quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Assim, do Nada...

Tenho um grave problema com datas.
Lembro-me de datas de aniversários de colegas de infância que nunca mais vi, mas não retive a data da morte do meu avô ou da minha égua. Não memorizo as datas das consultas, análises e tralhas dessas da minha mãe, ou mesmo das minhas.

Hoje, lembrei-me que a égua morreu em Agosto. Pensei "lá para o fim de Agosto". Procurei aqui no blogue pelo post em que falei sobre esse assunto e, no dia 20 de Agosto de 2012, lá estava ele. Já passou um ano. No dia 19, em que fez um ano, não me lembrei. Entretida que estava com as férias, não me lembrei que iria começá-las precisamente no dia em fazia um ano que a égua morreu.
Como tal, também não me lembro quando faz anos que o meu avô morreu. Sei que o perdi algures no mês de Junho. Lá para o meio. Sei isso porque a minha mãe sabe todas essas datas importantes e lembra-me. Se não fosse ela, nem isso sabia.

Mas apesar de não memorizar estas datas, lembro-me, várias vezes, dos meus entes queridos que partiram. Sem data marcada, lembro-me. Assim, do nada, lembro-me. Sonho com o meu avô em dias que não sei localizar no tempo e penso na égua aleatoriamente sem que, às vezes, chegue a perceber o que me fez lembrá-la.

Porém, na semana passada, lembrei-me dela. Assim, do nada, lembrei-me.

Num passeio pelo corredor dedicado a artigos de equitação da Decathlon, a imagem dela apertou-me o coração. Já não preciso de nada daquele corredor, mas é um hábito ir lá ver novidades, procurar pedras de sais ou repelentes para as moscas. Já só o faço por hábito, já não tenho necessidade de lá ir...

Desta vez, dediquei-me a apreciar os arreios. Passei as cabeçadas a pente fino e, ao tocar-lhes, senti o cheiro a cabedal, àquele cabedal que é diferente de todos os outros, o dos arreios.
Todos os cavalos cheiram um bocadinho ao cabedal das cabeçadas e as cabeçadas também ganham o cheiro dos cavalos. São cheiros que se completam. Pertencem um ao outro. Não há cabeçada que se preze que não cheire um bocadinho a cavalo, nem cavalo que não cheire um bocadinho a cabedal. Sem um o outro quase não existe ou está incompleto.
Aquelas cabeçadas ainda não cheiravam a cavalo, não podiam, pois ainda não tinham tocado em nenhum.

Eu, que sou mulher de cheiros, ao inalar a fragrância do cabedal (sim, para mim é fragrância), mesmo sem cavalo, consegui sentir o cheiro a cavalo, mais precisamente o cheiro da minha égua.

Há algo em mim, que renasce através dos cheiros, especialmente do cheiro a cavalo. Pode parecer loucura, mas não é. Talvez só seja entendida por quem trabalha ou trabalhou com cavalos... O odor dos cavalos entranha-se-nos. Passa a pertencer-nos também. Sentimo-nos como a personagem do livro O Perfume que possui os cheiros que inala, mas sem termos que matar o dono do odor.
Todos os cavalos cheiram diferente. Como as pessoas. E naquele dia, foi o cheiro a Heguita que me veio ao nariz. E as lágrimas escorreram-me cara abaixo. Assim, do nada. O J., que estava comigo, preocupou-se e perguntou "mãe, estás a chorar? Que se passa? Estás com saudades da Heguita?". Tentei parar as lágrimas, mas escorriam sem que lhes desse permissão. Escorriam assim, do nada.
A minha cabeça era um turbilhão de imagens que me saltavam diante dos olhos. Passeios a cavalo que fizemos juntas, cólicas sofridas em conjunto, a queda dela na vala da qual foi salva pelos bombeiros, noites em que fiquei dentro da boxe a abraçá-la, banhos que lhe dei, feridas que lhe tratei, e a morte dela, o momento em que fechou os olhos para nunca mais os abrir. E assim, do nada, nunca mais os abriu.

A Propósito dos Bombeiros Voluntários...

