quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Que 2015...

Roubada do Google Images

...vos traga tudo o que desejam!

Idiotice Minha Que És Tão Bela

Numa notícia de um jornal nacional apresentaram o vídeo abaixo como uma birra de uma criança que destrói um supermercado.


Na verdade, a notícia não tem nada de especial, apesar de achar que aquilo não é bem uma birra, mas os comentários de algumas pessoas ao post onde ela aparece no Facebook têm muito de especial.
E têm muito de especial, porque me fazem chegar à conclusão que sou uma idiota por não ter imaginado que havia gente tão estúpida quanto alguma da que lá botou os seus cocós em formato comentário.

Caraças que sou mesmo idiota!

Cenas Que Me Irritam

Detesto modas! 

Usar uma, ou mais, peças de roupa porque é moda, irrita-me. 
Ir a determinado sítio porque é moda, irrita-me.
Dizer uma palavra que toda a gente repete vezes sem conta, irrita-me.
Comer cenas da moda e fazer a alimentação X, Y ou Z, cheias de sementes e sumos detox, irrita-me.
Adoptar um dado comportamento porque toda a gente o adopta, irrita-me.
Ler Chagas Freitas, Sousa Tavares, ou as cinquenta sombras de um cretino qualquer porque toda a gente lê, irrita-me.

Ainda que seja uma irritadiça com esta treta toda das modas, ando a correr e, a partir do ano que vem, vou fechar esta bocarra gulosa, comer umas sementes e tentar viver de sopas e alimentos saudáveis para ver se emagreço um bocado que já não tenho soutien que me caiba.

E esta merda é a que mais me irrita!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Méééé!!!

Dizem os amigos do Facebook que este foi um ano espectacular e agradecem-me ter feito parte dele.

Pois o meu ano não foi espectacular e não fiz parte da maioria dos anos espectaculares dos meus amigos.

Sou ovelha ronhosa, ah pois sou!

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Feliz Natal!


Tristeza Que Arrefece As Relações

Hoje à tarde, estava aqui no computador e o J. veio sentar-se ao meu lado com o seu Magalhões e pôs-se a ver vídeos da NBA no YouTube.

Volta e meia, diz-me:
- É muito triste estarmos aqui os dois no computador, não é?
- Porque dizes isso? - tento auscultar a razão de tal raciocínio.
- Não sei, estamos aqui os dois, ao lado um do outro, com um computador à frente.

Ai, meu rico filho, como estás certo que é esta a tristeza que arrefece as relações humanas!

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Sono Dele / Sonho Meu

DAQUI

O meu cachopo nunca foi de dormir muito. Desde um mês de idade que dormiu a noite toda, é certo, mas ressonar para lá das 8h, 8,30h nunca foi dele. Por muita pena nossa que bem nos apetecia ficar na ronha para lá da hora de almoço aos fins-de-semana e nas férias.

Hoje, o bichinho dormiu da meia-noite e meia até ao meio-dia e meia. Doze horas de sono dos justos.

Já acordadinho da silva diz-me:
- É bom dormir muito, não é?
Eu, amante de noites e manhãs bem dormidas, aproveito a deixa:
- É maravilhoso. Das melhores coisas que podemos fazer.
- Pois... Percebi isso hoje. Dormi tão bem.

Auspicio manhãs de puro deleite nos braços de um edredão quentinho.
Ou então não.

Um Pavor de Pai Natal

O J. que nunca gostou de Pais Natal foge cada vez que encontra um nos Centros Comerciais.
Hoje, quando andávamos às compras, rezando para que não encontrássemos nenhum à esquina, pergunta-me:
- Alguma vez me tentaste obrigar a sentar ao colo de um Pai Natal?
- Não, claro que não. Ainda mais eu que sempre tive medo de palhaços e te compreendo tão bem por não gostares de Pais Natal.
- A sério? Sempre tiveste medo de palhaços? - pergunta, sentindo o seu medo menos solitário.
- Sim, sempre tive medo de palhaços e mascarados. Fazia-me impressão não  lhes conseguir ver as expressões faciais.
- Mas houve uma vez que te mascaraste de palhaço...
- Sim, mas isso já foi mais tarde. Além disso, não tinha medo de mim, como é lógico.
- E o pai? Tentou sentar-me ao colo de algum Pai Natal?
- Não, que me lembre, não. Mas o pai não te ia fazer isso... Nenhum de nós te ia obrigar a sentar ao colo do Pai Natal. Podíamos ter perguntado se querias, mas obrigar-te não, de certeza. Porque perguntas isso?
- Não sei... Porque não gosto deles.
- É um mal genético. Sais a mim. Pelo menos sais a mim em alguma coisa...

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Natal é Quando Um Gato Quiser

Nesta casa não somos grandes entusiastas do Natal. Talvez por culpa minha que não sou grande fã de decorar a casa, nem de compras e que só de pensar em ter uma catrefada de coisas para comprar e ter de enfrentar centros comerciais repletos de gente possuída pelo génio do consumismo, fico com dores de cabeça.

Por isso, e porque sou uma preguiçosa da pior espécie, a árvore de Natal só foi montada ontem. Por mim, claro. Que ninguém mais se chegou à frente. E a verdade é que eu esperei. Esperei quase até ao dia de Natal, mas o pessoal cá de casa fez orelhas moucas. Cada vez que eu falava da árvore de Natal, olhavam para o lado, assobiavam, desconversavam. 
Ontem, já fartinha de tanto esperar, a ver o Natal aproximar-se e esta casa sem qualquer sinal de que a época natalícia se aproximava, meto mãos à obra. Vou buscar o saco onde guardo a tralha do Natal e desato a montar a árvore. 
Foi uma festa. Mal pouso o saco no chão, ainda com tudo lá dentro, o Gatossoa atira-se lá para dentro e revolve-o. Ele é bolas a fugir-lhe pela casa fora, é fitas enroladas nas pernas das mesas, é sininhos a tilintar. O gato torna-se a alegria em pessoa. De tal maneira que quando acabo de montar a bela da árvore, tenho que prender o gato na cozinha ou hoje de manhã ainda ia dar com o bicho electrocutado e a árvore em fanicos.

A ver se a aguento até ao dia vinte e cinco. 
Mas duvido muito!

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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Wishlist do J.

O J. não quer um IPhone.
O J. não quer um jogo para a Playstation.
O J. não quer a Playstation mais recente.
O J. não quer uma PSP.
O J. não quer uma acelera.
O J. não quer um carro.
O J. não quer uma viagem à volta do mundo.

O J. quer três fichas triplas.

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Este meu filho não é normal!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Pedaços de Amor Que Se Exilam

Tenho a sensação que há pessoas que pensam que este blogue é um bocado cutxi-cutxi, que só fala das coisas boas na relação pais / filho, que fantasia um pouco quanto às qualidades da cria deste ninho.
Na verdade, pode haver momentos em que o amor que sinto pela dita cria se sobrepõe a uma análise objectiva dos factos, me tolda a visão da realidade ou me adoça a linguagem. Não obstante, tento relatar as cenas desta vida doméstica o mais clara e concisamente possível. Não só para ser transparente convosco, como também para respeitar uma honestidade comigo própria que tento preservar. No entanto, não me posso esquivar à tentação de preferir registar os momentos bons para a posteridade em desprimor dos maus que atiro para um canto do meu ficheiro interior de memórias na esperança que sejam esquecidos.

