terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Gente Boazinha e Invejosa

Para o ano que vem, quero muitas coisas. Tal como toda a gente, quero que o ano seja melhor do que este, que a saúde, o amor, o dinheiro e a felicidade não faltem. Mas também quero ver-me livre de umas tantas coisas. Entre estas coisas, estão as gentes boazinhas e invejosas. 
Não sei se será impressão minha, ou se, realmente, há mais gente boazinha e invejosa por aí. Não falo da gente boazinha e invejosa em simultâneo, mas da gente boazinha e da gente invejosa. Em separado. Gentes diferentes, mas igualmente irritantes.

A boazinha é aquela que faz e diz tudo o que é politicamente correcto. Tem sempre a palavra certa, no momento certo. Cheia de amor espalha-o em tudo em que toca. Ama todos os animais, todos os pobrezinhos e todos os doentes. Indiscriminadamente. Sejam eles uma destas três coisas, a gente boazinha ama como se de um filho se tratasse. Exerce o bem, dia sim, dia sim. Tem uma paciência infinita até para os mais chatos. Enfim, é gente boazinha que nunca mais acaba.

A invejosa é aquela que não suporta a mais pequena alegria nos outros. Qualquer coisa porreira que os outros façam tem defeito e incomoda-a. É especialista em boicotar toda a cena, cuja autoria não lhe pertença. Quaisquer cenas, desde que sejam fixes, e dos outros. Vê má intenção em tudo. Perversidade é o seu lema. A gente invejosa não tolera nem o sorriso alheio. Vive azeda e tenta azedar tudo o que a rodeia.

Estou cansada destas gentes. Juro, teria um 2014 melhor, longe deste tipo de gentes.
Ah e com saúde, muita saúde, saúde aos potes, para dar e vender, que daria com prazer a quem dela precisasse. Só a quem dela precisasse, é que eu não sou nem boazinha, nem invejosa, ora!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A Importância de Não Ter

Estamos em crise, é verdade. Há imensa gente com falta de imensas coisas. Neste momento, sentimos que é importante que toda a gente tenha acesso a:
- Saúde
- Educação
- Habitação
- Alimentação
- Água
- Luz
- Gás
Incrível, não?
Enfim, O top de vendas deste Natal é o que se vê!

Se nos abstraíssemos de tudo o que tem acontecido neste país nos últimos anos e olhássemos só para esta época festiva, poderíamos concluir que este país está bem e recomenda-se.
Vemos crianças cheias de presentes caros e adultos cheios de novas tecnologias de última geração. Coisa de ricos, claro! As gentes deste país estão "cheias da massa"!

Estão? Ou passaram fome todo ano para, no Natal, se vingarem e comprarem todas as merdas que lhes deu na gana?  
Pois, não sei. E sinceramente, não quero saber. Cada um sabe o que vale a fome que passa. Se para uns vale uma Playstation, para outros pode valer simplesmente evitar passar fome. Cada um tem o direito de decidir quais as prioridades da sua vida. 
Apesar de não concordar que se comam Playstations ou Bimbies, sei que toda a gente pode comer o que quiser. (Eu cá prefiro um bom peixinho com legumes e batatas do que uma merda preta de plástico ou uma panela cheia de nada, mas isto sou eu que sou esquisitinha!)