Não venho para aqui lamentar a morte dos bombeiros. É claro que lamento, mas não acho que os meus lamentos cheguem a algum lado. Por isso, venho revoltar-me contra a morte dos bombeiros. Venho indignar-me com a dependência que temos em relação a uma das opções de vida mais nobres que conheço, a de ser bombeiro voluntário.

Sou contra o voluntariado! Acho a decisão de ser voluntário de uma nobreza imensa, mas sou contra o voluntariado. Especialmente, sou contra instituições viverem e dependerem do voluntariado. Ajuda humanitária, bombeiros, apoio social e causas idênticas mereciam profissionalização e, essencialmente, salários à altura da nobreza das causas. As causas não perderiam notabilidade se fossem devidamente pagas. Os bombeiros ou quaisquer outros voluntários não perderiam qualidade se fossem assalariados, bem assalariados. Antes, ganhariam qualidade. Teriam mais meios e condições para exercerem as suas funções e seriam merecidamente retribuídos por elas.

E nós, simples mortais, não dependeríamos de vidas oferecidas a governos que se demitem das funções humanitárias mais valiosas que existem. Não teríamos um Presidente da República que de vez em quando aparece a dizer umas palavrinhas simpáticas aos familiares e amigos dos bombeiros que arderam para salvar as nossas florestas e o nosso povo. 
Teríamos um Presidente da República e um governo verdadeiramente envolvidos no combate aos fogos, porque este seria da sua inteira responsabilidade. E teríamos, um governo que investiria na prevenção dos fogos, em vez de servir interesses de terceiros ao deixar arder florestas inteiras, que forneceria meios técnicos e humanos às corporações de bombeiros, em vez de estas serem inteiramente dependentes de peditórios e caridade alheia, teríamos as pessoas que dão a vida para apagarem fogos merecidamente retribuídas pela luta incansável que travam.
E estas mortes, apesar de não deixarem de ser profundamente penosas e injustas, seriam em menos quantidade e, talvez, um pouco menos revoltantes.

Foto DAQUI

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

"Fostes"

Pai a ouvir este fado no Youtube.
J.- Pai, põe lá essa música do princípio outra vez!
Pai - Porquê?
J.- Põe, põe lá outra vez... Do princípio.
O pai reinicia a música.
J.- Ela disse "fostes"! Ela disse "fostes"!

Mãe na casa-de-banho a fazer "algo" que ninguém pode fazer por ela.
J.- Mãe, no fado que o pai está a ouvir a senhora disse "fostes"! Oh sim, um português muito bem "dizido". Até fiquei de boca "abrida"! Deu-me uma dor no "pescanhoço" e fome no "estôgamo"! Ah ah ah ah!
Mãe - Deu-te isso tudo?
J.- Claro! Com este português tão bem "dizido"...


Não sei se este "fostes" não será a conjugação da segunda pessoa do plural (vós) no pretérito perfeito do verbo "ser"... 
Já ouvi a música várias vezes para tentar descobrir qual é o sujeito da frase. Parece-me ser "o fado", que no resto da cantiga é tratado por "tu", segunda pessoa do singular, mas fiquei na dúvida. 

Mas há que admitir que o miúdo tem ouvido para as calinadas na língua. Não lhe escapou o "fostes", mesmo um assim tão "de fugida"!

sábado, 24 de agosto de 2013

Cabelo Azul e Mãe-Máquina-Destruidora

Em conversa pré-sono.

-Amanhã, vou pintar o cabelo!
-Eu vou contigo!
-Também queres ir pintar o cabelo?
-Ah ah ah! Sim!
-Vais pintar de que cor? Azul?
-Pode ser... O que é mais barato, pintar o cabelo todo ou madeixas?
-Pintar o cabelo todo. As madeixas são muito caras.
-Então vou pintar de azul com aquelas tintas que não fazem mal... 
-Champô-colorante?
-Sim, isso.
-Não vais, não!
-Porquê?
-Porque eu não deixo. Não tens idade para pintar o cabelo, nem com champô colorante... Pintar o cabelo faz mal, especialmente às crianças.
-Vês, tu és mesmo uma máquina-destruidora!
-Sou?
-Sim, és muito protectora. 
-Achas?
-Sim. Não deixas que aconteça nada de mal a ninguém.
-A ninguém não, só a ti.
-Não, não é só a mim. Lá no Badoca também protegeste aquela menina daquela senhora.
-Qual menina?
-A menina francesa... Quando aquela senhora pôs os filhos à nossa frente... És uma máquina destruidora!
-Mas porquê destruidora?
-Porque levas tudo à frente para protegeres.
-Ah, ok!