Para contrariar esta tendência em embelezar o blogue com os bons momentos passados neste ninho, hoje, venho relatar-vos um acontecimento que me acertou como se de uma facada se tratasse.

A necessidade de comprovar que o meu filho efectivasse a compra de uma senha para o almoço na escola foi o motivo que desencadeou a percepção de dilaceração deste coração de mãe.
Disse ao J. que, para ficar descansada que ele tinha almoço, já que não nos comunicamos por telemóvel, acompanhá-lo-ia à escola e compraria a senha com ele. Numa revolta descabida, a cria exalou jactos de pré-adolescência que vieram alojar-se directamente no meio deste peito. Intercalando lágrimas e despeito, reivindicou o direito de comprar a senha sozinha, porque os colegas a iriam gozar por ir com a mãe à escola e não poder mostrar como era grande e adulta e autónoma dos pais.
Ainda incrédula e a sentir abrir-se-me um buraco no meio do peito, digo-lhe que não admito tamanha falta de respeito quando o vejo expressar vergonha em ser visto na minha companhia. Responde-me que também já fui assim. Riposto-lhe que já fui adolescente sim, mas que não foi por isso que fui parva e que se eu respeito a sua necessidade de se mostrar grande e autónomo também exijo que me respeite enquanto sua mãe e que se os colegas o gozarem, são eles que são parvos e que ele tem a obrigação de negar compactuar com tamanha parvoíce. 
De coração ainda a sangrar e com as palavras a saírem-me tal golfadas ensanguentadas, acrescento que ele devia ter orgulho em ser acompanhado pela mãe, porque era sinal que a tinha, que há muitos miúdos que não têm essa sorte e que ele podia ser um deles se eu me tivesse ido quando a doença o houvera programado.
Desfeita, retiro-me para lhe preparar a lancheira e acalmar esta língua ofendida que se move sozinha ao som da dor que insiste em triturar-me por dentro.

Já mais calmos, voltamos a juntar-nos para o pequeno-almoço. Um "peço desculpa" rompe o silêncio e recolhe todos os pedaços que teimavam em fugir-me do centro, juntando-os de novo tal bolhas de mercúrio à procura umas das outras.
Contudo, fica a percepção que o amor não é inquebrável, apesar da capacidade exclusiva de se reconstruir e fazer pleno de novo.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Voluntariado e Voluntariado

Na mesma formação, sobre o mesmo assunto, hipocrisia, ups! voluntariado, o mesmo formador dizia:
- Façam voluntariado. Na associação Acreditar, na Sol, na Ajuda de Berço ou na paróquia da esquina, mas façam voluntariado! Devemos ser solidários!
Ao que lhe respondi:
- Há solidariedade e solidariedade. Isso não é solidariedade nenhuma, porque não se tem intenção de ajudar ninguém, mas criar uma mais-valia no nosso curriculum. Além disso, acho que o voluntariado desvaloriza o trabalho.
O senhor, já irritado, atira-me:
- De qualquer modo, neste momento não tem nenhum trabalho para desvalorizar!
- Pois não, mas não desvalorizo o meu trabalho, já que não tenho nenhum, mas o trabalho de quem trabalha neste momento.
O formador, a ferver, passa à agressão:
- Mas em vez de não fazer nada, e estar desocupada, pode prestar o seu contributo à sociedade fazendo voluntariado.
- Ok, então eu e os meus colegas, vamos dar formações de empreendedorismo, a custo zero e vamos ver se daqui a uns tempos o senhor continua a receber o mesmo e a ter a mesma opinião. Parece-lhe bem?

Uma Questão de Nome

Numa formação sobre empreendedorismo, dizia o formador:
- Temos que fazer voluntariado, porque entre uma pessoa que o faz e uma que não faz, o mercado de trabalho prefere a que faz e que defende causas sociais. 

Se o objectivo do voluntariado é defender estas "causas sociais", devíamos trocar-lhe o nome para hipocrisia que lhe assentava bem melhor.

Podia (Devia) Ter Sido Eu A Escrever Isto

Mas como não fui, vão ter mesmo que clicar AQUI.

Pílula da Estupidez

Detesto ideias preconcebidas e generalizações.
Ou é para me irritar ou não sei porque raio de carga de água é que é o que mais há por aí.
Gente que pensa que, lá porque dois ou três cromos passaram a professar umas teorias da treta como se fossem religião, tudo o que não seja dito pelos cromos é pura alucinação, e que tem sempre pronta uma pílula de uma ideia qualquer que está na moda e de que toda a gente já ouviu falar milhentas vezes, deixa-me para lá de enervada. Dá-me vontade de lhes enfiar a própria pílula pelas goelas abaixo e perguntar "então, estás muito mudado? A pílula fez-te melhorar alguma coisinha? Népia, pá, continuas o mesmo otário!".
Dá-me a impressão que ando rodeada de papagaios que papagueiam todas as patacoadas que lhes impingem.
Ei, pessoal, e usar a cabecinha, hã? E deixar de engolir toda e qualquer informação como se fossem verdades universais sem sequer as processarem?
O cérebro está lá para alguma coisa, não serve só para memorizar, também se pode usar para destrinçar aquilo que é verdadeiro daquilo que é falso; Para separar o trigo do joio; Para deitar fora aquilo que não presta e reter o que interessa; Para descobrir os diamantes no meio da areia.

Fiz-me entender ou querem que faça um desenho? Hã?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Fosga-se!

Como o J. vai ter teste de HGP (História e Geografia de Portugal, para quem não é expert nestas siglas escolares) amanhã, hoje esteve a estudar. No final do estudo, veio ter comigo para lhe fazer umas perguntas.

Falávamos da descoberta do fogo pelos povos recolectores.
- Então, o fogo servia para quê?
- Para aquecer e iluminar as cavernas, cozinhar os alimentos, afastar os animais ferozes e também serviu para desenvolver a linguagem.
- Certo. Como achas que serviu para desenvolver a linguagem?
- Cada vez que eles se queimavam, diziam "fogo!".
- Ah ah ah ah! Outras vezes, diziam "fosga-se!" ou "porra, que me queimei!".
- Ah ah ah ah! Ó mãe, realmente... Ah ah ah!
- Na verdade, a descoberta do fogo esteve na origem das asneiras. O facto de eles se queimarem desenvolveu-lhes a capacidade de dizer asneiras.
- Ah ah ah ah! Pois foi, mãe! Ah ah ah!

sábado, 6 de dezembro de 2014

De Onde Veio Essa Cor?