Mudando de assunto, ou não mudando assim tanto, neste Natal notei que o meu filho, em vez de fazer a lista de presentes do costume, disse que não queria nada. Este "nada" preocupou-me. Veio-me várias vezes à cabeça "mas nada porquê? Estará preocupado com não termos dinheiro para lhe compararmos uma prenda? Sentirá que já tem tudo o que queria e agora não quer nada?" e fiquei a matutar na segunda opção... Fiquei, francamente, mais preocupada se "o nada" fosse causado pela segunda opção do que pela primeira...
Preocupar as crianças com a crise é mau, claro que é, mas elas deixarem de desejar algo especial, parece-me muito pior. Todos os desejos realizados destroem a possibilidade da construção de novos desejos, de novos objectivos. E isso é assustador numa criança de nove anos. Por isso, o alarme "mãezite" suou e resisti à tentação de lhe dar algo caro ou que poderia vir a desejar muito. 
Demos-lhe um livro e vi a desilusão assombrar-lhe o rosto. Livros, é coisa que vai recebendo durante todo o ano, não é nenhuma novidade, nem nada de especial.
Devo confessar que me custou ver aquela cara de desilusão, mas parece-me que ela lhe fará melhor do que antecipar-me a um desejo que poderá vir a sentir. 
Deste Natal até ao aniversário ou até ao próximo Natal, poderá construir novos desejos, poderá aspirar novos presentes, terá tempo para desejar e sonhar com algo especial. 
Não lhe ter dado nada de mais do que lhe vou dando durante o ano, pode ajudá-lo a fazer sobreviver o sonho e as aspirações e a ter consciência do "não ter" que é tão, ou mais, importante do que "o ter".
Espero eu.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Hoje, Que Chove e Faz Vento

Hoje, que chove e faz vento, lembrei-me de ti.
Fiquei a pensar se estarias encharcada, com a crina a baloiçar ao vento, parada na intempérie. E senti vontade de te tirar o excesso de água do pêlo e de te esfregar com palha para te secar. Abraçar-te e sentir o calor dos recantos do teu corpo ainda secos. Esconder as mãos no teu peito e acariciar o pêlo macio que lá morava.
Lembrei-me de como cheiravas bem quando molhada. E senti saudades da preocupação de te saber bem. Estranha, esta coisa de sentir saudades da preocupação...

Hoje, que chove e faz vento, lembrei-me que estou aqui depois de ti.
Depois de ti é coisa que não queria. Depois de ti não há.

Hoje, que chove e faz vento, lembrei-me que estou aqui contigo. Sempre.


Parece Que Se Diz Por Aí Qualquer Coisa Como...

Imagem roubada, também, por aí

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Aquilo Que Não Sai

Apetecia-me dizer coisas. Escrever coisas. Escrever, escrever, escrever. Mas as coisas não me saem. Parece que se trancaram cá dentro e não saem. 
Vou enchendo e preciso de explodir. Como um balão que cresce com o ar. Estou um balão de coisas para dizer. Mas no silêncio. O silêncio é o meu ar, agora. E enche-me. Enche-me inteira.
Queria a minha vida em palavras. Palavras belas e feias. E belas e feias. Palavras sem fim. Escrever cada letra e formar palavras, e frases, e textos, e contos, e livros. Livros cheios de ar. Do ar das palavras que o vento não leva. Palavras que ficam. Belas e feias. E lê-las. E não gostar delas. E amá-las. E escrever outras.
Queria um mundo de letras. E mergulhar nas palavras dos livros. Viver em livros e histórias. E em pensamentos de papel. Recortar ideias e sonhos e colá-los no papel. Assim, nesta forma que se lê.
Mas essas coisas não me saem. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Lençóis de Flanela

Cá em casa, desde que aderimos aos lençóis pretos que não tínhamos lençóis de flanela na cama. 
No fim-de-semana passado, pensei "que se lixe a cama bonita, quero é uma cama quentinha!". Fui buscar os velhinhos lençóis de flanela à gaveta e, com eles, tornámos a cama um lugar bem mais agradável.
Hoje de manhã, o J., que não conhecia estes lençóis (vejam lá, há quantos anos ando a deitar-me numa cama gelada!), quando veio para a nossa cama, ficou fascinado e não se queria levantar nem por nada deste mundo. "Mãe, não quero sair daqui! Está-se tão bem..."

Há bocado, quando o fui deitar, disse-me:
- Eu queria era ir dormir para a vossa cama...
- Pois, mas não pode ser. Cada um dorme na sua cama!
- Então, quero uns lençóis como os vossos. Uns assim, tãããããão quentiiiinhos. Onde os arranjaste?
- Oh, já são velhinhos! - respondi, a pensar que o meu filho, de nove anos, ainda não conhecia lençóis de flanela. Que falha desgraçada! Coitada da criança, tantos anos sem conhecer o prazer de se deitar numa cama que não está gelada...
- Arranjem uns desses para a minha caminha, arranjam? Onde se compram?
- Numa loja que venda lençóis. Sim, vamos arranjar. Queres como prenda de Natal? - perguntei para ver se finalmente me dizia o que queria que lhe déssemos no Natal.
- Pode ser... - respondeu simplesmente.