Como Podemos Ter Crianças Bem-Educadas Se Temos Adultos Tão Mal-Educados?

Badoca Safari Park...

Má-Educação Nº 1 e 2
Antes de entrarmos no tractor-comboio que nos leva a observar animais em estado pseudo-selvagem, temos vários avisos, um deles é que não se pode comer durante a viagem. Entramos no tractor-comboio, o guia avisa a tripulação das várias normas de segurança e, quando paramos a primeira vez, vai a mãe da família que segue atrás de nós, saca da caixinha das bolachinhas e toca a distribuir bolachinhas pela pequenada que guincha como se não houvesse amanhã.

Má-Educação Nº 3
A cada paragem do dito tractor-comboio, o guia explica-nos as características de cada animal que avistamos. Os rebentos da mesma família gritam de histerismo. Os pais dos rebentos riem da gritaria. O guia não se ouve.

Má-Educação Nº 4
Um dos ditos rebentos guinchadores e comedores de bolachinhas quer ver hienas. A mãe do rebento aponta um gnu e identifica-o como uma hiena, depois de chamar gato a um tigre de bengala. Bchi, bchi, bchi, anda cá gatinho!

Má-Educação Nº 5
No Badoca há uma girafa feita de madeira para as crianças subirem e brincarem por ela adentro.
Uma menina francesa e o J. esperam que outras crianças desçam para eles subirem. 
Chega uma mãe com dois rebentos minúsculos para uma subida tão grande e perigosa e atira os rebentos para dentro da girafa à frente das crianças que esperam pacientemente a sua vez. Escusado será dizer, que os rebentos minúsculos tremeram só de pensar em descer de tão alto brinquedo e que aqui a chata se passou da cabeça e avisou a mãe dos rebentos que atirar rebentos minúsculos à frente das crianças que esperam a sua vez não é coisa bonita de se fazer.
A mãe ficou ofendida e teve que ser socorrida pelo pai da criança francesa para conseguir recuperar os seus rebentos de dentro da girafa. (Há tareias que não precisam de mãos, ah pois há!)
No final, ralhou com seus minúsculos porque quiseram subir à girafa. (Há gente, que por muita tareia que leve, não aprende, ah pois há!)

Como podemos ter crianças bem-educadas se temos adultos tão mal-educados?
Hã?

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Extremamente Rasca

Hora de almoço. Desço a rua em direcção ao Centro Comercial onde geralmente almoço. Passo pelos sem-abrigo já meus conhecidos. Já não são três, são cinco ou seis. Estão reunidos em volta dos pertences que lhes sobram. Talvez tomem conta deles para que não desapareçam como tudo o resto que já lhes desapareceu...

Chego ao Centro Comercial e dirijo-me a uma qualquer cadeia de fast-food. Há imensa gente. Vejo-me rodeada de estrangeiros. Pedem comida em línguas diferentes. Uns tentam falar português. O empregado não percebe o que dizem, mas finge que entende qualquer coisa. Repetem, agora em inglês. O empregado articula um inglês macarrónico na resposta. Finalmente, acertam no menu. Pedem comida que poderiam comer em qualquer canto do mundo. Desta vez, vêm comê-la a Portugal. Usam notas altas para pagar. Vão, satisfeitos de tabuleiro na mão, procurar um lugar onde saborear a comida internacionalmente rasca. Vão contentes e não seguros, tal Leonor vai à fonte descalça. Não sabem, mas os seus pés também vão nus. Vão nus até às almas. Mas vão contentes...