O homem de auricular no ouvido dá uma tossidela de tempos a tempos.
Cof cof!
E o som das agulhas da mulher que faz um casaquinho em tons de rosa, branco, azul e amarelo enche a sala. Vai mudando a cor da lã consoante a risca que tricota. Como fará ela aquilo? Muda de novelo ou é a lã que vai mudando de cor? Fico a tentar perceber. Mas mal desvio o olhar: outra cor. E o homem mexe-se e volta a tossir.
Cof cof!
Outra mulher, que está duas cadeiras adiante de onde ele se encontra, remexe o saco de plástico com medicamentos. Tira uns, volta enfiá-los no saco. Tira outros.
Tumbas, outra cor! Mais uma vez distraída e deixei passar a troca. Tricota agora a branco. Vai ficar lindo aquele casaquinho. Será para o neto? Para a neta? Para venda?
"Senha C 10 à sala de tratamentos!" E lá vais tu. Aproveito a tua ausência para tentar apanhar a mudança de cor. É agora! Não há nada que me desatente.
Oh, porra, de onde saiu esse amarelo? A senhora olha-me desconfiada. Não tiro os olhos das agulhas. Ah, não, ela nem pense que me vou distrair com o olhar de má que me deita. Vá, tricota, tricota, não pares. É agora. Sei que é este o momento.
Cof cof!
Não, não olho para ti, tosse à vontade que agora ninguém me distrai, nem que te vomites todo olho para ti. Esta cor é minha, esta cor é minha...
"Vamos embora? Já estou pronta!", dizes-me. "Sim", respondo-te de soslaio para não perder a troca.

Merda, de onde veio esse rosa?!

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Crianças Sós

Há crianças abandonadas por aí. Telefones e tablets olham por elas.
Largadas à sua sorte e ao que estes aparelhos lhes podem ensinar, mordem-nos ao nascer dos dentes e chocalham-nos como se fossem rocas. É a fase oral de Freud em 4,7 polegadas de telefone.
Outras, maiorezinhas, em vez de os comerem, procuram o mundo nos seus ecrãs tácteis. Nos jogos, que ao toque dos seus pequeninos dedos lhes dão poderes de fazer saltar bonequinhos pelo ar ou matar bichinhos imaginários, encontram a única realidade que as acompanha.
E estão sozinhas ali. Longe dos pais que se demitiram de as ouvir, de lhes falar, de lhes tocar. Longe do que é a linguagem do amor, sufixos da palavra esquecimento. Crianças que perderam o crescimento, antes mesmo do seu começo. Crianças sós acompanhadas de pais ausentes.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Por Isto E Por Muito Mais

Li este post do João Miguel Tavares e aviso já a quem interessar que não faço quaisquer trabalhos manuais com o meu filho!

Primeiro, porque sou contra os pais fazerem os TPC dos/com os filhos; segundo, porque não gosto de trabalhos manuais; terceiro, porque já tive a minha dose de trabalhos manuais e as respectivas notas e não me apetece ser avaliada por isso outra vez; quarto, porque eu e o meu filho fazemos coisas muito mais giras em conjunto; quinto, porque se gastarmos o tempo juntos a fazer trabalhos manuais, não temos tempo para fazer essas coisas muito mais giras; sexto, porque acho que os professores e a escola não podem mandar TPC que não possam ser feitos sem a colaboração dos pais; sétimo, porque tenho umas mãozinhas que parecem uns pezinhos e não quero que o meu filho saiba; oitavo, porque já não me lembro de mais razões mas quero continuar a enumerá-las e escrevo barbaridades como a do ponto sétimo só para encher; nono, porque a barbaridade do ponto sétimo não é eu ter umas mãozinhas que parecem uns pezinhos, como vos deve ter parecido, mas eu não querer que o meu filho saiba isso; décimo, porque não tendo mais nada a dizer estou viciada nesta coisa da enumeração, da vírgula, da razão e do ponto e vírgula no final; décimo primeiro, porque queria chegar ao ponto anterior e como não sabia como, embalei de tal forma nisto de não dizer nada que até já o ultrapassei.

Ah, mas volto a avisar a quem interessar que não faço quaisquer trabalhos manuais com o meu filho! Ok?

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O Perigoso Mundo do Zapping

Preparo-me a rigor: pijama, pantufas, manta a tapar tudo desde os pés até às axilas, gato sobre os joelhos, comando da televisão na mão direita. Dou início ao zapping. 
Passo depressa pelas telenovelas dos primeiros canais, corro através da Casa dos Segredos de olhos e ouvidos fechados para não ficar contaminada pelas Legionelas que por ali pairam e estaciono num canal de notícias pensando-me a salvo. Quando ainda estou a arrumar o veículo, sou bombardeada por jactos de escárnio e devassa Socrática e fujo para o canal seguinte. Aqui, sou brutalmente atropelada por tanques de análise futebolística. Volto a fugir a sete pés e caio que nem uma patinha num canal até ao presente desconhecido. No canto superior esquerdo posso ler Sic Caras. Por ser estranho, demoro-me uns minutos a observar o espécime. Quatro seres alinham-se em poltronas que formam uma meia-lua. Oiço-os comentar o que outros seres, que vão aparecendo em fotografias, trazem vestido. Assustada, interrogo-me como pode haver quem goste de fazer aquilo. E quem goste de ver e ouvir aquilo. Como ninguém me responde, nem eu própria consigo arranjar uma resposta que me satisfaça, fico ali entre a indignação e o terror. Reparo que um dos joelhos por debaixo do gato começa a tremer. Ele incomoda-se e muda de posição. Sinto os nervos a pulsarem-me nas têmporas, a respiração aproxima-se do arfar, os batimentos cardíacos aceleram, toda eu estou agora em alerta. Procuro desesperadamente um local seguro onde ninguém, daquela gente, me encontre. Debaixo da mesa? Da manta? Do gato? 
Volto atrás no zapping. O polegar aumenta a velocidade a cada canal que se vai. Encontro um onde só há gente de facas nas mãos, comida, tachos e uns gajos que falam aos saltinhos. Peço refúgio aos gajos dos saltinhos. 

Pouso o comando, deslizo no sofá até ficar com o gato ao colo e adormeço na paz das maioneses e dos ovos estrelados. 
Ámen!

DAQUI

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Filho Quase Verde

O meu filho é daqueles que separa sempre os lixos, e ralha com quem não o faz, guarda as tampinhas de plástico que entregamos na Junta de Freguesia para as transformar em cadeiras-de-rodas e afins, guarda as rolhas de cortiça que a escola troca por livros, fecha a torneira do lavatório quando está a lavar os dentes e não precisa da água corrente. 
A última diligência ecológica que levou a cabo foi encher garrafões com a água que aquece para o duche.
Só lhe falta mesmo é apagar as luzes das divisões de onde sai.

Lá chegaremos!

sábado, 22 de novembro de 2014

Nota Máxima Em Ingenuidade

Às vezes, acho-me um bocado ingénua. Pensar as notas como o resultado do empenho, esforço e/ou sabedoria dos alunos relativamente a determinada matéria é uma das ingenuidades que venho alimentando. Penso que, se não representam o que os alunos sabem ou o esforço que fazem para saber as matérias, não fazem sentido e não servem para mais nada. Ingenuidade a minha, pois as notas encobrem todo um universo paralelo!

Ultimamente, em conversa com alguns pais e avós de colegas do J. muito bons alunos, tenho constatado que, afinal, as boas notas são mais o resultado do trabalho dos familiares, que funcionam como uma equipa altamente organizada para os alunos em causa obterem bons resultados, do que do mérito individual dos miúdos. Na verdade, estes familiares estão tão preocupados com o brilhantismo das notas das suas crianças que se organizam de forma a funcionarem como uma linha de montagem de excelentes alunos. Empenho familiar, este que devia estar a ser aproveitado pelo ministério da educação para demonstrar o quão eficiente é o sistema de ensino em Portugal. (Desta cratinice não se lembrou o Nuno, hã?!).

