estou. 

E fico a matutar no "não plenamente feliz"...
O que me impede de ser "plenamente feliz" agora?

Ainda não conseguir viver um dia de cada vez. Não pela doença e as merdas que traz a reboque, que me têm deixado descansar um pouco apesar da sombra que mantêm sobre mim, mas porque os meus dias não são suficientemente bons para que os queira devagar. Continuo a querê-los rápidos, muito rápidos.

Porquê?

Pela falta de liberdade. Estou livre de doença por agora (pelo menos até à próxima consulta), mas não estou livre de verdade. Não faço o que me dá prazer e isso é uma prisão. Por mais que esteja com quem gosto, por mais saudável que seja, se não fizer profissionalmente o que me dá prazer, vou estar sempre presa. E estar presa a maior parte dos meus dias faz-me querê-los rápidos e que cheguem ao fim o mais depressa possível. Para inverter isto e atrasar o correr da vida, tenho que saber fazer a maior parte dos dias boa, tenho que fazer mais coisas de que gosto do as de que não gosto, tenho que estar mais em sítios agradáveis do que em desagradáveis e tenho que dar um sentido e uma direcção à minha vida. Tenho muito trabalhinho para fazer, ainda.

Agora que já sei que quero viver um dia de cada vez como sempre me aconselharam, também sei que o que não quero é esta vida presa.
Quero voltar a voar. Ao meu ritmo, à minha vontade. Voar tão só. Voar alto em direcção ao prazer e às partes boas da vida, saudável e com quem amo ao lado, mas essencialmente, quero viver livre, livre para viver um dia de cada vez.

7 comentários:

  1. Compreendo-te perfeitamente. Também tenho dificuldade em lidar com essa sensação de prisão, mas não será ao mesmo tempo uma incapacidade de nos acomodarmos ao que não está bem? Não tendo estado sequer perto do que relatas também aprendi a viver um dia de cada vez, não totalmente, mas algo muito próximo disso. Mas no meu caso porque precisava, de uma vez por todas, de não sofrer constantemente por antecipação.

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  2. Gostei muito deste seu "desabafo"! Como sabe eu também fui uma doente oncológica mas, penso que por feitio e porque tinha uma profissão que adorava, nunca me senti "prisioneira". Sempre acreditei que me curava e que ia ter uma longa vida, o que está a acontecer, mesmo com os meus 72 anos, continuo a ter sonhos e a ter os meus momentos de felicidade...
    Abracinho meu!

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  3. Espero que te consigas libertar e viver intensamente cada dia, um dia de cada vez.
    Beijinhos

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  4. Mãe Sabichona,
    Talvez seja isso mesmo, a "incapacidade de nos acomodarmos ao que não está bem".
    O meu grande problema é a falta de coragem para mudar. Um coisa que tenho que resolver.
    Bjs

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  5. Maria Teresa,
    Eu, no fundo, no fundo, também acreditei que me iria curar, senão não adiaria a vida como adiei.
    Beijinhos grandes e uma vida daquelas mesmo gigantes!

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  6. Rosinha,
    Também espero, também espero!
    Beijinhos

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  7. Não tendo essa espada a pender sobre a minha cabeça, percebo bem a tua necessidade dos dias rápidos... já que sempre fui uma impaciente natural.

    No entanto, a vida tem vindo a dar-me sinais de que apesar de tudo, há felicidade escondida em coisas a que não dou a devida atenção... e fez-me perceber que estava a dar demasiada atenção apenas ao que não me fazia feliz, deixando para trás tudo o que me faz feliz...

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Vá lá, digam qualquer coisinha...
...por mais tramada que seja...