Quando o J. era pequenino, o pediatra aconselhou-nos a não lhe pormos lençóis de flanela na cama por causa das infecções respiratórias que sofria semana sim, semana sim, durante todo o inverno. Por isso, nunca comprámos lençóis destes para a cama dele e também deixámos de os pôr na nossa. Mais tarde, vieram os lençóis pretos a condizer com as capas de edredão e os velhinhos, de flanela, acabaram por ficar esquecidos na gaveta. Até ao fim-de-semana passado...

Esta noite, quando me despedi do J., ainda me disse:
- Amanhã, vou acordar mais cedo para ir para a vossa cama e dormir um bocadinho nos lençóis de naftalina!
- Naftalina?
- Sim. Ou lá como se chamam os lençóis quentinhos...
- Flanela!
- Pois... É isso!

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Exercícios Mentais Versus Gordura Intelectual II

Pronto! Estou mesmo gordurosa! Agora o miúdo, já não contente em dizer as palavras ao contrário, em fazer contas com as vogais e em inventar frases a partir das vogais de uma palavra, resolveu formar novas palavras a partir da ordenação alfabética das letras de uma qualquer palavra.
Confusos? Também eu!

Hoje, veio-me com esta novidade:
- Mãe, diz-me uma palavra qualquer!
- Hipopótamo!
- Vou dizer "hipopótamo" por ordem alfabética das letras!
- Como?
- Ahimopt!
- Hã?
- Ahimopt!
- Mas faltam letras aí, não faltam? Escreve lá!
Escreveu. 

Esta tontinha ainda foi à procura dos neurónios há já muito esquecidos numa qualquer prateleira por debaixo da cabeleira loira para a ajudarem, mas, ou eles já morreram, ou estavam mesmo enferrujados...

- Vês, as letras estão por ordem alfabética!
- Hum?
- Mas falta um "pê" e dois "ós"!
- Sim, mas eu não repito as mesmas letras! Senão ficava "ahimooppt"!
- Hum...
- Diz outra!
- Helicóptero!
Dois segundos depois:
- Cehiloprt!
- Hum? Espera, tenho que escrever. 
- Está bem, não está?
- Espera... Hum... Está! 
(Cara de estúpida).
- Diz outra!
- Televisão!
Um segundo e meio depois:
- Aeilostv!
- Porra! Onde é que tu aprendeste a fazer isso?
- Oh, faço isto muitas vezes! Até quando estou a jogar basquetebol!
- A jogar basquetebol?!
- Sim, as pessoas dizem coisas e eu, na minha cabeça, faço estas palavras.
- Ah! É tipo um exercício mental que fazes só para ti?
- Sim! Diz outra!
- Carro!
- Oh, essa é fácil! Acor! 
Vira-se para o pai que estava a estender a roupa:
- Pai, diz lá uma palavra!
- Estomatologista! - diz o pai.
- Aegilmost! 
Ficámos a olhar-nos com cara de parvos, enquanto ele continuava.
- Até sei "inconstitucionalissimamente"!
- Sabes?!

Lá disse, mas nem fui conferir. 

Como eu já estava com a cabeça feita num oito e não escrevi, não vou conseguir reproduzi-la aqui. Desculpem, ok? Amanhã, pergunto-lhe e depois digo-vos.