Para juntar à ingenuidade de não perceber que "por trás de um grande aluno, está todo um aparelho familiar", aparece a ingenuidade de não partilhar a crença de que "um bom aluno é o reflexo das suas notas". Tenho pena, mas infelizmente não partilho desta crença. Ser-me-ia tão mais fácil e favorável acreditar nisto, já que o meu filho também tira boas notas e, assim, poderia discutir com os outros pais quem tinha o filho mais brilhante e ter tema de conversa para horas de ilações escolares. Infelizmente, sou ingénua demais para isso e as nossas conversas acabam por durar pouco tempo!
Aqui que ninguém nos ouve, para ser sincera (mais um dos meus grandes defeitos) não me interessam nada as notas dos putos, quando lhes pergunto pela escola só o faço para meter conversa. Uso este tema como se fosse o da meteorologia, pergunto "a escola está a correr bem?" como poderia perguntar "está um lindo dia hoje, não está?". Após o chavão já nem oiço a resposta, só quero mesmo quebrar o silêncio que, por vezes, faz mais ruído do que estas conversas da treta a que nem eu nem os putos ligamos a mínima. Mas estes pais ligam e falam das notas dos filhos como se o assunto fosse uma questão de vida ou morte, desenvolvem o tema de forma a conduzirem a conversa até qualquer coisa como "o meu filho teve 100% a Português!". E aí o regozijo é total. Vemo-los crescerem uns centímetros perante os 100% e se, ainda por cima, os nossos filhos só tiveram 98% à mesma disciplina, crescem mais um pouco, como se aqueles 2% equivalessem ao nível de superioridade das suas crias perante as nossas. Ingenuidade a minha que não percebo que a minha cria é 2, 10 ou 20% inferior à deles!

Mas, infelizmente e para acrescentar uns pontos à minha ingenuidade, a paranóia das notas dos putos não é exclusiva dos pais com filhos excelentes alunos, ela atinge também os pais de filhos maus alunos e os pais de filhos mais ou menos bons alunos. Na verdade, parece-me que a paranóia com as notas é um mal geral e que até há pais que medem o amor aos filhos em percentagens e escalas que vão do "mau" ao "muito bom".
Felizmente, sou suficientemente ingénua para o amor que sinto pelo meu filho não ter escala que o meça. Assim, não preciso de andar sempre a fazer contas. Ufa!


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Tostões

Gente que se vende a tostões. Venda por venda que se peça um valor alto pela alma. Agora tostões?! Já nem valem nada, os tostões... Já nem existem, mas há, ainda, quem troque convicções por eles.

Estranho...

Quão voláteis serão as convicções? E que farão aos tostões? Serão poucos e não haverá muito que se possa fazer com tamanha escassez. A não ser guardá-los. Ou utilizá-los como peça decorativa. Ou recordação do que em tempos se acreditou e se acabou por vender.

A tostões.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Ouvir Quem Sabe

O meu filho é um desportista nato. Dá o litro, tem uma garra invejável e uma resistência inabalável. 

Falávamos das minhas corridas. 
- O meu problema é a respiração. Fui tantos anos fumadora que me custa aguentar a respiração acelerada na corrida, falta-me o ar ainda antes de me doer as pernas - desabafei.
- Mãe, não desistas. Mesmo que pareça que vais morrer, não desistas! Continua sempre. - aconselhou-me.

A verdade é que sempre que estou p'ra morrer a meio de uma corrida, é este conselho que ecoa na minha cabeça. Já lá vão cinco semanas de quatro treinos semanais, o objectivo aproxima-se e ainda não desisti.

Obrigada, filho!

DAQUI

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O Quarto Mandamento

- Mãe, a professora de Português disse para pesquisarmos os Dez Mandamentos!
- Ok, vai lá ao computador pesquisar!
O J. pesquisa e dá de caras com isto: 


- O quê? É isto?! Vou ter que escrever isto?!
- Queres que te dite?
- Ditas?
- Dito. "Os Dez Mandamentos. Número um - Amar a Deus sobre todas as coisas". "Deus" com letra grande.
- Oh, mãe, tenho vergonha!
- Tens vergonha de quê?
- De estar a escrever estas coisas religiosas! Isto é uma parvoíce!
- Não há razão para teres vergonha. Há muitos anos, foram estas coisas religiosas que ensinaram as pessoas a serem melhores. Vá, "Número dois - Não tomar seu santo nome em vão".
- Oh, o quê? Vou ter que escrever isso?
- Vais! "Não tomar seu santo nome em vão". Olha aqui como tem coisas importantes: "Não matar", "não roubar". Vês ensina as pessoas a não fazerem estas coisas más!
- Ponto três?
 "Guardar domingos e festas de guarda". E o mais importante de todos é o número quatro "Honrar Pai e Mãe". Este é o que deves ter mais atenção! Eh eh eh!
- Ah ah ah! Sim, sim!
- Pois é! Respeitinho é muito bonito e pai e mãe são sagrados! 

Para o Lado Que Estamos Virados

Durante o jantar.
- Os meus colegas acham preocupante haver gente que não conhece a Miley Cyrus.
- Acham? Porquê?
- Não faço ideia. Eu acho preocupante é haver colegas meus que não sabem quem é o ministro da educação!
- Quem não sabe quem é a Miley Cyrus? Tu?
- Não, o V. Achas preocupante?
- Não. Ele pode não estar interessado nesse tipo de música e não estar atento. Não acho mesmo nada preocupante.
- Eu também não. Mas não saberem quem é o chato do ministro da educação já me preocupa!
- Preocupa?
- Sim. Aposto que nenhum deles sabe.
- Oh, deve haver quem conheça. O J.T. por exemplo.
- Não, acho que não!
- Mas ele sabe muitas coisas... Pode saber o nome do ministro.
- Não, o J.T. só sabe coisas alegres. Não está virado para essas coisas más! Devo ser o único que conheço o Crato.
- Hummm... E tu não estás virado para essas coisas alegres?
- Não. Quando nos viramos para as coisas más, já não há volta!
- Não há volta? Se calhar a culpa é minha de estares virado para coisas más... É? Não queria nada virar-te para coisas más...
- Não sei, mas estares sempre a ver essas coisas da Legionella pode ser uma razão.
- Glup!
- Há colegas meus que têm imenso medo do Ébola. Acham que há Ébola em todo o lado.
- Hum. Mas não há. Eu nem tenho estado nada atenta ao Ébola.
- Pois... Mas os pais deles devem estar. Tu estás atenta à Legionella.
- Glup!

Para Pensar



sábado, 8 de novembro de 2014

Amor é...

... ver o meu homem na televisão e, de peito cheio de orgulho, sair-me "o meu homem é tão lindo!" como se namorássemos há dezoito meses em vez de há dezoito anos.

DAQUI

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Felicidade Exacerbada

Estamos cercados por selfies risonhas, retratos sobre paisagens paradisíacas, imagens de pratos cheios de comida bonita e apetitosa.
Estamos cercados de felicidade exacerbada. Da falsa felicidade com que vivem os tontos, onde tudo é artificial e para mostrar e nada é genuíno e privado.
Vive-se num filme cor-de-rosa, numa comédia romântica. Vive-se com uma alegria contagiante cheia de gadgets por onde se diz ao mundo o quanto se está feliz, e alegre, e contente, e feliz outra vez.