Sou atendida e procuro o meu canto para repastar um lixo idêntico ao dos estrangeiros. Também eu descalça, mas segura. Segura de que preferiria estar no lugar deles, de alma nua, a comer comida internacionalmente rasca noutro qualquer país do mundo. 
Encontro-o a custo e sento-me para almoçar sem especial prazer. Observo a azáfama da multidão numa constante troca de cadeiras. 
Pouso os olhos na senhora que procura restos de comida nos tabuleiros abandonados. Já a conheço, como aos sem-abrigo. Encontra um copo meio-cheio. Leva-o consigo e continua à caça de algo que lhe encha o estômago.
Enquanto como, sou abordada por uma outra senhora com um carrinho de bebé, que me pede dinheiro. Respondo-lhe que não tenho e continuo a comer o meu lixo refinado. Sigo-a com o olhar. Pede dinheiro a mais gente que a despreza. Tal como eu. Tal como eu...

Acabo a refeição e sigo para fora daquele antro de incoerências.
Deixei o tabuleiro na mesa para a senhora dos restos. Que bondade, nacionalmente rasca, possuo!

Pelo caminho, quase sou abalroada por centenas de jovens que carregam mochilas, tendas, lancheiras, chapéus com nomes de bebidas, peles morenas e olhos ressacados. Trocaram, numa herdade do sudoeste alentejano, as centenas de euros que os pais lhes deram por alucinações, e ilusões, que lhes enchem as algibeiras. Vêm de rastos, mas seguros de que gastar os últimos trocos em comida internacionalmente rasca é fixe.

Finalmente, abandono o antro. 

Volto a cruzar-me com os sem-abrigo que já conheço. Conto-lhes os carrinhos de supermercado. Já são oito...
Continuo a caminhar. Vou de rastos, descalça, mas segura. 

Segura de que este é um mundo... 

...EXTREMAMENTE RASCA.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Parabéns ao Blogue!

Este blogue fez dois anos, no sábado passado, mas, para variar, esqueci-me. 
Bad girl, bad bad girl!

Parabéns atrasados a ele e a mim (que sou uma atrasada nestas coisas, e noutras...).

Imagem da Net


Dêem-me a Vossa Opinião, Por Favor!

Ando a experimentar o Blog do Sapo e gostava que me dissessem o que acham do visual deste blogue por lá: 

Se sentem que já não é o mesmo ou se está ainda melhor (ah ah ah, como se isso fosse possível!); se se identificam mais com o azul cueca de lá ou com o vermelho sangue de cá; se gostam mais do Sapo, porque, sei lá, vos apetece, ou do Blogger, pela mesmíssima razão, etc., etc., etc...

Cliquem AQUI, please! Vejam bem todos os cantos e recantos, com olho clínico e, chutem opiniões p'ráí!

Merci! Thanks! Danke! Obrigadô!

Plantossoas ou Pessolantas

Em conversa pré-sono.

- Mãe, quando vi aquele cordão umbilical na Pais & Filhos, pareceu-me um polvo.
- Oh não, é tipo um saquinho com muitos fios lá dentro que são as veias e que levam os nutrientes ao bebé.
- Através do sangue?
- Sim, é o sangue que leva os nutrientes ao bebé quando está na barriga da mãe. É incrível esta história da vida, não é? Como pessoas dão origem a outras pessoas.
- Sim, é um bocado estranho!
- Pois é. Duas pessoas fazem outra pessoa dentro de uma delas.
- Felizmente, eu nunca vou ter uma pessoa dentro de mim!
- Felizmente??? É bom ter uma pessoa a crescer dentro de nós! Mas vais dar uma sementinha para a pessoa crescer dentro de outra pessoa!
- Sim, pois vou... Mas qualquer dia, isso vai acabar!
- Vai?
- Sim, vão-se criar pessoas através das plantas!
- Das plantas?! Então porquê?
- Porque isto vai tudo mudar! As pessoas vão-se juntar com as plantas e formar outras pessoas!
- Ah ah ah! Plantossoas?
- Sim, ou pessolantas! Ah ah ah!
- As pessolantas verdes e com braços vão trabalhar, mas à hora de almoço saem para a rua e põem o pezinho enfiado na terra para almoçarem, é isso?
- Ah ah ah ah! É! E ao jantar também!
- Sim, vai a família toda. E o pai diz à mãe "olha, rega aí o miúdo que ele anda com pouco apetite! Assim, fica mais bem alimentadinho!".
- Ah ah ah ah! Ó mãe, tu és mesmo maluca! Ah ah ah! E depois... depois o filho quer terra em forma de hambúrguer, ou de batatas, ou de sementes de sésamo...
- Sementes de sésamo?! Mas as pessolantas não podem comer sementes de sésamo, senão estão a ser canibais.
- Oh, pois é! E se fosse uma melancia do tamanho de uma pessoa?
- Oh, aí até eu a comia!
- Comias, não comias, mãe?
- Comia pois! Todinha!
- Sem pevides, nem nada....
- Oh, melhor ainda! Que delícia!
- Mas não a conseguias comer toda de uma vez...
- Pois não, mas ia comendo devagar. Todos os dias comia um bocadinho. Podes ficar descansado que não se estragava! Especialmente, aquela parte do meio, o coração da melancia!
- E o esófago?
- O esófago?! Mas as melancias não têm esófago!
- Pois não, mas esta podia ter... Ou então comias o meio... E eu comia a parte branca, que é a que mais gosto.
- Comias a casca?
- Sim, já comi casca de banana, de melão, de meloa e agora falta-me a de melancia.
- E gostas?
- Gosto!
- Óptimo! Porque eu gosto mais do meio, é mais docinho. Tínhamos a melancia bem dividida e sem discussões!
- Eh eh eh eh! Pois era!