Agora, vou ali acordar uns neurónios adormecidos e pôr-lhes uns alteres em cima. Amanhã, ou daqui a uns meses, talvez já consiga dizer "carro" por ordem alfabética em quinze minutos.
A ver, vamos!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Amiguinhas dos Animais

Esplanada do Centro Comercial Vasco da Gama. Gaivotas a atacar tabuleiros com restos de comida. Duas amiguinhas dos animais tiram o miolo de pães que trazem dentro de um saco. Dão o miolo fofinho e arranjadinho às coitadinhas das gaivotas esfomeadas que só têm um rio imenso cheio de peixe do outro lado da rua, onde podem pescar comidinha. São tão amiguinhas dos animais que dão pão aos que não têm pão, cereais, ou alimentos processados na dieta original. São tão amiguinhas dos animais que os tratam como se fossem humanos. Tal e qual aqueles amiguinhos dos animais que tosquiam os seus cães no inverno porque largam muito pêlo pela casa e que, depois, lhes vestem uns casaquinhos muito lindinhos para não terem frio. Tão amiguinhas dos animais quanto os que mandam vir huskies siberianos - porque é moda ter um husky - para um país quente como o nosso. Tão amiguinhas dos animais quanto os que limpam o rabo dos cães com toalhetes perfumados para não cheirarem mal. Ou os que prendem animais selvagens em jaulas de dois por dois para os "protegerem".

Amizade estranha esta em se transformam os amigos noutra coisa que não aquilo que são, em que se os moldam às necessidades, gostos e caprichos que não são deles, mas nossos.
Amiguinhas destas, nem as da onça!

Imagem DAQUI

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O Que Desejamos Para os Nossos Filhos?

Assim de repente, sem pensar duas vezes, diria "que sejam felizes!". 
Depois olho em volta e não vejo isso nas acções da maior parte dos pais. Não nas de todos, claro, mas nas da maior parte. Olho-os, oiço-os e vem-me à cabeça a palavra "sucesso" em vez de "felicidade". Sucesso nos estudos, no desporto, nas finanças, nas atitudes, nos comportamentos, na vida. Vejo-os gastar tempo e dinheiro, muito dinheiro por vezes, em mil e uma actividades. E tempo a dividir-se em muitos para conseguirem levar os filhos a essas mesmas actividades. Exigem que eles sejam bons em tudo o que fazem. E volto ao sucesso. Paro no sucesso. E fico a meditar a definição de sucesso. 
O que é isso, sucesso? O que é isso de se ser bom em tudo, de se saber fazer tudo? Ter infindáveis valências far-nos-á mais felizes? Ser bom far-nos-á mais felizes? 
E desta vez, olho e oiço os filhos, e não me parecem felizes. Resignados, talvez. Mas felizes não.
Vejo crianças como pequenos adultos, cheias de stress para conseguirem dividir a atenção pelas mil e uma actividades que frequentam. Vejo crianças com dificuldades em interessarem-se pela música, o desporto, a catequese, os escuteiros, o karaté, a escola. Vejo crianças que no fundo, no fundo, só querem uma horinha livre para enfiarem a cabeça numa playstation e esquecerem tudo o resto. Vejo poucas crianças brincar. A capacidade de imaginar, de fingir, de inventar está a fugir-lhes. A capacidade de serem crianças está a fugir-lhes. Tento imaginá-las adultas e não consigo ver diferenças daquilo que são hoje, em crianças. 
E uma vez mais, volto ao "sucesso". Será o sucesso sinónimo de felicidade? Tento rever mentalmente pessoas "bem-sucedidas" na vida, por exemplo, profissional, e noto-lhes infâncias bem diferentes daquelas que impingimos aos nossos filhos. Geralmente, foram crianças com uma aptidão que se foi acentuando ao longo dos anos. Foram pessoas que, através de uma grande força de vontade e resiliência, levaram uma paixão ao estatuto de profissão. Não digo com isto que às quais foi dado um mundo de instrução desde tenra idade não chegaram a uma situação de sucesso, também as há, claro que há, mas fico na dúvida se ao darmos uma imensidão de obrigações às nossas crianças, estamos a contribuir para um sucesso que as permita ser felizes. E se é esse sucesso, neste caso o profissional, que as vai tornar pessoas felizes. Fico na dúvida se não estaremos a traçar-lhes caminhos em vez lhos mostrarmos e deixarmos que sejam eles a escolher o deles; se não lhes estaremos a impor um futuro, em vez de os deixarmos amadurecer até terem capacidade para fazer as escolhas que entenderem. Fico na dúvida se o que realmente queremos para os nossos filhos é felicidade e não sucesso e se esse sucesso contribuirá, alguma vez, para que sejam felizes. 
Fico na dúvida...