Desligam-se os dispositivos electrónicos e a felicidade

apaga-se.

A Anos-Luz

Sei que ando um bocadinho afastada daqui. 
No fundo, no fundo, não é só daqui ou nem é daqui. Ando afastada desta coisa da escrita porque também destas coisas que se passam na vida. Das notícias, das polémicas, das conversas, das pessoas. Das pessoas. Cada vez mais das pessoas. Afligem-me muito. O que pensam, o que dizem, o que sentem. Mas o mal é meu que não consigo entendê-las. O mal é meu que não consigo dar a importância necessária a coisas, para mim, frívolas. Ou é meu que não encontro pessoas com quem sinta proximidade intelectual além dos meus muito próximos. Não que me sinta superior, que não sinto, é mais uma coisa de sintonia - não me sinto em sintonia com mais ninguém além dos meus muito próximos. Parece que estou sempre noutra, numa muito diferente da dos outros. 
Às vezes, chego a ter a sensação que vivo num planeta diferente. 
O que a mim me parece claro e lógico, aos outros parece completamente ridículo e sem nexo. E vice-versa. Não que eu ou os outros sejamos melhores ou piores. Somos diferentes, muito diferentes, tão diferentes que poderíamos ter um oceano ou um céu a separar-nos. Daí a sensação de assincronia. Daí a ideia de imensidão entre nós, de incompreensão.

De solidão.  

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Imagens Insípidas

Retratos de gente sem dentro. Embalagens da moda. Rótulos de marcas que sentam na plateia da vida quem não sabe aonde pertencer. Sensação de encaixe em qualquer lugar sem o sabor da inerência. Ausência de sal ou doce. 

Urgência gustativa.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Fado

Há pessoas que adoram queixar-se. A falta de uma doençazinha, de algo que não se afigure perfeito, de qualquer coisa que não esteja bem, é motivo de pânico. Ficar sem razão de queixa, motivo de lamuria ou pormenores a melhorar não querem nem imaginar. 
Assim, são capazes de disfarçar os erros perante as autoridades competentes para os corrigir só para preservar o trunfo da imperfeição. Denunciar o que está mal? Apenas de forma informal, porque se formal ainda pode haver quem apague o fado por que chorar. E isso é que não.

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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Voltar Ao Teatro e...

...querer ficar por lá!

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Foi assim no sábado passado... Eu e o pai do J. voltámos ao nosso querido Teatro da Comuna
Se há teatro que amamos é este. Desde a simpatia contagiante do rapaz que vende os bilhetes até às peças de elevada qualidade, passando por todo o ambiente que se vive por ali enquanto se aguarda o início da peça, amamos tudo.

E eu gosto tanto de teatro que ir lá e calhar-me uma peça ligeirinha é uma decepção. Preciso de teatro um pouco como de uma terapêutica que tem de ser consumida com regularidade ou começo a ansiá-la muito. Ou a ressacá-la, como preferirem.
Considero uma boa peça, aquela que me coloca questões, que me chocalha as ideias e faz pensar. Gosto de ir para casa com ela na cabeça e discuti-la com o pai do J. 
Teatro light não me serve. Coisinhas só para entreter, que não me excitem o cérebro? Não, obrigada! Mais facilmente vejo um filme da treta sem me chatear muito do que uma peça de teatro da mesma qualidade. Fico mesmo muito chateada quando sinto que estive a ver um espectáculo medíocre, quando sinto que vou para casa igual a como ali cheguei. É por isso que acho que o teatro também é transformação interior nossa, dos espectadores, e que só assim cumpre a sua função, transformando quem assiste, fazendo com que cada espectador leve um bocadinho dele para casa e o faça reviver dentro dele nas dúvidas e interrogações que exalta.
E o Teatro da Comuna tem peças destas, que excitam as mentes e interrogam os crentes. A maioria são peças de levar para casa e andar com elas durante dias. Às vezes meses. 
Por esse motivo, sempre que estou indecisa entre duas peças, em que uma é na Comuna e outra não, escolho normalmente a da Comuna. Porque me garante que não vou passar por lá indiferente, porque me garante que vou sair a sentir-me cheia e viva, e pensante.
Esta peça específica, O Evangelho Segundo Pilatos, foi uma destas boas, que vai andar comigo uns tempos. O texto é bom, muito bom. O Carlos Paulo é maravilhoso e incansável, numa hora e meia em cena com um extenso e complicado texto para interpretar, o Hugo Franco não se fica nada atrás, apesar do papel mais pequeno, e o cenário simples não precisa de mais nada para encher a cena de significado. 


Não deixem de ir!

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Hoje, Vi o Meu Avô

Hoje, vi o meu avô nos olhos de um senhor sentado num banco de jardim. 

Olhava para dentro como o meu avô tanto olhou até que se perdeu por lá. Dobrava a perna, o senhor, numa ginástica que chamava os músculos adormecidos à vida. Ordens do cérebro que já não lhes chegam. Cabeça que ordena a corpo que não cumpre. 

Hoje, vi o meu avô nos olhos de um senhor sentado num banco de jardim.

Como o vejo por aí, de vez em quando. Como o vejo em flores e gatos. E em sonhos. Encontro-o em sonhos como gostava de o encontrar no banco de jardim. 
Hoje, nos olhos do senhor. E na perna. 

Hoje, na ausência do olhar e na saudade imensa.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

What Is Beauty?

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Onde Foi Que Me Perdi?

Passar pela casa onde vivi, percorrer caminhos antes feitos a cavalo, procurar o meu cão desaparecido há mais de dez anos e tentar perceber onde foi que me perdi. Algures por aqueles campos verdes, por entre caminhos de terra, estradas e vinhas perdi um pouco de mim. Tal como sempre que por ali passo procuro o cão desaparecido, também procuro aquela parte do meu fundo que por lá ficou. Talvez entre o cão e a égua já ida estará o eu que tento redescobrir.
É com clareza que me vejo a cavalo, é com verdade que sinto o vento na cara, que cheiro a terra e vejo o sol a baixar no monte lá longe. A palha pica-me as pernas, enfiada nas calças e o cheiro a estrume e a ração estão ainda tão presentes aqui. 
E no entanto, o que foi feito de mim? Que parte é essa que se foi nos meus bichos e me transformou tão sozinha deles, e de mim? 

Quem me dera saber onde foi que me perdi.