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A Força e a Coragem do Cancro

Quando se fala de e para doentes oncológicos sobreviventes, muitas vezes ouvimos as palavras "força" e "coragem":
"Ai que ela deve ter uma força incrível para aguentar isso tudo!"; "Ele é um homem de coragem para vencer o cancro!"; "É preciso muita força!"; "Só uma mulher de coragem e cheia de força poderia estar aqui tão bem quanto ela está, depois de tudo por que passou!"

TRETAS!

Primeiro que tudo, o cancro não se vence. O cancro, por quem passa, deixa uma espada sobre a cabeça prestes a cair. Ela estará sempre lá, por mais que a tentemos esquecer. E pode cair a qualquer momento. A espada do cancro vai-nos espicaçando um pouco todos os dias para que nos lembremos que a nossa finitude é iminente. Até à data, curar um cancro é uma utopia. Vencer o cancro é outra ainda maior.

Para sobreviver ao cancro não é preciso força nenhuma, nem coragem. É preciso ter essencialmente sorte e bons médicos. E é preciso acreditar que nos vamos tratar, é ter vontade de viver e pôr essa vontade à prova. É deixar os nossos instintos de sobrevivência falarem mais alto do que tudo o resto. Mas força? Coragem? Não!
O doente oncológico vai ao fundo como todas as outras pessoas, só que, geralmente, vai um bocadinho mais fundo. Vê a vida por um fio, vê o corpo degradar-se, faz retrospectivas da vida mais amiúde e escolhe um caminho: deixar-se ir ou levantar-se. E há sempre os que se deixam ir, e que depois se levantam. E há sempre os que não se levantam, mas sobrevivem. E há os que vivem levantados e morrem.

Não há força nem coragem, há instinto de sobrevivência, sorte e bons médicos!

domingo, 11 de agosto de 2013

Cogumelos Chineses

Como já devem ter reparado, não sou racista, nem xenófoba, mas há uma coisa que me tem estado a fazer "espécie": A quantidade de lojas de comerciantes chineses, que brotam tal cogumelos, por este Portugal fora e, mais especificamente, na minha terra!

Não tenho nada contra chineses, nada mesmo. Nem falaria aqui sobre o facto de serem chineses, se estes não usufruíssem de condições diferentes das dos portugueses no que toca a abrir lojas. 
A verdade é que os comerciantes chineses têm condições com as quais os comerciantes portugueses não conseguem competir. Pelo que andei para aqui a investigar na Net, que vale o que vale, o governo chinês paga o aluguer do estabelecimento aos seus conterrâneos que se mantenham em terras lusas durante os primeiros cinco anos. A somar a esta maravilhosa condição a quem pretende abrir um estabelecimento comercial (também através da mesma fonte de informação) estes estabelecimentos não estão completamente licenciados, licenciam-se apenas numa das áreas de negócio e exercem várias. Por fim, os artigos que comercializam são na sua maioria provenientes da China, onde a mão-de-obra é muito mais barata e, consequentemente, os artigos têm uma margem de lucro maior.
Tudo isto serve para dizer que me entristece ver, na minha terra, porta sim, porta sim, uma loja de artigos chineses e, simultaneamente, ver desaparecer um estabelecimento de comércio português por dia. 
(Esta terra parece uma cidade fantasma. Está praticamente tudo fechado, com uma tabuleta a dizer "vende-se" ou "aluga-se". As únicas lojas que abrem são lojas de chineses, ora de artigos vários, ora restaurantes supostamente japoneses, ora frutarias.)