domingo, 8 de dezembro de 2013

Reconhecer a Vida

- J., vamos ao cinema ver o Frozen?
- Não, mãe, eu já não gosto de desenhos animados!
- Não?
- Não, agora quero reconhecer a vida!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Parceira de PET

Há uns tempos, durante a minha cruzada oncológica, fiz várias PET - Tomografia por Emissão de Positrões.
O exame não é doloroso, no entanto foi dos que mais me custou fazer. Requeria uma longa preparação de jejum e de imobilidade que, para uma pessoa como eu, cujo mau-humor se acentua quando exposta a factores como a fome, o frio e o sono, me deixava para lá do insuportável. Durante as longas horas de preparação só me apetecia bater em toda a gente que cruzasse o meu caminho. Como não o podia fazer, tentava dormir para esquecer a fúria que me invadia.

Num destes dias de tortura, dormi durante umas sete ou oito horas numa cama de hospital até me chamarem para a sala, dita, de preparação para o exame. Já tinha uma noite de jejum em cima e estava possessa. 

Tal como podem ler na definição de PET que linquei acima, é-nos injectada uma substância radioactiva antes do exame, que nos percorre o corpo e assinala os consumos de glicose anormais das células, uma das características das células tumorais. Antes ainda desta substância radioactiva nos entrar no corpo, dão-nos um relaxante muscular para que não sejam assinalados os normais consumos de glicose da actividade muscular. Depois temos que ficar deitados, calados, imóveis e em jejum até vir o produto radioactivo, encomendado no próprio dia do exame, que demora séculos a chegar. Para que a tortura não seja completa, deixam-nos beber água e fazer xixi.

Nesse fatídico dia de extremo sofrimento, quando estava já deitada na sala de preparação, com o relaxante muscular no bucho e a desejar dormir mais um pouco para esquecer a fome, chega a minha parceira de exame. Mulher de uns cinquenta anos, de peruca na cabeça e ligada a uma qualquer ficha que não descobri onde estava. Senta-se na poltrona a meu lado, tira a peruca e diz:
- Ufa, finalmente posso tirar esta porcaria!
Posa-a no colo e começa a falar do seu percurso oncológico. Conta que fez uma data de operações, exames, quimios, radioterapia. Fala sem parar. Vou-lhe respondendo uns "hum, hum", "compreendo", "pois". 
Chega a enfermeira e diz que não podemos falar. A minha parceira cala-se um bocadinho e eu fecho os olhos na esperança que o meu sono a demova de voltar à fala. 
Dali a pouco, volta ao ataque. Fala, fala, fala. Conta tudo ao pormenor. Até que desisto de dormir e decido ficar a ouvi-la. Na verdade, não a oiço muito bem, devido à fome já ter tomado posse dos meus ouvidos, mas decido tentar estar atenta ao que me diz.

Durante a sua prosa interminável, fui-me apercebendo que aquela mulher era o maior exemplo de vivacidade que encontrei naquele local moribundo. 
Noutra situação ninguém diria que era portadora de cancro nem que já tinha passado por um infindável leque de exames e tratamentos. Estava pronta para a vida e cheia de positividade. 
Falava comigo como se nos tivéssemos encontrado no cabeleireiro e discutíssemos coscuvilhices da vida de famosos que víamos nas revistas cor-de-rosa que íamos desfolhando, enumerava os órgãos mutilados tal jogador que distribuí cartas para uma nova partida de sueca. Não havia ali um resquício da irritabilidade pela fome que também devia sentir e que, a mim, me atormentava, nem se ralava com a imobilidade ou o silêncio que nos tinham imposto. Falava da vida, da luta do cancro, dos filhos e dos netos da mesma maneira, ao mesmo tempo que ia rodando a peruca nos dedos. Não chorava, nem se queixava das atrocidades que lhe tinham feito. Sorria até. Aceitava, assim simplesmente, todo aquele processo de vida ou morte como se se tratasse de mais um contratempo que lhe foi imposto. 