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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Mudanças

No carro, a caminho do treino de basquetebol:
- Então, J., ainda fazes aqueles exercícios que fazias com as palavras? 
- Não, mãe!
- Então porquê?
- Agora, já tenho mais em que pensar.
- Ah, ok! Mas achas que ainda consegues?
- Não sei. Pergunta lá!
- Completamente.
- Eh, essa é muito grande! Tens que começar por uma mais pequena!
- Corda.
Alguns segundos depois.
- Adroc!
- Ehhhh! Tanto tempo!
- Pois, mãe, já não estou treinado. Dantes, estava sempre a fazer esses exercícios. Agora já não faço. Pergunta outra!
- Coca-Cola.
Um bocadinho mais rápido do que a anterior.
- Acoc-Aloc!
- Eh eh eh! Que giro! Vamos passar a chamar Acoc-Aloc à Coca-Cola. É muito mais giro!
- Sim, vamos. "Vamos beber uma Acoc-Aloc?" Ah ah ah! "Oh não, eu não bebo Coca-Cola que faz mal, eu bebo Acoc-Aloc que é muito melhor!" 
- Ah ah ah! 
Breve silêncio e pergunto:
- Mas conta-me lá, já não tens tempo para fazer estes exercícios com as palavras porque andas a pensar em quê?
- Na verdade, quase não tenho tempo para pensar em nada... Mas, quando tenho tempo, penso que vou mudar o mundo.
- Hum, mudar o mundo? Uma coisinha bem simples. E como estás a pensar mudá-lo?
- Ainda não sei muito bem, mas primeiro vou ser uma estrela de basquete para poder dizer as coisas que estão mal e as pessoas ouvirem-me. Assim, quando me entrevistarem, eu aproveito para mandar umas "bocas".
- Mas para mudares o mundo tens que fazer mais do que mandar umas "bocas".
- Sim, eu sei, mas ainda tenho que pensar melhor nisso.
- Ah, ok! 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Mão Desajeitada Para Pentear Cabelos

Olha em frente e sorri. Com os dedos juntos em forma de espátula afasta-me o cabelo dos olhos para me beijar a face. O gesto e a mão desajeitada de quem nunca precisou separar os dedos para pentear grandes cabelos enternecem-me. Fico derretida neste movimento só dele que ninguém nunca conseguirá reproduzir. Gesto que só existe naquela mãozinha pequena e desajeitada para pentear cabelos. 
A madeixa volta a descair-me para os olhos. E ele insiste. E recebo festas extra que me aninham na mão do meu filho. Enrosco-me na mão e o meu peito enrosca-o a ele cá dentro. E ele beija-me a face. Um beijinho pequenino diz-me em silêncio "gosto de ti, mãe". E o meu coração liquefeito pelo amor não consegue evitar pingar-lhe melodias de embalar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Cratiníssimas Desculpas

Aqui há uns dias, excelso Cratiníssimo PEDIU DESCULPAS "aos professores, aos pais, ao país" pela borrada que fez na colocação dos primeiros nas escolas.
Quando ouvi as palavras do senhor ministro pensei "porra, finalmente, aprovo uma acção deste gajo!" e senti-me contente comigo mesma por ainda ter a abertura de espírito suficiente para vislumbrar algo de bom naquilo que até ao momento só me tinha apresentado cocós. Senti-me bem comigo e com ele. Afinal, aquilo não eram só cocós, havia uma ínfima dose de humanidade e humildade no meio de tanta trampa.
Hoje, oiço declarações do mesmo e de outros sobre o assunto e reparo que as declarações dos outros estão repletas de insinuações irónicas ao facto do Cratiníssimo ter pedido desculpas. E tudo me passa a parecer descabido, desajustado, uma farsa. Se em todo o mandato do homem houve alguma coisa que o mesmo fez de digno foi este pedido de desculpas. Pegar nele para o atacar é como pegar numa flor para fazer estrume. Tudo o resto é legítimo de ataque. Tudo menos este pedido de desculpas. Mas os seus digníssimos opositores pegaram na única flor que brotou na estrumeira para fertilizar areais de cactos. Conseguiram aumentar o fedor que deixou de vir de um só lado. 
E ficou tudo empestado!

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Um Livro Onde Morar

Ando numa ânsia de ler. Talvez porque também ando numa ânsia de escrever. 
Tento escrever uma história que trabalha em mim há tempos. Por isso, leio livros. Leio vários livros em simultâneo, mas não me entra nenhum ou eu não entro em nenhum.
Fico à porta a olhar para dentro. Saio e volto a tentar entrar e saio de novo. Não quero, mas acabo sempre por sair. E ficar à porta a espreitar.
Procuro desesperadamente um onde morar uns tempos. Desejo um que me leve longe, que me engula. Mas a fresta que se abre a cada palavra lida é mínima e não caibo. Ponho o corpo de lado, enfio a mão, o braço, o ombro, mas o peito já não passa e fica à porta. Deixo o peito cá fora e leio só com as mãos e os braços. E o livro passa a ser assimilado a conta-gotas quando o queria sorver de um trago. Queria pegar-lhe e não o largar mais até terminar. Mas pouso-o e descanso-o, e descanso-me. 
Queria entrar nas personagens e pertencer-lhes. Elas fariam de mim o que quisessem, levar-me-iam para as suas histórias e eu integraria a trama, moraria dentro dela, assim como ela passaria a morar em mim. Mas os livros não me têm convidado a ficar. Abrem uma fresta mínima, deixam-me espreitar e dizem "volte mais tarde!". 
Em negação de mais uma tentativa frustrada, baixo a cabeça, retiro os braços e as mãos de fresta, viro as costas e vou-me embora. 

Raramente, volto.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O Meu Tom é Outro. Ou Talvez Esteja Desafinado....

Bem, já que toda a gente por esta blogosfera fora falou deste filme, e que o amou e blábláblá, também vou falar dele, ok?

Fui vê-lo porque como não tinha a quem deixar o J. para ir ver o "Em Parte Incerta" com o pai dele, tivemos que escolher um filme que o pequeno também pudesse ver e como só tinha referências positivas deste filme, deixadas aqui, neste mundo virtual, lá me deixei convencer.

Na verdade, estava à espera de melhor. Não achei nada as maravilhas que disseram dele, mas nem todos achamos o mesmo, não é? 

A rapariga canta bem, os actores portam-se bem, mas não tem nada de mais. 
Enfim, é um filmeco para entreter com uma musiquinha agradável.
Apetecia-me uma coisa com mais "substância". 
Talvez para a próxima consiga acertar o tom...


domingo, 5 de outubro de 2014

sábado, 4 de outubro de 2014

Post Esquizofrénico

Constante procura de serenidade. Dúvidas no ar e em volta. Rodear a perturbação de não haver resposta. E perguntar de novo. 

Paira o silêncio da incerteza. Zumbem interrogações. Surge a linha infinita da hipótese. 

Pluf! Rebenta a bolha!

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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Guerras Maritais Pré-Sono

A propósito de uma crise generalizada de diarreia que invadiu esta casa...

Eu - Ó pá, estás a habituar-te a ficar doente! Tu és o gajo da saúde aqui de casa, não podes ficar doente! Primeiro foi o dedinho partido, agora é a diarreia...

Pai do J. - Então?! Estou a gostar de estar em casa, o que é que queres?

Eu - Mas não podes! Se tu deixas de ter saúde, está tudo estragado! Deixa lá as doenças para mim que essa é a minha função.

Pai do J. - Tu até és uma pessoa saudável... Eu sempre tive mais doenças do que tu!

Eu - Ah, mas eu não tenho doencinhas... Quando é para ficar doente é mesmo a sério, tenho logo doenças que matam e que requerem tratamentos altamente corrosivos... Não ando aqui a brincar como tu que só arranjas coisinhas para entreter o corpinho como alergias e essas brincadeiras para sistema imunitário ver!