Sinto-me numa China, mas não numa China genuína, numa China falsa que tenta adaptar-se, sem sucesso, à cultura europeia. Parece que a nossa identidade está a ser engolida por artigos chineses e que passou a ter a etiqueta "Made in China". E isto, porque há uma concorrência desleal, que injustiça não os estrangeiros como é costume (um mau costume por sinal), mas os nacionais, o que nos torna, além de injustiçados, PARVOS.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O Princípio do Fim da Escola Pública

ESTA NOTÍCIA vem acentuar as minhas suspeitas de que a escola pública está perto do fim.

Depois da venda da EDP, da ANA, a futura venda dos CTT, e da acelerada degradação do SNS, a escola pública está a caminhar para o abismo.
O país vai fechar as portas depois de lhe pendurarem uma tabuleta a dizer "LIQUIDAÇÃO TOTAL".
O cheque-ensino, com que tantos vão delirar só de imaginarem os seus rebentos fardados a entrarem no colégio XPTO ao lado do filho da personalidade X ou Y, que chega à escola de Porsche e veste Prada aos fins-de-semana, veio para desmantelar o ensino público. Dar às famílias a possibilidade de escolha da escola que os filhos vão frequentar, dentro da rede das escolas privadas, em vez de ser dentro de uma rede, mais vasta e melhorada, das escolas públicas, é assinar o atestado de óbito (antes mesmo de ser redigido o boletim de nascimento) a uma educação pública de qualidade.
Tornar a educação num negócio é tão mau quanto tornar a saúde num negócio.
Este governo está a conseguir fazer as duas coisas em simultâneo.
Como quem não quer a coisa, atirando areia para os olhos do Tuga Otariadex ou dando-lhe um rebuçado envenenado, este governo vai iludindo um povo sedento de grandezas e com aspirações bem maiores do que os salários, de que um dia vai ser tão rico e famoso quanto um Cristiano Ronaldo ou um Mourinho.

Se não começarmos JÁ a reparar que há mais umbigos para além do nosso, vamos enterrar-nos a todos. E não é num jazigo de família ao lado do da família "X de Y e Z", é numa vala comum.

Imagem DAQUI

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Tugalândia

Era uma vez um país distante situado num cantinho remoto da Europa. Tão distante que a maior parte dos americanos e uma grande parte dos europeus pensava que fazia parte da Espanholândia. Ao contrário do que estes povos pensavam, este país tinha um nome: Tugalândia. 
Neste país pequenino e rodeado por mar por todos os lados menos por um, viviam os Tugas, um povo pequenino de mentalidade, mas grande de aspirações.
Os Tugas estavam divididos em dois grandes grupos: o dos Espertalhex e o dos Otariadex. Mas havia ainda um minúsculo grupo de seu nome Interessadex.
Os Interessadex não tinham grande expressão, como grupo pequenino que eram, ninguém os ouvia. Podiam falar, falar e falar, que o que diziam só era ouvido pelos restantes membros do mesmo grupo. Os Espertalhex diziam que eles só tinham ideias utópicas, que viviam num mundo à parte e que não se conseguiam conectar com a realidade, etc., etc... Os Otariadex viviam fascinados com os Espertalhex e acreditavam em tudo os que estes lhes diziam. Não formulavam opiniões sem que os Espertalhex o permitissem, por isso nem reparavam que para além deles e dos Espertalhex, havia mais um grupinho que habitava aquele país.
Aos grandes grupos vigentes da Tugalândia separavam-nos a matreirice e o poder de oratória. Os Tugas Otariadex não eram matreiros, apenas tentavam ser para imitarem os Espertalhex e o seu poder de oratória era praticamente nulo.
Já os Espertalhex sabiam falar e falavam bem alto. E do alto. Quanto à matreirice, qualquer membro deste grupo, faria corar de vergonha as raposas das histórias infantis. 
Uma das técnicas mais apreciadas deles para aliciar os Otariadex era com doces. Sim, doces! Os Espertalhex sabiam que os Otariadex eram muito gulosos, por isso cada um deles tinha uma arca cheia de doces à porta de casa, que iam enchendo, enchendo, enchendo, até a arca jorrar doces à sua volta.  
Quando os Otariadex por ali passavam, atarefados para apanharem o autocarro que os levaria ao trabalho mal pago que os Espertalhex lhes tinham posto à disposição, olhavam os doces com desejo fervoroso. Alguns chegavam mesmo a salivar de um prazer imaginário, tal cão de Pavlov que ainda não provou o doce mas já sonhou com ele. Os Tugas Espertalhex, tal Pavlovs dos doces, iam experimentando uma campainha, que soavam em forma de palavras por eles proferidas, a cada Tuga Otariadex que passava à sua porta.