Ao ouvi-la, sentia-me cada vez mais piegas por estar naquele estado, quase incontrolável, de pré-assassinato em massa. 
Eu era a menina mimada, pouco habituada a ser contrariada, e ela uma explosão de energia positiva perante as maiores adversidades. 
Fui encolhendo. Eu, mulher de um metro e oitenta, fique reduzida a meio metro, perante a grandiosidade daquela minha parceira de PET. Sentia-me, a cada palavra dela, mais pequenina e merdinhas. 
Mas, finalmente, pus o cérebro a funcionar, que deve ter registado uma actividade fora do normal na PET, e resolvi ir assimilando o ensinamento daquela mulher. Demorei algum tempo, mas consegui digerir a mensagem que, posteriormente, me deu uma postura diferente perante a doença e os tratamentos que se seguiram.

Quando me chamaram para a sala do exame, despedi-me com um sentimento de pena da possibilidade de não a voltar a ver. 
Disse-lhe apenas o costumeiro "boa tarde e as melhoras!" do IPO, mas com vontade de dizer mais qualquer coisa que acabou por não sair.

E nunca mais a vi.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Fechar os Olhos

Fechar os olhos e sentir os raios de sol que atravessam as pálpebras numa visão vermelha, quase marciana.
Inspirar a brisa que entra narinas adentro e percorre, à pressa, o caminho até ao peito. 
Encher o peito de ar e cheiros. 
Encher a alma. 
Acolher o abraço do calor sol e aconchegar a pele. 
Tentar agarrar o vento com as mãos e sentir os pêlos a dançar. 

Inebriar o corpo e o espírito.
De vida.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Voltar à Casa de Partida

Estou farta deste jogo. 
Já não quero saltar de casa em casa sem saber quando termina esta partida. Se tenho que recuar três casas,  ir ao castigo, esperar que os adversários joguem duas vezes ou avançar duas casas para depois recuar três, já não me interessa.
Estou farta deste jogo. Quero outro. 
Quero voltar à casa de partida e lançar o dado outra vez.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Abraço Vermelho e Azul