Inversões

Diz que a idade traz maturidade. Diz que ensina o respeito pelo outro, a tolerância, a serenidade do saber. Diz que há algo que cresce por dentro, que se acumula sabedoria e se aprimora o ser.

Diz que sim, que é tudo isso, mas em grupo inverte-se a teoria e volta-se ao berço. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Do Mérito, da Honra e do Orgulho Que Tolda a Visão

Eu não queria escrever este post, mas, desculpem lá, vai ter que ser!

Por estes dias entregaram-se os diplomas aos alunos que ficaram no Quadro de Mérito, Honra ou Sei-Lá-O-Quê. Deste modo, o Facebook tem sido inundado por litros de baba de mamãs e papás orgulhosos que a destilam por tudo o que é lado. 
Até aqui, nada de novo ou de especial! Também eu, mãe de criança recorrentemente diplomada, já desabafei no Facebocas o orgulho que tenho na cria.

A diferença entre a minha baba desabafada e a vertida por estes pais, e o motivo deste post que-não-queria-sair-mas-saiu, está na fotografiazinha que ilustra o momento. 
O orgulho destes pais entornou-lhes baba sobre os olhos e a visão toldou-se-lhes! 
Não é que os ditos escarrapacharam fotografias dos diplomados rebentos com o diploma na mão onde se lê na perfeição o nome todo dos rebentos e a escola que frequentam? Será que não se apercebem que estão a dar ao mundo, de bandeja, informações preciosas sobre os filhos? 

Ou sou eu que sou toda coisinha?

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Estudar QB

Tenho uma guerra com o ATL que o meu filho frequenta: O tempo que ele dedica ao estudo!
Dizendo só isto, aparecerão vários pais e mães a dizer "oh, também eu! Grande novidade! Os miúdos não estudam nada nos ATL!". 

Só que o meu problema é ao contrário: eu quero que o meu filho estude MENOS no ATL. Ou seja, eu quero que o meu filho apenas faça os TPC no ATL! Nada mais, nada menos, apenas os TPC.
Sou estranha, maluca, whatever... Mas, por favor, deixem lá a minha criança em paz, que ela não precisa de estudar mais, ok?
Desnaturada? Chamem-me o que quiserem, mas fiz um "acordo" com o meu filho e quero continuar a cumpri-lo enquanto ele cumprir a parte dele. Certo? Pode ser? Deixam-me?
Será que as educadoras do ATL podem deixar de lhe receitar cópias e porcarias dessas para ele fazer? Fazem esse favor aqui à je

Eu não quero ter um filho com uma letra lindíssima! Eu não faço questão que o meu filho tenha 100% em todos os testes! Eu não quero que ele coleccione diplomas de mérito ou honra ou do raio-que-os-parta-a-todos! Até porque não os emolduramos, nem os penduramos na parede...

Eu só quero que ele continue a gostar de aprender, a ter curiosidade para explorar novos temas e matérias, a sentir que a escola ainda tem coisas boas para lhe proporcionar e quero, especialmente, que ele viva para além da escola! Só isto! Será assim tão difícil de entender?

(Prometo que quando ele começar a baixar as notas, ele estudará mais, ok? Satisfeitas assim, senhoras educadoras?)

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A Rita e a Lina

Há pais viciados na Rita e na Lina. Há pais que não conseguem olhar para os filhos sem que estes estejam drogados. É completamente incomportável para estes pais que os filhos não queiram fazer os trabalhos de casa; que se distraiam com a mosquinha que lhes viaja pelo quarto enquanto estão sentados na secretária a olhar para os cadernos da escola que gostariam de queimar; que tenham uma letra feia; que prefiram andar aos saltos a estar concentrados em merdas que não lhes dizem absolutamente nada, porque a vida é feita de vídeo-jogos e televisão e tudo o resto não interessa nem ao menino Jesus, nem vale metade da atenção que despendem com coisas importantes como os jogos em que podem passar de nível.

"Estão doentes, de certeza" pensam os pais. E levam-nos ao pediatra que os encaminha para um psicólogo, que não os deixa sair sem um diagnóstico e uma receitazinha da Rita mais a Lina, uma anfetamina prima da cocaína, que os deixa sossegadinhos, direitinhos, atentos, obedientes e cheios de vontade de fazer os TPC. Os pais saem maravilhados do consultório sem se aperceberem que no momento que enfiarem aquela porcaria goela abaixo dos filhos perdem-nos para uma família de químicos que, além de os levarem para longe, os despersonaliza para sempre.

Alguém, na sua perfeita saúde mental, acredita que há crianças com vontade de fazer TPC? 
Alguém acredita que há um real interesse das crianças pela escola, nos moldes em que ela se lhes apresenta hoje em dia? 

Não me lixem!

(Sim, tive reunião de encarregados de educação e vim de lá lixada com F grande!)


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Felicidade ou Autonomia?

Vi este vídeo num blogue, mas já não sei qual, por isso não menciono a origem. Se o autor/autora desse blogue passar por aqui, deixe-me o link, por favor, para eu o poder acrescentar ao presente "post". 
Não gosto de ter por aqui coisas roubadas sem mencionar de onde roubei! Sou uma ladra com princípios, porra!

Devo dizer que vale bem a pena ouvir o que o Humberto Maturana, neurobiólogo, e  a Ximena Davila, professora, ambos chilenos, têm para dizer. Está relacionado e fez-me questionar aquela conversa ali do lado direito ao pé da minha foto... 
Queremos filhos felizes ou autónomos? 
Caraças, que esta história da maternidade é mesmo tramada!


Ódiozinho

Detesto aquela mania que a maior parte das pessoas, geralmente em grupo, tem de faltar ao respeito e gozar com as pessoas de aspecto frágil que mais demonstram consideração, e atenção, pelos outros!

Ó pá, detesto!

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Boca Surda

Esta coisa de se dizerem as palavras certas não encaixa em mim. 
Tento ser assertiva. Não ofender, não desprezar, não magoar, mas normalmente não consigo. Saem-me os pensamentos em rajadas sem que consiga travá-los a tempo. 
E esta fúria que me obriga a pensar com a boca. Esta indignação perante os absurdos da vida, e dos outros. E o cérebro a ordenar à boca que se cale. E a boca surda. 
Confundem-se-me as funções e falo com a cabeça, depois de pensar com a boca. E o cérebro grita. E a boca surda. Raios, que se me desorganiza tudo! E as caras fecham-se. E a boca cega e surda.