Os dias foram passando e os Tugas Otariadex salivando. 
Até que um dia, começaram a achar que os Espertalhex nunca mais se decidiam a dar-lhes um doce. Começaram a ficar aborrecidos e a rosnar um bocadinho enquanto salivavam, mas baixinho para que não os ouvissem muito bem.
Os Tugas Espertalhex, que de parvos não tinham nada, toparam aqueles rosnos e para que os Otariadex não os chateassem muito e não os impedissem de amealhar mais doces, resolveram, ao som campainha, dar um doce a cada Tuga Otariadex. 
Mal ouviram a campainha, os Tugas Otariadex logo se juntaram à porta das casas dos Espertalhex. Vinham de todos os lados. Eram autocarros, comboios, carros, e até mesmo bicicletas, cheios de Otariadex. Saltavam dos transportes e atropelavam-se para ver quem chegava primeiro. 
Neste grupo de Tugas havia sempre um ou outro que tinha veia Espertalhex e que, ora sacava de um embrulhinho a imitar os doces para aliciar os restantes e direccioná-los numa outra qualquer direcção que não a dos doces verdadeiros, ora sacava de uma faca de cozinha e desatava a esfaquear os gulosos adversários. 
Esta guerra entre Otariadex durou mais do que uma semana e foram morrendo alguns até que o primeiro pudesse sequer cheirar os doces.
Os Espetalhex, que faziam corar as raposas das histórias infantis em matreirice, apreciavam deliciados lá do alto das suas janelas, a bulha dos outros Tugas. E só quando o número de Otariadex ficou bem mais reduzido, é que lançaram o primeiro doce. 
Naquele momento, em que o doce voou até pousar na mão de um qualquer Otariadex em compulsão salivar, só se viam Tugas a amarfanharem-se. Era uma visão tenebrosa, mas os Espertalhex rejubilavam. 
Mal os Tugas sobreviventes puderam finalmente provar os doces, sossegaram, mas sossegaram tanto, que quem estivesse de fora juraria tinham morrido.

Na verdade, os Otariadex morreram mesmo, mas apesar de estarem mortos, ainda continuam a ter a ilusão de que estão vivos.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Revoluções...

O J. doente e deitado na cama. Eu deitada com a cabeça ao lado da barriga dele.
- A tua barriga está a fazer imenso barulho!
- Está? Não oiço.
- Está! Está a haver uma revolução aí dentro!
- Ah, já estou a ouvir. Estão a cantar a "Grândola" dentro da minha barriga... É o estômago que está a fazer uma revolução contra os vomitados.
- Ai sim?
- Sim. Ele está a cantar "Grândola, veias moreeeenas. Corpo da fraternidaade. Os glóbulos brancos são quem mais ordeeeenam, dentro de ti, ó meu cooorpo!"
- Ah ah ah ah!
- As veias são a cidade, as artérias são as vilas e os capilares são aldeias.
- E os glóbulos brancos são o quê?
- São as tropas.
- Humm, sim, é uma boa!

Na saúde e na doença não falte nunca o sentido de humor!

quinta-feira, 1 de agosto de 2013