Chegou da escola com o pai. Mal entrou em casa, foi a correr para o quarto. Atirou a mochila para o chão, abeirou-se da janela e agarrou nos bonequinhos da Playmobil, com a pressa de quem tem oito anos e uma ânsia imensa de viver.
Alinhou-os, formando duas colunas: uma de guardas romanos e outra de guardas egípcios. Iniciou a batalha. De vez em quando, soltava uns “ya!”, “ai!”, “toma, toma!”, “catrapum!”. Imaginava que eram guardas de carne e osso e que se magoavam a sério, sempre que levavam uma traulitada na cabeça. Quando isso acontecia, lá vinham os enfermeiros improvisados, que não eram mais do que uns bonequinhos de outra colecção da Playmobil, a dos treinadores de cães. Sabia perfeitamente que no tempo dos romanos e dos egípcios não havia enfermeiros como os de hoje, mas não se importava, pois queria era brincar e queria enfermeiros na história dele. E uns treinadores de cães armados em enfermeiros serviam muito bem esse propósito.
Saltavam bonecos pelo ar, iam de encontro às paredes e, por fim, acabavam por se estatelarem no chão. Era esta algazarra que o fascinava, eram os saltos, cada vez mais altos, e as cambalhotas acrobáticas que o impediam de parar a brincadeira com os bonecos. Queria que eles se superassem, que, apesar das duras batalhas que travassem, fossem invencíveis.
Era capaz de ficar horas naquilo: a fazer saltar bonecos pelo ar e a socorrê-los cada vez que se magoavam.
Este parecia ser um dia de brincadeira intensa, como tantos outros...
Até que, de repente, parou a brincadeira e fitou o pôr-do-sol, através da janela. “Oh, que lindo pôr-do-sol!”, pensou. Parecia mesmo aquele que viu, naquele dia de inverno, em que foi com os pais à praia...
Ele e o pai jogavam com as raquetes, a mãe lia um livro, deitada na areia. Estava toda vestida, cheia de frio como é costume dela. Lia o livro entre espreitadelas à brincadeira dos dois. Quando via uma boa imagem deles, do sol ou do mar, pegava na máquina e fotografava. A imagem da mãe deitada na areia, atenta a tudo, e a eles, ficou gravada na sua memória como as imagens dele e do pai, do sol e do mar, nas fotografias que ela tirou naquele dia.
O sol ia descendo devagarinho. Ele e o pai já suavam de tanto correrem e saltarem para apanharem a bola e a mãe, enroladinha na toalha, esboçava-lhes um sorriso tremido pelo frio. Que mãe friorenta, aquela!
Entretanto, o sol pousou no mar, iluminando a praia em tons de vermelho, mas ele só reparou nisso, quando a mãe o chamou, apontando para aquele astro gigante no horizonte, “Filho, olha!”. Ele olhou e correu para ela. Saltou-lhe para o colo e, abraçados, viram o sol entrar no mar, ao mesmo tempo que as cores da praia mudavam dos tons de vermelho para os de azul. Aquele abraço da mãe nunca lhe iria sair da pele. Foi um abraço vermelho e azul. Não há muitos abraços vermelhos e azuis e aquele foi dos poucos que sentiu até hoje.
Engraçado, agora que pensa nisso, apercebe-se que é sempre a mãe quem o lembra das coisas maravilhosas que vivem sobre a sua cabeça. É sempre ela que repara no que está para lá do ar. Engraçado...
O sol que teimava em deitar-se, ali mesmo à sua frente, através da janela do quarto, era igualzinho ao outro da praia, que viu ao colo da mãe. Só que este ia deitar-se sobre os montes, lá longe na linha que separa o céu da terra, em vez de no mar.
- Filho! – chamou o pai.
- Sim, pai?!
- O que estás a fazer?
- Estou a brincar.
- Ok! Mais meia hora e vais fazer os trabalhos de casa, está bem?
- Está bem, pai. Mas depois a mãe tem que ver se estão bem...
- Está bem, está bem! - responde o pai.
- Mãe, vês os meus trabalhos, não vês? -  pergunta ele.
- Claro que sim, filho! – ouve-a dizer.
- Mãe, o que é o jantar?
- São almôndegas com esparguete, como tu gostas!
- Boa! Fazes sempre as minhas comidinhas preferidas, não fazes, mãe? Adoro as tuas almôndegas. As da escola são uma porcaria!
- Eh, filho, não acredito que sejam assim tão más!
- São, juro! São horríveis!
Voltou a olhar para o sol, até desaparecer por completo, até a luz que entrava pelo quarto adentro ficar azul. Como lhe saberia bem um abraço vermelho e azul, naquele momento...
- Mãe!!!! – gritou - Abraça-me! Mãeeeee!!!
- O que é? O que é que se passa? – pergunta-lhe o pai.
- Pai, estou a chamar a mãe, não é a ti! – responde, com lágrimas nos olhos.
O pai entra no quarto, senta-se ao lado dele, envolve-o nos braços com força, limpa-lhe as lágrimas e beija-o no rosto.
- Pai, eu estava a chamar a mãe, não a ti! - diz-lhe, entre soluços e com a voz a sumir-se-lhe por entre as lágrimas.
- Filho, a mãe já não está cá. – murmura o pai, com lágrimas a saltarem-lhe dos olhos.
- Está, pai! Ela fala comigo... Se ela não estivesse aqui, não falava comigo...
- Ela ficou dentro do teu coração e é a voz dele que tu ouves, sempre que pensas na mãe.
- Porque é que ela não está aqui para me abraçar, pai? - perguntou, quando a voz conseguiu passar-lhe para fora da garganta.
- Porque aquela doença malvada a levou. Mas, apesar de ela não estar aqui para te abraçar, ela está, e ficará para sempre, nesse teu coraçãozinho.
- Pai, dás-me um abraço vermelho e azul, dás?