Arre!

sábado, 20 de setembro de 2014

Cowboy do Mar

Carrega o mar aos ombros
Recolhe o céu no colo

Desfaz tristezas

Mordisca os cantos ao infinito
Flameja os ecos do silêncio

Dissolve a dor

Saboreia o sal da calma
Cheira o doce às águas

Pastoreia peixes 

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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O Cabelo do Rapaz Castanho

O J. descrevia-me o cabelo de um miúdo lá da escola nova:
- Era assim como as cabeleiras dos palhaços, sabes? Mas só para cima - com as mãos desenhava o cabelo do miúdo no ar em volta da própria cabeça - E ele rapou-o assim nos lados - passou os dedos acima das orelhas, da frente para trás, como se traçasse dois riscos nos lados da cabeça.
- Estou mais ou menos a ver. O rapaz era preto?
- Ó mãe, não perguntes isso assim. Para mim isso é racismo! - ofendeu-se.
- Eu não estou a dizer "preto" num tom depreciativo. Sabes perfeitamente que não sou racista. Mas estamos a falar do cabelo de um rapaz e é importante para eu o imaginar melhor saber se o rapaz é preto ou não. Se é uma carapinha ou não faz toda a diferença. Além disso eu falo em "pretos" como falo em "brancos", quando a cor da pele é importante naquilo que estou a dizer. Não estou a fazer nenhum juízo de valor, nem considero as pessoas melhores ou piores consoante a sua cor.
- O que é uma carapinha?
- É um cabelo como os dos pretos, muito encaracoladinho, sabes?
- Sim, sei, mas não gosto que digas "preto". Soa-me sempre a racismo!
- Sabes bem que não é. Como queres que diga? Negro, castanho, escuro, de cor? 
- Castanho. Eles são mesmo é castanhos! O do cabelo até nem é muito castanho, é um bocadinho mais clarinho, assim como o LeBron James, sabes?
- Sei, é mulato, certo? Mas o LeBron James não é muito clarinho... Ok, passo a dizer "castanho". Mas dizer "preto" não é obrigatoriamente depreciativo. Para mim, é como dizer que "aquele rapaz é loiro, moreno, tem olhos azuis, verdes ou castanhos". São características das pessoas. Nada mais.
- Mas diz "castanho", ok?
- Ok, combinado!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Nirvana In Utero, Please!

Ok, confesso que estou um pouco nervosa. Tentei armar-me em fortalhaça, mas não estou a conseguir dar conta do recado.
O miúdo mudou de escola e saltou, num abrir e fechar de olhos, de ciclo. Ainda ontem estava eu a chorar nas escadas da creche por largar o meu piolhinho de quatro meses nas mãos de estranhas e hoje voltei a largá-lo numa escola enorme, com miúdos enormes (alguns já com barba e tudo) nas mãos de... de... DELE PRÓPRIO! Isto é assustador! Como é que ele foi capaz de crescer tão rápido, sem esperar que eu estivesse preparada? Como é que ele, assim de repente, foi capaz de ir para o segundo ciclo e passar a calçar o número quarenta e um sem sequer me avisar ou pedir autorização? O sacaninha do miúdo até já compra senhas para os almoços na cantina e tudo!

Expliquem lá, mães experientes, como é que se gerem estes medos, medos não, pavores, sem que nos colemos às costas dos filhos tal lapas às rochas? Sim, porque vê-los crescer é muito lindo e cheio de poesia, mas esta parte do abandono progressivo do ninho não tem piada nenhuma quando estamos no meio do ninho a vê-lo esvaziar-se! Porque nunca nos avisaram desta parte, hã?
Porque raio de carga de água há sempre o outro lado da questão? Aquele lado em que a beleza se esbate e em que começamos a ver tudo meio desfocado?
Fogo, pá, podiam fazer estas coisas à imagem do paraíso, onde tudo é belo e melodioso e em que as crianças crescem devagarinho e harmoniosamente sem atropelos e tropeções! E em que nós, mães apavoradas, podemos guardar os medos numa caixinha e curtir o crescimento dos rebentos em pleno nirvana!

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

- Mãe, Acreditas Naquela História do Jesus Christ Superstar?

- Mãe, tu acreditas na história de Jesus?
- Que existiu um maluco com a ilusão de que podia mudar o mundo e que se chamava Jesus? Acredito. De vez em quando, ao longo da história, aparece um!
- Estás a falar com um desses malucos.
- Quem, tu? Acreditas que podes mudar o mundo? 
- Sim!
- Ah que bom! Esperemos que consigas!
- Mas o que eu queria saber era se acreditas naquela história toda, do Jesus Christ Superstar.
- Acredito que existiu aquele maluco que pensava que com amor podia mudar a humanidade. Mas no que toca aos milagres e essas coisas já não acredito.
- Eu não acredito em nada disso. Se as pessoas querem ser todas iguais umas às outras o mundo nunca vai ser melhor, porque elas são todas iguais. Jesus era judeu?
- Sim, acho que sim. Por isso o chamavam de Rei dos Judeus. Lembras-te daquela parte do filme em que o rei Herodes e Pilatos o chamam de king of the Jews?
- Lembro. Que milagres é que diziam que ele fazia?


- Diziam que fazia os paralíticos andar, os cegos ver e coisas do género. Mas como viste no filme, depois as pessoas só queriam que ele lhes fizesse coisas e quando foi altura de o apoiarem, viraram-lhe as costas e não o defenderam. É o que as pessoas costumam fazer, infelizmente.


- Eu também não acredito naquela cena da ressurreição. E tu, mãe?
- Também não.
- Aliás, eu não acredito em nada.
- Eu acredito que ele existiu, mas que a história à volta dele é fantasia dos homens.

Só espero que este meu maluco consiga mesmo mudar o mundo. Ou parte dele...

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

(Des)parametrizar

Vivemos parametrizados, cercados por regras e padrões que nos prendem, que nos amarram, a convenções que, por vezes, nada têm a ver com as nossas. Vivemos presos a um cabelo assim, a um corpo assado, a padrões de pensamentos, de comportamentos, de opiniões, de bens materiais, de coisas e mais coisas. Vivemos sepultados numa imagem que não nos reflecte. E podemos viver assim anos, décadas. Podemos viver assim eternamente.

Ou podemos, um dia, abrir os olhos e enxergarmo-nos. Olharmos para dentro e vermos aquilo que somos. Sentirmo-nos bem num corpo menos estereotipado, gostarmos daquela cicatriz, afeiçoarmo-nos àquele dentinho torto, àquela assimetria do rosto. Sentirmo-nos bem num penteado que não está na moda, numa roupa que não se usa, gostarmos de comida picante, detestarmos gin, preferirmos andar descalços, adorarmos rebolar na areia, passarmos a olhar o infinito em vez do ecrã de um computador e libertarmo-nos de padrões que não nos dizem nada. Libertarmo-nos daquilo que não nos serve, libertarmo-nos daquilo que nunca nos serviu, porque é fútil, porque é oco, porque não cabe em nós.
E assim, leves e soltos, abandonarmos de vez a ideia da perfeição. E desabrocharmos num amor-próprio livre que nos permitirá encontrar prazer nos defeitos, especialmente nos defeitos, nos nossos defeitos, que se transformarão em, apenas, mais uma parte de nós, sem o peso do "errado" e do "imperfeito". Sem peso nenhum.
E assim, sem as coisas vãs que não nos enchem e só nos esvaziam, encontrarmos mais um pouco desse "eu", cuja procura justifica toda esta travessia.

Pégaso

Sonhei com a minha égua. No sonho, ela estava morta, deitada debaixo de um oleado há quinze dias e de repente mexeu-se. De repente, estava viva outra vez. O meu coração saltou de felicidade, mas a dúvida, a incompreensão de como aquilo tinha sido possível não parou de me importunar. Acordei. 
Passei o resto da noite a tentar continuar aquele sonho. Queria-a viva mais um bocadinho, mas não a consegui segurar no sonho.
Ela virou costas, e voou. Outra vez.

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